Tuesday, May 28, 2013

1976 - Morte de JK mal noticiada

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 25/8/1976
Autor Paulo Maia
SEM NOTÍCIA E SEM MEMÓRIA
A morte do ex-Presidente Juscelino Kubitschek apanhou a televisão brasileira de surpresa e nenhuma emissora soube reagir aos fatos com a presteza e a agilidade de reflexos que se deve exigir de qualquer telejornal que se preze. Afinal de contas, JK não era um político qualquer, mas um dos raríssimos e últimos estadistas nascidos neste país e merecia tratamento mais sério e profundo do que meras reportagens policiais e coberturinhas de enterro, como fizeram os jornais Factorama da Rede Tupi e Jornal Nacional da Rede Globo de Televisão.

Um estadista não é um cantor de boleros ou um jogador de futebol, que mereça apenas uma cobertura circunstancial de sua morte. Uma personalidade política do porte de Juscelino, que já andou a merecer análises de cientistas políticos da maior seriedade (como o mais recente, de Maria Victoria de Mesquita Benevides, e a tese de doutoramento em Cornell, Estados Unidos, de Celso Lafer), exige uma cobertura com um mínimo de posição crítica. Construindo frases bonitinhas, mas ordinárias, os redatores de nossos dois principais telejornais diários noturnos se esqueceram de que Juscelino Kubitschek abandonou suas atividades políticas há mais de 12 anos, o que representa uma geração da população brasileira. Desde que abandonou a Presidência da República, em 1961, o político mineiro tem sido passado na história política brasileira, quando o presente tem-se mostrado tão medíocre em grandes personalidades públicas. Os jovens de 15 anos estão pouco habituados à sua figura e pouco sabem da importância de sua Administração. Esses jovens conhecem Brasília como uma realidade e não, como era à sua época, um sonho a ser realizado. Não viram nascer Furnas, Três Marias e não se lembram da primeira missa da inauguração da nova Capital brasileira. Já que a História oficial do Brasil tem sido injusta e ingrata com um de seus maiores filhos, por que a história oficiosa - que é a televisão - não procura corrigir essa falha, o que seria aliás de sua obrigação?

Acontece que a televisão brasileira é desmemoriada. A Rede Tupi de Televisão deve possuir um dos mais completos arquivos cinematográficos do Brasil. Ninguém viu ser colocado no ar o filme de inauguração de Brasília, a histórica posse de Jânio Quadros, em que se reuniram três Presidentes (o terceiro era o Vice João Goulart) e JK passou a faixa presidencial para um candidato da Oposição (ele era do PSD e Jânio da UDN, lembram-se?). Em vez de ter colocado aquele filme curto mostrando um ex-Presidente cassado num baile no Automóvel Clube de Belo Horizonte, por que não mostrar momentos históricos na vida de um homem infelizmente esquecido e nunca lembrado como um exemplo de fé no país e que demonstrou como a competência pode ultrapassar as metas reais.

Além disso, ainda há políticos e personalidades nessa República capazes de dar depoimentos históricos e importantes sobre o homem morto. Uma lista infindável de personalidades entrevistáveis à televisão poderia ter obtido das emissoras de rádio (eu estava em São Paulo no dia da morte do ex-Presidente e tive oportunidade de ouvir uma cobertura sóbria, séria, digna e histórica, que foi a da Rádio Jovem Pan, e isso me lembrou um fato: a televisão brasileira está mil anos atrás de nosso rádio): o ex-Presidente Jânio Quadros, o ex-Senador Auro de Moura Andrade, o ex-Governador Carlos Lacerda (seu grande adversário e depois seu companheiro da Frente Ampla), o Presidente do Congresso Magalhães Pinto (outro de seus grandes adversários) e muitos outros.

A Rede Globo limitou-se a ouvir depoimentos puramente emocionais (como o de Dona Sarah, a viúva, o do Marechal Cordeiro de Farias e o de Negrão de Lima). Os jornais, de um modo geral, se comportaram de forma muito superior e nada do que aconteceu na televisão é justificável ou perdoável, pois todos sabemos que numa coisa os telejornais brasileiros são eficientes até demais: na imitação e na simples cópia dos jornais impressos. Se os geniais produtores dos telejornais tivessem ao menos lido os jornais do dia (um hábito salutar para qualquer jornalista que se preze) teriam, certamente, achado idéias eficientes de cobertura.

O velório do último Presidente da República liberal, que anistiava seus adversários, mesmo quando eles participavam de golpes contra seu Governo, não mereceu um bom flash direto e até a notícia do desastre na Via Dutra foi dada atrasadamente e de forma improvisada. Juscelino foi o último líder que instilou em todos a força e a fé no otimismo em torno do Brasil. Mesmo ten. do JK seus direitos políticos suspensos, os telespectadores mereciam saber suas últimas posições políticas, o que pensava o então empresário e banquei. ro, político aposentado forçado a um exílio público. O pior é que, no caso do Jornal Nacional, o material filmado já tinha sido, em grande parte, mostrado no Hoje, à tarde, enquanto no caso do Factorama, um texto piegas, péssimamente construído confundia o telespectador.

Alguns poderão alegar que, sendo Juscelino um homem cassado, as emissoras de televisão tiveram pouca liberdade de abordar o lado político de sua vida. É uma tese discutível, pois o próprio Presidente da República decretou luto oficial e seria lamentável que não houvesse condescendência nem mesmo com os cadáveres dos adversários. A morte, por tradição, elimina as diferenças, mesmo políticas ou ideológicas. Isso provaram os adversários do ex-Presidente morto que foram dar os pêsames à família e lembrar a importância histórica de sua vida e de sua lenda. Se houve medo, temor por noticiário comprometedores no horário nobre, ele deve ter nascido mais da covardia de quem os produzia.

JK, o símbolo de uma época, teve uma história, uma biografia ele foi amado, odiado, discutido, respeitado, combatido e noticiado em seu tempo. Com um mínimo de objetividade jornalística seria de se exigir da televisão dados mais completos e mais concretos sobre a vida do homem. Qual a importância histórica do depoimento emocional de amigos à beira do caixão? São lágrimas justas, mas a objetividade jornalística exige depoimentos menos emocionais e mais políticos.

À falta de uma reportagem política, ouvindo cientistas sociais e especialistas, o mínimo que se poderia esperar da programação telejornalística eram dados mais concretos sobre Brasília, a cidade que o homem construiu no planalto central. Em momento algum, as coberturas da Globo e da Tupi, apesar do aparato, do excesso de repórteres, foram objetivas ou deram números. Sua informação era simplesmente vaga: "Muitas pessoas...." e coisas desse gênero.

Onde os depoimentos dos construtores da cidade? Onde os candangos? Onde a memória de nossos ilustres companheiros dos telejornais? Não houve no Jornal Nacional ou no Factorama um só slide que merecesse atenção especial do telespectador. A cobertura foi meramente policial e, até mesmo como cobertura policial, foi lamentável em todos os sentidos, demonstrando-se mais uma vez a indigência mental dos homens de televisão quando têm de enfrentar fatos, realidade e alguma profundidade histórica.

O Brasil é um país sem memória. Não se pode culpar apenas a televisão por isso. Mas quem viu as coberturas da Globo e da Tupi sobre a morte e o sepultamento do ex-Prefeito de Belo Horizonte, do ex-Governador de Minas Gerais e do último Presidente da República - Juscelino Kubitschek de Oliveira - eleito por voto popular direto a terminar seu mandato, enfrentando com tolerância política e competência administrativa grandes problemas econômicos e crises sociais, e passar a faixa presidencial para um opositor também eleito constitucionalmente por voto popular, tem consciência hoje de que o veículo eletrônico de comunicação de massas tem contribuído pari essa trágica realidade nacional. Afinal, uma televisão desmemoriada não pode ser a memória eletrônica de uma Nação, por mais emergente que ela seja.

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