Sunday, May 19, 2013

1976 - Um mês de Saramandaia

Amiga TV
Data de Publicação: 16/6/1976
Autor: Artur da Távola
PRIMEIRAS IMPRESSÕES DE SARAMANDAIA
Com apenas um mês de novela no ar, nenhum juízo crítico ainda pode ser considerado válido, duradouro ou definitivo. Novela de TV é algo que se apura aos poucos. Vai aquecendo e melhorando até encontrar sua melhor dimensão aí pelo capítulo sessenta, quando deslancha.

O que é possível e válido, sim, e anotar primeiras e vagas impressões esparsas, às vezes úteis aos responsáveis por sua realização.

A OBRA - Em Saramandaia há vários elementos constantes no mundo criativo de Dias Gomes. Aqui ele usou um pouco mais e partiu para algumas representações simbólicas, na linha do absurdo, da lenda e da literatura de cordel, como o homem com asas; o fazendeiro com um formigueiro no nariz; a mulher gorda que vai explodir; um farmacêutico cujo coração sai pela boca e que morre e ressuscita; o legendário lobisomem das lendas interioranas do Brasil.

A presença desses personagens não altera a linha nitidamente realista que caracteriza o conhecido e excelente autor. Aqui ele colocou o realismo numa fábula que expressa a luta de setores que querem uma mudança nas coisas (expressa no nome dá cidade) contra os que desejam manter tudo como está. Por trás de ambos, porém, interesses econômicos continuam a mover os cordéis e até a se aproveitar do idealismo de alguns dos mais acirrados defensores de cada facção. Assim aconteceu, por exemplo, com os filhos do

Coroné Tavares (Sebastião Vasconcelos, o ator). Os jovens, idealistas e ingênuos, saem às ruas para defender e até brigar pelo nome Saramandaia, mas o pai, vivaldino, em segredo, já o havia registrado como marca de cachaça, usineiro de açúcar que era.

No meio desse conflito de interesses, um personagem liberal, amante do equilíbrio, da lei e da ordem, o Prefeito Lua (Antônio Fagundes é o ator). Aqui, Dias Gomes coloca as dificuldades da posição liberal no meio de forças que se chocam interessadas apenas na vitória de suas posições. O prefeito liberal acabará crucificado por ambos os lados em guerra.

Do meio desse conflito básico surgem personagens que, evoluindo de obra em obra, constituem o mundo de Dias Gomes e que de certa maneira são novas versões ou continuações de trabalhos anteriores de Dias, a cada novela um pouco mais elaborados: o personagem do Gibão ou de alguém com asas prossegue a figura do Zelão das Asas, um pescador de O Bem-Amado, que termina a novela voando com as asas que construíra. Em Saramandaia, as asas nascem nas costas do vidente Gibão (Juca de Oliveira, o ator).

Em O Bem-Amado, lá estava a figura do médico desencantado e derrotado em seus ideais, bêbado e caricato. Lá era o personagem interpretado por Jardel Filho. Aqui o Dr. Rochinha é o médico da cidade, igualmente bêbado e desiludido (José Augusto Branco, o ator). Na figura do médico que se desencanta por não ter como enfrentar os problemas sociais expressos nas enfermidades, Dias sempre coloca o desencanto do profissional liberal, impotente para mudar as coisas mesmo quando lhes conhece as causas.

Como sempre em suas obras (ele tem uma visão antiga e superada da Igreja Católica) há um padre conciliador entre as facções em pugna preferindo os mais poderosos. Em Saramandaia, essa visão da religião, como algo divorciado do tempo e dos reais problemas das pessoas e das comunidades, também está presente na figura do personagem representado pelo ator Francisco Dantas.

As distorções e explorações decorrentes da carolice ou do fanatismo religioso, tema que vem na obra de Dias Gomes desde o famoso e excelente Pagador de Promessas, também surge em Saramandaia, através de milagres, crendices, superstições e reações carregadas de preconceitos.

Há vários outros exemplos, mas o espaço não permite. O importante é constatar que, através da fábula alegre, variada, simples e bem construída o autor retrata temas e assuntos merecedores de reflexão, fazendo por eles desfilar a sua visão do mundo e dos homens. Em outras palavras: os homens se digladiam por tolices e assim deixam de ver os verdadeiros problemas

A REALIZAÇÃO - O grande fantasma a rondar Saramandaia é Gabriela, com seu sucesso inesquecido ainda pelo grande público. Como o diretor é o mesmo, Valter Avancini, e o estilo de produções da Globo se prende a padrões mais ou menos rígidos, muita coisa de Gabriela passou-se para Saramandaia principalmente a fala abaianada, os cenários exteriores e o estilo do desenho geral da obra nos cenários interiores e nas roupas. Não que os cenários sejam iguais ou parecidos. Nada disso. O estilo de seu desenho, este sim, traz pontos de semelhança.

Quanto ao mais, a direção de Avancini revela seu talento especial para obras de ação externa, variadas, onde os tipos representem realidades brasileiras. Em obras interiorizadas, como O Grito, por exemplo, Avancini ainda está nos devendo algo realmente criativo e maior, como conseguiu em Gabriela e no caso verdade de Natal, intitulado O Indulto, até hoje uma das mais importantes realizações da televisão brasileira.

OS ATORES - Há muito a retocar nos atores. Sei que é impossível exigir desempenhos mais amadurecidos por enquanto. Como se sabe, os atores recebem os papeis quase em cima das gravações e não dispõem de tempo nem de ensaios suficientes para poderem compor os personagens de maneira mais profunda, o que só o conseguem adiante, com o correr da obra. Mas se exigir errado é, apontar creio que ajuda.

Juca de Oliveira está muito próximo da criação do Pedro Azulão, de Fogo Sobre Terra. Tem talento e recursos para criar um Gibão bastante diferenciado do papel anterior.

Sônia Braga está toda Gabriela, apenas sem os cabelos lisos e penteados. Se não criar uma personagem nova, vai ficar fixada na antcrior. Está lindíssima, aliás.

Esse grande ator que é Sebastião Vasconcelos ainda me parece tímido no papel do Coroné Tavares, olhando demais para baixo, um pouco sem jeito de assumir a arrogância do personagem.

Mílton Morais está fazendo um Quidoca (de Bandeira 2, lembram-se?) rural. Com o tempo, acredito, ele e os demais, talentosos e experientes, muito poderão acrescentar ao que criaram até agora.

Em compensação, vários outros personagens estão novos e peculiares, bastante criativos, como o genial Seu Cazuza (Rafael de Carvalho), o Coroné Zico Rosado (Castro Gonzaga), Dina Sfat e o ótimo Ari Fontoura, que não dorme e vira Lobisomem.

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