Sunday, May 19, 2013

1976 - Saramandaia é a nova Roque Santeiro

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 30/4/1976
Autora: Norma Couri
AS SARAMANOVELAS DA TELEMANDAIA (OU A REALIDADE FANTÁSTICA)
O direito de nascer foi conquistado capítulo a capítulo. E como fossem 283, num total de 129 horas de exibição, o parto doloroso garantiu, junto com o nascimento, o direito de se oferecer ao telespectador brasileiro toda espécie de teletema, teleanúncio, teleator, teleautor. Resultando na moça que veio de longe, numa rosa com amor, na doce namorada num singelo véu de noiva; ao mesmo tempo a coragem dos irmãos, em muito fogo sobre terra, na destrutiva corrida do ouro, num rebu, num grito e, Bravo!, no Roque santeiro, se este tivesse sido.


A nobre publicidade / este povo brasileiro / eu quero deixar contado / um caso bem verdadeiro / sucedido em Água Branca / terra de Roque Santeiro.

Mas quem está interessado em casos bem verdadeiros?

- A censura não permite que se trabalhe com o real - diz Valter Avancini, diretor de novelas da Rede Globo.

- Parece que as condições de êxito de uma novela popular são o fantástico e o absurdo, como no tempo da novela, A Rainha Louca. As pessoas que conservassem o espirito crítico sentiam necessidade de sair da sala para não perturbar o enlevo dos crentes, no estado de transe em que ficavam, inebriados justamente com o que havia de mais extravagante no enredo. Até o ponto de se ter vontade de perguntar se só a Rainha estava louca - escreve Barbosa Lima Sobrinho.

- Ter imaginação é fundamental; nenhum texto é imutável: a história é mais importante do que, a mensagem: evite explicações - diz Arthur Haley a respeito das fotonovelas.

E assim, chega-se às saramandaias. Ao homem que tem saúvas (bem graúdas, catadas em formigueiro) no seu próprio nariz. Ao coração que salta do peito. A Dona Redonda, que explode de gorda. Esta, a novela que estréia segunda-feira às 10 da noite na TV Globo, da autoria do mesmo Dias Gomes de Roque Santeiro, iniciando um ciclo que se convencionou, chamar realista fantástico, um meio samba do crioulo doido televisado, na linguagem popular.

"São José roubou Maria / Amontado num jumento / Passando em Belo Horizonte / Perdeu o comportamento / Quis abandonar a maca / Terminou casando à força / Diz o Novo Testamento / A vida de cantaria / Ficou desse vai não vai / Pedra II pensou / Que ainda fosse seu pai / Pra descobrir seu segredo / Viajou de manhã cedo / Pra guerra do Paraguai".

Novo Testamento Segundo Zé limeira, tema de Saramandaia.

Passando pelo coronelismo e a abordagem do desquite, em Verão Vermelho; abandono da batina pelo padre, em Assim na Terra como no Céu; tipificação da vida suburbana do Rio, em Bandeira 2; sátira aos processos políticos, em O Bem-Amado; critica da exploração imobiliária, em O Espigão, fanatismo religioso, queda dos mitos e mistérios jamais desvendados, em Roque Santeiro; Dias Gomes chegou aos absurdos de Saramandaia, onde Wilza Carla deverá explodir em plena tela de tevê e o professor Aristóbolo provar que não dorme há nove anos.

Autor de teatro desde 1942, Dias Gomes escreveu, mas nem sempre pôde ver encenadas as peças, Pé de Cabra, Amanhã Será Outro Dia, Zeca Diabo,. Dr Ninguém, João Cambão, Os Cinco Fugitivos do Juízo Final, O Pagador de Promessas, Invasão, A Revolução dos Beatos, O Berço do Herói, O Santo Inquérito, Dr Getúlio, O Bem-Amado.

- Todo o meu teatro, tudo que escrevi até hoje, se relaciona. Quando temos alguma coisa a dizer, no máximo ha só uma coisa realmente importante a ser dita. E fazemos isso de várias maneiras. Embora algumas das formas, as mais realistas, pareçam agressivas e sejam por isso impedidas. Sou um proibido precoce. Minha primeira peça (Pé de Cabra) foi proibida e O Berço do Herói - a qual vai ser encenada na Universidade de Pensilvânia, para onde vou em setembro, a convite (remunerado), participar de um seminário que durará 10 semanas - foi censurada na noite de estréia.

No escritório sem televisão onde escreve as suas peças e novelas, Dias Gomes explica Saramandaia, o nome de uma cidade que terá ironicamente o mesmo cenário de Asa Branca, de Roque Santeiro.

A tentativa é de fugir ao realismo. Ou seja, equilibrar realidade e absurdo. Ou transmitir a realidade através do absurdo do qual muito, freqüentemente ela se reveste, principalmente nos países latino-americanos, países como o nosso.

A literatura de cordel e os mitos nordestinos, já pesquisados em Roque Santeiro, foram aproveitados.

- Busquei o que havia de fantástico na literatura nordestina. Porque Saramandaia está incorporada a um painel da própria e dura realidade do Nordeste.

Coronéis, padres, prefeitos, homens do campo, cortadores de cana usineiros. E outros personagens perdidos no tempo.

- Há uma tentativa de visão histórica. E por isso o espectador terá algumas surpresas. Vai ver subitamente D Pedro I passar com sua comitiva, seguido de Tiradentes, e outros personagens. Isso entre várias histórias entrelaçadas, alguns mitos como o do lobisomem, tudo numa cidade imaginária da região canavieira do Nordeste, onde o fantástico é encarado como coisa real.

"Pavão misterioso / Pássaro formoso / Um conde raivoso / Não tarda a chegar. / Não tema se a donzela / Vossa sorte nessa guerra / Eles são muitos, mas não podem voar".

Pavão Misterioso, de Ednardo, tema de Saramandaia

O que há de tão espantoso na explosão de uma Dona Redonda? E no formigueiro que o coronel Rosário tem no nariz? Ou no fato de o coronel Aristóbolo não dormir há nove anos?

- Não vejo nada fantástico nisso - diz Dias Gomes. Há gente que não dorme há muito mais tempo. Outros nunca acordaram. O meu chamado realismo fantástico não tem nada de sofisticado. O próprio ponto de partida popular elimina essa hipótese. E assim a gente vai quebrando aqueles tabus impostos pela televisão e seus departamentos- de pesquisa. Por exemplo, quando inseri a figura do antiherói, a pesquisa provava que o público queria sonhar e não ver a realidade na qual estava inserido. Mas tudo foi aceito. O perigo da televisão é justamente a capacidade de transformar qualquer idéia em seriado, em artigo de consumo. Até o fantástico.

E a censura?

- A censura é uma realidade fantástica. Existe e não se pode negá-la. No teatro ela praticamente estrangulou uma dramaturgia em ascensão, proibindo drasticamente a pesquisa da realidade brasileira que vinha sendo realizada antes de 1964. Princípios nos quais se fundamentavam dramaturgos dos anos, 50 passaram a ser considerados subversivos. Dramaturgos como eu, Jorge Andrade, Plínio Marcos e outros, nos vimos obrigados a parar de escrever ou a mudar de casa. O resultado é essa dramaturgia reduzida, desvirilizada, desambiciosa e etecétera.

E a televisão?

- Culturalmente subdesenvolvida, e nem poderia ser, de outro modo. Ela expele fielmente o contexto no qual está inserida. Seria algo que transcenderia até mesmo os limites do fantástico, se tivéssemos uma televisão de alto nível cultural, quando não temos um teatro, um cinema, uma literatura, coisa nenhuma assim. Principalmente porque tudo está sujeito ao terreno fantástico da Censura e seus cortes.

Com 56 capítulos escritos, Saramandaia entra no ar. "Roque Santeiro tinha 52 quando foi impedida, e apenas 10 foram vistos pelos censores. - O fantástico está", diz Dias Gomes - "nas mãos do 'nosso lamentável poder de improvisação"', que recai na direção de Valter Avancini, também responsável pelo núcleo das 10 horas da noite, criado em função das imposições de faixas etárias pela censura: livre, até 19 horas, das 19 às 20, impróprio até 10 anos, das 20 às 21 horas, até 14 anos, das 21 às 22 horas, até 16 anos, das 22 em diante, até 18 anjos, subentendendo-se que todos os filmes ou espetáculos supostamente exibidos para maiores de 21 anos são eliminados.

- A censura - não prevê os maiores de 21 anos - dizem os responsáveis pela divulgação, na TV Globo.

- Não há know-how estrangeiro para o nosso realismo fantástico - diz o diretor Valter Avancini. Há um know-how muito caboclo, a tentativa de utilização de elementos improvisados. Aqui o diretor é também um criador de efeitos técnicos. Só que o peso dessa história :está recaindo no lugar errado. Por exemplo, há muita gente preocupada com o homem que nasceu com asas. Muito mais importante é o homem ainda pensar em voar, o sonho de extrapolar a realidade afogante e estranguladora assim reavivado. Não me deixo impressionar pela proposta do fantástico. Fantástica, esta sim, é a região que visitei, na Zona da Mata, onde um homem tinha acabado de castrar o sujeito que seduziu a filha, onde todo mundo tem uma peixeira e sabe, de cantadores. Onde, aliás, Saramandaia está inserida.

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