Sunday, May 19, 2013

1976 - Intelectuais contra Saramandaia

Revista Movimento
Data de Publicação: 12/7/1976
Autores: Dermeval Coutinho Netto e Delfim Afonso Jr.
CULTURA POPULAR NA TV OU A VOZ DO DONO
Dois leitores do Movimento criticam a defesa que Dias Gomes faz da novela

O lançamento nas telas da tv brasileira da novela ''Saramandaia'' - uma produção da Rede Globo - vem trazer, a público a mais recente proposta da nossa televisão, na forma da incorporação ao seu cast de uma nova atração: a cultura popular.

No ar desde o dia 3 de maio, no horário das dez da noite, a novela "Saramandaia" vem talvez tentar atender a solicitações já bastante freqüentes por parte de setores críticos à tv, inclusive setores do próprio Governo, no sentido de dotar a tv de uma linguagem e de conteúdos mais brasileiros, e ter sua atenção mais voltada para aspectos da cultura nacional.

A proposta temática da referida telenovela se põe exatamente na tentativa de inaugurar esse novo ponto de vista, acreditando e tentando fazer crer que o universo cultural do Nordeste, a vida do homem rural, as significações de uma cultura popular brasileira, possam ser reproduzidas em suas conexões e articulações reais pelos aparelhos da indústria cultural. E o próprio autor de "Saramandaia", o escritor Dias Gomes que, em entrevista a Movimento nº 46 de 17 de maio de 76 (1), sai em defesa da telenovela, afirmando que esta tem a possibilidade, como no caso dos romances, de divulgar as realidades regionais brasileiras. Interessa-nos aqui estabelecer algumas reflexões que coloquem em questão essa possibilidade de relação, de convivência, entre uma cultura popular e os conteúdos da indústria cultural, colocando também em discussão alguns pontos, formulados, em nossa opinião, de maneira equivocada pelo escritor-novelista da tv Globo, que dizem respeito aos termos em que, se estabelece o discurso da tv brasileira.

INDÚSTRIA CULTURAL E CULTURA DOMINANTE - A indústria cultural não está dada a partir de um levantamento de "programas". O que se entende por esse tipo de indústria não pode ser esgotado apenas ao nível de uma simples citação de produtos. Para compreender as suas condições de produção, somos levados a dizer que seus produtos não são programas mas significações. O discurso dos chamados meios de comunicação de massa está construído a partir de um sistema de inclusão e exclusão de elementos (como, por ex., a escolha de temas a serem abordados e o tratamento que a eles é dado) no sentido da delimitação de um espaço, indicando o que merece ser visto, admirado e retido, do mesmo modo como os mapas e guias turísticos assinalam os "pontos de vista", os monumentos ou as paragens. Essa lógica de funcionamento dos mídia, que não é propriedade apenas deles, se encontra diretamente relacionada com a idéia de um ''arbitrário cultural dominante". Referimo-nos ao fato de que a sociedade elege e reproduz através de suas práticas culturais determinados valores que dizem respeito aos interesses das classes dominantes desta sociedade, e que se constituem em significações dominantes que devem preencher o espaço social. A formação de "um arbitrário cultural dominante'' é, por. tanto, o resultado do processo de imposição dos interesses das classes dominantes nos diversos lugares da sociedade.

A televisão e os outros meios constitutivos da indústria da cultura operam basicamente no sentido da inclusão das significações consideradas legítimas e dignas de serem transmitidas, ou seja, as significações dominantes na sociedade. O que temos é, portanto, a cultura dominante, selecionando os meios e instrumentos que considera mais adequados à tarefa de transmissão das significações eleitas por ela, e que são apresentadas na forma de bens simbólicos.

Segundo Pierre Bourdieu (2), o sistema da indústria da cultura constitui-se numa modo de produção cultural que se põe numa relação de oposição e ao mesmo tempo de dependência, ao que o autor chama de o campo da produção erudita. Seriam, pois, dois modos de produção que estariam opostos e separados tanto pela natureza das obras produzidas, pelas ideologias políticas e teorias estéticas que as exprimem, corno pela composição social dos diversos públicos aos quais tais obras são oferecidas. Entretanto, a oposição entre esses dois modelos de produção só pode ser melhor compreendida e definida através das relações que estes mantém entre si, já que por mais que se oponham, tanto por suas funções, como pela lógica de seu funcionamento, coexistem no mesmo sistema. Segundo Bourdieu, essa coexistência se expressa no fato de que a cultura produzida pelos mídia não é autônoma ao contrário, ela seria objetivamente definida pelo fato de estar condenada a definir-se em relação à cultura legítima. E essa impossibilidade de uma arte média - a cultura dos mídia - reivindicar sua autonomia, deve-se, entre outras razões, ao fato de que boa parte de seu encanto junto aos que a consomem resulta das referências à cultura erudita nela presente, que predispõem e autorizam o consumidor a identificá-la com esta cultura.

Essa reprodução das significações dominantes dá, na indústria da cultura, entre outras formas, sob a estratégia da retradução e adaptação de temas, assuntos mais consagrados, ou mais fáceis de serem restruturados segundo um código acessível ao grande público.

No caso específico da tv brasileira e, mais ainda, do gênero telenovela, o seu quadro mais recente aponta exatamente nesta direção. Entre as produções da Globo podemos encontrar a preferência bastante marcada por autores e temas representativos que possibilitam a diluição de significações encontradas no estoque simbólico do campo da produção erudita: por exemplo, na novela "Bravo", onde se contava a estória de um maestro/compositor erudito, um dos objetivos mais importantes era a divulgação e a popularização de uma arte musical consagrada pelos cânones da cultura dominante, na tentativa do refinamento do ''gosto popular''. Este princípio é retomado de certo modo na novela "O casarão" que, através da figura de um de seus personagens centrais - um pintor propõe-se a aproximar do grande público o oficio e os valores de uma arte plástica produzida e distribuída segundo as regras do mercado dominante. Por sua vez, as novelas apresentadas no horário das 18 horas determinaram-se a adaptar e a vulugarizar textos clássicos da literatura brasileira ''A Moreninha'', "Helena'', ''Senhora'', "O Noviço'' etc. - carregados de significações já submetidas às instâncias de consagração da cultura oficial (vem aí "O Sítio do pica-pau amarelo'', não percam). A própria presença na tv de autores oriundos do teatro (como é o caso de Jorge Andrade e Dias Gomes) cumpre a escalada progressiva de referenciar os artigos dessa indústria da cultura pelos padrões legítimos do mercado simbólico dominante.

Essas operações de retradução levadas a cabo pela indústria cultural desenvolvem-se tendo como base a disposição ávida e ansiosa em relação à cultura, despertada no público médio consumidor, e que conduz esse público à um falso reconhecimento. Trata-se de erros de identificação construídos para oferecer aos que deles são vítimas a ilusão de apossar-se da cultura legítima. Os bens culturais aí oferecidos constituem uma espécie de "cultura símile" dessa cultura legítima. De qualquer forma, o que prevalece sob a construção desse blefe é, o processo de imposição pedagógica que estabelecem os mídia - em particular a tv - que possibilita a inculcação das significações consagradas pelas classes dominantes. (3).

COMO DOMESTIFICAR O PAVÃO MISTERIOSO - Na sua entrevista a Movimento, o escritor Dias Gomes afirma que "a novela é um produto nacional que está focalizando uma realidade brasileira, personagens brasileiros, feita por brasileiros''. Diz ainda o nosso autor que a novela está divulgando uma realidade regional brasileira e que "existe uma vanguarda que colocou a novela dentro da realidade brasileira, que está procurando analisar essa realidade através de vários estilos, vários autores".

O que nos interessa é pensar que realidade a tv está divulgando? Ou, talvez, que realidade pode a tv estar divulgando?

O princípio básico que orienta o questionamento da tese, segundo a qual é possível a cultura popular na tv - tese que sustenta a telenovela "Saramandaia'' - se baseia na idéia de que as culturas regionais são culturas dominadas.

Referimo-nos ao fato de que o arbitrário cultural dominante (que a TV é incumbida de reproduzir) não permite o comparecimento daquelas culturas nos circuitos institucionais dos bens simbólicos, na medida que elas, não estão sancionadas pelas instâncias de consagração dominantes. Não é, portanto, a cultura popular que está na tv, como não é a tv que a partir disso está focalizando, de dentro.a realidade brasileira.

Ocorre que a presença de elementos de culturas dominadas, ou formas de narração da cultura popular transpostos para a tv, não significam a superação das condições de dominação, nem tampouco o emergir de uma fala, reprimida historicamente. Pois a cultura popular, além de sua condição de excluída, situa-se numa posição antagônica ao arbitrário cultural dominante, representando uma contra-legitimidade cultural.

Em outras palavras, a emergência de uma cultura popular no interior do sistema provocaria a introdução de ambivalências e contradições que viriam a por em cheque a própria estabilidade desse sistema. Seria o confronto de padrões culturais, o que constitui uma ameaça ao edifício das significações dominantes. A cultura popular, em sua condição de à margem - de contra-legitimidade cultural - se investe ao mesmo tempo da condição de contra-instituição e contra-cultura, que exprime uma contra-sociedade. (4)

A indústria cultural só nos mostra elementos ou fragmentos dessa cultura regional, que já tenham sido sancionados. Se a ação social do folheto de cordel já tiver sido cristalizado pela designação estática do folclore, se estiver devidamente classificado e etiquetado no universo das significações que se permite o arbitrário cultural dominante, então o novelista de televisão pode trabalhar sob a inspiração dessa cultura desfigurada.

A presença da novela "Saramandaia" na tv está na relação direta com a postura que a cultura dominante tem frente a cultura popular, é o espaço do folclore, olhado pelo campo da produção erudita como tradição - aspectos genuínos de uma cultura brasileira, com roupas de um passado e cuja única atualidade permitida é a de servir como objeto de pesquisas a atender a chamados que a reduzem a peças em exposição. É dessa forma, sob esse critério, que o valor folclore sofre a operação de retradução para a retórica dos mídia.

O projeto da referida novela vem ainda, em última instância, servir de vitrina à pretensa tese de que a tv brasileira melhora de nível. É ainda o nosso escritor- novelista Dias Gomes quem declara que ''a novela brasileira adquiriu uma qualidade superior, que alimenta pretensões estéticas etc". Estamos aí diante de uma proposição que, a nosso ver, desloca o debate a tv para, a falsa questão da higienização de seus conteúdos. Na verdade esta higienização não muda significativamente a indústria da cultura, uma vez que não é alterado o arbitrário cultural dominante. Cabe ainda apontar que as leis que regem escolhas do que será a programação de uma emissora de tv não são meras determinações de um autor ou de um diretor de novelas. Desse modo, "Saramandaia", enquanto telenovela, está determinada não só pelos interesses mercadológicos de uma empresa de comunicação, como também se determina de acordo com as expectativas criadas pelas legitimações vigentes. Temos na citada novela o mesmo filão lucrativo encontrado em outras novelas de temas regionalistas - como "O bem amado", ''Irmãos Coragem" e "Gabriela" - e também mais uma forma de enfatizar o projeto da nacionalização de produções. A telenovela tem como instância autoral a unidade coletiva de produção que, nos moldes ocidentais da indústria cultural, produz suas significações de modo impessoal, estandardizado - produtores alienados da sua produção mesma, que está sempre sujeita ao remanejamento e a recuperação pelas instâncias do bom senso, do bom tom e do bom lucro.

No sentido ainda de opor algumas idéias às teses defendidas por Dias Gomes, acrescentaríamos que a telenovela não é, e nunca será, uma obra aberta como este pretende. A televisão, além de seu desempenho como veículo reprodutor de uma cultura dominante, tem como traço básico de sua condição de mídia a relação de poder que institui com seu público. Acreditar e afirmar que ''o desenvolvimento da telenovela pode ser alterado (...) pela própria reação do telespectador (...) o que concede àquela o caráter de espetáculo vivente", é desconhecer que qualquer resposta que se dê à tv, seja através de cartas, telefonemas ou via pesquisas de audiência, são respostas já previstas por esse sistema que tem e detém a palavra. Conforme Muniz Sodré, ''não há relação de diálogo possível com a tv, não há meio de transpor a barreira que já está dada e prevista sistematicamente, eletronicamente, ou institucionalmente (...). Toda e qualquer linguagem, toda e qualquer fala mediatizada pela televisão, é uma fala condenada à estabilidade, porque é uma fala sem resposta possível" (5)

(1) Entrevista concedida por Dias Gomes a Célina Whately, sob o título A cultura popular na "máquina de fazer doido".

(2) Bourdieu, Pierre - O Mercado de bens simbólicos in A economia das trocas simbólicas, Perspectiva, São Paulo, 1974.

(3) A cerca da indústria cultura no Brasil, e de seus modos de imposição simbólica, ver Sérgio Miceli: A noite da madrinha, Perspectiva, Coleção Debates, São Paulo, 1972.

(4) Com relação à impossibilidade da emergência de manifestações das culturas dominadas, ver Marco Aurélio Luz e Georges Lapassade - O segredo da macumba, Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1972

(5) Sodré, Muniz - Palestra proferida sobre televisão no Ciclo de debates do teatro Casa Grande, maio de 1975, editado em Coleção Opinião, Inúbia, 1976.

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