Monday, May 13, 2013

1977 - Dona Xepa e uma enchente de novelas

Jornal do Brasil
25/7/1977
Maria Helena Dutra
A EPIDEMIA DAS TELENOVELAS
Títulos em profusão, idéias nem tanto

Oito horas e 30 minutos diários da televisão carioca são preenchidos por telenovelas. Aos sábados, a dose diminui para "apenas" seis horas. Só há folga aos domingos. Contando as reprises, nada menos de 13 produções do gênero estão sendo atualmente apresentadas e, mesmo sendo o número aziago, nada parece indicar alteração nesses dados para o futuro. Isso porque se instalou nos hábitos televisivos de todos um circulo de difícil quebra: o público vê novela porque é o gênero mais bem-feito na tevê e os responsáveis pelo veículo cada vez mais lhe dão atenção e recursos porque se tornou mesmo uma preferência nacional.

É também evidente que esse fluxo apenas acontece com tal exatidão, nos dias de hoje, na Rede Globo. Apesar de ser um produto de custos sempre altos, a telenovela é profundamente rentável em todos os horários. Há nada menos de sete nessa estação, pelos delírios de audiência que provocam. Uni anúncio colocado nos intervalos, ou mesmo desonestamente no cenário da história, é realmente visto e se torna profundamente eficaz. Esse banquete de nababos acontece somente, é claro, num canal de platéia cativa que montou toda sua estrutura de captação de público em torno das histórias em capítulos e trata esmeradamente seus autores, elenco, cenários e figurinos. De olho grande nesses padrões famosos, seus concorrentes juntam as migalhas que possuem e tentam fazer igual. Os resultados dessa falta de imaginação muito raramente são aceitáveis e as audiências permanecem mínimas. Só que conseguem ser, mesmo assim, quase sempre um pouco maiores do que as do resto da programação e até meio ponto do IBOPE é boa desculpa para a insistência em permanecer combatendo na mesma tecla.

As teorias sobre a preferência-popular pela telenovela são múltiplas. Desde o grego Homero, ao folhetim e o filme em série, a história parcelada sempre fez adeptos e se mostrou altamente competente em captar público. Num país onde a maioria dos habitantes é analfabeta e a minoria não tem tradição de leitura e nenhum poder aquisitivo para dispendiosos hábitos culturais, a telenovela encontrou poderosíssimo adubo para prosperar, ter prestígio e virar epidemia, mesmo sendo um privilegio de menos de 30% da população. Os outros 80 milhões de habitantes do Brasil nem mesmo habitam . lares que tenham receptores. Apesar desses números esmagadores, o sucesso da telenovela não é mentiroso. Ela é, apesar de tudo, a ficção mais compartilhada e assistida em nossa atualidade nacional.

Depois de muitas imitações e renovações, a telenovela atingiu linguagem própria e plena de regras móveis. No momento, permanece numa fase acadêmica e sua roda é brilhante, mas com poucas idéias novas. Estas, manda a justiça que se registre, não podem acompanhar a profusão de horários pelos limites impostos pela censura e seu público altamente conservador. E como telenovela é comércio imediato, há sempre justificáveis desculpas para qualquer erro. A Censura impede a conexão com o mundo - tudo que é proibido depois de gravado é incalculável prejuízo - e o público custa a aceitar fugas ao convencional. Sem audiência, cresce o custo e se instala a crise.

Mesmo nesse terreno estreito, ia, porém, que avaliar o cardápio oferecido. Vamos lá, portanto. Apenas uma produção diária: com resumo semanal oferece o canal dois. É o célebre Pica-Pau Amarelo, recordista de espaço na televisão, pois ocupa também mais dois horários na Rede Globo. A mais cara ambiciosa novela educativa por aqui produzida foi "um espanto", como diz Jô Soares, em seu início parecia fruto de pesadelos dos recriadores da obra de Monteiro Lobato, pelo acúmulo de imagens desconexas. Agora está numa segunda fase que se pretende mais obediente ao original e que será dividida em histórias pequenas com começo, meio e fim. Livre de muitas bobagens, personagens inexplicáveis e delírios visuais, o Pica-Pau virou novela comum e bem produzida. Para chegar à perfeição; faltam apenas dois itens: a) mania de tratar lendas e mitos brasileiros como se fossem uma produção terrorífica da Hammer, sempre repleta de ventos, dráculas e transilvanias apavorantes. Aquela gargalhada inicial da Cuca, um dos muitos bichos-papões inventa' dos para assustar mas não matar de medo as crianças, deve ter atemorizado às lágrimas os mais pequenos; b) Reformular as máscaras criadas para os bichos. Até agora nenhuma delas foi bonita bastante, engraçada o suficiente ou mesmo poderosa no caso dos monstros, para justificar sua existência. Não há criança que não se decepcione com contrafacções muito aquém de sua imaginação. Resolvido isto, temos uma novela correta. O que ninguém consegue descobrir, nem com o auxilio do Visconde de Sabugosa, da Cuca e do Saci, são suas qualidades pedagógicas. Até agora, muito diferente da obra original, não mostra nada a aprender ou reter de maneira gostosa. Há apenas aventuras a seguir, personagens a aturar e música para decorar, exatamente igual a outras produções do gênero que, pelo menos, não se propõem a realizar mais nada do que isso em bela operação mercadológica de entretenimento. Como faz habitualmente a Rede Globo.

Além do Pica-Pau matutino e vespertino - ele só consegue ser noturno na desatinada programação da Educativa - o canal 4 reprisa à tarde uma produção antiga das seis horas e tem mais quatro novelas em horários quase contínuos. A indigestão começa mesmo às 18 horas com o desfilar de pretensas adaptações de autores brasileiros. Temos de usar o adjetivo porque cada vez mais esses escritores entram apenas com o titulo da obra, nome e profissão de alguns personagens e nada mais. Ninguém entende por que a estação paga direitos de adaptação se os encarregados desse trabalho andam criando produções originalissimas. O apogeu dessa tendência, a do gasto inútil, está em D Xepa, pela qual Pedro Bloch recebe apenas para emprestar o nome da peça de sua autoria. Porque nada mais resta do que escreveu. A personagem principal, criada no teatro por Alda Garrido, era uma mulher analfabeta, mas de personalidade. Na novela, Yara Cortes, pobrezinha, vive uma débil mental com fixação patológica nos filhos. Os conflitos melodramáticos da peça foram substituídos pelo saturado teletema dos bons ricos entediados pela nostalgia da fome perdida e dos maus pobres que querem vencer na vida através de um casamento de conveniência. Mal sabem eles que apenas os puros de coração, nos dois lados, é que conseguirão beijar o mocinho/a no final. Essa adaptação (ou será mesmo criação de Gilberto Braga?) segue, portanto, o velho esquemão do pobre tomando cafezinho e do rico se banhando na piscina. Para não dizer, porém, que o núcleo está fora da moda, até inventaram ensaiar uma peça, do não conivente Ibsen, se acomodando como possível na última invenção noveleira. No beco sem saída das dificuldades atuais para mostrar subida social e a realização do sonho americano sem que o personagem se torne vilão, o remédio é apelar para o conto de fadas da ascensão vitoriosa do artista a qualquer nível acima do mar. E tome então de mostrar que a arte tudo pode nas novelinhas e transformar psicodramas em produto final.

PREOCUPAÇÃO bem diferente, apesar de ter também uma vedete como personagem, apresenta Loco-Motivas, de Cassiano Gabus Mendes, no horário das sete. Lá o sonho já foi realizado, não há mais pobres e nem se luta mais pela vida. Eles só querem, só pensam em namorar. E todos entre si fazendo ama tal confusão de casais que nem o mais habituado telespectador consegue mais reconstituir o inicio da enxurrada de romances. Belamente confeitada, segundo todas as receitas da Metro dos anos 50 e das Panteras atuais, a novela é um eterno desfile de modas, penteados, adereços e calçados. Dois caretas, Rogério Frois e Myriam Pires, totalmente caricaturais, fazem o contraponto necessário à festa geral. Esperamos que ambos acabem se casando para não estragarem a dita.

Outro tipo de celebração ocorre às oito da noite. Embora Kiki Blanche não tenha ainda iniciado o papo das agruras profissionais e existenciais das vedetes do rebolado em seu horário locomotivo, a turma do Espelho Mágico não faz outra coisa. Exatamente como em sua produção anterior, O Casarão, Lauro Cesar Muniz mantêm seus atuais personagens há mais de um mês exatamente no mesmo ponto em que se encontravam no primeiro capítulo. Também aqui ele foi podado pela Censura, mas nada justifica a falta de eventos e a pouca profundidade da história. Além de dizerem "pombas" adoidado, a turma... pô ... não desata. Tarcísio e Glória não entendem a filha, Juca e Yoná não se separaram, Sônia Braga (que até agora carrega todo o piano no elenco) não arranja emprego adequado, Pepita Rodrigues não resolve se vai ou fica, apenas passeia pelos corredores e bebe, e Lima Duarte ninguém consegue explicar o que está fazendo lá, porque nem texto tem. Mas como ensaiam. Peças clássicas, pornochanchadas, dublagens, novelas e shows musicados. E tudo tão teórico, retórico e frio que mais parece uma preparação para estréias em Marte ou Vênus do que no Teatro do Sesc, em São João de Meriti, ou na Rede Globo. A grande diversão dessa novela acrílica é quando a televisão vira tema. Nos anúncios e releases, o autor e demais responsáveis afirmavam que essa produção seria desmistificadora, mostraria a verdade por dentro do espetáculo. Lógico que em termos, porque se abusar o patrão manda embora mesmo. Então todos falam e se esgoelam em defesa do veículo onde estão, de sua limpeza, de seu poder, de sua gente honesta, de suas altas intenções. Enfim, a TV foi concebida sem pecado original e o público que fique informado que fora dela não há salvação. Lá está o baú da felicidade que basta ser tocado pelo público para que todos os problemas individuais ou coletivos tenham fim. É um lambe-patas sem cessar, um pífio discurso que não sustenta ou desculpa a inação reinante.

Muito melhor nos dois aspectos é a atração das 10 da noite. Nina, de Walter George Durst, baseado em conto do autor paulista Galeão Coutinho, é a melhor novela global atualmente em cartaz. Uma produção superesmerada, as mais bonitas imagens que a estação gerou nestes últimos anos, envolve uma história delicada e quase camerística, como a define seu autor. Mas nela se revelam, embora muito tênues, devido aos mil olhos da Censura, algumas considerações bem menos bobas sobre o mundo em geral e os preconceitos em particular. Fora algumas exceções, seus personagens parecem gente e o país lembra o Brasil de 1920. Grita-se pouco, pavoneia-se menos ainda, mas chega-se melhor aos ouvidos do que na gritaria oca dos horários anteriores. E até o inevitável pedaço da troupe de artistas tem função com o mundo e não apenas com o universo particular de autores e elenco.

Quem se acostuma com os padrões ricos de técnica e de produção da Globo, que chegam ao apogeu em Nina, leva um susto ao mudar de canal e encontrar as novelas da Tupi. Principalmente se comete a aventura às seis e meia da noite, quando se inicia Cinderela 77, de Walter Negrão e Chico de Assis. Uma pena constatar tanta pobreza de recursos e deficiências primárias em torno de uma única idéia razoavelmente original que há muitos anos surgiu no conformado mundo noveleiro. Os autores resolveram partir para o deboche e a loucura total sobre tudo aquilo que é convenção no gênero. Começam mostrando o final do capitulo, a cena do próximo é sempre a mesma e nunca acontece na história e por ai vão. Ramos Calhelha, um dos grandes locutores do Brasil, faz as perguntas dignas de filme em série no final e as piadas se sucedem relacionando o concurso de Miss, crise da gasolina, heróis de faroeste e tudo mais com os fatos da história. Tem até um destino que toca violino e confunde todas as histórias infantis num balaio só. Uma delicia de proposição que a Rede Tupi conseguiu afundar. A direção é pesada, como se levasse a sério as brincadeiras, os cenários caem aos pedaços e o elenco, salvo as exceções de Paulo Hesse e Elizabeth Hartmann, atua de acordo com os padrões convencionais. Urna lástima que agora se arrasta melancolicamente sem nada mais a inventar, enquanto a Tupi tenta safar as imagens estereotipadas de Vanuza e Ronnie Von. Mesmo assim, seus autores merecem o maior apoio do público por terem sido os únicos que foram capazes de ousar neste tempo e neste gênero, desde o Bofe de Bráulio Pedroso.

De forma bem mais prudente, Sílvio de Abreu e Rubem Ewald Filho adaptaram o célebre Éramos Seis, da única autora do mundo que atendia pelo título de Senhora, completado por Leando Dupré para o horário das sete. Aqui tudo é rotina, aquele bruto novelão pleno de dramas, sacrifícios maternos, pais bêbados, filhos infelizes e irmãs solteiras. A produção, no padrão de taba, é também carente e sem brilhos maiores. Há, porém, e de uma maneira que chega quase a comover, um tom e enfoque de seriedade e honestidade no trabalho que o retira do vale comum dos desatinos de estação. O texto é bom, enxuto de besteiras filosóficas e ligações medíocres, e o elenco se comporta com feroz dignidade para seguir a perfeita adequação de Gianfrancesco Guarnieri, Nicete Bruno e Georgia Gomide a seus papéis. Pena que as crianças, muito importantes nesta primeira fase da história, não acertem nunca falas e gestos e que o mar de lágrimas esteja presente em cada final de segmento, pronto para afogar os bons talentos que ainda se conservam na estação.

No vizinho horário das oito não há sobreviventes. Um Sol Maior, de Teixeira Filho, é um prodígio de ruindade. É impossível reconstituir a história pelo excesso de malignidade dos vilões - teve até um da Máfia - e de pureza angelical dos heróis. E todos os dois tipos cometem proezas diárias e alternam-se no rumo da nau em cima de todos os rochedos. Há reservas de segredos, surpresas incalculáveis, identidades falsas, amores impossíveis, mortos-vivos e até uma senhora, a coitada da Sandra Barsotti, com múltiplas personalidades num corpo só. Não há Zanoni Ferrite, Laura Cardoso ou Marco Nanini que resista a essa esdrúxula melopéia. Isso porque a torrente de acontecimentos não retira a monotonia de cena, pois a ação é forçada e os atores se limitam a dizer corretamente sua parte de fantoche. A exceção de Rodolfo Mayer, que super-representa com aqueles gestos largos, virar de olhos e dicção perfeita que caracteriza o ator antigo. Afinal, o único certo nesse folhetim do tempo de antanho que a Tupi trata com desnivelada produção e nos surpreende com belas fazendas e residências, alternadas com as rotineiras externas repletas de ruídos estranhos que nos impedem de ouvir os diálogos e cenas de estúdios atulhados de objetos fartamente coloridos e de presença gratuita.

Coisas tão sem explicação conto as duas novelas restantes que são exibidas pela TV Studios. Poucos sabem, mas o canal 11 inicia suas transmissões, durante a semana, às 1 três e meia da tarde, com Meu Pedacinho de Chão, de Benedito Ruy . Barbosa. E o faz para cumprir a Portaria 408 que obriga as estações de televisão a transmitirem programas educativos - a novela foi originalmente feita pela TV Cultura de São Paulo com essa finalidade. Só que já foi realizada há muitos anos - marcou inclusive a estréia de Renée de Vielmond na televisão - e fartamente apresentada em outros canais. Enfim, é um dos inúmeros repetecos que o 11 nos pespega e tão ruim quanto seus similares. As 9h15m da noite é que vem, porém, o pior. Trata-se de O Espantalho, de Ivany Ribeiro, uma autora exímia em complicadas historietas e que sempre obteve sucesso. Mas aqui desandou ou não souberam dosar seus ingredientes. A segunda hipótese é a mais viável porque, embora a produção reúna profissionais de muitos anos de carreira em televisão, nunca se viu um resultado tão agressivamente amador. Desde a abertura dá para notar. Nem como dever de trabalho é possível agüentar um ridículo, longo e tropeçante balé na areia, musicado por Rolando Boldrin - piamente se acreditando Sérgio Ricardo. Depois disso, ainda é pior. O tratamento da cor gira entre o desbotado e o borrado, os cenários são poucos e capengas e um eterno barulho de transito, aviões e mar batendo interfere em todos os diálogos. Nenhum ator parece saber o que fazer da vida e por isso todos se escondem. Jardel Filho atrás de caretas. Natália, Thimberg de cigarros, Therezinha Amayo de gritos e Ester Góes chega ao ponto de conservar sempre a cabeça baixa.

Se ninguém acredita no que está fazendo, imaginem a sensação que remetem ao público. Apesar de não inaugurar o ciclo, O Espantalho tem seu lugar garantido no gênero novela-desastre, aquelas que custam muito, rendem pouco e quase matam o público de rir.

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