Sunday, May 19, 2013

1976 - Dias Gomes sobre Saramandaia

Revista: Movimento
Data de Publicação: 17/5/1976
Autora: Celina Whately
A CULTURA POPULAR NA "MÁQUINA DE FAZER DOIDO"
Na novela Saramandaia, Dias Gomes tenta utilizar uma linguagem de cordel. Aqui ele debate, em entrevista a Celina Whately, a telenovela brasileira

Bole-bole é o nome de uma cidadezinha da zona canavieira nordestina, que está vivendo um intenso conflito "Político": elementos "mudancistas" estão tentando mudar o nome tradicional da cidade para -Saramandaia". O tema, talvez inspirado numa polêmica verdadeira que aconteceu no ano passado, numa cidade gaúcha de nome "Não-Me-Toques", vem se desenvolvendo desde o dia 3 de maio no horário das dez da noite, na novela "Saramandaia", escrita por Dias Gomes para a tevê Globo.

No entanto, mais do que o fato de se passar no Nordeste - outra tentativa, portanto de se ampliar a temática da televisão para além do cotidiano paulista e carioca, tentativa essa que foi bem sucedida já em 1973 com O Bem Amado e vem se repetindo a partir de então - Saramandaia chama a atenção pela maneira com que tenta abordar, na televisão, o ponto de vista nordestino sobre a vida. Fazendo uso do "surrealismo de cordel" e do "realismo fantástico", muito presentes na literatura, arte e poesia populares da Bahia ao Ceará, Dias Gomes está tentando, com as possibilidades técnicas que a televisão oferece corno meio de comunicação de massas, contar sua história numa linguagem diferente da que até então se empregou na telenovela. O que, por si só, já é assunto muito mais polêmico do que aquele que serve de tema para Saramandaia.

Quando se tenta transportar para a televisão, veículo de massas, elementos de uma cultura local, muitas vezes divulgada oralmente, o risco de se alterar o significado desses elementos é muito grande. O que significam, jogados no meio da novela (que, nas outras cenas de amor, diálogos em família, discussões políticas, relações interpessoais e problemas emocionais dos personagens em geral, não alterou em nada sua linguagem melodramática tradicional) um sino que toca sem badalo, um homem que tem um formigueiro no nariz, um defunto que ressuscita, uma gorda que explode, um médium que (tudo indica) tem uma ponta de asa nascendo nas costas? Corre-se o risco dessas imagens adquirirem um significado puramente cômico, "folclórico", não acrescentando nada que possa modificar a compreensão de telespectadores de todo o Brasil em relação à cultura popular do nordeste. As crenças, a, estórias que passam de boca em boca, parecem mero fruto da ignorância ou da infantilidade, de uma cultura "menor".

No entanto, se situados no verdadeiro contexto da vida em certas regiões do nordeste - que a televisão, por limitações de diversos sentidos, não mostra - elementos de realismo fantástico poderiam ser entendidos de outra maneira. Como a linguagem cifrada de um povo que se defende de invasores estranhos a ele, e contra os quais não tem outro modo de reagir. Ou como a reinterpretação imaginária (isso é, ao nível das imagens) de uma realidade que precisa ser às vezes fantasiada para que possa ser suportada. Todas essas possibilidades de significação da cultura popular correm o risco de se perder na novela, da forma em que essa cultura é colocada. O que não quer dizer, que seja impossível se fazer telenovela utilizando esses aspectos da vida brasileira, mas sim que essa utilização é muito mais complicada do que parece, é que Saramandaia, como primeira tentativa, levanta problemas que precisam ser analisados.

Por sua vez, a telenovela em si mesma, transplantada do rádio, co-irmã da fotonovela, inegavelmente herdeira dos folhetins do século passado, conquistou há muito o seu lugar no debate cultural do presente. Enquanto alguns a defendem como contraforte do nacionalismo, outros ainda a encaram como sentimentalóide, alienante e açucarada - coisa que pelo menos em parte, ela já deixou de ser. No Brasil, vem se firmando em parcela considerável de autores, artistas e intelectuais a perspectiva de que a instalação de uma indústria cultural em moldes avançados" em estilo "norte-americano- seria uma resposta eficiente e adequada à invasão cultural a que diariamente submetem nosso povo.

Em entrevista com Dias Gomes, o autor de Saramandaia, de várias peças de teatro e outras telenovelas Movimento põe em debate as possibilidades da novela brasileira.

Dias Gomes - A novela ou telenovela na forma que adquiriu no Brasil é um fenômeno essencialmente brasileiro. Aqui o gênero adquiriu características próprias que o diferenciam dos similares americanos, europeus ou latino-americanos cada vez mais. Quer na forma, quer no conteúdo, quer notadamente, na produção do espetáculo, essa personalidade adquirida por nossa novela chega ao ponto de podermos considerá-la um gênero novo, uma nova forma de expressão. Na verdade, a única coisa que a televisão brasileira conseguiu inventar em 25 anos de existência. Além da abordagem temática e da preocupação em desenvolver uma linguagem própria, a novela brasileira difere de todas as outras formas de expressão artística por ser uma obra inteiramente aberta. Enquanto em todas as épocas, o fenômeno artístico é apresentado ao público como fato já acontecido, acabado, na novela a obra está acontecendo. Na pintura, no cinema, na literatura, escultura, o artista termina sua obra e depois submete à consideração do público sem que essa consideração, através de qualquer tipo de reação possa influir na feitura da obra. E seja qual for o julgamento, a obra não se altera. Dela, o leitor, o espectador ou o apreciador não participa de modo algum. Das artes tradicionais, somente o Teatro possui, em dada medida, essa característica de obra aberta mas sua abertura é limitada. Já na telenovela essa abertura é quase total, constituindo uma característica própria do gênero, aquela que pode qualificá-lo como uma nova forma de expressão, junto com o desenvolvimento tecnológico inerente ao nosso tempo. O fato do autor ir escrevendo os capítulos e estes irem sendo gravados e levados ao ar sem a obra estar concluída dá ao público a sensação não proporcionada por qualquer outra obra de arte de que está testemunhando algo que está acontecendo. O desenvolvimento pode ser alterado, como de fato pode, cujo fim é imprevisível, como às vezes é, e está sujeito a fatores externos, extra-obra, entre os quais a sua própria reação de espectador. Isto concede à novela o caráter de espetáculo vivente, ficção dependente da realidade. Se as novelas passassem a ser levadas ao ar somente após concluídas totalmente não só perderiam esse atrativo, como também perderiam aquela característica essencial que as fez evoluir entre nós para um gênero melhor. A exigência (de que o governo cogitou, tendo-se falado inclusive em baixar uma portaria nesse sentido) de que a novela fosse apresentada à censura totalmente concluída acarretaria senão a morte definitiva do gênero pelo menos a diminuição de seu consumo e do número de produções, isto é, restrição de um campo de trabalho para autores, atores, diretores e técnicos, num momento em que o teatro e o cinema enfrentam crises permanentes. que é mais grave: a abertura de brechas nos horários nobres para a penetração de produtos estrangeiros da qualidade nunca superior, com a conseqüente evasão de divisas, além dos prejuízos culturais, num momento em que o governo se propõe diminuir importações para tentar equilibrar nossa balança de pagamentos.

Movimento - E quanto a freqüente acusação de ser a própria novela um enlatado que percorreria o Brasil de ponta a ponta?

DG - Não capto bem o preconceito que a pergunta envolve porque eu não tenho nada contra uma coisa vir em lata, me interessa o conteúdo da coisa que vem na lata. Dentro de uma lata pode estar até uma jóia que colocada numa lata continua sendo uma jóia. A novela é, evidentemente, enlatada para depois percorrer o Brasil, como o cinema também. Mas quando nos referimos aos enlatados norte-americanos nos referimos de uma maneira pejorativa, a um subproduto cultural e alienígena que vem difundir, infiltrar entre nós não só uma visão de mundo que não é a nossa, concepções de vida que nada tem a ver com o nosso povo, como também elementos de uma cultura estranha, em detrimento da nossa. Por isso nós somos contra os enlatados americanos. Agora, equiparar a novela aos enlatados me parece uma profunda injustiça porque a novela é um produto nacional que está focalizando uma realidade brasileira, personagens brasileiros, feita por brasileiros.

M - O fato das novelas serem feitas no Sudeste, por exemplo, segundo os esquemas da indústria cultural, mesmo quando retrata coisas do sertão, não seria o mesmo que estar impingindo ao resto do país uma visão restrita da realidade?

DG - Não, ela está divulgando, como é o caso dos romances. Jorge Amado exporta para o Brasil inteiro uma realidade baiana, nordestina. Então nós teríamos que ser contra ele. O Érico Veríssimo exportava a realidade gaúcha. Todos os autores falam da sua realidade. Então, como iriamos fazer a novela? Baseados numa realidade média nacional? Seria difícil encontrar essa realidade porque o Brasil é um país imenso, das mais diferentes realidades. A novela é feita no Rio e em São Paulo, mas com base numa pesquisa. O lugar onde ela é feita, acho que não tem grande importância. Tem que se ver é sobre a autenticidade daquilo que ela fala. É claro que ela pode ser totalmente inautêntica e ser feita no Nordeste. Seria uma questão de transportar uma maquinaria de um local para outro. Freqüentemente vai se gravar num outro Estado para se dar uma maior autenticidade, depois, numa continuidade, se usa um cenário parecido que possa ser encontrado aqui no Rio, por ser mais próximo.

M - E quanto à exportação de novelas para outros países, como o caso de O Bem Amado, que passou em alguns países da América Latina?

DG - Essa exportação de novela que se está procurando fazer agora encontra imensos obstáculos. Isto porque as novelas americanas, mexicanas, sul-americanas tem uma qualidade inferior como produto cultural. Elas são feitas para um determinado tipo de público, pouco exigente, acostumado à novela de folhetim, sentimentalóide. Então a exportação da novela brasileira que adquiriu uma qualidade superior que alimenta preocupações estéticas, etc., ela não pode preencher o lugar ordinariamente ocupado por esse produto cultural americano. Ela não se destina essencialmente àquele público, e sim a um público muito mais amplo, que vai de A a Z, do intelectual ao operário.

Para colocar nossa novela, lá fora, num horário nobre como é no Brasil, eles têm medo porque o público americano está acostumado a um outro tipo de programa - os shows - os seriados policiais, etc. Este é o primeiro obstáculo à comercialidade do produto. Outro, é que o comércio internacional dos enlatados para televisão está nas mãos de uma verdadeira máfia. É muito difícil conseguir uma brecha para varar isso. Se você correr televisão por televisão, no mundo todo, com raríssimas exceções, entre as quais está a televisão brasileira, as programações são muito semelhantes. Realmente há um trust que domina o mundo inteiro da televisão. É o trust americano que exporta os enlatados americanos. Uma vez li até numa revista americana, TV-Guide, um artigo em que se examinava a programação de várias emissoras de televisão do mundo todo e em todos os continentes, chegando a seguinte conclusão: de que a programação do mundo inteiro era extraordinariamente semelhante a da televisão americana, com exceção única da televisão dos países socialistas, da BBC e, por estranho que pareça, da televisão brasileira.

M - Poderia dizer o que justificaria (caracterizaria) essa "autenticidade" da novela?

DG - Não se pode falar assim: a novela. Então, não se pode falar da autenticidade da novela. Existiu, por exemplo, uma vanguarda que colocou a novela dentro da realidade brasileira, que está procurando analisar essa realidade através de vários estilos, vários autores. Muitas pessoas participaram desse movimento iniciado em 1970: a Janete Clair, por exemplo, que não vinha do teatro; outros vieram do teatro, como eu. Outros ainda: Jorge de Andrade, Lauro César, Bráulio Pedroso, todos vindos do teatro. Também diretores, pessoas que já eram da televisão, etc. Esse movimento começou com Verão Vermelho

e Véu de Noiva que já eram temáticas que abordavam a realidade brasileira. Ao mesmo tempo havia em São Paulo, a novela Beto Rockfeller. Assim se chegou até a forma que a novela tem hoje que não considero definitiva, mas considero, dentro da linha de evolução, vários

degraus acima do que se começou. Mas, talvez pelo público imenso que adquiriu, ou por ser um coisa nova, a novela geralmente, desperta muitas prevenções. Sendo uma forma que não se enquadra nos moldes velhos, as pessoas não sabem como se orientar para analisá-la. Esse

é o problema dos críticos - eles sempre querem criticar a novela como se fosse teatro, cinema. Mas eu também tenho críticas a fazer à novela. Acho, por exemplo, que a novela como a televisão, em geral, é uma forma de arte efêmera e isso dá aos autores uma grande frustração. A televisão é uma coisa que existe enquanto existe, enquanto está no ar, no dia seguinte já foi e já era. Com a novela também se dá isso. A novela não fica, não é como livro, guardado em estante, folheado de vez em quando; dificilmente uma novela volta, a não ser no ano passado Selva de Pedra - por circunstâncias muito especiais.

As condições de trabalho ainda hoje são muito precárias tanto para autores, como para diretores e atores, e não possibilitam um aprimoramento. E nisso aí entra também um pouco nosso feitio de fazer as coisas, nossa característica de improvisação. Que pode ser uma qualidade, mas que mas que na obra de arte às vezes resulta em graves defeitos.

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