Friday, May 17, 2013

1977 - Dercy Gonçalves e J. Silvestre

Jornal do Brasil
 27/3/1977
Autora: Maria Helena Dutra
J.SILVESTRE
O improviso e a surpresa volta estão de volta aos programas de programas entrevistas. como nos bons tempos


Poucos suspeitavam que o enfarpelado senhor, cuja imagem sempre esteve ligada a programas pseudo-culturais ou àqueles que vendem carnês acima de todas as coisas, ainda poderia oferecer uma válida opção de informação e entretenimento à televisão carioca. Exatamente o que agora faz J. Silvestre, de terça a sábado de cada semana, às 11 da noite na TV Tupi, comandando um programa de entrevistas com participação do auditório e, que consegue mostrar de forma bem razoável um pouco da realidade brasileira - que muitos teimam em afastar da televisão.

Se é verdade que os desgastados temas futebol e divórcio ainda recebam neste programa as grandes honras estrelares, é justo registrar que nele também tiveram lugar assuntos bem menos comuns, como o excesso de remédios à venda no país, a fome como causa real da desidratação infantil e até mesmo a discussão sobre o sucesso do teatro popular e brasileiro (ignorado pelas demais estações), enfocando a longa temporada de Gota D'água, de Paulo Pontes e Chico Buarque, no ano passado.

Todos estes assuntos são focalizados através de um entrevistado que pode ser uma autoridade ou um participante do problema. As vezes a personalidade, principalmente quando é bem popular, não precisa necessariamente caber num tema, porque sua vida e opiniões já fornecem todos os debates exigidos e possíveis. O programa é gravado com antecedência, mas transcorre como se fosse ao vivo, sem nenhuma interferência da técnica e nenhum corte salvador de erros.

Quem está entrando agora para ser inquirida é Dercy Gonçalves, 70 anos de idade e muito mais de picardia, saudada de pé pelo pequeno público contido no quente estúdio transformado em auditório, na Urca. De paletó xadrez azul, calças da mesma cor, Silvestre inicia com estudada tranqüilidade um combate que sabe de antemão que vai perder, porque não há a menor possibilidade de brilhar ou competir com sua convidada, que tem curso completo de vedete. É um programa em que não precisará lançar mão de recursos para animar o público - seus 26 anos de televisão e 36 de rádio lhe mostram a melhor forma de atuar. Ante a força de Dercy, ele praticamente se anula. É apenas o veículo das perguntas de convidados e de pessoas do auditório e quase não faz comentários, apenas reiterando ou destacando perguntas ou respostas que possam ser mais interessantes para o espectador.

Comportamento que é fruto de uma experiência há muito bem-sucedida junto ao público. Quando abandonou sua iniciante carreira de advogado, Silvestre foi para a Rádio Tupi em 1941, como locutor. "Daí em diante fui sendo empurrado pelas circunstâncias, para fazer de tudo na luta natural em prol de maior salário. Fui ensaiador, autor e ator - sempre galã, porque achavam que a voz ajudava. Só que o rádio-teatro acabou na estação e, mesmo sendo eu um o tímido, fui outra vez empurrado para ser animador de programa de calouros e acabei descobrindo que ganhava muito mais dinheiro falando do que fazendo outras coisas que davam mais trabalho e menos prestígio''. Este último item ele adquiriu definitivamente ao comandar, nos primórdios da televisão, O Céu É o Limite, com o seu absolutamente certo que o tornou figura nacional. E um preferido da classe média, por sempre ostentar comportados ternos e exemplar educação, mesmo nos momentos mais sensacionalistas dos programas.

Atuação que repete agora quando ri apenas discretamente da explicação que Dercy oferece para sua volta à religião católica. ''Descobri em Jerusalém que Jesus é bom pra. . . caçamba. E tinha que ser ótimo para fazer sucesso lá naquele cafundó dos judas, num tempo que não tinha nem televisão nem jornal." Só que a graça da estapafúrdia resposta não pôde ser totalmente explorada, porque o programa é feito com apenas duas câmaras, faltam recursos à estação, e elas evidentemente não têm agilidade para documentaras reações do auditório. Mas Silvestre está consciente destas e as vai explorando como um veterano. Só que coma mão bem mais leve do que antigamente, porque sua aventura de agora não está mais em horário nobre e por isso se torna dispensável o tratamento de choque para aumentara audiência. Os números em horário tardio não são tão importantes - o que interessa é prestígio e causar polêmica sem escândalos. E para esta tarefa foi que Silvestre, mais de 50 anos, quatro filhos e dois netos, voltou à televisão, depois de três anos e meio de ausência. ''Sempre abandonei os programas quando os sabia em início de declínio. Nos últimos tempos, fazia o Show sem Limites; uma terceira versão do Céu, e programas de carnês. Eram basicamente concursos e jogadas comerciais muito repetidas e cristalizadas.''

Mesmo sob um severo julgamento, pode-se afirmar que seu atual programa foge a estes padrões. Nele, por exemplo, Dercy Gonçalves diz uma verdade que a atual televisão adora esconder: "Não respeito textos. Eu os traduzo para o meu analfabetismo, igual ao da grande maioria do povo, que é analfabeto como eu." Este tipo de afirmação salva e dá vitalidade ao projeto que trouxe Silvestre de volta à televisão. "Quando a abandonei, tentei fazer algumas coisas, mas não deram certo. Resolvi então viajar e cheguei mesmo a morar nos Estados Unidos. Mas a inatividade estava prejudicando até a minha saúde, só que a televisão é complicada e não me aceitava como franco-atirador. Me queriam como peça de engrenagem, obedecendo a todas as imposições. Mas nisso eu não entro mais e mesmo que as condições não permitam a total liberdade - não existem estúdios independentes no Brasil com produção autônoma e todos que trabalham em televisão aqui têm de ser empregados - consegui pelo menos ser sócio neste novo empreendimento.'' Sua firma, a Josil, encarrega-se da parte artística e de produção. Para isso foi formada uma equipe de 14 pessoas, chefiada na parte de produção por Marcos Reis e na artística por Armando Couto e Gerson Alvim, enquanto a Tupi fornece as condições técnicas. O tape pertence à Josil, para comercializá-lo para todo o Brasil, e aqui no Rio é exibido sob o patrocínio das Casas Sendas. Muito dificilmente o programa entrará em rede, porque há teimosas opiniões contrárias na Tupi de São Paulo, mas já está sendo exibido em estações pelo Brasil, na maioria pertencente aos Diários Associados, que têm apenas um direito de preferência. Caso a estação da rede de uma cidade qualquer não se interesse pelo programa, Silvestre pode vendê-lo livremente a outro canal. E pode atender a mercado tão diversificado, com os tapes que já foram exibidos, desde o início da série em 4 de janeiro deste ano, e mais 30 gravados com antecedência para serem mostrados ainda. Para que a seleção semanal seja feita com tantas opções, é necessário um frenético ritmo de trabalho de gravação, de dois programas por dia, o que ocupa a todos por quase seis horas.

Mesmo estafados, ainda riem muito quando Dercy explica que teatro para ela é "amor, sexo, homem, pai e mãe". A reação do público deverá ser a mesma e por isto Silvestre prolonga e cultiva a graça, mesmo sem aparecer muito. E fica satisfeito porque ''este é um tipo de programa que há muito queria fazer. Tentei em 1970, sob o nome de Bate Papo na Passarela, mas não fui bem-sucedido, já que não sabia dos caminhos e meios. Descobri-os nos Estados Unidos, através do programa de Donahue, no qual inspirei o meu. Só que nosso público é diferente, e precisamos modificar muita coisa para que sua participação não ficasse limitada ao aplauso e passasse para as perguntas. Por isso, preparamos várias delas e as distribuímos a alguns extras, para que possamos ordenar a transmissão dentro de uma linha previamente preparada. Pessoas e temas são escolhidos numa reunião de pauta, nossos repórteres fazem entrevistas prévias e delas saio script do programa. As perguntas são enviadas -à Censura, mas nunca as respostas, porque elas não são combinadas e nem os entrevistados conhecem as questões com antecedência - só os assuntos que serão ventilados. Mesmo esta estrutura permite muitas surpresas, como aconteceu com o programa de Carmem Costa ou com Sebastião Nery, no qual pessoas do auditório contaram tantas anedotas políticas como o entrevistado. "Política é um tema que Silvestre ocasionalmente focaliza, mas que não o entusiasma muito. Ao contrário da maioria dos seus colegas de geração e dos pioneiros da televisão, nunca se candidatou a nada e considera esta atividade incompatível com sua profissão de comunicador.

Ele também não interfere na linguagem de Dercy, que junta paca com prostituta e outras coisas mais. Nem quando ela responde a um jovem que lhe pergunta o por quê de tantas operações plásticas. Desabrida como sempre, manda ver: "Por causa de vocês jovens, que vivem espezinhando os velhos, e porque não quero nunca ser apontada como a coitada da excomungada.'' Esta coisa bem popular é acalentada por Silvestre na sua luta difícil de implantação do programa.

"A televisão está conectada com o sucesso, e não com qualidade. Para isso temos que falar e agir dentro dos padrões do povo, porque este tem que ser atraído pelos apelos emocionais à sua sensibilidade. Para sermos coerentes, porém, não podemos chegar à concessão total, mas temos que fazer da entrevista um espetáculo popular, valorizar a manchete e criar na imagem. Enfim, obedecer à natureza do veiculo, mas forçando uma cobertura maior, que permita o diálogo num conduto que costuma só monologar. Mesmo fazendo isso, nunca tive problemas com a Censura, para a qual apenas enviei dois tapes, por iniciativa minha e temeroso de problemas, que foram aqueles que focalizaram Sergio Bernardes e Francisco Milani - este porque interpretou o monólogo de Egeu contra o Plano de Habitação do governo na peça Gota D'água. Mas não houve nenhum contratempo.''

Termina a gravação com Dercy Gonçalves, que se auto-intitula a Bocage do Brasil. Corno sempre acontece nos programas de Silvestre, não houve nenhuma confusão, devido a uma óbvia medida quase sempre esquecida em outras tumultuadas mesas-redondas, nas quais todos falam juntos e ninguém entende nada. É que Silvestre monopoliza o microfone e só permite sua utilização individual - fora dele apenas o entrevistado tem microfone fixo. Isto traz calma ao enunciado das perguntas e respostas e ao debate que ele finaliza com um desnecessário editorial moralista. Traço rançoso e passadista em que o espectador volta a ser tratado como um idiota, incapaz de tirar conclusões próprias. E que não é o único vestígio desagradável da transmissão, porque em muitos momentos Silvestre insiste ainda em ser tendencioso, bombástico e pseudossério ao manipular o sensacionalismo que ele mesmo incentivou. Tudo porém pode ser visto agora com olhos bem mais benevolentes porque, ao contrário dos enlatados que lhe são concorrentes no horário, seus assuntos e convidados correspondem perfeitamente à atual situação e realidade brasileiras. E mesmo que desagradem intelectuais ou ufanistas, mostram muito mais do povo do que muitos sérios tratados sobre dados manipuláveis.

Uma realização que, afinal, não cumpre mais do que a obrigação de ser televisão, mesmo num momento tão pleno de ledos enganos. Um estágio de TV que Silvestre define como "de grande poderio técnico, de ótimo nível de realização, mas de apequenamento do mercado de trabalho, devido ao número cada vez menor de estações produtoras. Hoje temos mais profissionais do que oportunidades, porque as estações que restam preenchem seu tempo com enlatados americanos ou programas vespertinos de baixa qualidade. Ninguém investe no ser humano. Dentro deste panorama, defendo meu programa porque mostra nossa gente para um povo que gosta e precisa deste tipo de coisa. Resta saber, dentro de alguns meses depois de computadas e estabelecidas as audiências, se sua forma e conteúdo serão aceitos.''

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