Monday, May 27, 2013

1972 - A Ira de Nery contra Roberto Civita

O Estado de S. Paulo
Data de Publicação: 2/5/1972
[matéria paga]
CARTA ABERTA A LAUDO NATEL
"Senhor Governador:

Li, na Imprensa de São Paulo, que a Editora Abril adquiriu o controle acionário da TV Bandeirante, nessa Capital. No caso, não se trata de uma simples mudança de dono. Mas da passagem do controle acionário de uma empresa de televisão das mãos de brasileiros para as mãos de estrangeiros.

1 - Antecipando-me à pergunta - "que tem a ver meu governo com uma transação comercial realizada na esfera da iniciativa privada ,"- , desejo assinalar que sei de suas múltiplas preocupações, pois não escapa a ninguém o fato de que não deve ser fácil conduzir os destinos de um Estado sobre cujos ombros pesa a maior parcela de responsabilidade na arrancada desenvolvimentista a que aspira todo o povo brasileiro. Mas, acontece, senhor governador que, se é missão precípua de cada cidadão não apenas conhecer, mas contribuir para que a Constituição Federal seja respeitada e comprida, com muito maior razão é de esperar que as autoridades se empenham, como redobrada vigilância, em cumprir e fazer cumprir a Lei. Se ao simples cidadão não cabe ignorá-la, muito menos se pode admitir por parte das autoridades, no caso ostensivo de burla da nossa Carta Magna.

2 - Infelizmente, é precisamente isso que vem acontecendo, com a anuncagravamento, agora, da aquisição anunciada do controle acionário da TV Bandeirante pela Editora Abril.

3 - Como sabe V. Exa., a Constituição federa vigente, no seu artigo 174, par. 1º, estabelece: "A responsabilidade e a orientação intelectual e administrativa das empresas jornalísticas, de qualquer espécie, inclusive televisão e radio difusão, caberão somente a brasileiros natos".

4 - Ora, o sr. Victor Civita, que dirige a Editora Abril, nasceu na Itália, viveu nos Estados Unidos, onde se naturalizou cidadão norte-americano e de onde veio para o Brasil com a missão específica de fundar e dirigir uma empresa jornalística, assim como seu irmão - sr. César Civita - foi despachado, com igual objetivo, para a Argentina.

5 - No Brasil, há mais de vinte anos, o sr. Victor Civita manobra uma poderosa máquina, vinculada aos interesses do capital estrangeiro. Ao difundir, entre nós, as excelências do "American way of life", ou ao tentar convencer que "a solução está nos Estados Unidos", não visa a nos ajudar a repetir no lado de cá do hemisfério a proeza que 40 milhões de imigrantes, chegados em massa e em período relativamente curto, realizaram nos Estados Unidos, mas a nos impingir convicções, nos inculcar idéias, nos traçar rumos, nos indicar princípios, que jamais trabalham em nosso favor. Pelo contrário, representam obstáculos que nos fazem perder tempo na grande corrida do progresso.

6 - Não foi por outra razão, por sinal, que os legisladores brasileiros, desde a Constituição de 1934, tiveram o cuidado, sempre renovado, de preservar a brasileiros natos a orientação intelectual e administrativa de empresas jornalísticas. Mas o sr. Victor Civita que não é brasileiro nato, apõe,ostentativa e impunemente, seu nome no expediente das mais importantes publicações da Editora Abril, declinando sua dupla qualidade de diretor e editor.

7 - Não satisfeito com isso, estende sua desnacionalizante atividade ao setor dos livros para, em seguida, ingressar, como acaba de fazer, na televisão, cujo poder de penetração se valoriza com a instantaneidade da transmissão da notícia, podendo mobilizar e conduzir multidões nesta ou naquela direção, para o bem ou para o mal. Em função disso é que o legislador brasileiro houve por bem reservar ao estado a propriedade dos canais de rádio e de televisão, os quais são concedidos em caráter precário à exploração comercial por parte de empresas privadas, cuja orientação editorial e administrativa caiba, com exclusividade, a brasileiros natos.

8 - Ao ingressar na televisão, o sr. Victor Civita torna ainda mais evidente a natureza política de sua missão de agente, entre nós, do capital estrangeiro. Se o fato em si me parece intolerável, escapa-me à compreensão a impunidade com que vem atuando o sr. Victor Civita.

9 - Ainda recentemente, quando o sr. Victor Civita foi recebido em palácio e convidado, no mesmo dia de sua chegada, para um jantar íntimo na residência do governador João Walter de Andrade, em Manaus, escrevi àquela autoridade, não apenas registrando meu protesto pelo que considerei endosso oficial a uma irrefutável, comprovada violação da Constituição Federal, mas buscando alertá-lo - e por seu intermédio toda a Nação - para o novo foco de interesses suspeitíssimos sobre a Amazônia, representado pela simples presença do sr. Victor Civita naquela Região, para a qual, como é sabido, a cobiça estrangeira, há mais de século, não pára de voltar os olhos.

10 - Agora, ao me dirigir a V. Exa., faço-o na esperança de que V. Exa., cônscio da magnitude do problema, faça que se retome o processo da necessária repressão à burla da Constituição Federal, iniciado e interrompido já por três vezes, inclusive pela criação de Comissão de Inquérito de Alto Nível, presidida pelo procurador da República.

É possível que uma campanha com o decidido apoio das forças vivas de S. Paulo, pela preservação dos fundamentos da unidade nacional, com a eliminação da influência do capital estrangeiro em nossa imprensa, não tenha o destino melancólico nem caia no vazio como aconteceu aos trabalhos da mencionada Comissão de Inquérito de Alto Nível, mas, pelo contrário, tenha o condão de criar condições para que as autoridades brasileiras possam cumprir e fazer cumprir o mandamento constitucional que o ítalo-americano Victor Civita vem infringindo há mais de vinte anos.

Sebastião Nery"

(Transcrito da "Tribuna da Imprensa" de 29-30/4/72)

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