Friday, May 31, 2013

1985 - Truques do Silvio Santos para Alavancar Pássaros Feridos

Folha de S. Paulo
Data de Publicação: 2/3/1986
Autor: Nelson Pujol Yamamoto
TRUQUES PARA GANHAR A AUDIÊNCIA
Se "Miami Vice" emplacar no Brasil como o fez nos Estados Unidos e nos países europeus onde é exibido, como Inglaterra e França, poderá entrar para o clube de "Pássaros Feridos", a minissérie norte-americana que, transmitida em agosto do ano passado pelo SBT, bateu largamente em audiência as atrações da Globo. No dia 23 daquele mês, por exemplo, "Pássaros Feridos" conquistou, no horário das 23h, 42% dos televisores ligados na Grande São Paulo, contra 17% da Globo e sua minissérie "Tenda dos Milagres", conforme dados do Audi-TV.

Uma das estratégias a marcar a disparidade foi a determinação, estabelecida pelo próprio Sílvio Santos, de não colocar a minissérie no ar enquanto não terminasse, na Globo, a novela "Roque Santeiro", considerada imbatível. Para preencher os minutos de espera - que chegaram a 45, numa tentativa frustrada de vencer o SBT pelo cansaço -, a emissora de Sílvio Santos fazia desfilar desenhos de "A Pantera Cor de Rosa". "A panterinha está de novo a postos, aguardando o término de `Selva de Pedra' ", diz Sílvio.

Cabe lembrar que também "Pássaros Feridos" foi parar no SBT após desistência da Globo. Em 1984, a série foi oferecida a ambas as emissoras. O SBT recuou com medo do preço e a Globo seguiu o exemplo, mas com medo da Censura, que ameaçava vetar a história, envolvendo, entre outras coisas, as experiências sexuais de um padre católico. O produto voltou a ser oferecido ao SBT por um preço mais baixo - 120 mil dólares, ou cerca de Cz$ 1,65 milhão - e Sílvio Santos resolveu arriscar. A série passou pela Censura e o SBT marcou o maior sucesso da sua história.

1985 - Roque Santeiro X Pássaros Feridos

VEJA
Data de Publicação: 28/8/1985
GUERRA NOTURNA

Roque Santeiro atrasa para ferir Pássaros Feridos

Rede Globo, ao divulgar os programas das 21h20, costuma anunciá-los para ''Logo após Roque Santeiro". O dono do SBT (Sistema Brasileiro de Televisão) e animador Sílvio Santos resolveu fazer o mesmo. Em seu programa dominical, Sílvio Santos arrumou uma forma inédita de promover a minissérie que exibiu em cinco capítulos na semana passada. "Vejam Roque Santeiro, uma bela novela que eu também vejo", disse ele, "e depois liguem no SBT para assistir a Pássaros Feridos, um programa espetacular.

Nada mais surpreendente. Pela primeira vez, uma emissora usava a, programação da outra para sustentar a sua. A Globo deu o troco e começou a atrasar sua novela, em uma ocasião por até 40 minutos. Mas a emissora de Sílvio Santos não se abalou. Colocava até desenhos animados no ar e continuava placidamente a esperar o fim da novela, de forma que Pássaros Feridos fosse levado ao ar, religiosamente, no minuto seguinte à última cena de Roque Santeiro.

O seriado do SBT não marcou tantos pontos no Ibope como a novela, líder absoluta, que chega a ter 80% da audiência no Rio de Janeiro e em São Paulo, mas conseguiu alguns dos maiores índices da história do SBT. Na segunda-feira, Pássaros Feridos obteve 50% de audiência em São Paulo contra 14% da Globo, que apresentava seu Viva o Gordo. Em Porto Alegre, no mesmo dia, o SBT deu na Globo por uma média de 48% contra 22%. No Rio, o SBT subiu de 6% para 27%, mas a Globo, embora despencando dos 72% para 47%, ficou na frente. Seguindo o conselho de Sílvio Santos, os telespectadores, depois de acompanhar o moralismo do padre Hipólito (Paulo Gracindo), em Roque Santeiro, mudavam para as aventuras amorosas do herói vivido por Richard Chamberlain em Pássaros Feridos, um cardeal dedicado e amante impetuoso a uma só vez.

1985 - O Fenômeno Pássaros Feridos

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 23/8/1985
Autora: Míriam Lage
TVS NA GUERRILHA DO IBOPE
O sorriso de bom-moço de Sílvio Santos, à frente de uma hábil estratégia promocional, valeu à sua rede de televisão o que todo mundo supunha impossível: piques ou mesmo lideranças de audiência, em pleno horário nobre, com a série Pássaros Feridos.

Que ninguém duvide da esperteza do empresário-comunicador Senor Abravanel, mais conhecido pelo nome artístico de Sílvio Santos. Os dados de audiência estão aí, à disposição de quem quiser saber o resultado de sua mais recente ousadia: o seriado americano Pássaros Feridos é um sucesso, abalou o tranqüilo reinado da Globo. A TVS nunca teve tanto público durante a semana como nos últimos três dias.

A série, na verdade, não chega a ser uma obra-prima, mas foi vendida ao espectador da forma mais acertada. No último domingo, no horário de pique de audiência de seu programa, Sílvio Santos anunciou a estréia de Pássaros Feridos, brindando o público com cenas escolhidas a dedo. Mas a cartada decisiva foi avisar que, mesmo programada para entrar no ar às 21h20min, a série só começaria depois de Roque Santeiro. Com aquele sorriso que lhe garante o jeito de bom-moço, Sílvio Santos até elogiou a atração da Globo e assegurou que, se Roque Santeiro atrasasse, a TVS retardaria o início da exibição da série.

A estratégia foi perfeita. Na segunda-feira, assim que a novela deixou a tela da Globo, boa parte do público mudou de canal. Durante Roque Santeiro, a emissora ficou com 72% do público carioca. Na atração seguinte, Viva o Gordo, baixou para 47%. De olho nas aventuras do padre Ralph de Bricassart (Richard Chamberlain) estavam 27% dos cariocas. Em São Paulo a coisa ficou pior para a Globo: a TVS liderou com 47% do público, cabendo à Globo 27%. Essa reviravolta no perfil de audiência foi um fenômeno detectado em outras praças além de São Paulo. Em Porto Alegre, por exemplo, a TVS conseguiu segurar 47.5% do público no horário de Pássaros Feridos, deixando para a Globo 21.5%. Em Curitiba a diferença foi ainda maior: 46.7% para a TVS e 19% para a Globo.

Dados do IBOPE mostram que quem viu a série gostou. As médias da audiência de segunda e terça-feira, em São Paulo, garantem o primeiro lugar à TVS, com 31.3% do público, seguida pela Globo com 21.9%. No Rio a emissora de Sílvio Santos não destronou a Globo que ficou com 46.5% do público.

À TVS coube 21,1%. O importante, nesse caso, é lembrar que antes de Pássaros Feridos sua média no horário balançava entre 5%, 6%. Nada mais.

A Globo sentiu o golpe.Oficialmente se fez de desentendida, mas passou recibo no ar. Já a partir de terça-feira começou a espichar o Jornal Nacional e Roque Santeiro, a antiga estratégia de segurar o público até que a concorrência queime, sem audiência, os primeiros minutos de sua atração. A TVS, respeitando o compromisso firmado por Sílvio Santos com o público, esperou pacientemente, exibindo desenhos animados da Pantera Cor-de-Rosa. A tática da Globo repetiu-se na quarta-feira: o Jornal Nacional passou dos 30 minutos habituais para cerca de 45 minutos. Roque Santeiro foi ao ar com 55 minutos - fora comerciais - 13 minutos mais longo do que seu formato costumeiro. Mais uma vez a TVS manteve a palavra: só começou a passar o seriado quando terminou a novela. A batalha continuou na quinta-feira e, se depender do alto comando da TVS, não acaba até o final da exibição do seriado.

No fundo, Sílvio Santos sabe que não tem munição para uma guerra frontal com a Globo. E demonstrou sua convicção no domingo: em vez de peitar Roque Santeiro, preferiu a guerrilha, atacando o adversário pela retaguarda. É a tática de entrar nas brechas abertas no campo inimigo. A mesma usada no início de ano nas noites de domingo. O Programa Sílvio Santos, que há anos começava às 11h, foi retardado para as 13h. Com isso, passou a terminar às 22h, roubando público de todas as emissoras. Até mesmo do Fantástico, uma das grandes audiências da Globo. Nas três últimas semanas de agosto, o Fantástico teve, no Rio, uma média audiência de 45,3%. A TVS ficou com 22%. Não é a líder mas, antes dessas mudanças, nunca passava de minguados 7%. Em São Paulo, os números lhe são mais favoráveis: o Fantástico obteve a média de 42% enquanto que a TVS abiscoitou 26%.

Luciano Callegari, superintendente operacional do Sistema Brasileiro de Televisão, diz que a performance da rede com esses botes tem deixado Sílvio Santos muito satisfeito. Mas, pelo menos por lá, ninguém está surpreso. "Estamos acompanhando a programação das outras emissoras com a maior atenção para descobrir onde atacar. Atacar a Globo de frente seria uma brincadeira com a realidade. Decidimos, então, tirar o melhor proveito do que está a nosso favor", diz ele.

A seu favor, segundo os cálculos da cúpula da TVS, estavam as noites de domingo. Disparado o petardo, confirmou-se que não havia erro nessa avaliação. Agora, a TVS sentiu certa fragilidade na linha de shows da Globo. "São muito bem produzidos mas não chegam a seduzir o público, especialmente o de renda mais baixa. Imaginamos que, com uma boa atração, poderíamos dividir a audiência. O Viva o Gordo é um programa inteligente, mas não agrada à classe C. Chico Anysio não está num ano brilhante, Globo Repórter e a programação de sexta-feira têm altos e baixos. Na verdade, mais baixos que altos. E por aí que tínhamos que cutucar o adversário".

Há mais de dois meses a TVS bate a Globo no horário das 8h às 14h30min em São Paulo, cativando o público com o Bozo. No Rio a liderança é de outra atração infantil, o Balão Mágico, da Globo. A TVS tem planos de buscar esse mercado mas, por enquanto, está mais preocupada com os resultados no horário nobre. Callegari costuma dizer que o público da noite é bem mais importante do ponto de vista comercial. E o que a direção do SBT deseja é aumentar o faturamento sem precisar esvaziar o bolso. A estratégia da rede é usar a esperteza, dar o pulo do gato, poupando, tanto quanto possível, gastar mais dinheiro. Prefere aplicar seu capital em equipamentos.

Chegar perto da Globo é a meta de Sílvio Santos. Quanto mais perto, melhor. No caso de Pássaros Feridos, a TVS gastou 120 mil dólares na compra dos direitos de exibição e cerca de Cr$ 300 milhões nas campanhas de publicidade. Não chega a ser seu maior investimento em série estrangeira. O recorde está com Massada, que custou 250 mil dólares e quase não teve repercussão. O que provavelmente teria acontecido com Pássaros Feridos se a TVS tivesse imaginado que a série era capaz de enfrentar Roque Santeiro. "Teria sido bobagem, não adianta disfarçar a realidade. Cerca de 80% do público brasileiro acompanham a novela, só nos restariam migalhas", avalia Callegari.

Na Globo, é bem capaz de ter gente batendo a cabeça na parede. O seriado foi oferecido a ela, que achou a história meio chatinha e preferiu não comprar. Mesmo sem ser obra-prima, Pássaros Feridos é uma série atraente, com uma produção de bom nível e temperos bem ao gosto do público que aplaudiu Shogum, estrelado pelo mesmo Richard Chamberlain. Intrigas, ambições, amores e traições, oferecidos numa bela embalagem. Ingredientes que deram ao seriado cinco Emmy, o maior prêmio da televisão americana. Nos Estados Unidos bateu recordes de audiência, de costa a costa. Aqui, se não mantém a liderança em todas as praças, serviu de estopim para uma guerra animadíssima. A mais quente dos últimos tempos na televisão brasileira.

1985 - RARÍSSIMA entrevista com Silvio Santos

VEJA
Data de Publicação: 4/9/1985
Autor: Mário Sérgio Conti
GOLPE DE MESTRE
O dono do SBT conta como passou uma rasteira na Globo com Pássaros Feridos e quais seus planos para fustigar o concorrente

Seja vendendo canetas na rua, seja apresentando programas de rádio e TV, seja dirigindo um consórcio de 49 empresas e 15.000 funcionários, o empresário Sílvio Santos costuma agir com base na intuição.

Foi a intuição que o levou, há quinze dias, a conclamar o público de sua rede, o Sistema Brasileiro de Televisão, SBT, a assistir à novela Roque Santeiro, na rede Globo, e depois mudar para Pássaros Feridos, no SBT. A Globo atrasou a novela o quanto pôde, mas Sílvio Santos também retardou a entrada no ar da minissérie, de maneira que Pássaros Feridos sempre começasse 1 minuto depois do fim de Roque. O resultado não poderia ser melhor para o SBT, que venceu a Globo em São Paulo, Curitiba e Porto Alegre no horário das 22 horas.

"Tivemos sorte", diz Sílvio Santos, que afirma ter 49 anos, "pois a Globo não tinha nada de muito bom para oferecer." Mesmo com a sorte e a intuição trabalhando a seu favor, Sílvio Santos programou Pássaros Feridos com um plano minucioso, com o objetivo de atrair um público mais qualificado para o SBT. Para conseguir esse objetivo, ele está se tornando cada vez mais um homem de negócios e cada vez menos um animador de auditório. Sílvio Santos faz questão, por exemplo, de influir nas áreas de produção, no departamento comercial e na administração e quer ver todos os programas que o SBT leva ao ar. Para dar palpites em tantas áreas, e ainda fazer um programa dominical de 9 horas, ele trabalha sete dias por semana, das 9 da manhã às 19 horas. Seu único lazer é correr 5 quilômetros todas as manhãs na pista de sua mansão no bairro paulistano do Morumbi e assistir a filmes no videocassete, à noite, na companhia de sua mulher, Iris, ou de uma de suas seis filhas. À noite, ao menos, ele não vê televisão. "Ver televisão é trabalho", explica. Na semana passada, Sílvio Santos recebeu VEJA em seu escritório no bairro do Ibirapuera para falar sobre televisão.

VEJA - Por que no seu programa de domingo você disse para o público assistir a Roque Santeiro, na Globo, e depois mudar para Pássaros Feridos, no Sistema Brasileiro de Televisão, a sua própria rede?

SANTOS - Eu achei que a Globo estava muito quieta, o que era estranho. Quando lancei Masada, no ano passado, a Globo veio com Shogun e Os Últimos Dias de Pompéia. Eu havia pago 240.000 dólares por Masada, e tive prejuízo. Agora, senti que ela ia jogar o Roque Santeiro em cima de mim, bem quietinha. Pensei: "Pode deixar", e fiz a propaganda do Roque e dos Pássaros. A Globo errou ao não colocar uma coisa melhor para concorrer com Pássaros Feridos.

VEJA - A sua rede vence a Globo nas tardes de domingo, aproxima-se do primeiro lugar no horário matutino tios dias de semana e conquistou o horário das 22 horas com Pássaros Feridos, em São Paulo. O SBT está ameaçando a Globo?

SANTOS - Não, não podemos dizer que o SBT está ameaçando a Globo agora. Pelo bom motivo de que o SBT é a única rede que tem ameaçado a Globo nos últimos quatro anos. O que ocorreu foi Pássaros Feridos ter tido uma audiência fora do comum. Mas já tivemos bons índices antes, como com a novela Os Ricos Também Choram, o Programa J. Silvestre e o Reapertura. Com essa programação bastante popular nós chegamos a um índice médio de audiência, de meio-dia a meia-noite, diariamente, de 15,6% em São Paulo. Isso não é uma ameaça aterrorizante, mas é um índice respeitável e faz parte de uma estratégia.

VEJA - Pássaros Feridos faz parte dessa estratégia?

SANTOS - Pássaros já faz parte de uma terceira etapa. A primeira foi de superar a barreira dos 15% de audiência, com qualquer público. A segunda foi de passar do popularesco ao popular. Para tanto, compramos filmes mais qualificados, nos quais as agências de propaganda sentem mais segurança para investir. Agora, na terceira etapa, estamos radicalizando na qualidade, sem deixar de lado a popularidade. Por isso compramos os filmes Super-Homem III, Um Lobisomem Americano em Londres, Halloween, Super-Moça e Papillon e as séries Esquadrão Classe A e O Homem Que Veio do Céu.

VEJA - A grande audiência de Pássaros Feridos não quer dizer que o público prefere os programas de qualidade?

SANTOS - Nem tanto. Comenta-se que a Globo teria espalhado, junto às agências de publicidade, que a boa audiência do SBT tinha pouco significado, já que ela não seria formada por um público qualificado de maior poder aquisitivo. Então o departamento comercial do SBT me convenceu a deixar um pouco de lado a minha programação popularesca para buscar um público um pouco mais sofisticado. Ou seja, a qualidade da programação pode não conquistar o telespectador, mas é uma exigência das agências de propaganda.

VEJA - Então quando você planeja a programação do SBT você pensa mais nas agências de propaganda, que querem uma audiência de maior poder aquisitivo, do que no público em geral?

SANTOS - Quando ganhei a concessão da rede, e comecei a pensar em programação, eu pensava exclusivamente no público. Isto porque, em anos de Programa Sílvio Santos, nunca me preocupei com propaganda. Meu objetivo inicial eram os 15% de audiência. Aí descobri que não adiantava apenas ter essa média, pois as agências não aceitavam a programação. A Rede Bandeirantes, por exemplo, com uma média de 6% de audiência, ou menos, em São Paulo e no Rio, tinha um faturamento maior que o do SBT.

VEJA - O público gosta do que então?

SANTOS - De maneira geral, o público brasileiro gosta de programas populares. Mas de programas populares bem-feitos, como o do Sílvio Santos, o do Flávio Cavalcanti e o do Gugu Liberato. A Globo também tem programas populares, como o Fantástico, que às vezes parece um programa médico, de tantas reportagens sobre doença que apresenta. Mas é diferente você fazer uma reportagem sobre doença deixando apenas o doente falar, ou mostrar gráficos e entrevistas com médicos. O público gosta das duas coisas, mas as agências de propaganda preferem o tratamento mais sofisticado.

VEJA - Você acha que o SBT tem condições de disputar a audiência com a Globo?

SANTOS - Como não quero simplesmente ganhar mais público, mas tornar a audiência do SBT mais qualificada, acredito que nosso objetivo pode ser atingido. Quero chegar perto do padrão Globo de qualidade, o que é difícil. Se eu me preocupar em disputar a audiência com a Globo, ao menos nos próximos dois anos, vou ter problemas.

VEJA - Problemas de que tipo?

SANTOS - Problemas administrativos e financeiros. Eu precisaria gastar quatro vezes mais do que estou gastando, o que me levaria à falência.

VEJA - E quanto você está gastando?

SANTOS - Para fazer a programação estamos gastando quase 18 bilhões de cruzeiros por mês. A Globo não faz milagres. É certo que ela tem talento, mas, se a Globo fatura 180 bilhões de cruzeiros, ela tem de gastar 150 bilhões. E o SBT não tem tanto para gastar. Se eu investir 80 bilhões de cruzeiros, e continuar tendo um faturamento de 20 bilhões de cruzeiros, vou à falência. A televisão não é um grande negócio, como se pensa.

VEJA - Se a televisão não é um grande negócio, por que você continua com o SBT?

SANTOS - Já não faço televisão por vaidade. Faço porque sou um empresário, dono de 49 empresas, com mais de 15.000 funcionários. Só na televisão temos 2.000 funcionários. Mas, decididamente, a televisão não é a empresa mais lucrativa do meu grupo.

VEJA Quais são as mais lucrativas?

SANTOS - A Tamakavy Móveis, a Aposentex, o Baú da Felicidade e a Liderança.

VEJA - Como você vai conciliar a busca de uma audiência mais sofisticada com certos aspectos popularescos e de baixo nível de sua programação?

SANTOS - Me dê algum exemplo de baixo nível.

VEJA - Você apresentou um cidadão, o "Homem Avestruz", que engolia relógios e bolas de bilhar. Depois houve o caso de um outro que colocava as mãos em água fervente. Isso sem falar nos travestis.

SANTOS - Veja bem: eu tenho 9 horas de programa no domingo, o que faz com que sua análise seja mim. Nessas 9 horas só entra um travesti. E assim mesmo é um travesti muito bem vestido, é um artista. Vamos analisar: se um cidadão se inscreve para imitar o Carlitos, ele coloca uma roupa de Carlitos e se comporta como ele. Agora, se alguém se inscreve para imitar a Liza Minelli, tem de se vestir como ela. Por que esse preconceito sobre o travesti que imita a Liza Minelli? Porque provavelmente esse artista que imita a Liza é gay? Por que não achar que aquele que imita o Carlitos também pode ser gay?

VEJA - E nos outros casos, como o do Homem Avestruz, não haveria sensacionalismo?

SANTOS - O povo acha sensacional. São coisas incríveis que acontecem. Nós não temos o direito de evitar que o sujeito coloque a mão na água fervente, ou engula chumbo derretido. E são alguns minutos num programa de 9 horas. Esse tipo de número incrível existe em várias televisões no mundo todo. Tanto que já comprei programas com números incríveis da Itália, do México e dos Estados Unidos, que vou lançar no próximo ano. Já investi 1 milhão de dólares para comprar esses incríveis.

VEJA - Como o Programa Sílvio Santos é muito visto por crianças, não haveria o perigo de elas tentarem imitar esses incríveis, colocando a mão em água quente, por exemplo?

SANTOS - Acho que não. Por que isso não acontece em outros países, na Itália, nos Estados Unidos? Podem até ser truques, que a criança não tem como imitar.

VEJA - Esses números incríveis são absolutamente necessários?

SANTOS - Se o meu programa é de variedades, ele tem de ter variedades. Num programa de 9 horas de duração é preciso mostrar crianças dançando, um engolidor de espadas, o casal fazendo fofocas, os Menudos. O programa tem de tudo.

VEJA - Se você quer ter uma programação da qualidade da Globo por que não investir no telejornalismo?

SANTOS - Acho que, muito provavelmente, a Globo perde dinheiro com o seu jornalismo. O carro-chefe da Globo são as novelas. O jornalismo é um item importante na Globo, mas não é tudo. Para mim, todo o lucro que tivermos será investido, primeiramente, no Programa Sílvio Santos, depois nos filmes e minisséries do horário das 21h20 às 23h20, que também tem programas como o do Flávio Cavalcanti e o do Gugu, e, depois, no Bozo nas manhãs. Quero aperfeiçoar os programas de maior faturamento. Mas também temos novelas, futebol e jornalismo, só que nenhum deles dá dinheiro. Televisão é um negócio como outro qualquer, e não é dos maiores.

VEJA - Então por que você entrou na disputa para conseguir mais concessões de canais?

SANTOS - Porque faz parte do engrandecimento do negócio ter mais concessões. Se eu consigo mais uma estação, a programação que faço vai chegar a mais pessoas, com o mesmo custo. O produto é o mesmo, mas atinge um público maior com novos postos de transmissão.

VEJA - Você está querendo vender sua parte na TV Record?

SANTOS - Eu gostaria de vender minha parte na Record. Mesmo porque não me acontece nada tendo essa parte.

VEJA - O motivo da venda não é a ilegalidade da situação, já que a lei proíbe que alguém seja dono de duas estações numa mesma região?

SANTOS - Mas a Record não é minha, ela pertence a um outro grupo.

VEJA - Mas ela pertence a parentes seus.

SANTOS - Mas legalmente não sou dono da Record.

VEJA - Quanto você está pedindo pela sua parte na Record e quem está interessado em comprá-la?

SANTOS - A minha parte está avaliada em 25 milhões de dólares por uma empresa de auditoria. Recebemos cartas do Jornal do Brasil e do grupo Paulo Machado de Carvalho, o dono da outra metade da Record, demonstrando interesse em comprar minha parte.

VEJA - Comenta-se que o grupo mexicano Televisa estaria associado com o Jornal do Brasil e que Paulo Machado de Carvalho também se associaria à Globo para comprar sua parte na Record. Legalmente, no entanto, um grupo estrangeiro não pode ser dono de uma estação de TV e a Globo também não pode ter dois canais numa região. Como fica a situação?

SANTOS - Não sei se essas histórias são verdadeiras. Quando e se o negócio for fechado, irei ao governo e direi que tal cidadão está interessado em comprar minha parte na Record. Não cabe a mim averiguar quem está por trás do cidadão. Aliás, já fui ao ministro Antônio Carlos Magalhães, das Comunicações, para dizer que o Jornal do Brasil está interessado em comprar a Record.

VEJA - É mais provável que o Jornal do Brasil ou o Paulo Machado de Carvalho compre a sua parte?

SANTOS - Não sei. Acho que no fim ninguém compra.

VEJA - Se a sua parte na Record for vendida, você vai aplicar esses dólares no quê?

SANTOS - Vou aplicar na expansão do SBT, principalmente no interior de São Paulo. Afinal, ganhei concessões no interior paulista e Brasília.

VEJA - Mas essas concessões estão sendo reavaliadas, e não é certo que você fique com os canais.

SANTOS - Elas estão pendentes, mas tenho de investir no -parque industrial, na expansão da rede.

VEJA - Você sempre teve boas relações co os governos da Velha República. Mudou alguma coisa com a Nova República?

SANTOS - Não é bem assim. Costumo dizer que, entre os empresários de televisão, eu sou o mais sacrificado. Veja bem: o Roberto Marinho passou dos 80 anos, o Adolfo Bloch, da Manchete, tem mais de 70 anos, o João Saad, da Bandeirantes, passou dos 60 e os Machado de Carvalho estão nessa média. Então, eles passam o tempo jantando e almoçando com uma porção de gente. Eu não tenho tempo para isso, pois faço meus programas e cuido pessoalmente de minhas empresas, até por uma questão de idade. É verdade que fiz uma boa amizade com o ex-presidente João Figueiredo, mas isso no último ano do governo dele.

VEJA - Por que não há críticas ao governo, qualquer que seja ele, no SBT?

SANTOS - É o meu modo de pensar. Se um governante pode ser elogiado, elogiamos. Não gosto de críticas, pois acho que elas não levam a nada. O público que julgue os governantes. A função da televisão é apresentar os fatos, cabendo ao público julgá-los.

VEJA - A televisão brasileira está melhorando?

SANTOS - Sem dúvida. Ela só perde para a televisão americana. As européias são fracas. A japonesa é boa, mas também perde para a brasileira.

VEJA - O que você acha bom na televisão brasileira?

SANTOS - Para o gosto do público brasileiro, as novelas certamente são ótimas. Só não faço novelas como as da Globo porque são muito caras. O Programa Sílvio Santos também é bom. O jornalismo, principalmente o da Globo, mas também o da Manchete, é bom. Os programas humorísticos estão em decadência.

VEJA - Qual o futuro da televisão brasileira?

SANTOS - Os filmes, incluindo aí as minisséries, são o futuro da televisão no Brasil. Isto porque, nos Estados Unidos, as pessoas pagam a televisão por cabo para assistir a filmes. No Brasil, aumenta cada vez mais a procura de videocassetes e fitas de vídeo. As empresas de cinema estão demonstrando, em seus últimos balanços, que têm mais lucro com a venda de fitas de vídeo e vendas para a televisão que com os. - filmes propriamente ditos.

VEJA - Mas no Brasil a situação não é diferente? Não há as novelas liderando as pesquisas de audiência?

SANTOS - Essa situação pode mudar quando a Censura permitir que os melhores filmes sejam apresentados no horário nobre, isto é, a partir das 19 horas. Aí, as novelas da Globo vão ter concorrência. Por exemplo, eu poderia ter jogado Pássaros Feridos em cima do Roque Santeiro e conseguir uma bela audiência. Mas a Censura só permitiu o Pássaros após 21 horas.

VEJA - Se o futuro for esse, não haverá espaço para o Programa Sílvio Santos no horário noturno?

SANTOS - Não, não haverá. Vai acontecer como nos outros países, em que as novelas e os programas de auditório passaram para o horário da tarde. À noite só vão ficar os filmes, minisséries e programas jornalísticos.

VEJA - Numa situação como essa, há lugar para um camelô subir na vida, tendo primeiro um programa e depois uma rede de televisão?

SANTOS - O Brasil é um país que ainda oferece muitas oportunidades. E um país novo em que um camelô, com sorte e talento, pode subir muito. Ainda vamos ver muitos self-made men por aqui.

1974 - O Especial do Roberto Carlos

Revista Amiga TV
Data de Publicação: 11/12/1974
ROBERTO EM FAMÍLIA
Pela primeira vez ele vai se apresentar em um programa de família

Depois de dois meses de trabalho, chegaram ao fim, na última quinta-feira, as gravações daquele que poderá ser o melhor programa da TV Globo este ano. É o Especial de Natal de Roberto Carlos, que irá ao ar dia 24 de dezembro, às 21 horas. Além de contar toda a sua vida e de ter a participação de astros como Paul McCartney. Tony Bennet, Pele e outros, este especial vai mostrar pela primeira vez a participação da família de Roberto num programa de televisão Na cena final, ele se abraça ao Nice e aos filhos e ergue um brinde ao Natal. Gravado inteiramente a cores, o programa vem merecendo da TV Globo cuidados especiais. Boni, superintendente da emissora, encarregou Augusto César Vanucci, supervisor da linha de shows, de controlar tudo rigorosamente, antes, durante e depois das gravações, observando cenários, escolhendo imagens, posicionamento de câmeras etc. Nada foi feito sem a aprovação de Vanucci.

Durante os dois meses de gravação do Especial, uma equipe da Globo acompanhou Roberto em todos os seus shows pelo pais, colhendo flagrantes principalmente das reações do público. A narração de sua vida não será feita de forma cronológica, mas mostrando os principais fatos relacionados a sua carreira, utilizando muitas vezes a técnica do flash-back. Recordando sua infância. Roberto se lembra de Cachoeiro do Itapemirim (a Globo montou uma maqueta da cidade no Teatro Fênix), da rua em que se criou, do grupo escolar da primeira professora e de pessoas a quem era bastante ligado. Na parte musical, cerca de dez a quinze de seus maiores sucessos e algumas faixas de seu novo LP, que será lançado em dezembro. Roberto canta a maioria das músicas em cenários externos, como a praia de Itaipu, em Niterói, a Via Anchieta (estrada de Santos). Congonhas do Campo e outros ligados á sua carreira. Uma vitória da Globo foram as participações de Paul McCartney. Tony Bennet (que gravaram com Roberto nos Estados Unidos) e dos Bonecos de Bremen. Das atrações nacionais, estão certas as participações de Paulo Gracindo. Erasmo Carlos, Emerson Fittipaldi. Vanderléia e Pele.

Roberto Carlos Especial foi produzido por Luis Carlos Mieli e Ronaldo Bôscoli (autor dos textos) arranjos do maestro Chico de Morais, figurinos de Sônia e a maquilagem de Erik Rzepecki, cenários de Mário Monteiro e Federico Padilla, direção de imagem de Evaldo Rui e direção geral de Augusto César Vanucci.

1967 - A Tesoura da Censura

Realidade
Data de Publicação: 1/6/1967
Autor: José Carlos Marão e Afonso de Souza
ISTO É PROIBIDO
Em Brasília, 17 funcionários públicos decidem que filmes crianças podem ver, o que os adultos podem ver e o que ninguém pode ver. Com esses 17 homens está o poder de decretar

Ele aparece todos os dias, em todos os filmes - desde um desenho animado até uma tragédia mexicana.

Ele trabalha atrás de uma mesa de aço, no quarto andar de um edifício de paredes de vidro, em Brasília.

Mais criticado que elogiado, é ele quem determina o que o brasileiro pode e o que não pode ver no cinema.

Ele é o censor, e nas telas seu nome e assinatura nunca falham: "A. Romero do Lago, chefe do Serviço de Censura de Diversões Públicas".

- Trabalho de censor desperta curiosidade muito grande - comenta um pouco vaidoso.

Romero do Lago chefia uma equipe de 16 homens, encarregada de cortar, dos filmes, cenas que - segundo eles - chocam, despertam violência, ofendem o decoro público ou subvertem. Com nível de cultura de média para baixo, esses 16 cidadãos têm o poder de proibir filmes para menores, cortar cenas e até interditar uma fita inteira.

Já houve tempo que se limitava um filme "impróprio para menores até..." só pelo título. Hoje não. Todas as fitas, nacionais ou estrangeiras são vistas.

O chefe Romero do Lago, porém, não gosta de cinema. Quase nunca entra na sala de projeções do departamento. Sem confessar sua indiferença, explica que não assiste aos filmes para poder opinar posteriormente, em grau de recurso, sobre qualquer dúvida surgida entre os censores.

A equipe agüenta ver quatro filmes de longa metragem por dia, mais um tanto de documentários e jornais cinematográficos. A ordem de exibição é a de chegada, mas os nacionais têm preferência. Os censores trabalham em grupos de dois, três ou quatro. No subsolo do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico (onde a Censura ocupa metade do quarto andar), eles têm uma sala de projeção: 300 lugares, luz e som perfeitos.

Depois de visto o filme, cada censor dá seu parecer por escrito. Se houver empate, Romero do Lago, ou um segundo grupo de censores, desempata. Se não houver, Augusto da Costa, que já teve seu nome conhecido no Brasil inteiro, pois foi o beque da Seleção Brasileira na Copa de 1950 - recebe os pareceres, prepara os certificados, passa ao chefe para assinar e despacha aos distribuidores.

Funcionários federais (dos níveis 17 e 18), os censores ganham no máximo NCrS 356,50 por mês e só podem ter outro emprego se forem jornalistas.

O CENSOR NASCEU DE UM BEIJO

A censura do cinema começou um pouco antes do cinema. Em 1896, no filme A Viúva Jones (do tempo da lanterna mágica), Mary Irvin e John C. Rice assustaram o público americano com um beijo mais ou menos longo. Membros do clero, escandalizados, denunciaram a fita como a lyric of the stockyards (um lirismo de matadouro).

Estava criada a censura. O censor oficial foi a conseqüência.

No Brasil, 71 anos depois, o censor é um funcionário público que ainda faz restrições aos beijos:

- O beijo passa, é claro, mas se o galã começa a dar mordidinhas nos lábios da mocinha, aí vamos estudar o caso.

No estudo do caso, há pelo menos 16 critérios para julgar o que o povo não pode ver: um para cada censor. Além da orientação geral de Romero do Lago, através das portarias que vai baixando.

Serviço de Censura de Diversões Públicas foi criado em 1946, dentro do Departamento Federal de Segurança Pública (hoje Departamento de Polícia Federal). Na mesma ocasião foi feito um regulamento de 136 artigos, onde só um - o "41" - fala dessas coisas que são proibidas: "Será negada a autorização sempre que a representação" exibição ou transmissão: a) contiver qualquer ofensa ao decoro público; b) contiver cenas de ferocidade ou for capaz de sugerir a prática de crimes; c) divulgar ou induzir aos maus costumes; d) for ofensiva à coletividade ou às religiões; e) puder prejudicar a cordialidade com outros povos; f) for capaz de provocar o incitamento contra o regime vigente, à ordem pública, às autoridades e seus agentes; g) ferir, por qualquer forma, a dignidade e o interesse nacional; h) induzir ao desprestigio das forças armadas."

São proibidas por lei, portanto, entre outras, cenas que ofendem o decoro público. Mas como até hoje ninguém definiu nem indicou quando o decoro público é ofendido, os censores usam, para julgar, a intuição e o bom senso pessoal.

BAIANO NÃO ENTENDE "O SILÊNCIO"?

Todo censor é a favor da censura: -Como é que aquela gente do interior da Bahia vai entender ou suportar um filme como O Silêncio, se não for cortado?

A frase é de Pedro José Chediak, que antecedeu Romero do Lago na chefia do departamento. O Silêncio, filme de Ingmar Bergman, premiado no mundo inteiro, saiu da censura brasileira com quatro cortes de cenas consideradas imorais: duas de relações sexuais, uma de masturbação e outra em que aparece um seio de mulher. Apesar de alguns dos censores admitirem que foram filmadas tão sutilmente que não chegavam a ferir o decoro público, Chediak foi categórico:

- O Silêncio não tem mensagem nenhuma, é vazio. O Ingmar Bergman fez fama e deitou na cama.

A VEZ DA SUBVERSÃO

Recentemente, o filme nacional Terra em Transe, de Glauber Rocha, foi submetido à censura, sendo inicialmente interditado por cinco votos contra um. Romero do Lago nem precisou ver o filme; examinou os pareceres e deu o veredicto:

- Realmente esse filme leva uma mensagem marxista de subversão da ordem.

José Vieira Madeira, o único censor que opinou por sua liberação, pensa diferente:

- O filme é pura ficção, que pode ter semelhança com o Brasil de hoje, mas pode ter também com outros países latino-americanos. É exagero dizer que o tirano do filme seja Castelo Branco e o Governador do Estado do Alecrim seja João Goulart.

Enquanto isso Terra em Transe era inscrito no Festival de Cannes, na França.

O recorde de cortes na censura é de um filme também nacional: Noite Vazia; de Walther Hugo Khouri. Cinco cenas foram cortadas - a considerada mais forte era aquela em que Norma Benguel e Odete Lara apareciam numa cama. Essa cena teve que ser exibida só com o começo e o fim, sem o meio.

Outro filme brasileiro, Canalha em Crise, só foi liberado dois anos e meio depois de sua entrada no departamento. Nesse período houve trocas na chefia e, quando a fita ia sendo liberada por uma equipe, Miguel Borges, o diretor, não concordava com os cortes e entrava com o recurso. De mudança em mudança, afinal, Canalha em Crise saiu de Brasília - depois de dois anos e meio - com duas cenas de sexo a menos, e ainda deixando os censores preocupados, porque é o bandido quem ganha no fim.

Mas acontecem coisas ainda mais estranhas: Katu no Mundo do Nudismo, liberado com alguns cortes, encontra-se em exibição. Enquanto isso, seu trailler_ está há vários meses aguardando liberação, pois chegou a Brasília atrasado.

Viva Maria, francês, foi liberado por acaso: tinha sido interditado pelos censores por ser considerado subversivo. Acontece que ao mesmo tempo o general Riograndino Kruel - então diretor do Departamento de Polícia Federal - via o filme em exibição especial e dava boas gargalhadas com as ''guerrilheiras'' Brigitte Bardot e Jeanne Moreau.

Quando soube da interdição, não achou graça nenhuma. Chefe do chefe da censura, mandou que Viva Maria fosse liberado.

Pode acontecer também que o público nem fique sabendo que certos filmes entram no Brasil. Delírio Noturno, japonês, foi devolvido pela censura para reexportação, por "imoral e antiestético''. Outros começam a passar e depois são apreendidos: Tentação Morena, mexicano, teve sua exibição interrompida em Belo Horizonte. Os distribuidores tinham esquecido de tirar daquela cópia uma cena cortada pela censura, em que a atriz Izabel Sarli toma banho num rio, completamente nua.

MAS NEM SÓ SEXO E SUBVERSÃO DÃO TRABALHO AOS CENSORES

- Crime com arma branca que tem sangue, eu corto - diz um dos homens do serviço.

005 contra o "strip-tease"

O ex-chefe Chediak baixou uma portaria - de número 005 - proibindo o strip-tease para todo o território nacional. Romero do Lago derrubou essa portaria. Agora o strip-tease não é mais proibido, desde que as câmaras estejam a mais de cinco metros do objetivo. Isso é o que diz a nova portaria, que assim exige um requisito a mais dos censores: golpe de vista.

Além dessa liberalidade, Romero do Lago juntou uma importante inovação ao Serviço de Censura de Diversões Públicas:

- O SCDP -diz ele - concederá certificados especiais de censura cinematográfica a filmes considerados de valor educativo, para exibição em entidades culturais, onde entidade cultural é definida como universidade, cinemateca, fundação cultural ou cineclube filiado à Associação Brasileira de Cinema de Arte.

Veridiana, de Luiz Bunel, foi o primeiro a obter essa categoria de filme de valor educativo" tendo sido liberado integralmente" com a condição de não ser exibido comercialmente. Antes da portaria, o filme fora censurado e cortada uma cena em que um grupo de mendigos se banqueteia numa mesa com talheres finíssimos, num salão medieval, durante a ausência dos donos da casa. A cena é uma paródia da passagem bíblica pintada por Leonardo Da Vinci.

Augusto da Costa, o ex-beque da seleção, afirma:

- É uma tentativa de ridicularizar a Santa Ceia, e o filme é anticlerical.

Antônio Fernandes de Sylos, um dos censores, está com o beque:

- E quem é que garante que não é mesmo a Santa Ceia?

PROIBIDO PARA CENSORES

Extraconjugal, filme italiano com quatro histórias, entrou na censura normalmente. A última das histórias deu um susto nos censores: era forte demais. Resolveram interditar a fita a não ser que aquele episódio fosse eliminado.

Os distribuidores entraram com recurso, pedindo reexame. Extraconjugal foi revisto e a censura acabou autorizando a emissão do certificado, mas proibindo o filme para menores até 21 anos. Assim, um brasileiro de 18 anos, pode ser eleitor, funcionário público (e até censor), mas está proibido de ver a fita.

Não existe nenhuma lei, decreto ou portaria que permita proibir filmes em estágios fora dos níveis de 10, 14 e 18 anos. Uma vez ou outra, porém, há essas exceções: Dr. Jivago, de custo caríssimo, tinha sido proibido para menores até 18 anos. Os distribuidores, desesperados, apresentaram recurso. Resultado - foi proibido para menores até 16 anos. Afinal, o filme mostrava muita guerra, um herói que vivia feliz com a amante e.. o romance fora proibido em seu pais de origem, a Rússia.

Mas não são apenas essas as fórmulas de censura vigentes no Brasil. Cinemas de propriedade de padres e igrejas, principalmente nas cidades do interior, de vez em quando suspendem a exibição de algum filme, quando os gerentes foram enganados pelo titulo, na escolha do programa mensal.

Há pouco tempo, em Niterói, o governador do Estado do Rio, Jeremias Fontes, que é protestante, censurou a própria censura. Rasgou e jogou no lixo uma foto de mulher nua que encontrou emoldurada, carimbada censurado, enfeitando a mesa do chefe da censura estadual.

QUEM ESTÁ CONTRA A CENSURA

Nem todos, porém, pensam como o governador Jeremias Fontes. Entre os intelectuais brasileiros, por exemplo, será difícil encontrar-se alguém favorável à censura. Para Carlos Diegues, cineasta, diretor de Ganga Zumba e A Grande Cidade, "não deveria existir censura nenhuma". Esta é a sua opinião:

-- Sou contra qualquer tentativa de impedir a expressão livre de quem quer que seja.

Por outro lado compreendo os motivos pelos quais o Estado se protege através de instrumentos odiosos como o da censura: ele precisa se precaver contra as "doenças sociais", animadas, quase sempre, pelo livre pensamento condutor da opinião pública e da crítica. A censura moral encobre, no final das contas, a censura política. E é em nome desta que se faz a primeira. Para quem faz cinema (ou qualquer outra coisa) a presença da censura é asfixiante, estamos sempre medindo nossa possibilidade de enfrentá-la. A única maneira de conviver com ela, já que é impossível evitá-la, é lutar pela sua liberalização, tentar fazé-la progredir, para que possa se transformar num instrumento menos obscuro, como já é em tantos países do mundo. O melhor modo para se chegar a isso é estabelecer uma discussão da qual ela sairá, quase que fatalmente, mais moderna.

"SOU CONTRA QUALQUER TIPO DE CENSURA"

O jornalista, ensaísta e crítico literário Paulo Francis faz comparações entre o Brasil e os Estados Unidos:

- Sou contrário a qualquer tipo de censura: política, moral etc. É evidente que o excesso de liberdade pode acarretar alguns excessos anárquicos. Mas está provado, pela experiência de países como os Estados Unidos, que qualquer sociedade civilizada é perfeitamente capaz de absorver esses excessos sem nenhum prejuízo para a sua estrutura. Um bom exemplo é a peca Mac Bird, onde o presidente Johnson é explicitamente acusado de haver assassinado o presidente Kennedy. A peça não foi censurada, e o govêrno Johnson não caiu.

Isto é válido também para a censura dos livros ditos obscenos. No Brasil, em particular, a censura tem sido um fator de obscurantismo político e sexual. Um bom exemplo do primeiro caso foram as apreensões de livros no governo Castelo Branco; e, no segundo, as apreensões de livros como O Casamento e Fanny Hill. Uma sociedade que não pode ler a respeito de um ato fisiológico normal, como é o sexual, não está preparada para o desenvolvimento industrial e para a era da tecnologia.

"CRÍTICA SIM, CENSURA NÃO"

Josué Montelo, escritor e membro do Conselho Nacional de Cultura, também condena a censura:

- Só aceito como válida à obra de arte a censura feita em nome de princípios de ordem estética. E esta é exercida ou pelo artista - no momento da criação - ou pelo espectador, diante da obra realizada. Esta censura chama-se crítica e só interfere na criação por iniciativa de seu criador. Fora dai, a censura aparece numa faixa de ordem ética. Fala a moral onde deveria falar a estética. Ora, a obra de arte deve ser permanente, como mensagem humana, enquanto os princípios de ordem ética - onde a censura se baseia - variam com o tempo e as latitudes.

"O CENSOR VIVE ASSUSTADO"

O JURISTA EVARISTO DE MORAIS VÊ O PROBLEMA ASSIM:

- A censura, do ponto de vista jurídico, pouco se diferencia da censura do ponto de vista sociológico. Pois ela representa nada mais do que aquele controle social, difuso e inorganizado, mas formal e institucionalizado através de códigos, leis e tribunais e policias. Em qualquer país do mundo, a censura é sempre a defesa da ordem social e econômica constituída. Por isso mesmo, o govêrno - apesar de todas as criticas - prefere sempre a censura prévia, em lugar da exercida depois do fato consumado, com plena responsabilidade de seu autor. Com a censura prévia o que se procura é evitar que o público tenha conhecimento daquilo que poderá causar dano aos valores, interesses e crenças dos poderes constituídos. Infelizmente, salvo raras exceções, os censores vivem assustados e vêem atentados contra a ordem dominante por toda parte, mutilando as livres criações do espírito humano.

"ELA CRIA HIPÓCRITAS"

Napoleão Moniz Freire autor e atualmente do Departamento de Teatro da Guanabara, encerra a série de críticas:

- Há um perpétuo conflito, na marcha do mundo, entre o bem e o mal. Existe a idéia. Existe a liberdade de pensamento. Existe a liberdade de opinião, de exame e deliberação. A liberdade de expressão sofre, às vezes, censura. Acontece que, existindo a liberdade de pensamento e a de opinião, não será a censura que irá eliminar a idéia. Uma idéia só poderá ser eliminada quando voar e sofrer o embate da dignidade. Nunca será eliminada pela censura, que somente cria hipócritas.

2000 - O Reveillon na TV

Folha de S. Paulo
Data de Publicação: 1/1/2000
Autor: Fernando de Barros e Silva
ALÉM DE COPACABANA

A TV deu a volta ao mundo para aterrissar à meia-noite na praia de Copacabana, coração simbólico do réveillon brasileiro. Era inevitável. Mas imagens, muitas imagens exibidas ao longo do dia de várias partes do globo serviram para relativizar a idéia tola, a ridícula mania de grandeza segundo a qual o Brasil, além do futebol e do Carnaval, teria também o melhor réveillon do mundo.

A Rússia está desmilinguindo, sabemos, mas o Kremlin em Moscou estava lindo coberto de fogos; Londres, sensacional; e Paris... bem, Paris é uma festa.

Record e Bandeirantes, que investiram numa cobertura extensiva, viajando de país em país desde o início do dia para competir com a Globo, acabaram nos retirando do centro do planeta, sem nenhum demérito para o foguetório de Copacabana, também superbacana, obviamente.

Galvão Bueno, o mestre de cerimônias do "Show da Virada" da Globo, estava contido, quase discreto, mais sentimental do que efusivo, como nos acostumamos a vê-lo em seus rompantes ufanistas quando o assunto é futebol. Vestido de smoking branco, estilo brega-chique, mudou de personagem. É incrível, mas estava melhor, descontados os clichês sobre paz, amor, esperança e blablablá.

Durante a queima de fogos em Copacabana, na virada do ano, Galvão Bueno ficou praticamente calado. Estava ótimo.

Um toque retrô tomou então conta da transmissão, acompanhada por um fundo musical instrumental, tipo bailinho bem-comportado da família brasileira.

Veio a seguir a indefectível canção-slogan da casa, "Hoje é um novo dia, de um novo tempo" etc. etc., cantada por Sandy & Júnior. Foi a confirmação da auto-imagem do país sentimental, afetivo, feliz, apesar de tudo. Imagem que a Globo reforça diariamente.

Como era previsto, a Globo aproveitou o réveillon para fazer um extenso lobby de si mesma. Mobilizou todo o elenco, que gravou mensagens de praxe, preparou quadros de programas com astros da casa e alternou flashes ao vivo do país com reportagens lacrimejantes sobre "nossos heróis" anônimos em 99. Fez lembrar do slogan dos tempos de Sarney -"tudo pelo social".

Antonio Fagundes aparece na tela pouco depois da meia-noite declamando um texto de Jorge Amado, mensagem de esperança que exalta "a capacidade que o brasileiro tem de sobreviver com alegria". Jorge Amado é o ideólogo do país mestiço, sensual, afetuoso e cheio de ginga.

É a imagem invertida que justifica e avaliza uma das sociedades mais iníquas do planeta. Tudo bem, réveillon é festa e 1º de janeiro, dia de trégua e reconciliação, mas cinismo tem limite -mesmo em se tratando da Globo.

1991 - Globo Retorna à Grade Tradicional

Folha de S. Paulo
Data de Publicação: 3/3/1991
Autora: Sônia Apolinárop
GLOBO RETMA PROGRAMAÇÃO TRADICIONAL
Este ano, a programação da Rede Globo retorna ao seu formato tradicional. Depois da novela das 20h30, vão ao ar programas da linha de shows, minisséries nacionais e estrangeiras. Para o diretor da CGP, Daniel Filho, a "boa novidade" é a volta da "Sexta-Super".

Nesse dia, será apresentado um programa diferente por semana. E aí que entram as novas produções da emissora. "Só para Maiores" é o título provisório do programa que vai reunir a apresentadora Dóris Giesse e os redatores do "Planeta Diário" e "Casseta Popular".

Ela interpretará o personagem Dorf, das tiras de Dualibi. Eles ficarão encarregados da parte jornalística. Também estão previstos quadros assinados pela produtora independente Olhar Eletrônico e outros extraídos do programa francês "Pic Nic".

A direção será de Guel Arraes. Ele também está preparando o piloto do programa apresentado por Regina Casé e Luis Fernando Guimarães, que não deverá se chamar "Programa Legal". "Eles são como se fossem guias que conduzissem o espectador por diversas facções da sociedade", disse Daniel Filho.

Cada programa terá um tema. O primeiro deles é sobre turismo. Outros três escolhidos são debutantes, alta sociedade e periferia da cidade.

A apresentadora Xuxa também deverá fazer um programa. Daniel Filho disse que o projeto ainda não está definido. A idéia é fazer uma comédia para o público infantil. Xuxa interpretaria personagens fixos. A direção será de Jorge Fernando.

A apresentadora continuará no "Xou da Xuxa". Sérgio Mallandro terá um programa sábado à tarde.

Os "Casos Especiais" vão ao ar no segundo semestre. Serão produzidas dez histórias. As oito primeiras serão gravadas em vídeo. Depois, começa a produção em película cinematográfica. Os cineastas Murilo Salles, Arnaldo Jabor, Sérgio Toledo e Jorge Furtado já aceitaram participar.

Na terça-feira, a Globo exibe o "Globo Repórter". Na quarta, "Estados Anysios de Chico City". Chico Anysio também terá a "Escolinha do Professor Raimundo", que continua a ser exibida diariamente, no mesmo horário.

Às segundas e sábados, serão exibidos filmes. Quinta-feira é dia de horário eleitoral até outubro. As minisséries programadas até agora são "Tereza Batista Cansada de Guerra, "Cumpadre de Ogum".

Ambas são de Jorge Amado, e estão sendo adaptadas por Walter George Durst e João Ubaldo. Outra obra do mesmo autor, "Os Pastores da Noite", está sendo adaptada por Geraldo Carneiro e terá o nome alterado para "Sorriso do Lagarto".

1980 - Cobertura da Visita do Papa ao Brasil

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 1/1/1980
Autora: Maria Helena Dutra
O GERAL É BOM, OS PARTICULARES NEM TANTO
Está cumprindo seu dever. Quem ficou em casa pôde acompanhar pela televisão todas as principais cerimônias e acontecimentos que marcaram o início da visita de João Paulo II ao Brasil. O veiculo fez por merecer seu nome, apresentando bom trabalho no pool, coordenado pela Secom, através do qual as emissoras se revezaram na geração de imagem única e de uma narração que poderia, ou não, ser também aproveitada. Um' trabalho que teve muitas qualidades e, no geral, foi bom.

Nos particulares, porém, alguns tropeços, já que o Papa não operou milagres e os defeitos de sempre estavam presentes no despreparo de narradores e diretores de imagens, na notícia atrasada e com horário fixo e na falta de análises mais aprofundadas do evento.

Começou na segunda-feira com as imagens oficiais de Brasília geradas pela Radiobrás. O locutor Hilton Gomes, veterano destes acontecimentos, mostrou desconhecer ministros e cardeais, não os identificando com presteza, embora todos os detalhes da cerimônia tivessem sido divulgados com muita antecedência. A mesma falta de informações ou de textos pesquisados foi evidente na prolongada espera dos discursos no Palácio do Planalto. Já era tempo de melhor se prepararem. Apenas a Globo, no Rio, colocou som próprio e recorreu a jornalista especializado e padre brasileiro da Rádio do Vaticano para tudo melhor explicar e ao bom narrador Fábio Perez. Ponto para ela. Mas foi já na Capital, corno era de se prever, que se iniciou a paralela e mesmo fascinante maratona musical desta visita que se tornou também elemento importante da sua parte televisiva. Apenas a solidão do Planalto deve explicar o hino de Afonso Celso e a dupla Dom e Ravel.

Também não foram melhores os cânticos da missa, no dia seguinte, em Belo Horizonte. Detalhe que chegou a atrapalhar a mais bonita e comovente cerimônia da visita até agora. No Estado mais católico do país, João Paulo II parecia mesmo estar em casa. Como o povo um pouco mais perto dele, foram captadas imagens históricas de perfeita comunhão entre a comunidade e seu Pastor. Que de improviso falou e cantou. Até o Está Chegando a Hora, sucesso do carnaval de 1942, não passa de uma versão de Henricão e Rubens Campos para a mexicana Cielito Lindo. Uma revanche da escolha de Amigo, de Roberto Carlos, naquele país. Não deu para entender foi o título de Valsa da Despedida que informavam ser o nome deste antigo sucesso de Carmem Costa.

Mas foi bonito - e a televisão mostrou bem - vê-lo cantar e receber o título de rei da multidão mineira. Já gostam de uma monarquia. Quando todos iam aderindo, o Papa chegou ao Rio e a cobertura de reportagens de televisão, que vinham sendo ótimas, baquearam. A poderosa Globo, única capaz - cujos responsáveis por seu jornalismo vivem apregoando recursos mirabolantes - levou 55 minutos para pôr no ar a imagem do Galeão. Enquanto as estações de rádio estavam a toda, a televisão mostrava desenho animado. Depois foi pior. A missa noturna do Aterro do Flamengo já era difícil de fornecer imagens de qualidade e, para piorar, a geradora, Globo, esqueceu de colocar um holofote para mostrar que tinha povo, mesmo há muita distância. Também não se lembrou de orientar os espectadores sobre o exato cenário da cerimônia nos momentos que a antecederam, tornando, por isso, confusas as suas dimensões. E o diretor de imagens acabou fixando-se muito mais no monumento do que no altar. A solene missa, mais adequada para local fechado do que para campal, teve o vibrante Queremos Deus para iniciar. Mas fez do Papa uma involuntária testemunha da queda de inspiração musical por nossas bandas. Escutou o maravilhoso hino do Congresso Eucarístico de 1955, obra-prima do maestro Hellman e Dom Marcos Barbosa, e a terrível peça de saudação para ele feita em 1980. A pior musiquinha de nosso hinário. Mas a Ordem dos Músicos deve estar orgulhosa. Em todas as cerimônias, o acompanhamento instrumental e vocal foi de muito boa qualidade.

Nem tanto estiveram as reportagens. A Globo optou pelas produzidas, caminho defensável, mas que, agora não deram certo. Em termos de entrevistas andou melhor e mostrou seus jovens profissionais com muita vontade, incansáveis feito o visitante. Principalmente Ricardo Pereira presente em todas as etapas do acontecimento e capaz de boas frases sobre ele.

Também seus cinegrafistas merecem elogios. Na Tupi e Bandeirantes foi só rotina. A TVS, lógico, tudo ignorou completamente. Apenas enfrentou a Globo, com bem menores recursos, mas produzindo esforçado trabalho foi o pessoal da Educativa. Única estação a mostrar histórico sobre o papado e João Paulo II e por isso fazendo jus ao nome. Foi ela que gerou as imagens do Corcovado e ficou a dúvida se mostrou a cidade intencionalmente durante a benção, não exibindo o gesto do Papa, ou se foi um erro do diretor de imagens. Profissionais que nunca também parecem saber com antecedência o desenrolar das cerimônias. O que somos testemunhas de não ser verdade, pois elas foram planejadas com muita antecipação e com acesso do pessoal de televisão a seus pormenores. Discutidos com este grupo pelas comissões coordenadoras. Todas, pelo menos no Rio, dirigidas por mulheres. Mas figuras ausentes nas comitivas e recepções. A única que ousou se aproximar e orientar o Papa no Corcovado foi Vera Peixoto, auxiliar de Cristina Sá na organização da visita ao Rio. Nossa única representante visível em todo o desenrolar das múltiplas cerimônias.

E estas não receberam, por parte da televisão,. as análises necessárias por sua importância e simbologia. A Globo, no Jornal das 23 horas, foi a única a tentar, mas ficou por demais prudente nos convidados e opiniões. E estas sempre sobre atitudes ou palavras do Papa e sem a menor referência a reações do povo, autoridades ou excesso de segurança e privilégios nas cerimônias. Lacuna, me parece, típica de quem se acostumou a fazer jornalismo consentido. Pior, incompetência mesmo, foram a maioria das narrações que não identificavam comungantes, mesmo sendo poucos. Ou capazes, no Estádio do Morumbi, de informar que estava "entrando no gramado a equipe de Jesus."

As etapas subseqüentes foram mais fáceis de televisar como o encontro com o Ceiam e a ordenação no Maracanã. Em São 'Paulo tudo se repetiu, Como agravante de problemas de som local fora do controle das emissoras de televisão. Embora com chuva, o único lapso da Folhinha Mariana, a mais bonita cerimônia foi o encontro do Papa e trabalhadores com a palavra emocionada do operário Waidemar Rossi, os aplausos a Dom Cláudio Humes, o refrão mudando para "João Paulo é nosso irmão" e o canto de Caminhando, de Geraldo Vandré. Pena que o belíssimo samba do Vidigal, de Marcos, Marcão e Moacir, com breque iniciado por Sua Santidade, não foi muito divulgado. Apenas hinos religiosos, mas pouco populares, foram escutados na Missa de Aparecida da qual a TV Cultura paulista não conseguiu captar em boas imagens. Que apenas focalizavam o Papa, jamais o povo e muito menos outros participantes da missa.

Problemas que esperamos sejam resolvidos até o final desta visita. De um Chefe de Estado e' da Igreja Católica que alterou profundamente as regras que nossos comunicadores de massa por aqui consideram sagradas. Em poucos dias o veículo, que há 16 anos nega o valor da palavra e foge das mensagens explicitas, teve que transmitir discursos, homilias e sermões de durações extremamente longas. Um ensinamento de quase dois mil anos de experiência para aqueles que só agora estão começando e pensam já saber tudo.

Wednesday, May 29, 2013

1982 - Telejornalismo velho e batido

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 25/7/1982
Autora: Maria Helena Dutra
COMO O TEMPO CUSTA A PASSAR
Bem bolado. Pode não ser verdade, mas dá até para acreditar que no dia 15 ou 17 de setembro de 1950, enfim, 24 horas antes ou depois da inauguração da televisão no Brasil, um responsável pela pioneira Tupi tenha dado uma entrevista afirmando que "o futuro do veículo no Brasil está no telejornalismo". Como o tempo custa a passar. Pois se a afirmação não foi realizada nesta época, ela foi inegavelmente repetida por todos os donos, diretores, superintendentes e acho mesmo que até pelos assessores de coisa nenhuma de TV nestes últimos 32 anos, sem que a profecia jamais tenha sido cumprida. E, muito pior, sequer tentada.

Apesar das pitonisas, a rotina deste enorme espaço de tempo foi ocupada por programas de auditório, musicais e, finalmente, novelas. Afinal, dizem, é isso que povo vê. Tudo bem; então seria bom esquecer as teorias sobre o inexistente. Pois jornalismo sempre foi um dever realizado por obediência à lei e nunca um projeto de vida de qualquer concessionário. Começaram regionais, muito pobres, mas com repórteres entusiasmados e cinegrafistas heróicos. O equipamento pesava no mínimo toneladas e o trabalho era repleto de riscos e de muitos acidentes. O igualmente regional Repórter Esso foi o primeiro sucesso do ramo - alguns descrentes explicavam isso, pelos seus anúncios de bonequinhos dançantes - e apenas o Jornal de Vanguarda, muitos anos depois, na Excelsior, trouxe algo de novo ao gênero, ao lhe acrescentar comentaristas e mesmo humoristas.

O terceiro estágio foi ocupar todo o território brasileiro - no início apenas alguns Estados, só depois foi se expandindo - através do Jornal Nacional, pela Rede Globo. E nestes últimos 13 anos, justiça seja feita, foi esta estação que melhor equipou e organizou seu telejornalismo. Durante anos censurado e por isso não merecendo as duras críticas que recebia. Mas, com a abertura, revelou-se frágil. Muito bom em técnica, mas por demais amarrado às verdades governamentais que jamais questionava. E com aqueles impecáveis locutores de otimistas sorrisos para os comerciais. No momento, com suas edições diárias, os jornais de TV cobrem bem a cidade e o mundo, dando muitos furos, e empregam repórteres experientes que sabem fazer jornalismo enxuto. Mas ainda não se livraram de pecados maiores, como torcer em lugar de cobrir a Copa do Mundo, ou noticiar fantásticos bombardeios dos argentinos, para manter a equidistância, mesmo não acreditando nas fontes. Pena que seus programas especiais, Globo Repórter ou Sem Censura, sumiram, pois neles a análise que sempre faltou ao seu noticiário factual poderia, enfim, abrir caminho no estilo acrílico. Vamos ver se o anunciado (para agosto) Jornal da Globo tenha apenas as melhores qualidades da casa. Só que elas, como sempre acontece na estação, se existirem, só poderão ser avaliadas depois da meia-noite, horário para o qual a nova produção foi exilada.

Mas se a Globo é assim, ela é um oásis de jornalismo frente às suas concorrentes. O Canal 2 se esforça, mas é oficial demais. E teme-se que, nestes tempos de eleições, possa se transformar na TV Cultura paulista dos tempos de Maluf: propaganda em vez de notícias. A Bandeirantes luta contra a melhor forma de concorrer com a Globo. Jamais deu às suas estações um mínimo de equipamento necessário a um jornal decente. Tem bons comentaristas - até o melhor de todos da televisão, Joelmir Betting - mas nenhum filme, tape, trabalho exclusivo ou equipes ágeis para fornecer a matéria-prima. Seu melhor trabalho no ramo, Canal Livre, está, apesar de muitos méritos, cada vez se tornando um programa mais de relações públicas, do que de entrevistas. Só tem amigos docemente perguntando ao convidado o que menos lhe incomoda na vida. Até no esporte lutam contra notícia. Em Bola na Mesa, domingo passado, receberam de volta os jornalistas Sandro Moreira e Sérgio Cabral, que viram a Copa do Mundo de perto. Falaram sobre tudo, Madureira, Volta Redonda, até Flamengo, menos sobre um assunto que ainda era notícia e que na estação ainda não tinha sido falado.

Na TVS e Record existem Noites Cariocas e Ferreira Neto que fazem entrevistas. Mas os jornais diários são tão pobres como os pioneiros das Tupis carioca e paulista. Uma regressão que mostra que o tempo nem mais está custando a passar: em certos casos e estações, imóvel está, mesmo.

1971 - Especial Moacyr Franco

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 12/11/1971
Autor: Valério Andrade
MOACIR FRANCO Nº 3
O vilão número um do cinema brasileiro, José Lewgoy, estava atuando no palco-auditório da Globo no papel de um ladrão que é roubado por Moacir Franco. De repente Lewgoy, fugindo ao script, pronunciou aquela famosa (e às vezes última) frase: "Estou sentindo cheiro de fumaça". E foi o que se viu.

Apesar do incêndio, da destruição do palco em que estava sendo gravado, o Especial foi concluído e levado ao vídeo no da certo. Dos três programas de Moacir Franco apresentados dentro da programação de Sexta-Feira Nobre, este último mostrou-se muito aquém do nível habitual dessa linha de produção. É evidente que a fatalidade perturbou e prejudicou a marcha do espetáculo. Mas, alem disso, algo está falhando na elaboração global dos Especiais de Moacir Franco.

O programa de estela foi realmente muito bom, visualmente brilhante, dinâmico e inventivo. A idéia de remontar a entrevista, conservando as respostas e mudando as perguntas, é um desses achados que dão extraordinária vitalidade à rotina. E a personalidade de Armando Marques, por tudo que se sabe, encaixou-se como uma luva ao objetivo humorístico desse engenhoso quadro. Igualmente funcional foi a introdução em cena do mendigo de Me Dá um Dinheiro Aí, devidamente caracterizado e denunciando a exploração que seu criador tem feito dele...

O último programa de Moacyr Franco, contudo, já começou a dar sinais de exaustão criativa e perigoso acomodamento. Ao contrário do que ocorre com os Especiais de Elis Regina, que buscam na linguagem cinematográfica a mobilidade inexistente no palco, os de Moacir Franco vêm optando pela fórmula dos quadros de auditório. Outra coisa irritante: o uso dos aplausos em off. Na introdução feita por seu filho Guto, após cada observação humorística, a platéia invisível desmanchava-se em risos e palmas.

A presença de Pelé, a começar pelo suposto e falso telefonema entre Edson Arantes do Nascimento e uma assistente da produção, foi literalmente desperdiçada em termos de solução visual. As cenas filmadas com Pelé no estádio vazio, intercaladas durante o número cantado por Moacir Franco, apenas ilustram primariamente a letra de Pelé Agradece. Aparentemente, a idéia era alcançar o efeito das cenas de Elis no Maracanãzinho vazio, mas, na verdade, a execução não foi além da intenção.

Excluindo a bem sucedida entrevista com Chacrinha, feita naquele esquema da de Armando Marques, o 3.º Especial de Moacir Franco teve raros momentos dignos de nota. Vejamos como - sem a ameaça das chamas - será o seu retorno em dezembro.

Tuesday, May 28, 2013

1976 - Morte de JK mal noticiada

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 25/8/1976
Autor Paulo Maia
SEM NOTÍCIA E SEM MEMÓRIA
A morte do ex-Presidente Juscelino Kubitschek apanhou a televisão brasileira de surpresa e nenhuma emissora soube reagir aos fatos com a presteza e a agilidade de reflexos que se deve exigir de qualquer telejornal que se preze. Afinal de contas, JK não era um político qualquer, mas um dos raríssimos e últimos estadistas nascidos neste país e merecia tratamento mais sério e profundo do que meras reportagens policiais e coberturinhas de enterro, como fizeram os jornais Factorama da Rede Tupi e Jornal Nacional da Rede Globo de Televisão.

Um estadista não é um cantor de boleros ou um jogador de futebol, que mereça apenas uma cobertura circunstancial de sua morte. Uma personalidade política do porte de Juscelino, que já andou a merecer análises de cientistas políticos da maior seriedade (como o mais recente, de Maria Victoria de Mesquita Benevides, e a tese de doutoramento em Cornell, Estados Unidos, de Celso Lafer), exige uma cobertura com um mínimo de posição crítica. Construindo frases bonitinhas, mas ordinárias, os redatores de nossos dois principais telejornais diários noturnos se esqueceram de que Juscelino Kubitschek abandonou suas atividades políticas há mais de 12 anos, o que representa uma geração da população brasileira. Desde que abandonou a Presidência da República, em 1961, o político mineiro tem sido passado na história política brasileira, quando o presente tem-se mostrado tão medíocre em grandes personalidades públicas. Os jovens de 15 anos estão pouco habituados à sua figura e pouco sabem da importância de sua Administração. Esses jovens conhecem Brasília como uma realidade e não, como era à sua época, um sonho a ser realizado. Não viram nascer Furnas, Três Marias e não se lembram da primeira missa da inauguração da nova Capital brasileira. Já que a História oficial do Brasil tem sido injusta e ingrata com um de seus maiores filhos, por que a história oficiosa - que é a televisão - não procura corrigir essa falha, o que seria aliás de sua obrigação?

Acontece que a televisão brasileira é desmemoriada. A Rede Tupi de Televisão deve possuir um dos mais completos arquivos cinematográficos do Brasil. Ninguém viu ser colocado no ar o filme de inauguração de Brasília, a histórica posse de Jânio Quadros, em que se reuniram três Presidentes (o terceiro era o Vice João Goulart) e JK passou a faixa presidencial para um candidato da Oposição (ele era do PSD e Jânio da UDN, lembram-se?). Em vez de ter colocado aquele filme curto mostrando um ex-Presidente cassado num baile no Automóvel Clube de Belo Horizonte, por que não mostrar momentos históricos na vida de um homem infelizmente esquecido e nunca lembrado como um exemplo de fé no país e que demonstrou como a competência pode ultrapassar as metas reais.

Além disso, ainda há políticos e personalidades nessa República capazes de dar depoimentos históricos e importantes sobre o homem morto. Uma lista infindável de personalidades entrevistáveis à televisão poderia ter obtido das emissoras de rádio (eu estava em São Paulo no dia da morte do ex-Presidente e tive oportunidade de ouvir uma cobertura sóbria, séria, digna e histórica, que foi a da Rádio Jovem Pan, e isso me lembrou um fato: a televisão brasileira está mil anos atrás de nosso rádio): o ex-Presidente Jânio Quadros, o ex-Senador Auro de Moura Andrade, o ex-Governador Carlos Lacerda (seu grande adversário e depois seu companheiro da Frente Ampla), o Presidente do Congresso Magalhães Pinto (outro de seus grandes adversários) e muitos outros.

A Rede Globo limitou-se a ouvir depoimentos puramente emocionais (como o de Dona Sarah, a viúva, o do Marechal Cordeiro de Farias e o de Negrão de Lima). Os jornais, de um modo geral, se comportaram de forma muito superior e nada do que aconteceu na televisão é justificável ou perdoável, pois todos sabemos que numa coisa os telejornais brasileiros são eficientes até demais: na imitação e na simples cópia dos jornais impressos. Se os geniais produtores dos telejornais tivessem ao menos lido os jornais do dia (um hábito salutar para qualquer jornalista que se preze) teriam, certamente, achado idéias eficientes de cobertura.

O velório do último Presidente da República liberal, que anistiava seus adversários, mesmo quando eles participavam de golpes contra seu Governo, não mereceu um bom flash direto e até a notícia do desastre na Via Dutra foi dada atrasadamente e de forma improvisada. Juscelino foi o último líder que instilou em todos a força e a fé no otimismo em torno do Brasil. Mesmo ten. do JK seus direitos políticos suspensos, os telespectadores mereciam saber suas últimas posições políticas, o que pensava o então empresário e banquei. ro, político aposentado forçado a um exílio público. O pior é que, no caso do Jornal Nacional, o material filmado já tinha sido, em grande parte, mostrado no Hoje, à tarde, enquanto no caso do Factorama, um texto piegas, péssimamente construído confundia o telespectador.

Alguns poderão alegar que, sendo Juscelino um homem cassado, as emissoras de televisão tiveram pouca liberdade de abordar o lado político de sua vida. É uma tese discutível, pois o próprio Presidente da República decretou luto oficial e seria lamentável que não houvesse condescendência nem mesmo com os cadáveres dos adversários. A morte, por tradição, elimina as diferenças, mesmo políticas ou ideológicas. Isso provaram os adversários do ex-Presidente morto que foram dar os pêsames à família e lembrar a importância histórica de sua vida e de sua lenda. Se houve medo, temor por noticiário comprometedores no horário nobre, ele deve ter nascido mais da covardia de quem os produzia.

JK, o símbolo de uma época, teve uma história, uma biografia ele foi amado, odiado, discutido, respeitado, combatido e noticiado em seu tempo. Com um mínimo de objetividade jornalística seria de se exigir da televisão dados mais completos e mais concretos sobre a vida do homem. Qual a importância histórica do depoimento emocional de amigos à beira do caixão? São lágrimas justas, mas a objetividade jornalística exige depoimentos menos emocionais e mais políticos.

À falta de uma reportagem política, ouvindo cientistas sociais e especialistas, o mínimo que se poderia esperar da programação telejornalística eram dados mais concretos sobre Brasília, a cidade que o homem construiu no planalto central. Em momento algum, as coberturas da Globo e da Tupi, apesar do aparato, do excesso de repórteres, foram objetivas ou deram números. Sua informação era simplesmente vaga: "Muitas pessoas...." e coisas desse gênero.

Onde os depoimentos dos construtores da cidade? Onde os candangos? Onde a memória de nossos ilustres companheiros dos telejornais? Não houve no Jornal Nacional ou no Factorama um só slide que merecesse atenção especial do telespectador. A cobertura foi meramente policial e, até mesmo como cobertura policial, foi lamentável em todos os sentidos, demonstrando-se mais uma vez a indigência mental dos homens de televisão quando têm de enfrentar fatos, realidade e alguma profundidade histórica.

O Brasil é um país sem memória. Não se pode culpar apenas a televisão por isso. Mas quem viu as coberturas da Globo e da Tupi sobre a morte e o sepultamento do ex-Prefeito de Belo Horizonte, do ex-Governador de Minas Gerais e do último Presidente da República - Juscelino Kubitschek de Oliveira - eleito por voto popular direto a terminar seu mandato, enfrentando com tolerância política e competência administrativa grandes problemas econômicos e crises sociais, e passar a faixa presidencial para um opositor também eleito constitucionalmente por voto popular, tem consciência hoje de que o veículo eletrônico de comunicação de massas tem contribuído pari essa trágica realidade nacional. Afinal, uma televisão desmemoriada não pode ser a memória eletrônica de uma Nação, por mais emergente que ela seja.

1989 - Jô Soares no SBT

Amiga TV
Data de Publicação: 27/3/1989
Autorar: Emilse Barbosa
JÔ SOARES USA MUITAS MULHERES PARA MUDAR O ''VEJA O GORDO''
Ele voltou a gravar e promete fazer rir com seus novos personagens

Jó Soares reinicia as gravações do seu Veja o Gordo com novas atrações. O humorista chegou aos estúdios da TVS, em São Paulo, na semana passada, bem-humorado. Voltava de dois meses de férias em viagem pelos Estados Unidos e Europa, ao lado da mulher Flávia, mas a barba, que deixou crescer nesse período em que esteve longe do vídeo, já havia desaparecido. Estava pronto para voltar ao trabalho e novidades não faltavam. Pouco antes de fechar-se em seu camarim para compor os novos personagens, que irão desfilar pelo programa a partir desta segunda-feira, 13 de março, Jô fez um rápido balanço deste primeiro ano do humorístico na emissora de Sílvio Santos. "Foi ótimo", resumiu sorridente, e até brincou ao lhe perguntarem se concordava que o nível de audiência do SBT havia melhorado com sua transferência para lã. "Acho muito lisonjeira essa observação; talvez eu peça um aumento de salário ao Sílvio por isso." Descontraído, ele falou até de política. "Não escolhi meu candidato, mas acho importante o povo poder eleger seu governante. Na minha opinião, essa eleição vai depender muito mais do candidato que dos partido."

DESTAQUE PARA OS PERSONAGENS FEMININOS

Uma das melhores performances de Jô Soares é a caracterização de personagens femininos, exemplo de Cloé, Lilian Bife Quibe, a comunicóloga da PUC, entre outros sucessos de sua carreira. Assim, entre os novos tipos que o humorista criou para este ano, as mulheres estão outra vez em destaque. Além das que serão vividas por Marlene Silva, Bia Nunes, Nina de Pádua e Consuelo Leandro, Jô Soares coloca toda a sua irreverência no ar ao trazer de volta Erundina (apresentada no ano passado apenas uma vez). Neste ano, ela vem muito bem assessorada, para resolver os problemas dos sem-terra, sem teto, sem dinheiro, e ainda por cima, terá que despistar um sobrinho, nomeado por ela para um cargo público e que insiste em chamá-la de tia na frente de qualquer um.

Outra mulher promete divertir muito o público, principalmente porque o personagem é inspirado em Marília Gabriela e seu programa Cara a Cara, na TV Bandeirantes. Trata-se de GabiBriela e o seu Fuça-Fuça. Ela deixa seus convidados embaraçados à medida que vai se aproximando deles, a ponto de manchá-los com seu batom. Mas Jó não satiriza apenas seus colegas; ele brinca até com seu patrão, no quadro Isso É Inacreditável (uma mistura de Isto É Incrível, dê Sílvio Santos, com inacreditável), onde as pessoas vão rolar de rir ao constatar que determinadas coisas e objetos podem ser adquiridos com o salário mínimo brasileiro.

Daí a dizer pode se transformar em mais uma mania no vocabulário nacional, pois a frase será usada por um ator do elenco, em diferentes situações, como, por exemplo, ao tentar justificar-se junto ao marido que o viu cantando sua mulher. Para quem acredita na monarquia como sistema ideal de governo, Jô criou o Rei Nonato 1º, tendo em vista o plebiscito que deve ocorrer em 1993, quando se definirá um novo regime para o Brasil. Vestido como um rei, com coroa e tudo,

Nonato percorre todos os cantos do país (bares), querendo resolver os problemas do povo. Ironildo, o disc-jóquei maluco, é um personagem diferente, que o humorista criou quando esteve nos Estados Unidos, inspirando-se num comunicador de lá. Ele faz mil coisas ao mesmo tempo; coloca um disco para tocar, fala no ar com alguém ao telefone, e cria a maior confusão no estúdio. Resultado: o ouvinte não ouve nem entende nada. Há também o cineasta que quer provar que para fazer cinema basta "uma idéia na cabeça e uma câmera na mão", mostrando principalmente os políticos corruptos.

Jó viverá ainda um homem apaixonado, que conversa com Romilda, sua amante oculta, pelo telefone, e, debulhando-se de amor, percorre os corredores do edifício onde mora, arrastando o imenso fio do telefone. E, como não podia faltar, um outro padre fará companhia à sua galeria de tipos; só que esse, embora pregue a não-violência, não perde uma luta de boxe e vibra, como ninguém, para que um lutador massacre o outro, sempre reportando-se à Bíblia, que desaconselha a violência entre os homens.

SÃO 16 OS NOVOS TIPOS

Veja o Gordo volta ao ar com 16 personagens diferentes, sendo que oito serão interpretados por Jô Soares e os oito restantes serão divididos entre o elenco do programa. São eles:

- Maria da Graça, a graça da praça - Interpretada por Marlene Silva, Maria é uma motorista de táxi que não sai do ponto e que conta sempre com a proteção do Guarda Lima, por quem é apaixonada.

- Rambinha (Bia Nunes) - Ela é a filha do Rambo e possui um poderoso sopro atômico que derruba tudo.

- Zuleide (Nina de Pádua) - Uma noiva da pesada, que namora um velhote e tenta se passar por uma jovem pura e rica.

- A Enfermeira (Consuelo Leandro) - Responsável por um berçário muito agitado, ela consegue, por exemplo, fazer as crianças pararem de chorar, ameaçando chamar o Deputado Paulo Maluf para tocar piano para elas.

- Paquetá (Mota) - Um malandro carioca que se finge de ingênuo: "Só porque meti a mão no bolso de fulano não quer dizer que sou ladrão", tenta justificar-se, o tempo todo.

Monday, May 27, 2013

1988 - Roberto Civita tenta comprar a TV Record

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 13/5/1988
ABRIL E SÍLVIO SANTOS DISCUTEM VENDA DE AÇÕES
SÃO PAULO - A Editora Abril, maior empresa do ramo editorial da América Latina, confirmou ontem que as negociações para a compra da TV Record estão em estágio avançado. "As rodadas de negociações prosseguem, ainda não foram definitivamente encerradas", revelou Guilherme Veloso, diretor de Assuntos Corporativos da Abril. O assunto está agora sendo tratado diretamente entre Roberto Civita, diretor-superintendente da Editora Abril, e o apresentador-empresário Sílvio Santos, do Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), que detém 50% das ações da TV Record. Os outros 50% pertencem a membros da família Machado de Carvalho.

Os entendimentos preliminares entre assessores da Abril e do Grupo Sílvio Santos já duram um mês e meio. Na semana passada coroando essas reuniões, Roberto Civita e Sílvio Santos tiveram um encontro decisivo, no escritório do apresentador, onde examinaram números e discutiram preços finais. "Mas ainda não se bateu o martelo e nenhum contrato foi assinado", esclarece Guilherme Veloso, explicando: "As negociações são complexas, envolvem cifras elevadas, e por isso é difícil dizer quando serão fechadas".

Além de negociar a compra das ações de Sílvio Santos, a direção da Abril também está conversando com os acionistas da família Machado de Carvalho. Paulo Machado de Carvalho Filho, diretor-presidente da Record, já declarou não se opor à venda da emissora.

Caso a compra da TV Record seja efetivada, o projeto de televisão da Editora Abril estará completo. A Abril já tem a concessão de um canal de televisão em UHF (freqüência ultra-alta), que deve ir ao ar em São Paulo no segundo semestre de 1989, e vai entrar, até o final do mês, na concorrência de um 'canal de TV por assinatura (TV por cabo). Na sua programação de TV, a Abril vai usar a experiência acumulada em 1985, quando comprou, por um ano, um espaço .da TV Gazeta de São Paulo.

- A Secretaria de Radiodifusão do Ministério das Comunicações, um órgão estritamente técnico, já deu parecer favorável à compra de ações da TV Record pela Editora Abril. Essa secretaria limita-se a analisar se os potenciais compradores têm idoneidade financeira e comercial para adquirir ações - não podem, por exemplo, ter dívida com a Receita Federal. A. Abril passou na avaliação. Agora, as negociações, que se prolongam há cerca de 8 meses, segundo assessores do ministro Antônio Carlos Magalhães, já estão a nível de cúpula. Por isso, Antônio Carlos Magalhães, se encontrou anteontem com um dos diretores da empresa, Roberto Civita e deverá se reunir na semana que vem como patriarca da família, Victor Civita. A decisão final, contudo, cabe ao presidente José Sarney.

1985 - Abril e Gazeta de novo

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 19/6/1985
Autor: Alberto Beuttenmuller
EDITORA ABRIL & TV GAZETA
Duas horas diárias só para São Paulo

A Editora Abril iniciará, em meados de julho próximo, uma programação diária na TV Gazeta, Canal 11 de São Paulo ''especificamente para essa cidade e os 37 municípios vizinhos com uma nova proposta, a TVA, ou seja, a TV por assinatura, visando apenas ao anunciante e ao espectador local, sem a menor preocupação nacional e fugindo da rede de televisão, um mercado saturado pelas já existentes." A explicação é do diretor geral do projeto Vídeo Brasil, Roger Karman.

A programação com ênfase no jornalismo tem o título provisório de São Paulo na TV.

Será de segunda a sexta-feira, das 20h30min às 22h45min, exceção feita às quintas-feiras, cujo horário será das 20h30min às 22h15min. Aos sábados, a programação da Abril Vídeo ocupará a TV Gazeta das 21h às 23h e aos domingos das 20h às 22h.

A primeira hora será essencialmente jornalística, com comentários, fatos curiosos, lazer cultural. A segunda hora será toda para o entretenimento, procurando fornecer informações não dadas pelos demais canais. O primeiro programa está sendo escrito por Mário Prata, para os dias da semana. Aos sábados e domingos, a programação será voltada para o musical, o teatro, o cinema, espetáculos em geral. Serão destacadas pessoas, entidades, da vida paulista. O programa terá o título sugestivo de No Coração de São Paulo, "um programa apaixonado por São Paulo", palavras de Roger Karman, da Abril Vídeo.

O público a ser atingido pela nova emissora é o da classe A e B, que "vem perdendo terreno na televisão brasileira", segundo Karman.

A TV Gazeta possui uma das melhores imagens de São Paulo, pois fez um acordo com a Globo, cedendo o espaço do alto de seu prédio na Avenida Paulista, o ponto mais alto de São Paulo, para a antena da TV Globo. Em troca, colocou sua própria antena no suporte da emissora carioca, obtendo assim a mais nítida imagem paulistana. Para preencher o resto da programação, a Gazeta está fazendo acordos com outros produtores independentes, como é o caso do jornal Gazeta Mercantil, que colocará no ar programas após os da Abril, diariamente.

Explicando a opção da Abril por uma programação voltada para os interesses locais, Karman afirma que o "mercado de publicidade no Brasil não tem condições de suprir mais uma rede nacional, mas tem possibilidade de trabalhar dentro de uma outra proposta, como a nossa, com um mercado localizado. A briga entre as cinco redes, daqui para frente, será feia. Não queremos, por isso mesmo, tomar o lugar de uma delas, mas sim propor algo independente".

A Abril não está na briga. Queremos fazer TV em outra modalidade, correr numa pista paralela. Não nos importa o que o Ceará, por exemplo, pensa em relação a determinado assunto, mas sim o que São Paulo pensa nesse momento. Queremos privilegiar São Paulo, como cidade e como mercado.

A opinião geral dos assessores da Abril Vídeo - entre os quais se incluem Homero Icaza Sanchez, no ramo publicitário (mercado e hábitos de audiência), Luís Fernando Mercadante (ex-Globo, jornalismo), Fernando Faro (entretenimento), Chico Santa Rita (ex-Globo), Paulo Markum (ex-Globo), Antônio Abujamra (exBandeirantes, direção dramática) - é de que o videocassete está modificando os hábitos do telespectador, criando inúmeras alternativas para o futuro.

A Globo poderá continuar com a liderança, mas haverá uma faixa mais ampla de televisões alternativas. Creio que o Walter Clark queria fazer isso na Bandeirantes, mas não conseguiu implantar ali o sistema de "audiência qualificada" - observa Karman.

Nos últimos 45 dias, a Abril Vídeo vem tentando montar uma programação que traduza sua estratégia em termos de mercado, principalmente observando os hábitos de audiência, além da parte técnica.

No fundo, estamos inventando a TV por cabo sem o cabo, que, aliás, nos custaria muito. Trabalharemos em UHF, que é mais barato que a TV a cabo, notadamente o cabo coaxial, que só rios Estados Unidos deu certo. Creio que a TV por cabo para o Brasil só dará certo se ultrapassarmos a fase do cabo coaxial, implantando logo o de fibra óptica, que possui maior número de canais, em relação ao coaxial. Estamos esperando, para implantar o projeto, que o Governo aceite a TV por assinatura -- a TVA - que, como trabalha em VHF, só será recebida pelo assinante, ou seja, quem operar na faixa de UM - explica Karman.

Outro aspecto que está modificando a "cabeça das pessoas" em termos de televisão, segundo ele, é a recepção familiar via satélite, por enquanto possível nos Estados Unidos, mas que estará em breve no Brasil. Nos Estados Unidos, um telespectador, pelo preço de mil dólares (Cr$ 500 mil), consegue ter um programa a domicílio, via satélite - o DBS - Directed Broadcasting Salt.

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