Sunday, May 19, 2013

1976 - Saramandaia é plágio?

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 6/9/1976
Autora: Lena Farias
UMA EXPLOSÃO CRIATIVA OU PLAGIÁRIA?
"Saramandaia" no ar

Primeira pergunta: o personagem João Gibão, com suas asas de escândalo e esta dúvida de ele ser anjo ou demônio - isto é criação de Dias Gomes ou de Garcia Marquez, no conto Um Homem, muito Velho com Suas Asas Enormes?

Segunda: aquela Dona Redonda, explodindo de tão gorda em cima do povo de uma cidade - isto aconteceu na Saramandaia de Dias Gomes ou na Cajazeiras reinventada por Zé do Norte (o músico premiado de Muié Rendêra; em 1973, ele entregou seus originais de O Lobisomem de Cajazeiras numa emissora de TV, e nunca mais conseguiu encontrá-los - a não ser em certas situações que a novela Saramandaia está mostrando)?

Terceira: após a explosão de Dona Redonda, ficou um cheiro de rosas. Autoria de Dias Gomes ou ainda Garcia Marquez, em O Mar do Tempo Perdido? Quarta: o linguajar do Odorico Bem Amado, sucesso das telenovelas de anos atrás, é muito diferente do usado pelo mesmo personagem em 1960, ano em que ele foi criado para o teatro. O Odorico da novela e sua engraçada fala regionalista é criação de Dias Gomes ou de José Candido de Carvalho que, em 1964, publicou O Coronel e o Lobisomem?

Um acusador de Dias Gomes diz: "O Brasil é um pais engraçado, onde o sujeito anoitece burro e acorda gênio".

Dias Gomes: "Sabe de urna coisa? A televisão tem o estranho poder de ativar neuroses. A novela faz sucesso e logo aparecem acusações assim".

Voz calma, pausada, gestos contidos, é mesmo Dias Gomes quem dá o tom da entrevista. Mais um encontro que uma entrevista, à noite, no casarão de uma ladeira que desemboca na Lagoa Rodrigo de Freitas. -"Prefiro falar da minha viagem (dia 9) aos Estados Unidos. É mais importante para mim, que esses assuntos que trouxeram você aqui."

É' natural que seja. Seria para qualquer autor, de qualquer parte do mundo: uma vez por ano, a Pennsylvania State University convida um escritor, um dramaturgo de qualquer parte do mundo, cuja obra seja de reconhecida importância universal para, durante 10 semanas, ele realizar um seminário, dar aulas. Seminário cujo tema é a própria obra do artista convidado.

Seria o Teatro de Dias Gomes, que o próprio dramaturgo conseguiu transformar em Dias Gomes e o Teatro Brasileiro, com a intenção de abrir uma panoramica sobre o assunto e se deter na obra de outros autores brasileiros. Como fim de curso, a sua peça O Berço do Herói, censurada e proibida nos palcos brasileiros, fará a estréia mundial na Pensilvânia, em montagem profissional.

E a televisão, Dias Gomes? E os problemas de acusação de plágio que você vem sofrendo desde a época de O Bem-Amado, e agora mais intensa com Saramandaia?

Dias Gomes exibe urna expressão cansada ("estou, inclusive fisicamente, cansado, escrevendo três capítulos de Saramandaia por dia. Tenho que deixar a novela pronta antes de ir para os Estados Unidos, quinta-feira que vem"). "Sempre que a gente escreve uma novela de sucesso - e Saramandaia é sucesso absoluto - aparecem, pelo menos, uns 30 doidos alegando autoria".

"O Brasil é um país realmente engraçado", diz o jornalista Carlos Silva, estudioso da obra de José Candido de Carvalho, especialista em falares regionais. "O único pais onde, segundo conhecido humorista, o sujeito anoitece burro e acorda gênio. O caso do Sr Dias Gomes é típico. De engenhoso autor de novelas, passou, nos últimos tempos, a ser considerado um inovador de linguagem nacional, uma edição melhorada e ampliada do saudoso Guimarães Rosa. E o pior é que o Sr. Dias Gomes acredita piamente nisso. E tanto acredita, que ao expelir a sua conhecida novela O Bem-Amado (1973) deu entrevista a Artur da Távola, dizendo que o linguajar do prefeito Odorico era uma pesquisa sua levada a efeito no Sul da Bahia. Acontece que essa é precisamente uma região trabalhada ficcionalmente por dois grandes romancistas baianos, Jorge Amado e Adonias Filho. E nem Jorge Amado nem Adonias, em nenhum dos seus admiráveis livros, usou em nenhum momento, esse pretenso dizer baiano. E não usaram, pelo simples motivo de não existir no Sul da Bahia nem no Sul de coisa alguma um falar corno o de Odorico. Que só existe no livro O Coronel e o Lobisomem, do fluminense José Candido de Carvalho".

Dias Gomes nega que, em qualquer momento, tenha feito tal declaração.

"Eu nunca disse que a linguagem de O Bem-Amado ou de Saramandaia eram faladas em qualquer parte do Brasil, ou, especificamente, no Sul da Bahia. Eu é que estou sempre encontrando pessoas que dizem: "Sabe que você fez um trabalho felicíssimo, captou muito bem aquela linguagem do interior. Conheço gente que fala exatamente como o Odorico. E eu respondo que é apenas uma questão de coincidência, que a linguagem de Odorico, o Bem-Amacio, como de Saramandaia é invenção minha, mesclada com termos do linguajar popular".

"Antes de fazer a novela (Saramandaia era uma peça de teatro que eu estava começando a escrever e se chamava Subitamente os Homens Voaram. Comecei logo depois da interdição do Roque Santeiro)". Dias Gomes esteve no interior de Pernambuco fazendo uma pesquisa. "Tive por cicerone um autêntico senhor de engenho, que se expressava de maneira muito peculiar. Ouvi dele, por exemplo, um verbo inusitado: espingardar.

- Eu uma vez espingardei um cabra safado...

Foi o mote para neologismos corno pistolar, que usei e uso".

Carlos Silva diz, porém, que na primeira versão de O Bem-Amado, aparecida em 1960, "antes do surgimento da grande mina, O Coronel e o Lobisomem, que o Sr Dias explora até hoje", Odorico falava diferente, sem. invenções, português sem distorções''.

Citando exemplos:

"Odorico: Diz muito bem D Cotinha Monção, dedicada professora do nosso Grupo Escolar; é incrível que esta cidade, orgulho do nosso Estado pela beleza de sua paisagem, por seu clima privilegiado, por sua água radioativa, pelo seu azeite de dendê, que é o melhor do mundo, até hoje não tenha onde enterrar seus mortos... (Teatro de Dias Gomes, Ed. Civilização Brasileira, 1972)".

Odorico, o personagem, falava em sono eterno, seio da terra, e haveremos de tê-lo, sem-vergonhice (e não sem-vergonhista), bem, eu entendi premiá-lo pelo seu trabalho na minha campanha.

"Como se vê", prossegue Carlos Silva, "a linguagem do Sr Dias Gomes era comum, lisa, sem atrativos, quase de relatório. Anos depois com O Coronel e o Lobisomem nas mãos, Dias Gomes mudou de tom. Deu para falar em sem-vergonhistas , ladronismo, donzelas militantes, moças de sofá e saleta, finalmências. Era um Dias Gomes novo em folha, cheio de novidades, inventivo como ele só. É que o novelista, sem dúvida engenhoso, havia descoberto a mina, na literatura de José Candido de Carvalho. Dessa leitura nasceu um Dias Gomes diferente, que passa, agora, por um inovador da língua portuguesa, fazendo conferências sobre o que ele chama de linguagem nova. Rateando um livro que tem hoje mais de 50 edições, além de traduções em línguas estrangeiras, o Sr Dias Gomes quer passar um vasto atestado de incultura neste país".

Saramandaia, para Carlos Silva, nada mais é que uma continuação de O Bem-Amado, com todos aqueles achados que fizeram de O Coronel e o Lobisomem um clássico da literatura no Brasil.

"É incrível como um livro tão popular seja copiado impunemente por novelistas que só são importantes porque pirateiam a obra alheia. Esses bucaneiros precisam ser contidos através de medidas de proteção ao autor nacional. Se em Odorico já havia uma indisfarçável extração de linguagem, em Saramandaia vemos todos os personagens falando do Coronel. Sem a graça do Coronel. Ainda assim, Ponciano de Azeredo Furtado poderia entrar em cena sem se sentir de todo deslocado. Tudo é legitimamente seu e semvergonhistamente copiado pelo Sr Dias Gomes."

Nelson Werneck Sodré, escritor e crítico literário nega esses argumentos:

"A questão me parece inteiramente descolocada. O Guimarães Rosa é, aliás, um exemplo raríssimo de fusão do ficcionista com o lingüista. Ele usa, na formação de palavras novas, quer a fonte erudita, quer a fonte popular. É' o caso também de José Candido de Carvalho. Não é o caso de Dias Gomes, que usa apenas a fonte popular. Eu não vejo, então, nenhuma semelhança entre um caso e outro caso. Quanto à questão dos tipos, ainda muito menos. Os tipos de Saramandaia são inteiramente diferentes daqueles criados por Guimarães Rosa. E diferentes do Coronel Ponciano de Azeredo Furtado, criação de José Candido de Carvalho. A distinção fundamental deveria ser procurada no conteúdo dessas obras de arte e não na forma. Eu considero Dias Gomes o maior criador no teatro nacional e, na novela de televisão, está realizando inovações de profundo interesse."

"Fez de conta o sem-vergonhista que era galo sem rumo, perna sem força, bico caído. Um caçoista, do fundo do terreiro, largou deboche na praça... e especial atenção prestei a uma pendência de terras que sustentou a poder de rabulice, dando ganho de causa ao que era torto. Em duas penadas limpou a escritura de toda a impureza. E o demandista seu amigo ficou possuído de chão que era seu e que não era... A velha muito prezou o meu severismo." (O Coronel e o Lobisomem, José Candido de Carvalho, Ed. José Olympio).

O escritor fluminense José Candido de Carvalho não gosta de falar a respeito de um assunto que parece até incomodá-lo bastante. Ainda assim revela as suas impressões:

"O que é preciso saber é se o Sr Dias Gomes escreve assim antes do aparecimento de O Coronel e o Lobisomem, lançado na praça em 1964. Repito: se era esse o seu jeitão de dizer, não há nada a reclamar. Eu é que devo pagar pedágio por ter transitado sem licença pelos falares e escreveres do Sr Dias Gomes. Se a primeira versão de O Bem-Amado, que é de 1960 e fonte, na forma televisada, da atual linguagem da novela Saramandaia, já trazia essas novidades e invencionices o Sr Dias Gomes está de parabéns. Se, ao contrário, essas novidades são recentes, pesquisadas na obra alheia, meus pêsames. O ilustre produtor de televisão escolheu o largo caminho do facilitário, que não leva a nada."

"Pessoalmente, considero a linguagem do Coronel superada, pois estou trabalhando em novos caminhos da ficção. O que sempre me amedrontou, e por isso não persisti na linha do meu segundo romance, era acabar sendo plagiário de mim mesmo. O que seria um triste fim de carreira."

"Abrindo a janela rapidamente, Maria Redonda despeja sobre eles o conteúdo fétido de uma laca de dez quilos - urina e fezes - acumulado durante trinta dias...

Menino, quem é seu pai?

Meu pai é Nosso Senhor.

Menino quem é sua mãe?

Minha mãe é a mãe do Criador.

Menino, diga onde vai?

Pelo mundo eu vou girar.

Tenho muito que aprender

E o tempo vai me ensinar...

Quem será que está virando bicho aqui em Cajazeiras? - o sofisma recaia sobre algumas pessoas que sofriam de amarelidão" (O Lobisomem das Cajazeiras, Zé do Norte, 1971).

O paraibano das Cajazeiras, Alfredo Ricardo do Nascimento, só tem esse nome comprido para efeitos civis, administrativos e protocolares. Para efeitos artísticos, ele é Zé do Norte, autor das músicas do filme O Cangaceiro, de Lima Barreto, que ganhou, em Cannes, em 1952, o prêmio de melhor trilha sonora. Entre elas, a estilização do tema folclórico Mulher Rendeira, regravado 82 vezes, com quase 300 mil cópias vendidas só nos Estados Unidos. É também autor do livro Brasil Sertanejo, histórias sertanejas, curiosidades sertanejas, cantigas do sertão, mentiras e anedotas, poemas, dialeto sertanejo (Ed. Asa, 1948).

A repórter foi encontrar Zé do Norte na sua casa carioca, o Hotel Primor, na Rua dos Andradas, onde seu Ismael da portaria o apresentou na base do "ô cangaceiro, olha aqui essa moça procurando por ti". Chapéu curto, de feltro, uma pena pequena enfiada no lado direito, uma cruz de ouro grande, cravejada de pedras coloridas, ele começa a falar.

"Olha, eu nunca acusei o Dias Gomes de plágio, nem pensei nisso. E essa história que eu vou entrar na Justiça é mentira. Não tem isso não. E olha que eu mesmo nem tinha reparado no caso de Saramandaia parecer com o meu livro. É que eu nem assisto à novela. É um capítulo ou outro, distraído. Aí os amigos começaram a me dizer: olha, Zé, você precisa ver isso, seu lobisomem, sua Maria Redonda está tudo na novela."

Espia a repórter com os olhos vivos, alegres, que se apertam quando observam a gente com maior cuidado.

- Comecei a escrever meu livro em 1959, acabei em 1965. Aqui mesmo no Rio, incentivado pelo Roberto Corte Real, que era diretor artístico da CBS.

Ele achava que não tinha capacidade para escrever um romance de fôlego, "coisa para pessoas de instrução superior", conforme pensava na época. Quando ponderou isso com Corte Real, ele limitou-se a responder que "pra essa finalidade é bastante saber ler e escrever, conhecer o que você conhece e viver o que você viveu".

Foi assim que se iniciou O Lobisomem de Arapiraca. Por que de Arapiraca? "Por nada. Depois eu pensei que era mais interessante contar mesmo o caso de Cajazeiras e fiz O Lobisomem de Cajazeiras, pois esse era um assunto muito farto, que eu conhecia desde menino".

"Os lobisomens" - continua Zé do Norte - às segundas e sextas-feiras cruzavam a cidade. Eles vinham do alto do Cabelão - hoje bairro do Alto Belo Horizonte - para as capoeiras. E do Boi Morto para a Curicaca."

As andanças dos personagens de Zé do Norte ainda não estão editadas. Mas ele dispunha de um original e quatro cópias. Uma delas está na casa da filha Josefina, em Vila Isabel; a segunda, no Conselho Estadual de Cultura da Paraíba, que deverá editar o livro: a terceira, presentemente com a repórter. A quarta cópia desapareceu. Como foi isso, Zé?

"Eu entreguei a cópia para um conhecido meu, de uma rede de jornais e televisão. Foi em 1973. Eu queria saber se prestava pra novela. Pedi que ele lesse. Um mês depois, voltei, perguntei pelo livro. A resposta me estarreceu: tinha sumido. Seis meses depois, a mesma resposta: nada do livro."

"Todo trabalho de recriação literária de uma linguagem parte da mesma fonte", argumenta Dias Gomes". E o processo de recriação de neologismos é semelhante. Então é evidente que tende a cair em resultados semelhantes, em palavras parecidas. No caso de Guimarães Rosa, no caso de José Candido de Carvalho, no meu ou de outro qualquer autor, a fonte é o linguajar popular, é a criatividade natural do povo, que nós manipulamos. A linguagem de José Candido é criada, como a minha linguagem também é, mas a fonte é o povo. Estou cansado de ouvir, até mesmo em programas populares de televisão, pessoas dizerem emboramente, até por horamente já escutei. Minhas personagens, antes de 64, falavam de modo diferente, porque, a partir de então fui tentado a fazer uni trabalho de recriação de linguagem. E só vim a ler O Coronel e o Lobisomem quando já havia escrito mais da metade de O Bem-Amado para a televisão. Quanto a Guimarães Rosa eu conhecia anteriormente e há quem me acuse de sofrer influências dele."

"Sabe de uma coisa?" - é Dias Gomes quem pergunta - "a televisão tem o estranho poder de ativar neuroses. Então, toda novela que vai para o ar, tem sucesso, provoca o aparecimento de situações assim. Não só de pessoas que se julgam autoras, como outras, que se imaginam retratadas nos personagens. Na época de O Bem-Amado, o cronista Mister Eco publicou o estudo de uma filóloga provando que não havia qualquer semelhança entre o trabalho que eu realizava, o de José Candido e o de Guimarães Rosa, e cita uma série de 1 mil neologismos que não aparecem nem em um nem em outro."

A "questão Saramandaia" fez voltar à tona o velho problema do plágio pela televisão. O escritor Guilherme Figueiredo cita, entre outros muitos exemplos, dois particularmente significativos:

A minha tradução do Tartufo, de Molière foi totalmente camuflada e apresentada na TV Globo como sendo de outro cavalheiro. Reclamei com a SBAT - Sociedade Brasileira de Autores Teatrais - e trataram imediatamente de me pagar. Pagamento feito até à minha revelia, para evitar que a SBAT movesse ação. E quem assistiu à novela Fogo Sobre Terra, da Sra Janete Clair, mulher de Dias Gomes, reconheceu ali cenas, personagens, fatos e acidentes de minha peça Maria da Ponte (construção e derrubada de represa, construção e derrubada de urna estátua, e assim por diante). Infelizmente, não me foi possível colher provas para uma ação em juízo, pois nem mesmo a Censura guarda os textos de cada capitulo e sim unicamente resumos e sinopses, que não fazem prova de plágio."

"Cada caso de plágio é um caso. Assim que o autor perceba, que se dirija à sua sociedade arrecadadora. Acredito que a prova testemunhal valha para ação. Agora, os órgãos oficiais de direitos autorais e a Censura - para isso é que deve existir a Censura, para proteger e não para castigar os autores - essa comissão que criaram aí, essa que tem até o Roberto Carlos metido no meio, deveriam exigir que os textos das novelas ficassem registrados, para que o autor ou seus advogados pudessem consultá-los e tirar cópias autenticadas, em caso de necessidade."

No comments:

Post a Comment

Followers