Friday, May 24, 2013

1970 - Revista Veja analisa primeiros 20 anos de TV no Brasil

VEJA
Data de Publicação: 23/9/1970
VINTE ANOS DE TELEVISÃO
Afinal, ela não podia mesmo ser melhor

Os pacatos moradores de São Paulo receberam-na como se fosse um presente dos deuses. "Bem-vindo seja este instrumento que não serve apenas para divertir, mas para incentivar o progresso e a paz, a pureza e a virtude", disse, emocionado, ao benzer os novos e estranhos aparelhos, o então bispo auxiliar dos paulistas, dom Paulo Rolim Loureiro. E os jornais, entre as noticias sobre a guerra da Coréia, falaram em primeira página do "novo e poderoso instrumento com que conta nossa terra". Era 18 de setembro de 1950, estava inaugurada a TV Tupi, canal 3 (hoje 4), a pioneira na América do Sul.

Interior de um estúdio da TV Nacional de Brasília numa noite de 1960. O programa de terror vai ser levado ao ar, os atores conversam animadamente com os dois únicos cameramen da emissora. O ator que fará o papel de monstro tem o rosto coberto de tiras de emplastro "Sabiá", único material de maquilagem encontrado para a caracterização. Meia hora depois, com o programa já no ar, o monstro começa a se sentir mal: as tiras do emplastro, com o calor, repuxam violentamente. Mas o espetáculo é transmitido ao vivo, ainda nno havia video-tape e ele é obrigado a ir até o fim. Não suportando mais, começa a gritar de dor. O cameraman aproveita o que considera uma interpretação perfeita, dá um close, o monstro continua a se contorcer de uma forma impressionante, assustando até seus companheiros. De repente, sempre gritando, o monstro deixa o palco tentando arrancar as tiras do rosto. O programa sai do ar. Esta é uma das histórias que contam o início da TV em Brasília. Um início difícil, dominado pela improvisação e esforço de uma equipe técnica inexperiente. Hoje são eles que geralmente transmitem, via Embratel, a palavra do presidente Emílio Garrastazu Medici, em cadeia nacional.

Nem boa nem má — Evidentemente, nestes vinte anos que agora completa, a televisão brasileira nunca foi o instrumento de paz, pureza e concórdia que se desejava. Pelo contrário, um rápido balanço de tudo o que se disse e escreveu sobre ela nestes anos brasileiros daria uma relação infindável de ataques e criticas que, em última análise, a classificam (injustamente) como o "veículo da mediocridade nacional". "Não acho a nossa TV nem boa nem ruim. É a TV que nós conseguimos fazer", — diz Lima Duarte, ex-diretor de cinema, ligado à TV desde o inicio e diretor de "Beto Rockefeller", o grande marco da renovação nas telenovelas. Ao que se deve acrescentar: ela, como qualquer outro veiculo de comunicação, é boa e passível de críticas e merecedora de elogios. O que muito pouca gente costuma lembrar. Confusa, desorganizada e paradoxal, a televisão brasileira, segundo o técnico em comunicação Décio Pignatari, tem muito deste pais cheio de contrastes, grandezas e imperfeições. "Como vocês queriam que fosse", diz Décio, "a TV de um pais que tem cidades como São Paulo (em dez anos, uma das maiores que a humanidade já conheceu) e tem a Amazônia com suas imensas áreas inexploradas? Que tem uma arte de ultravanguarda e população com 40% de analfabetos?

Jeca Tatu, caboclo raquítico minado pelos vermes, criado por Monteiro Lobato em 1924, passa a tomar Biatônico Fontoura e fica forte e trabalhador. Enriquece, vira fazendeiro e, como supremo luxo, a partir de 1950, compra um televisor para ver os seus empregados trabalhando no cafezal. Essa ainda era a idéia que a maioria dos brasileiros fazia da TV: um aparelho que permitia ao cidadão, da sala de sua casa, ver o que quisesse lá de fora. Diante de tal ingenuidade, nno é de admirar a história contada por um funcionário da fábrica de televisores Invictus: "Nos primeiros tempos da TV as mulheres tinham muito cuidado ao sentarem diante do fantástico aparelho. Temiam que as pessoas que apareciam no vídeo pudessem ver-lhes as pernas". Havia outros temores. Dizia-se que assistir à TV fazia mal aos olhos, que ela explodia facilmente, que, se uma pessoa tocasse no vídeo, morreria eletrocutuda por uma descarga brutal.

Ninguém sabia nada — Em janeiro de 1951, apesar do preço, 9 cruzeiros (três vezes o preço da mais cara vitrola da época), já havia 375 aparelhos em São Paulo. Hoje, mais de vinte fabricantes filiados à Afrate — Associação dos Fabricantes de Televisores e Eletrônicos produzem uma média de 800 000 aparelhos por ano, dando ao Brasil um total de 4,5 milhões de televisores prontos para receber a imagem de uma das 53 estações de TV espalhadas pelo país. A última delas foi inaugurada neste mês de setembro, no Piauí. Em 1954, quando o atualmente chamado "ditador da TV", o IBOPE, começou a fazer suas pesquisas de audiência, havia 12 000 aparelhos instalados em São Paulo e no Rio de Janeiro. Desses, como na época o televisor ainda era um aparelho de luxo, uma apresentação de balé registrava 48% de audiência. Em 1958 havia 78 000 aparelhos no país. E, para manter os índices de audiência, as emissoras abandonaram os planos de programas culturais.

Em 20 de janeiro de 1951, dia de São Sebastião, padroeiro do Rio de Janeiro, os cariocas também ganhavam sua primeira estação de TV. A Tupi, gêmea da de São Paulo. O jornalista Assis Chateaubriand (já falecido), dono das Associadas, levou ao alto do Pão de Açúcar o então presidente da República, Eurico Gaspar Dutra, e uma enorme comitiva. As 12h40 do feriado, a estação entrava no ar e o povo carioca recuperava seu orgulho ferido com a prioridade dada aos paulistas. E com razão. Inicialmente era o Rio quem deveria ser o pioneiro da América do Sul. Infelizmente para os cariocas, o aparelhamento importado veio com diferença de ciclagem (veio com 60 ao invés de 50) e foi preciso trocá-lo nos Estudos Unidos. Mas, finalmente no dia 20 o general Mendes de Morais (falando em lugar do general Dutra avesso a pronunciamentos) pôde concluir o seu discurso: "Esse grande empreendimento vem marcar uma nova era para o Brasil em matéria de radiotransmissão .

Ignorantes, mas bronzeados — Acostumados aos três botões do rádio — volume, sintonia, tonalidade —, os brasileiros ficaram atrapalhados diante dos botões da TV, com suas indicações estranhas — linearidade, seletor de canais, horizontais, verticais, luminosidade. "Junto com cada aparelho comprado", conta um funcionário da Invictus, que montou os primeiros aparelhos no Brasil (80% das peças eram importadas — hoje é 100% nacional), "nós tínhamos que entregar um técnico, para ensinar o comprador a lidar com ele. Os mais velhos, bitolados no rádio, tinham muita dificuldade em aprender. Mas as crianças pegavam logo. A gente procurava ensinar a um garoto da casa e ele se encarregava de ensinar o resto da família". Mas não era apenas o público que se espantava com a TV. Os homens que iam trabalhar com ela também não sabiam nada. "Nunca tinha visto uma câmara pela frente", conta Walter Tasca, um dos primeiros cameramen do Brasil, hoje diretor de TV na Tupi de São Paulo. "Toda a nossa equipe era formada por homens de rádio, escolhidos por critérios de amizade ou parentesco". A ignorância era tão grande, lembra Walter Tasca, que certa vez a RCA Victor mandou por engano lâmpadas de infravermelho em lugar de lâmpadas comuns para refletores: "Ninguém notou. Só começamos a perceber algo de errado uns quinze dias depois, quando estranhamente todo mundo no estúdio, sem apanhar sol, estava ficando com a pele escura e bronzeada". Sem qualquer infraestrutura, a TV brasileira iniciou sua vida sustentada pelo rádio tanto na parte artística quanto na financeira. Do grupo que foi passando para a TV (50% dos bons empregos da televisão ainda estão nas mãos dos velhos radialistas) fazem Chacrinha, Raul Longras, Ronald Golias, Manuel de Nóbrega, J. Silvestre, Sérgio Porto — o Stanislaw Ponte Preta (falecido), que trabalhou mais de dez anos na TV e foi um dos seus críticos mais veementes. "Máquina de fazer doidos" talvez não seja a mais impiedosa das suas definições de TV.

Em função dessa paternidade radialista, segundo alguns entendidos, a TV levou quase dez anos tentando descobrir sua verdadeira linguagem (som-imagem-movimento). Para outros, como o cineasta Roberto Farias, 38, vinte anos de cinema (fez o filme "Roberto Carlos em Ritmo de Aventura"), e Fernando Barbosa Lima, 36, que revolucionou o telejornalismo no Brasil, a TV ainda não se definiu. "TV só tem razão de existir porque pode dar uma imagem instantânea dos acontecimentos. Teatro, novela e cinema na TV não têm sentido. Do ponto de vista da preservação da espécie, a TV deveria desaparecer como órgão de diversão. Só deveria ser um elemento de comunicação de massa em função da informação e da educação. O resto deveria ficar por conta do cinema e do teatro" — diz Roberto. E Fernando completa, concordando: "Poderoso instrumento de comunicação, a televisão está sendo transformada num elemento de diversão. Que é válido mas não representa muita coisa para o pais. Eu insisto em que é preciso condicionar o povo para programas de alto nível. Sei que a massa está mais interessada num programa de auditório do que em ouvir um noticiário internacional. Mas é preciso interessar a massa pelo que se passa no Brasil e no mundo".

A primeira estação de televisão do Piauí ao Acre surgiu em Belém do Pará, às 16h30 do dia 30 de setembro de 1961: a TV Marajoara, canal 2. Minas Gerais, nno fugindo à tradição católica das inaugurações, foi mais requintada: 14h55 do dia 21 de abril de 1955 marcava o relógio da Igreja Matriz de São José, a primeira imagem transmitida pela TV Itacolomi. Eram mais duas iniciativas do pioneirismo de Assis Chateaubriand. Menos de cinco anos separavam a inauguração das emissoras paulistas e cariocas para a privilegiada estréia mineira. O mesmo tempo separava a estréia mineira da paraense. No entanto, os mesmos vícios foram mantidos. Muito pouco a TV havia aprendido. O espirito quixotesco e boêmio do rádio paraense da década de 50 foi transplantado sem a menor cerimônia para a televisão. Como foi o caso de Carlos Garcia na TV Marajoara: numa novela, Garcia recebeu ordens do diretor para dar um beijo realista na mocinha, o que fez com acentuado exagero. O noivo da atriz não gostou e esperou Garcia com um moralizante revólver à porta da emissora. A polícia teve que intervir para convencer o noivo de que tudo era mentirinha. Ou como a história de João Pampulha, que depois virou repórter em Belém. Ele surgiu no palco para cantar "Granada" com tal disposição, que a dentadura lhe caiu da boca. O moço, tranqüilo, apanhou-a diante das câmaras e recolocou-a.

Em Minas (1956), a falecida atriz Cacilda Becker, representando a peça "Um Dia em Nova York", tinha que mudar de roupa quatro vezes em um ato. Por falta de tempo e lugar, trocou de roupa no estúdio mesmo, ante os olhares atônitos dos câmeras e técnicos. Quando lhe perguntaram se não tinha vergonha, Cacilda respondeu: "Arte é arte".

Inflação e crise — O video-tape foi o grande instrumento de libertação da TV dos esquemas herdados do rádio. Em 1960, Chico Anísio fazia enorme sucesso com seu show da TV Rio, colocando a televisão em sua nova fase. Chico apresentava sete personagens diferentes, praticamente sem interrupção entre um quadro e outro: Mas a grande conquista foi a reabilitação da telenovela, que, desde a primeira ("Sua Vida Me Pertence", com Walter Forster, em 1951), era monótona e esquemática (quinze minutos por capítulo, três meses de duração), não conseguindo interessar. Depois de razoáveis tentativas de bom aproveitamento do VT, Albertinho Limonta e Mamãe Dolores consagravam definitivamente o novo sistema de novelas em "O Direito de Nascer", 1964. Se para o público surgia uma linguagem mais dinâmica e programas melhores, para as emissoras o que nascia era uma nova fonte de renda. Desde então, as redes nacionais que se foram formando (Record, Tupi — Associados, Globo) passaram a vender seus programas para as pequenas estações espalhadas pelo país. Conseqüência do fenômeno da urbanização que o Brasil experimentou a partir de 1950, com a industrialização, a TV sofreu todos os males que atingiam os setores de produção, que cresciam em bases inflacionárias. Com o dinheiro fácil durante o regime de inflação, as TVs não se preocuparam em se organizar, em planejar seus custos para tirar o melhor proveito de seus recursos.

Quando foi preciso disputar os astros e estrelas que garantiam a popularidade da emissora e a boa audiência dos programas, elas não hesitaram em inflacionar os salários. Quando, a partir de 1964, o governo adotou uma rígida politica antiinflacionária, as empresas, levadas a reduzir seus custos, cortaram as verbas de publicidade. As emissoras então (e até hoje, com raras exceções), entraram em crise. Termina a fase áurea da Rede Excelsior de Televisão e surge a Rede Globo, que já a partir de 1965 dominava o cenário da televisão brasileira. Com ela, iniciou-se uma nova fase a do filme de longa metragem, dublado em português, único recurso para contornar a crise financeira. E entram violentamente os programas populares de auditório.

"O que ocorre com a televisão, no plano financeiro", diz um produtor da Record, "é que nós temos diretores ganhando 20 000 cruzeiros lá em cima da mesa de cortes, comandando cameramen que ganham 700 cruzeiros por mês. Um astro como Sérgio Cardoso ganhando 30 000 para contracenar com um excelente coadjuvante como é Mário Lago, que ganha 3 000". A crise financeira a que chegaram as emissoras, como conseqüência dessa situação, levará a um inevitável desaparecimento de algumas delas. "As que tiverem condições de se reorganizar, sobreviverão." As outras, segundo o ex-diretor da Excelsior e professor da primeira Faculdade de Televisão brasileira (da Universidade de São Paulo), Álvaro Móia, "ou entram numa faixa especializada ou serão incorpora- das, ou morrerão". "Ter a liderança de audiência sempre foi fácil", diz Móia. "É só pegar Chacrinha, Dercy Gonçalves, Hebe Camargo ou Blota Junior. O difícil é arranjar faturamento para poder pagar essa gente." Mesmo que a verba gasta com toda a publicidade em TV fosse distribuída eqüitativamente entre as onze emissoras do Rio e São Paulo, não seria o suficiente para mantê-las. Em 1969, as TVs de todo o pais faturaram perto de 1 bilhão de cruzeiros. Dividido entre elas, isso daria um faturamento de aproximadamente 8 milhões mensais para cada uma. Quantia insuficiente para cobrir os seus gastos, considerando-se que nenhuma delas tem uma folha de pagamento inferior a 1,5 milhão.

Para os velhos artistas do teleteatro que atuavam em novelas, o VT representou o fim definitivo da fase heróica e cheia de emoções da TV ao vivo, Cassiano Gabus Mendes, o diretor artístico da Tupi de São Paulo, lembra um desses episódios heróicos. A historia do ator Jaime Barcelos no papel de Marmeladof, um dos personagens de Dostoiévski em "Crime e Castigo", adaptação feita pará a TV. "Marmeladof", conta Cassiano, "ia por uma rua escuro bêbado, quando uma carruagem o atropela. Alguns transeuntes recolhem-no e colocam em cima da carruagem par ser levado a um hospital." Fazer tudo isso num estúdio, segundo Cassiano, é muito mais difícil do que se pode imaginar. "Manter um cavalo quieto atrás dos bastidores, esperando a hora da cena, dava um trabalhão. As vezes a gente pensava que o bicho ia invadir o palco antes da hora e estragar tudo." Mas toda a cena do atropelamento foi perfeita. "Até que", continua Cassiano, "o Jaime Barcelos, preocupado em dar o máximo de realismo à cena, nno abriu os olho. e nno viu que sua perna direita estava fora da carruagem. Só sentiu quando ele foi esmagada contra as madeiras do cenário". Agora, sorrindo, Barcelos lembra ter dado "o maior berro da televisão. O Cassiano veio até mim e disse 'Agüenta mais dez minutos, só falta uma cena para você". E Jaime Barcelos acabou dizendo as últimas palavras de Marmeladof morrendo num leito de hospital Mas com lágrimas verdadeiras.

Com o VT, as coisas são bem diferentes. Em Campina Grande, capital econômica do Estado da Paraíba, a TV Borborema levou a sua "imagem do progresso" ao ar, péla primeira vez, em 1963. Exemplo tipico da pequena emissora de TV, é graças ao vídeo-tape que ela consegue se manter no ar. Ao todo a Borborema tem doze funcionários na parte técnica e quatro na parte artística todos apresentadores ou locutores. Tem duas câmaras, sendo que uma delas está quebrada, e uma precária iluminação no estúdio onde são levados ao ar seus dois únicos programas ao vivo, diários. O primeiro deles, "Graziela Entrevista Atrações", vai ao ar às 20 horas, comandado por Graziela Emerenciano, cronista social da cidade, que, a troco de um salário mensal de 200 cruzeiros, produz, dirige e apresenta seu programa: entrevistas com personalidades da região. Logo em seguida, entra "O Tele-Repórter", com o radialista Paulo Rogério (também 200 cruzeiros por mês), dando "as últimas do Brasil e do mundo". O resto da programação são enlatados adquiridos das Associadas, tendo mais sucesso o "Programa Flávio Cavalcanti", que é visto duas vezes por semana: a segunda vem do Recife, que também importa enlatados. De Pernambuco, a Borborema capta ainda as criticas feitos pelos pernambucanos àquilo que lhes garante um bom nível de programação, o VT. Antes de entrar na politica, o empresário F. Pessoa dc Queiroz, hoje senador, preparava carinhosamente a inauguração da sua TV Jornal do Comércio, para o dia 16 de julho de 1960. Mas, no dia 4 de julho, teve a decepção de saber da inauguração da TV Rádio Clube, seu concorrente que passou para a história da televisão como a pioneira em Pernambuco. Isso criou uma rivalidade entre as duas emissoras que nunca terminou. No entanto, nas duas emissoras os funcionários têm algo em comum. Eles concordam plenamente com o raciocínio do professor Fernando Menezes, 35, da Universidade Católica de Pernambuco. "A televisão, em matéria de comunicação de massa, é talvez o mais importante acontecimento deste século. Porém, no Brasil, ela prestou muito pouco serviço. Sobretudo em termos de melhoria do nosso povo. Primeiro porque nno existe televisão brasileira. O que existe é um macaquear não raras vezes de mau gasto do que se faz nos Estados Unidos. Por outro lado, os video-tapes, que, além de causarem o desemprego da pequena faixa de nossos profissionais de TV, são incrivelmente iguais. Os programas mudam de rótulo e continuam os mesmos.

A amada na cozinha — Boa ou má, a televisão causou profundas alterações no

comportamento do brasileiro. Influenciou os outros meios de comunicação — obrigou o velho radio a se modificar para viver, fez com que revistas e jornais se aperfeiçoassem, preocupou os homens do cinema. Modificou os hábitos — o jantar passou a ser servido conforme o horário das novelas e a roda familiar, onde todos trocavam informações, como diz o samba de Chico Buarque de Hollanda, "passou a ser um semicírculo em torno da televisão". (O samba de Chico é recente, com uma crítica baseada numa idéia real do que é a TV. Ao contrário da imagem cantada por Blecaute no inicio da década de 50: "Eu vou comprar um aparelho/ De televisão/ Juro por Deus que é uma vantagem minha/ Pois assim sendo no meu big barracão/ Eu vejo a minha nega trabalhando na cozinha".) Mais do que isso, segundo o sociólogo carioca Sérgio Lemos, a televisão brasileira criou um novo culto: "a religião do triunfo". Ele analisa o fenômeno: "A importância crescente que vêm assumindo o Festival Internacional da Canção e a Copa do Mundo e os programas de calouros na vida brasileira ainda não foi bem explicada. Parece que os brasileiros, através dos meios de comunicação de massa, estão se atirando loucamente a uma espécie de religião do triunfo. São ritos de competições e glória que antes não passavam de mero divertimento em horas de lazer. Agora dão a impresso de constituírem verdadeiro sentimento de vida para a massa das grandes cidades".

Até o dia 22 de agosto de 1965, Santa Catarina dispunha apenas do rádio e da imprensa. A partir de então, os aparelhos do Rio Grande do Sul começaram a enviar imagens ao sul do Estado catarinense. Era a fase romântica da televisão nesse Estado. Quem possuía um televisor em casa não escapava da gozação popular: era um "toloespectador''. Uma antena no telhado ou quintal denunciava o que os catarinenses definiam como "trouxa". Seu Estado entrou quinze anos atrasado na era da televisão. E, mesmo assim, nem todos os dias o espetáculo era garantido. Bastava uma chuva de verão, um vento mais forte, para que os televisores deixassem no ar apenas os fantasmas dos personagens que atuavam no programa. Normalmente, a imagem desaparecia. O problema, para felicidade de Santa Catarina, foi resolvido com a inauguração, em setembro de 1969, da sua primeira emissora, a Coligadas de Blumenau. Mesmo através das imagens fantasmagóricas, os catarinenses, meio deslumbrados com a técnica moderna (o televisor), segundo um dos argumentos da Sociedade Pró-Desenvolvimento da Televisão (que lutou para a instalação da TV em Santa Catarina), "estavam migrando para os Estados vizinhos, em busca da boa imagem".

Uma potência — A televisão existe. No começo, ela causou suspeitas e temores por ser desconhecida. Hoje, sua penetração cada vez maior e sua poderosa força de persuasão preocupam teóricos, sociólogos, psicólogos. Hebe Camargo, com o seu programa nacional, precisou apenas de uma semana para transformar as roupas de couro na moda feminina de maior sucesso no Brasil em 1968. Chacrinha, com suas fantasias e criativos chavões, consegue fazer de Nélson Ned (menos de 1 metro de altura) o cantor romântico do Brasil, com milhares de discos vendidos. Diante desses inegáveis demonstrações de força, a pergunta que surge entre os críticos, analistas e entendidos é: qual a medida do poder da televisão? Muito foi o material coletado, sem que se chegasse a uma resposta definitiva. Nos Estados Unidos, por exemplo, um grupo de estudos da Universidade de Stanford, na Califórnia em 1961, analisou cem horas de programação das quatro maiores estações do país, no horário geralmente assistido pelas crianças (das 16 às 21 horas). A conclusão foi que mais da metade do tempo era dedicada (como nas nossas TVs) a programas em que a violência tinha um papel importante. (Com três anos de idade, uma criança assiste, em média, a 45 minutos por dia de TV. Com cinco ou seis anos, assiste a cerca de duas horas por dia. A partir dos treze anos, o tempo aumenta para cerca de três horas diárias, para, aos dezesseis anos, cair para duas horas.) Segundo a conclusão do grupo de Stanford, do ponto de vista físico, não há nenhuma evidência de que a TV, se vista com exagero, tenha qualquer efeito prejudicial às crianças. Eles concluíram que a leitura pode causar mais cansaço à vista. O relatório, no que diz respeito à violência, não apresentou uma conclusão.

"Causa impaciência a qualquer pessoa de um determinado nível cultural falar sobre a televisão", é uma explicação do sociólogo carioca Luiz Costa Lima sobre essa carência de conclusões. Para ele, "essa máquina de fazer doidos atingiu no Brasil uma saturação que está longe de ser liquidada. Existem duas posições quanto ao problema da televisão brasileira, em geral: a mistificação dos bem-pensantes e a dos pra-frente. Para os primeiros, a televisão, com sua linguagem é o rebaixamento da cultura. Para os outros, é um meio moderno que vem acabar com os meios artesanais". No entanto, segundo Costa Lima, essas duas posições contraditórias são mistificadoras. "Ambas", diz ele, "afastam uns e outros dos verdadeiros problemas da TV. No primeiro caso, por sua própria situação de bem-pensantes, os acusadores da TV não se perguntam que coisa entendem por cultura. Perguntar-se a esse respeito significaria revelar que para eles a cultura é um fetiche. Algo de que se fala e se respeita, mas que não se pratica."

Em discussão, ela passou estes vinte anos. Discutida, ela continuará seu futuro: bons e maus programas, críticas impiedosas e elogios duvidosos. Consciente apenas de uma coisa: é difícil agradar a todos. Nos Estados Unidos, há três meses, foi tentada uma experiência de programa sem comercial. Para neutralizar as críticas de que a TV dava mais tempo para anúncios, uma emissora de Nova York apresentou a peça "Hamlet", com sir Laurence Olivier, sem interrupções. Duas horas e pouco de projeção contínua. No dia seguinte, os críticos de TV, como Jack Gould, do "Times", acharam a idéia digna de elogios, mas reclamaram: "Ninguém agüenta ficar o tempo todo em frente do televisor. O espectador já está condicionado a ter os anúncios para pegar uma cerveja na geladeira ou para ir ao banheiro".

TECNICAMENTE, ERA IMPOSSÍVEL O PRIMEIRO PROGRAMA

São todos velhos profissionais do rádio, acostumados ao trato com o público, mas estão nervosos e agitados. Dois meses de trabalho exaustivo, em que tudo foi ensaiado nos mínimos detalhes (até o movimento das câmaras está marcado no chão com giz), dependem do diagnóstico do engenheiro Walter Obermuller, técnico que a RCA Victor mandou dos Estados Unidos especialmente para orientar a instalação da primeira televisão da América do Sul, a PRF 3, TV Tupi. Obermuller fecha a câmara que estava examinando e se dirige a Cassiano Gabus Mendes, diretor da emissora: "Não vai dar para consertar agora. O melhor é transferir tudo para outro dia". A reação de Cassiano é imediata: "Nada de adiar, nós vamos ao ar assim mesmo". Obermuller nno entende. Como mudar repentinamente um esquema ensaiado nos mínimos detalhes (até o movimento das câmaras estava marcado com giz no chão)? Duas câmaras ficariam no palco e a terceira num estúdio fechado para focalizar Homero Silva e Lia de Aguiar, que dialogariam enquanto são mudados os cenários entre um quadro e outro. Como mudar tudo repentinamente? "Eliminamos o estúdio, Homero e Lia ficam aqui no palco num canto e vamos em frente com as duas câmaras", explica o diretor. O americano nno entende. Mas como mudar os cenários? E o barulho dos martelos para pregá-los (até o movimento das câmaras estava marcado no chão com giz)? "Não vamos pregar nada, alguém fica escorando para que nno caiam e pronto." Aturdido, Walter Obermuller decide ir para o seu quarto no hotel Lord, para não ver "o fracasso total". Cassiano ordena: "Esqueçam tudo o que ensaiamos. Eu vou indicando o que fazer". São 21h40, quarenta minutos de atraso, mas os telespectadores dos duzentos receptores de São Paulo esperam presos pela curiosidade e pelas promessas do locutor: dentro de instantes . . . "Atenção, câmara no ar". Avanço lento para o narrador até close: "Amigos, boa noite. Esta coisa que está acontecendo hoje é algo tão excepcional tão revolucionário que não consegui arranjar uma cara menos assustada para aparecer diante de vocês. É a televisão que surge em São Paulo. É a PRF 3 Tupi, a primeira estação de televisão da América do Sul". Corte para um casal sorridente ao lado de um receptor de rádio.

Ela: "O que oferecerá a PRF 3?"

Ele: "Música, por exemplo!"

A câmara mostra uma moça apontando um cartaz: "Dança Ritual do Fogo, com Georges Henri e sua Brande orquestra". Os primeiros acordes de piano. A moça e o narrador em primeiro plano:

Ela (animada): "Realmente linda".

Ele: "Nem poderia deixar de ser. E tem mais, você nem imagina, mas a televisão poderá..." (Pausa.)

Ouve-se um sino de escola e entra o quadro humorístico "Escolinha do Ciccilo", com piadas rápidas.

Ela (rindo): "Mas que escola maravilhosa! O que mais poderá a televisão nos oferecer?"

Ele: "O que quiserem... Um tipo curioso como este, por exemplo".

Aparece Mazzaropi sentado num banquinho. Ao fundo uma casa de caboclo.

Ela (alegre): "Puxa. Eu nunca pensei que a televisão fosse tão . . . tão real. E o gostoso é esta ânsia que a gente sente de ver mais... (Pausa.) E teatro, vamos ter?"

Ele (cômico): "Mas é lógico! O teatro será uma das atrações máximas da PRF 3 TV".

Surgem Walter Forster e Lia de Aguiar interpretando um pequeno quadro romântico.

Ela: "Agora?" Ele sorri e faz que escuta os primeiros acordes: de Pé de Manacá. Entram Hebe Camargo e Vadeco e cantam teatralizando "Lá atrás daquele morro tem um pé de manacá". O cenário mostra uma paisagem tropical com um morro ao fundo.

Ela: "Que beleza, como é bonitinha a Hebe".

Ele: "Vão me desculpar mas agora quero apresentar alguma coisa sobre futebol".

Ela: "Futebol depois de um número tão meigo como esse?"

Ele: "Você nno imagina como a televisão vai empolgar os fanáticos por futebol".

A câmara fixa um campo de futebol em miniatura. Aurélio Campos locutor esportivo da Tupi (hoje deputado), explica: "Aí está o campo de jogo. Não há torcedor que não o conheça em minúcia de milímetros. É o grande palco das emoções populares". Corte para um homem de costas. "Quanto vale esta cabeça? Sabem a quem ela pertence? Sim, é a cabeça de Baltazar, o famoso goleador dos campos brasileiros." Baltazar vai se voltando devagar até ficar de frente, sorrindo. Ouvem-se os gritos de uma multidão comemorando um gol.

A câmara mostra os pés de um pretinho chutando uma laranjjáa. Uma voz de mulher: "Vai entregar a roupa, Benedito! Esse menino passa o dia chutando laranja e nno pensa em mais nada". O locutor: "Pensa, sim! O Benedito sonha tornar-se um dia jogador de futebol!"` Som de torcida crescendo.

Ela: "Sabe o que eu gostaria de ver agora?"

Ele: "Pode ordenar".

Ela: "A Wilma Bentivegna e os garotos vocalistas". Wilma canta um bolero.

Ela (entusiasmada): "Quem disse que as figuras do rádio não serviriam para a televisão?" E pensativa: "Ah, quem diria. . . Comentários, música, humorismo,

Ele: "A televisão é tudo isso, em espetáculos diários que irão ter ao recesso do lar de um imenso público. A televisão é alegria, é cultura, é divertimento".

São 23h30 (a primeira noite da televisão brasileira durou duas horas e meia — sem comerciais). Quando todos se abraçam entusiasmados, comemorando o feito, entra no estúdio o engenheiro Walter Obermuller, que viu o programa do hotel. Entusiasmado, bebe algumas doses de uísque e grita elogios à capacidade de improvisação do brasileiro, que para ele conseguiu o impossível (mesmo sem seguir as indicações de giz para o movimento das câmaras). E ficaram todos eufóricos até que alguém lembrou: E amanhã? Então se deram conta de que não tinham pensado na programação do dia seguinte.

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