Sunday, May 19, 2013

1976 - Em defesa de Saramandaia

ornal do Brasil
Data de Publicação: 15/10/1976
Autora: Maria Helena Dutra
A HONROSA EXCEÇÃO
Apesar dos pesares, Saramandaia é a única e honrosa exceção dramática, no momento atual da televisão, q u e foge aos padrões bem-comportados d as outras telenovelas. Os elogios não podem ser mais exuberantes, porém, porque os pesares são bastante fortes nesta produção das 10 da noite da Rede Globo. E o primeiro deles é a forma subliminar, para os incautos, e insuportável, para os menos inocentes, de forçar a propaganda comercial dentro da própria novela. Além dos famosos passeios à toa dos intérpretes para vender a trilha sonora, se acrescentam outros semelhantes, em frente dos remédios da farmácia, do cartaz de adubos da praça e dos anúncios de refrigerantes espalhados pelo bar.

Estes recursos, também constantes das pornochanchadas do cinema e do pior teatro infantil, agridem o espectador mais insensível. Da lista dos pesares, constam mais os tormentos de seu esticamento, devido às dificuldades encontradas com a Censura para estruturar a telenovela que irá lhe suceder. Baby Stompanato, de Bráulio Pedroso, teve seu texto vetado, um romance de Jorge Amado e a tentativa de Walter George Durst em sintetizar a obra teatral de Nelson Rodrigues tiveram o mesmo destino. Com o prazo se esgotando, o resultado foi espichar certos eventos e finalmente para preparar sua afinal liberada substituta - O Casamento, de Walter George Durst, que só poderá estrear em janeiro - a novela vai ser outra vez aumentada, apesar de já ter sido totalmente escrita por Dias Gomes, no momento nos Estados Unidos, e de ter suas gravações quase encerradas.

Mesmo assim, Saramandaia vai crescer e deverá evidentemente ficar insuportável. Antes que isto realmente aconteça é preciso fazer justiça e ver, que até agora pelo menos, Saramandaia tem importância pela agressão à religião do bom gosto, da medida certa e da banalidade internacional que imperam em suas concorrentes. Proibido de ser realista pelo total veto da censura imposto à sua novela anterior, Roque Santeiro, Dias Gomes lhe acrescentou o apodo de fantástico e partiu para a lorota rasgada acobertado por teorias inconsistentes. Montou um grande circo, no princípio meio cambaleante por parecer demais um festival de ecos, em personagens e linguagem, com suas produções anteriores.

Impressão essa desfeita após seus dois primeiros meses de exibição, para quem começou a prestar atenção nos detalhes, esqueceu a história geral manietada pela censura, e se aborreceu com as bizantinas discussões sobre o valor e a originalidade de seu linguajar. Dentro deste angulo, Saramandaia escapa da vala comum por tentar mostrar ainda algumas peculiaridades d a realidade brasileira, mesmo escondida em subterfúgios e lendas esotéricas, E, principalmente, agride o padrão insosso falsamente cultivado de um bom gosto, procurado por outras novelas e que fica a léguas de distancia da real cultura e do estilo da nossa melhor literatura popular. Porque nelas, como em Saramandaia, pululam formigas que saem pelo nariz, asas em adultos e crianças, mulheres que queimam por dentro ou amam lobisomens e de gordas que acabam explodindo. E, principalmente, de homões, auxiliados por hominhos repletos de duvidosos e frágeis carismas que exercem o poder e a autoridade de maneira arbitrária e confusa, tudo exigindo e sendo respeitado apenas por saber falar mais alto.

Esta é, sem dúvida, a grande virtude de Saramandaia - persistir, tentar resistir dentro da terrível máquina na manutenção de valores, estilos e vestígios regionais. Não falar idiomas universais, não adulterar de maneira hollywoodiana as histórias brasileiras, n ã o brincar de rock, mesmo nostálgico, e nem apelar para esquemas complicados d e narração atemporal para esconder a falta de conteúdo social de seu discurso. Uma importância que se torna bem mais clara quando se abandona por alguns dias a cidade do Rio de Janeiro e se contempla mais uma vez o velho problema insolucionado da alteração de valores que a televisão provoca nas mais distantes cidades do Brasil. Tanto no Amazonas como no Pará, a programação das estações é igual à daqui, apesar das incríveis diferenças naturais, populacionais e sociais. Se o mundo da televisão no Rio é distante de nossa realidade, nestes estados a hecatombe é acachapante, pela confusão mental que provoca através da constante distilação de informações erradas e dados irrelevantes.

Ao tentar conservar pelo menos o espírito destas manifestações, Saramandaia se torna a mais conseqüente e menos alienada produção atual de nossa imatura e atrapalhada televisão. Um pobre veículo que pode transmitir os debates de Gerald Ford e Jimmy Carter pela Presidência dos Estados Unidos e é impedida de exibir encontro semelhante entre os Senadores Franco Montoro, do MDB, e Petrônio Portela, da Arena, discutindo as próximas eleições municipais em todo o país.

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