Sunday, May 19, 2013

1976 - Dina Sfat em Saramandaia

Amiga TV
Data de Publicação: 9/6/1976
Autor: Pedro Porfírio
RISOLETA ESTÁ A DEIXAR DINA SFAT MUITO CONFUSA
Ela ainda se sente confusa entre Chica Martins, Zarolha e Risoleta e acha que Saramandaia deveria ser feita no Nordeste

''Ainda não sei fazer o meu papel em Saramandaia. Estou tateando. Ele anda meio ao lado de algumas outras coisas que vinha fazendo, como a Chica Martins; e a Zarolha. Não tem nada que ver, mas tem. No comportamento, na postura, na maneira de ser. Eu gosto desses personagens marginais. Mas, por outro lado, quando se faz. um personagem parecido tem que dar um jeito para que ele não fique igual. Várias vezes já me peguei gravando como caipira. É costume, influência da Chica Martins, um personagem muito criado por mim claro que da Janete, mas muito criado por mim. Aí eu percebo que tenho que procurar a melodia nordestina, o seu sotaque. É um cuidado permanente."

Diria Sfat não se assusta quando dizem que repete Zarolha e, embora ache Saramandaia uma novela inteiramente diferente de Gabriela, reconhece que, no seu caso, um personagem é parente do outro. Sua preocupação principal, porém, é situar-se no contexto de uma peça que, em sua opinião, bem que poderia ser confiada a atores da própria região, e lá mesmo se realizar.

"Se a novela se passa no Nordeste, se a gente tem tão bons atores lá, ideal seria haver um deslocamento até o próprio cenário da história. Talvez não se pudesse fazer um elenco com todo o pessoal de lá, mas haveria muita gente que aproveitar. Nesse caso, se gravaria a novela em 40 a 60 dias, numa espécie de locação. Isso é o ideal, mesmo porque até os que se deslocarem Para lá acabarão por assimilar melhor o sotaque. Acho fantástico observar o sotaque, porque é uma maneira de não apagar a história. O que está acontecendo no Norte-Nordeste é que a população de lá está recebendo uma grande carga de informações e modos do Sul, sofrendo, portanto, uma influência que acabará por descaracterizar sua linguagem. Uma novela como Saramandaia tem o mérito de preservar essa cultura própria de uma região.

- Você está sob pressão de dois personagens de regiões diferentes, a Chica Martins e a Zarolha.

- Eles estão em mim, mas não podem ser vistos como problemas do texto de Saramandaia. Os três se parecem porque não têm muito psicologismo, não têm muita coisa interiorizada. Por causa disso, vão ser personagens iguais, pelo menos nesses aspectos.

- Saramandaia é uma Gabriela?

- A novela, não. Saramandaia é completamente diferente. Já li até o Capítulo 50. Não tem nada a ver com Jorge Amado. Se compararmos com maior cuidado, Risoleta tem muito mais de Chica Martins, da Janete Clair.

- E você não está correndo o risco de se repetir?

- Pode ser que esteja. Não acho nada dramático acontecer isso. Não é isso que me aflige.

- E o que é que lhe aflige?

- Nada. O que sinto é que as propostas são grandiosas demais, dando-me a-impressão de que as produções não conseguem acompanhar. Há capítulos na novela que dão quase um filme.

- Em que Saramandaia acrescenta?

- O principal dela é o tipo de humor, que me agrada muito. A observação dos fatos pelo lado do riso.

- Você já conhecia bem o Dias Gomes?

- Já trabalhei em Verão Vermelho e Assim na Terra Como no Céu.

- Não tem nada a ver com Saramandaia.

- Mas o senso de humor lhe é característico. Em suas últimas novelas, os personagens femininos eram mais fracos. Nas duas primeiras novelas que eu fiz os personagens femininos, o meu por exemplo de Assim na Terra Como no Céu, eram odiados. O meu era agressivo, sem condimentos, e eu gostei muito, porque era forte. Eu tinha pavor, mas o Dias conseguiu encaixar o personagem em mim. Depois, ele entrou numa série como no Bem Amado, em que os personagens eram mais fracos, embora fossem novelas muito boas. Em Saramandaia, eu acho que ele retoma um pouco as mulheres, criando personagens femininos mais fortes.

- Até que ponto o personagem pesa na carreira do ator?

- Hoje, a relação é diferente. Um ator que faz o papel de vilão já não carrega esse peso, porque um vilão, num Dias Gomes, pode ser um cara adorável. Eu nunca fui uma atriz popular, porque, então, pegava papéis mais antipáticos. Com Chica Martins, a receptividade foi outra. Chica Martins era o lado mais enlouquecido da Janete, que é o que eu gosto de fazer.

- Você tem saudades da Chica Martins?

- Não tenho saudades de personagem nenhum. Chica Martins foi importante naquele momento. Um personagem acaba com a novela. Hoje, principalmente, minha relação com os personagens é mais tranqüila. Não tenho mais ansiedade, o medo que tinha antes. Já não sofro mais aquela angústia de não poder parar. Todo trabalho, hoje, eu faço por opção livre, sem aquela pressão de antes. Isso se reflete naturalmente na minha relação com o personagem, com a novela.

No comments:

Post a Comment

Followers