Sunday, March 31, 2013

1969 - Retrato de Hebe Camargo

Realidade
Data de Publicação: 1/11/1969
Autor/Repórter: José Hamilton Ribeiro


COM VOCÊS, A HEBE
Quando Hamilton Ribeiro a procurou para a primeira entrevista, ela quase não o recebeu. Estava chorando porque tinha lido nos jornais um ataque ao seu programa de tevê - famoso no Brasil inteiro há quatro anos. Ex-cantora de rádio, de origem humilde, que só fez o primário, sente-se insegura e desamparada se a criticam. Mas talvez seja essa a razão de seu sucesso: ela entrevista o Dr. Barnard ou um vendedor ambulante com a mesma simplicidade de quem conversa entre amigos.

Depois que voltei do Vietnam com certa marca da guerra, fui levado a comparecer a vários programas de televisão. Quando me convidaram para o Hebe, um amigo se adiantou:

- Recuse, recuse. Ela vai acabar dizendo que sua perna "é uma gracinha".

O pessoal da revista achou que devia ir; eu fui. Mas fui, como se diz, com um pé na frente e outro atrás; esperando nos bastidores, estava pronto para engrossar à primeira provocação. Eu ia ser o segundo entrevistado da noite. Aimoré Moreira, na época o técnico da Seleção, o primeiro, Dener, que seria depois de mim, lutava no espelho para ajeitar a cabeleira e o colarinho. Pensei:

- Futebol, guerra, alta costura. Para lidar com assuntos assim tão variados, uma pessoa tem de ser ou muito culta ou muito inteligente. Ou então estamos fritos.

A entrevista de Aimoré chega ao fim; o auditório aplaude. De trás do cenário, Sérvulo Amaral, um dos coordenadores do programa, sussurra para dentro do palco:

- Agora, aquele cara que quase morreu no Vietnam. Ficha seis.

Ouço urna porção de palavras bonitas a meu respeito, e logo a ordem:

- Pode entrar, é você.

Sigo para o palco com a impressão de que chegou ao fim a minha dignidade humana: para divertir o auditório, vou ser transformado em alvo de espetáculo, vão usar-me como se eu fosse um macaquinho de circo. Estou desconfiado, na defensiva. Caminho de cabeça baixa e, quando, já no meio do palco, ergo o olhar, tenho um choque: está na minha frente uma figura luminosa, que irradia calor. Hebe olha-me nos olhos como se quisesse ver através deles a minha alma e toda a minha história, apanha a minha mão direita e a fica apertando, como se há muito a quisesse apertar assim. Sempre com o olhar direto e firme, me diz:

- Zé Hamilton, você não sabe a honra que eu sinto por poder apertar a sua mão. Este é um grande momento da minha vida!

Um ditado me veio à cabeça: um criminoso não consegue olhar diretamente nos olhos de ninguém. Sei que isso não tem nada a ver com o momento, mas imediatamente minhas desconfianças desaparecem. Sinto-me outra vez digno, forte e seguro. Chego a pensar:

- Aqui tem coisa: ou essa mulher é uma atriz diabólica a ponto de fingir assim tão completamente ou então, e isso é bastante improvável, ela está mesmo sendo sincera.

Três dias depois estou de novo na televisão, para outro programa. Ao atravessar um corredor, vejo Dona Hebe conversando e fico em dúvida sobre si devo cumprimentá-la ou não. Afinal, ela vê tanta gente que por certo nem se lembra mais de mim. Enquanto estou pensando, ela me vê, abre o seu sorriso de proporções industriais e vem ao meu encontro:

- Zé Hamilton, você não imagina a repercussão de sua entrevista, que coisa maravilhosa. Todas as minhas amigas estão loucas para conhecer você.

Diz outras coisas amáveis, agradeço encabulado e sigo o meu caminho, com aquele pensamento outra vez:

- Qual será o negócio dessa mulher? Será que ela está outra vez posando? A troco do que essa simpatia toda comigo?

Hoje, terça-feira, estou em sua casa. São 2 e meia da tarde, nós marcamos três encontros, em três dias diferentes, todos a essa hora, Este é o primeiro. A sala de visitas é apertada, Dona Hebe está demorando. O cachorro - um pastor alemão muito gordo chamado Tinoco de Bergerac - se aproxima e me cheira. Vem um cafezinho. Depois de quinze minutos de espera, vejo por um espelho que ela vem descende a escada. Não é mais aquela figura luminosa da televisão.

- Estou muito nervosa, Zé Hamilton. Estive a ponto de telefonar para você não vir hoje.

Tenta sorrir, mas o sorriso sai forçado. Tenta dizer alguma coisa e então não se controla mais. Começa a chorar, a princípio baixinho, mas logo soluçando, as lágrimas descendo pelo rosto liso e sem maquilagem. De tempos em tempos procura dar alguma explicação, mas parece até pior - mais ela se entrega à sua dor. O choro dura vinte minutos. Quando se domina, ela diz a razão de tanto sofrimento:

- Você viu o que o jornal disse de mim?

Eu tinha visto: era uma crítica serena, na seção de tevê, sobre o tipo de programa - com auditório - que Hebe faz, em contraposição com outro, da mesma emissora, feito no estúdio. Jamais poderia imaginar que uma crítica como aquela faria chorar uma estrela como Hebe Camargo.

Era um mistério a mais para mim.

*** A nona criança na casa de Fêgo Camargo, violinista de Cinema Politeama, em Taubaté, era para chamar-se Beatriz. Uma tia interferiu e conseguiu mudar para Hebe.

- Hebe é a deusa da eterna juventude; representa também aquela onda de calor que faz crescer as flores.

Seu Fêgo nunca foi homem de dizer não. Aceitou o Hebe e no batismo acrescentaram Maria. Com tanta criança em casa, o casal não fazia muita questão do nome. As duas primeiras filhas, cujos nomes tinham sido escolhidos com tanto carinho - Josefina e Première Rose -, morreram antes de completar dois anos. Os outros sete filhos - três meninos, quatro meninas - estavam muito bem. O ano do nascimento de Hebe - 1929 - representa um marco triste na vida do violinista: inaugura-se em Taubaté o cinema falado, e os músicos, que entretinham o público durante o filme, são dispensados. Agora com 82 anos, mas ainda lúcido, Seu Feguinho lembra:

- Naquele ano, entre São Paulo e Rio, milhares de músicos ficaram a pão e laranja.

Perdido o emprego no cinema, a família conhece dias negros. Fêgo conseguindo algum dinheiro em shows e quermesses nas cidades vizinhas. Chega o ano de 1932, com ele a Revolução Constitucionalista, e acontece uma coisa boa a Fêgo Camargo: ele é incorporado ao exército de São Paulo como soldado, para tocar baixo-tuba na banda militar.

Enquanto durou a Revolução, a família tirou seu pão do baixo-tuba. Quando terminou, a banda foi desfeita, mas o maestro convidou Fêgo a fazer parte, agora novamente como violinista de uma orquestra de quarenta figuras para a inauguração da Rádio Difusora de São Paulo. A orquestra acabou contratada pelas rádios. Fêgo nunca mais saiu de São Paulo, até aposentar-se em 1952. Ganha agora 152 cruzeiros por mês. ***

O programa da Hebe, em seu quarto ano, passa por uma crise de audiência. Há as limitações impostas pela Censura, as dificuldades da emissora após três incêndios seguidos, inclusive com a perda do auditório, a existência de entrevistas obrigatórias, certo cansaço e desencanto da equipe de produção e algumas questões internas. Mas ele foi, durante mais de três anos o mais importante da teve brasileira. O General Candal da Fonseca, quando presidente da Petrobras, tinha uma comunicação a divulgar, e escolheu o programa da Hebe.

- Eu podia requisitar uma cadeia de televisão, mas acho que aqui a mensagens é mais ouvida e fica mais simpática.

A lista de pessoas aprovadas para as entrevistas, esperando vez, tem mais de 2.200 nomes, entre eles alguns muito destacados. Umas 8 mil pessoas foram dispensadas. Muita gente - especialmente de firmas comerciais e industriais - tentou entrar através de suborno, e as propostas variaram de 500 a 10.0000 cruzeiros novos. Durante todo o tempo, um fato raro: havia fila de patrocinadores para o programa. Só os ''intervalos comerciais'', que nada têm a ver com a verba dos patrocinadores, custam perto de 30.000 cruzeiros novos.

Nestes três anos e tanto, Hebe não tirou férias, não faltou a nenhum programa (seu ou de outro, quando escalada), não impôs nenhum nome para ser entrevistado, não vetou ninguém. Nunca descansou porque, em -televisem tirar férias é um perigo - pode aparecer um substituto que agrade mais. Mas há outro motivo:

- A consciência profissional de Hebe Camargo chega a ser emocionante - diz um produtor do seu programa.

Com isso tudo - mais o seu inegável sucesso pessoal, as seiscentas cartas por mês, a necessidade de trocar o telefone de três em três meses para evitar tantos telefonemas, seu salário, um dos mais altos da televisão paulista - com isso tudo, Hebe chora e se desmorona quando sabe de alguma maledicência a seu respeito ou lê alguma critica no jornal. Em qualquer jornal.

- Como uma pessoa incapaz de falar mal de quem quer que seja, Hebe não entende por que possam falar dela, Isso é incrível, mas ela ainda não se conforma com o fato de o sucesso custar caro, principalmente para uma mulher bonita.

Isso quem diz é Blota Júnior. Para ele, Hebe é a primeira mulher com imagem nacional na televisão, conquistada no trabalho duro antes mesmo do videoteipe e da Embratel.

*** Nove anos, dia da primeira comunhão. Hebe está vestida de anjo azul, mas de tênis. O dinheiro não chegou para um sapato. A família Camargo mora num porão, na Rua São Joaquim, em São Paulo. Em casa, às vezes, para comer só há arroz, e arroz branco, sem molho e sem tomate.

Mas o violinista Fêgo Camargo é um romântico, Quando fica encarregado de acordar de manhã uma das filhas, posta-se ao lado da cama com o violino e inicia uma valso, em pianíssimo. Se a primeira não foi suficiente, ele toca uma segunda, uma terceira, até que a menina acorde, suavemente. A pobreza é grande, mas maior é a ternura. Um amigo da família conta que, nessa época, Feguinho encontrou-se com Deodato, outro amigo, de Jundiaí. Na conversa, Deodato diz que tinha prometido à filha que ela passaria férias em São Paulo, mas está em dificuldades. Seu Camargo não pensa duas vezes, traz a menina para passar as férias em sua casa, E, na hora do almoço, naquela casa de porão, o arroz branco tinha de bastar para um prato a mais. ***

Hebe me mostra a sua casa. É grande mas simples, ampliada várias vezes sem um plano diretor, com um anexo no quintal, para as dependências de empregados, e um salão para receber os amigos e para Décio Capuano (o marido) jogar pif-paf com parceiros certos. Hebe não tem paciência para jogar baralho, não fuma e, de bebida, arrisca de vez em quando a batida que seu pai prepara em ocasiões especiais. A batida de Seu Camargo é famosa; alguns de seus companheiros de orquestra, lembrando velhos tempos, nem o chamam de Feguinho falam Foguinho mesmo.

No salão está um armário com prêmios, medalhas e troféus. São tantos, que alguns tiveram de ir para a estante embaixo, uma estante quase vazia de livros, só uma enciclopédia e uma coleção encadernada. Nas paredes do salão, dependurado, quadros com distinções e menções honrosas por seu trabalho em campanhas beneficentes. Diante de um deles, ela para e brinca:

- Quem é que disse que só tenho o diploma do primário? Veja, este é um senhor diploma!

Leio: "Diploma homenagem a Hebe Camargo, pela colaboração prestada na divulgação do primeiro aniversário do Governo do Presidente Costa e Silva". Assinatura de três ministros.

Hebe é agora, novamente, aquela onda de calor. Ela passa facilmente de um estado de prostração para a euforia. Não se cansa, ri muito, lembra casos, distribui simpatia e energia para todo lado. Mas não consigo esquecer que durante vinte minutos chorou como uma criança, diante da notícia de jornal, ela chora não apenas porque é incapaz de agredir os outros. Ela chora porque é insegura, porque sente - erradamente, a meu ver - que a sua carreira não tem a sustentação cultural que deveria ter. E teme que, de um momento para outro, todos os jornais passem a dizer: Hebe só tem primário. Hebe não tem cultura, Hebe é medíocre. Hebe só faz perguntas frívolas, ela só sabe dizer "Que gracinha'' e que isso se torne uma torrente incontrolável, capaz de levá-la ao desconforto espiritual e à desmoralização artística, Sente a sua falta de escola como um ponto vulnerável e não é capaz de contrapô-lo ao talento e à inteligência intuitiva que tem de sobra.

Walter Forster é o conhecido diretor de um canal de televisão. Produziu um dos primeiros programas de entrevista de Hebe Camargo, O Mundo é das Mulheres. O programa ficou no ar seis anos, com grande êxito, e desapareceu porque, casando-se Hebe, a emissora não encontrou uma substituta à altura.

- Entre as candidatas ao posto - diz Walter - havia uma mulher muito bonita, muito conhecida e com vários diplomas universitários.

- O mistério de Hebe - opina ele - é que toda a sua simplicidade, autenticidade, espontaneidade, simpatia, vivacidade e malícia, isto é, toda a sua imensa capacidade de se comunicar envolve, como se fosse um gás, a pessoa do entrevistado e este, mesmo que seja um homem formal ou um técnico bem quadrado, contagia-se e passa também a comunicar-se, a dizer coisas que o povo gosta de ouvir e entende. Sabe o que é? É o hebismo, o hebiamo pega, contamina.

Hebe diz assim:

- Diante das pessoas, eu não me sinto como entrevistadora, eu as admiro, eu vibro com elas, eu fico gostando e digo isso diretamente, sem reservas e sem receio de parecer ridícula.

Ela é como é, nunca está representando - acrescenta Walter Forster. Um crítico de televisão do Rio sintetizou:

- Hebe: finalmente uma mulher normal em nosso aparelho de tevê.

*** Com doze anos, Hebe começa o trabalhar fora. Ganha 60 mil reis por mês. Para arrumar a cozinha de uma casa. Começa a frequentar os programas de calouros, imitando Carmem Miranda. Fora uma vez em que foi gongada, nas outras nunca pegou menos do que segundo lugar. Recebia os prêmios, em dinheiro, e levara para casa.

Do programa de calouros até o dia em que cantou já como profissional - uma música da dupla Brinquinho e Brioso - tentou vários caminhos. Primeiro formou com a irmã Stela uma dupla caipira: Rosalinda e Florisbela. ''A duplo não foi pra frente'', diz Hebe, "porque a Stela era multo sem graça e eu tinha vergonha''. Veio depois um quarteto. Ela, Stela e duas primas. Quando uma das primas casou, o conjunto virou trio. Casando outra prima, se desfez completamente. Já no tempo do trio, entretanto, Hebe começou a cantar sozinha e a se destacar. Nesse tempo, quase tudo mudou de nome. O diretor artístico de uma rádio disse-lhe que o seu era um nome em baixo, um nome ruim para ser gritado no auditório.

- E agora, com vocês, HEBE CAMARGO.

Havia na época a superstição de que um artista só fazia sucesso se o seu nome tivesse cinco sílabas. Os exemplos eram muitos: Or-lan-do Sil-va, Car-mem Mi-ran-da, Francisco Alves, Carlos Galharda, Nelson Gonçalves, Paulo Gracindo, Osvaldo Moles: Sônia Ribeiro.

O diretor sugeriu um nome de guerra para ela: Magali Porto. Além das cinco sílabas cabalísticas, era um nome no alto, muito bom para ser gritado pelos locutores. Hebe riu muito, mas preferiu continuar sendo Hebe Camargo mesmo, principalmente porque, sem nenhum extra, as cinco sílabas fatais estavam garantidas.

Do tempo da dupla caipira ficou uma história. Apesar de muito nova, Hebe era muito desenvolvida, uma morena do tipo violão, então muito valorizado. O Capitão Furtado fazia o programa onde a dupla cantava - no Arraiá da Curva Torta. Seu Camargo também trabalhava no horário com sua Bandinha do Arraiá. Uma coisa quase em família. Chega um dia e dizem a Hebe que ela vai casar com o Capitão Furtado. Seu Camargo já tinha até consentido.

- O que, papai, o senhor então concedeu a minha mão?'

- Pois é, filhinha, ele pediu com tanto jeito, que não tive meio de negar. ***

Hebe tem uma memória de político - diz Luísa, sua cabeleireira e uma de suas amigas mais íntimas - lembra-se de fatos, pessoas e situações com uma fidelidade espantosa e conhece uma barbaridade de gente.

O número de pessoas, entretanto, que participam da vida de sua casa é restrito: algumas amigas da alta sociedade, para quem telefona sempre, a cabeleireira, sua irmã e três ou quatro casais do meio artístico ou ligados a Décio.

Muito comodista, sai pouco de casa. Além dos compromissos profissionais, sai para fazer compras - gosta muito - eventualmente, para ir ao cinema, ao clube de campo no fim de semana ou a um show de boate, quando gosta do artista.

Quase não vai a teatro porque o marido não gosta, e a lugares públicos nunca vai sem ele. Onde Hebe se esparrama e se sente um peixe dentro da água é com a família Camargo. Todos os irmãos e irmãs estão casados, mas todos aceitam a sua liderança - em muitos casos precisam dela. Não há problema - seja um emprego ou o pagamento de uma taxa escolar - que não exija uma decisão da irmã caçula.

A Hebe não é irmã, ela é mãe dos irmãos - diz Seu Feguinho.

O casal de velhos - ambos com 82 anos - vive numa casinha comprada pela filha; na mesma situação estão três irmãos (nunca se falou em aluguel). Hebe preocupa-se muito com o pai. Apesar da idade, ele é ''muito levadinho'' e vira e mexe está aceitando convites para tocar violino em festas de aniversário. Quando descobre, Hebe não o deixa ir, sempre com medo de que ele tome um uísque a mais. Para melhor controle, ela vê os pais todos os dias, ou vai à casa deles, ou manda buscá-los para a sua. E fica namorando os dois velhinhos. Às vezes está conversando com eles e sai de repente para chorar no quarto. É que lhe ocorre, no meio da conversa, que eles um dia morrerão.

Quem conhece os pais de Hebe diz, que ela é uma síntese perfeita dos dois. Seu Camargo, apesar da origem humilde, mantém a postura elegante, conversa bem, não dispensa na lapela um crachá da Revolução de 1932, sorri bastante, é delicado, romântico e incapaz de dizer não. Dona Ester é um espírito irrequieto, os olhinhos, vivos percebendo e maliciando tudo. Perguntei-lhe como era sua casa; ela explicou:

- Aqui embaixo, a sala, a copa e a cozinha. Lá em cima, o banheiro e os dois quartos Num dorme o Fêgo, noutro durmo eu; agora não adianta mais dormir junto.

*** Quando era apenas cantora, Hebe tinha uma blusa de que gostava muito, um colar de argolas, como enfeite, cruzando o regaço sob o seu busto cinematográfico. Quando punha essa blusa, sabia que vinham brincadeiras. Uma delas:

- Você desmancha os noivados, mas mantém as alianças junto ao peito, hein?

Hebe só conhece o sucesso. Pouco depois de passar a cantora profissional, ganhou um apelido: "Estrelinha do Samba". Logo depois seria "Estrela de São Paulo''. Bonita, exuberante, expansiva, simpática, tornava-se logo o centro de atração onde quer que estivesse. Não havia homem que não a notasse, e daí lhe vem - segundo um velho homem de rádio e televisão de São Paulo, muito atento a essas coisas - um título que dificilmente perderá:

- Ela foi a mulher mais cortejada do ambiente artístico durante quase vinte anos.

A sua aparente disponibilidade sentimental, aliada a histórias que se inventaram, criaram para ela, durante certo tempo, a imagem da mulher fácil. Ninguém se dava conta, entretanto, de que ela sempre morou com a família e que, nos dois anos em que foi cantora de boate, trabalhando de 10 às 4 da manhã, o pai ou a mãe, todas as noites, iam com ela e ficaram até o fim, esperando o show terminar.

Teve muitos amores e só se casou com 35 anos. Foi noiva três vezes: a primeira, com dezoito anos, de um pianista - ele era ''ciumento demais''; a segunda, de um artista - esse noivado durou pouco, e foi um ''equívoco mútuo"; e, a terceira, de um homem muito rico, da família Matarazzo. Esse caso durou quase dois anos e, no rompimento, Hebe devolveu-lhe os presentes que havia ganho como namorada e noiva. Uma amiga diz hoje:

- Se ela tivesse ficado só com as joias, nunca mais precisaria trabalhar.

O caso mais longo não deu um noivado, nem poderia dar em casamento: o rapaz era separado. Tratava-se do diretor de uma estação de televisão, muitas vezes confundido - nas fofocas do ambiente - com Vítor Costa, o próprio dono da empresa Mas ela amargou também algumas desilusões.

Apaixonou-se uma vez - "perdidamente'' - por um animador de auditório. Ele também a queria, mas, muito galã, cortejava ao mesmo tempo três outras moças. Era uma disputa e Hebe se preparou para ganhá-la - como sempre. Foi então fazer temporada fora de São Paulo, tomou bastante sol, comprou um lindo vestido cor-de-rosa - era a cor de que ele gostava - e na volta, foi assistir ao seu programa. Sentou-se na primeira fila e montou a surpresa, assim que a cortina abrisse, ele a veria ali pertinho, linda, cor-de-rosa, toda amor. Quando a cortina se abriu, antes que ele a visse, Hebe viu no seu dedo a aliança de noivado.

- Não assisti mais a programa nenhum. Foi para casa, chorei a noite inteira. Chorei baixinho, porque dormia na mesma cama de uma irmã, no mesmo quarto de meus pais e não queria que eles percebessem. Decidi deixar de amá-lo. Da noite para o dia, não o armava mais, sinceramente, honestamente. Deixei de amá-lo naquela noite, por achar que ele simplesmente não merecia que eu o amasse. ***

Hebe não perdoa Jacqueline Kennedy, porque não chorou no enterro do marido.

- Perder um marido daqueles e ainda fazer pose! Afinal, homens como ele, Roosevelt e Faria Lima só aparecem de cem em cem anos.

Gosta do Presidente Costa e Silva.

- Você viu, ele chorou no dia da posse. Homem que tem capacidade de chorar é porque é bom, não tem veneno na alma, pode compreender o problema dos outros. Que pena que ele esteva doentinho.

Admira Walt Disney e, para minha surpresa, não vibra quando digo que Disney, como ela, só tinha o primário.

- É, mas ele era Walt Disney.

A sua insegurança, mais uma vez. Hebe é católica, acredita em destino e não concorda com missa de sétimo dia. Acha que essa missa é teatralização cruel de um fato que precisa ser esquecido e, pior ainda, a oportunidade que muita gente aproveita para ir observar a viúva e depois comentar que "ela estava até meio alegrinha''.

Com ótima saúde, só procurou médico, em toda a vida, quando foi a hora de controlar a gravidez.

- Olha, se meu caso fosse o normal, esse negócio de reclamar da gravidez ia acabar. Não senti absolutamente nada e só acreditei quando vi minha barriga crescendo.

No dia do nascimento de seu filho - Marcello, agora com quatro anos - Hebe trabalhou normalmente. Tinha um programa de rádio das 3 às 4; um pouco antes estourou a bolsa de água. Ela desculpou-se com os entrevistados por ter de permanecer sentada - "estou muito gripada'' - e foi até o fim. Só depois telefonou para a médica:

- O que? Vá já para a cama; estou voando para aí.

*** Hebe viveu dois momentos públicos de grande humilhação. O primeiro, num festival de música, em que o simples anúncio de seu nome foi o bastante para iniciar uma vaia monumental. Todo o teatro gritando e assobiando enquanto durou a música. Ela sabia que isso poderia acontecer e, para dar sorte, tinha levado uma imagem de Nossa Senhora, para manter na mão enquanto cantava. Quando seu número terminou, a imagem, de alumínio, estava irreconhecível, com o nervosismo, tinha-a amassado.

- A vaia foi horrível, mas o dia seguinte foi maravilhoso. Minha casa ficou repleta de flores e telegramas, e o telefone não parou de tocar. Até o General Syzeno (então comandante do II Exército) telefonou para me confortar. A outra vez foi mais dura, uma Miss Brasil, em pleno reinado, esteve no seu programa para contar os motivos de sua renúncia ao título. Como entrevistadora, Hebe fez o seu papel: perguntou. E perguntou bastante, porque, num assunto desses, ela se sente segura e se liberta das fichas que a produção lhe prepara. A rainha da beleza criticou duramente o concurso, a empresa que o promove e os contratos vinculados ao título de Miss, criou um grande caso.

O programa foi ao ar normalmente, no domingo. Na segunda-feira, todas as rádios e televisões - ligadas ao certame de Miss Brasil - leram, a intervalos regalares, um comunicado. Ele criticava a estação por ter deixado o programa ir ao ar, e depois atacava pessoalmente a entrevistadora, identificada como "aquela coroa já conhecida por suas gafes e insinuações maldosas''. No meio fazia tortuosas alusões a suas '''aventuras amorosas''. Para Hebe aquilo foi dose muito exagerada. Chorou uma semana inteira e, apesar de ver sua casa outra vez encher-se de flores, jurou nunca mais pôr o pé em dependências da organização responsável pelos ataques.

Mas, se ela sente na pele e acata na hora, chorando, a menor agressão que lhe façam, tem também uma capacidade enorme de esquecer e de buscar razões que expliquem - e perdoem - os atos dos outros. E já perdoou e esqueceu as duas humilhações.

Agora está com um dilema: a cantora Maysa, que tem programa numa das emissoras da cadeia que promove o concurso de Miss, convidou-a para uma grande entrevista lá. Ela não sabe o que fazer.

- Como é que eu posso dizer não à Maysa? ***

Após a gravação de um show de que ela e Lolita Rodrigues acabam de participar, as duas, que moram perto, voltam para casa no carro de Lolita. Hebe tem na mão uma sacola onde estão os sapatos que usou no espetáculo. Joga a sacola no banco de trás e as duas lá vão, numa daquelas conversas que não acabam mais. Em frente de casa, Hebe desce, beijinhos pra cá, beijinhos pra lá, entra e esquece a sacola. No dia seguinte, Hebe telefona, depois do almoço - só em condições especiais ela se levanta antes do meio-dia.

- Lolita, e aquele pacote com meus sapatos está no carro? Lolita confirma, está lá.

- Uma hora que você vier aqui em casa, você traz, tá bem? É que deixei dentro de um sapato aqueles meus brincos de brilhante.

Hebe não se prende a bens material. Compra muita coisa, mas é capaz de emprestar (ou dar) tudo: roupas, vestidos, sapatos, joias Principalmente às colegas. Lolita Rodrigues diz: - - É um perigo a gente dizer que gosta de alguma coisa dela. Imediatamente, ela arranja um pretexto para nos dar de presente.

Preza muito a sua imagem profissional e procura estar sempre ao lado dos colegas, seja em casos isolados, seja em problemas de classe.

*** Cinira, uma mulata de 51 anos, é a babá de Marcelo e uma das figuras indispensáveis da casa de Hebe Camargo e Décio Capuano. A outra é Lourdes, "anjo protetor" de Hebe, com ela há mais de dez anos. Cinira foi freira durante dez anos e mantém ainda o voto de castidade, muito instruída, fala italiano com os adultos quando precisam conversar alguma coisa que o menino não deve entender. Além de babá, Cinira é quituteira e responsável pelo portão: ela é quem atende e faz a triagem da multidão de pessoas que procuram diariamente a casa de Hebe; 80 por cento para pedir.

Cinira conta o que considera os seus "dias mais tenebrosos nesta casa''. No ano passado, em seu programa, Hebe entrevistou Sábado Dinodos. Por causa das coisas que disse no programa e em outros de que participou, Sábado acabou preso como integrante de um grupo terrorista. Dias após, Décio recebe um telefonema anônimo. O tipo se diz do grupo de Sábado e avisa para ele tomar cuidado: a família de Hebe Camargo torre perigo. Pode ser um trote, mas é melhor prevenir. Cinira recebe ordem de manter o portão fechado a chave, só entra gente com autorização direta de Décio ou de Hebe. Marcelo só sai de casa com os pais, dentro do carro. E mais: Cinira fica encarregada de observar todo movimento suspeito na pracinha em frente.

Nos primeiros dias, nada de anormal. No dia 7 de outubro, Cintra vê um Volks parado do outro lado da praça, com três homens dentro. Um deles toma notas numa folha de papel. Ela apanha o binóculo para observar melhor, mas não percebe o que é que o homem escreve. Parecem estudantes, discutindo uma apostila. Como o carro permanece por muito tempo, ela resolve consultar Décio e recebe a sugestão de avisar a polícia. Enquanto procura o número, disca, explica e a polícia chega. O carro já tinha ido embora.

Dia 11 de outubro, outra vez o carro lá. Uma hora, hora e meia, duas horas. Telefona para a polícia, mas quando ela chega, já o carro não está mais.

- Parece que alguém avisava.

Dia 12 de outubro, um sábado. Está no quarto, brincando com Marcello, resolve dar uma espiada na janela; outra vez o carro, o mesmo carro, no mesmo lugar. Com um pressentimento, corre ao telefone; mal começou a discar, ouve uma porção de tiros. Deixa o telefone, volta à janela e vê, em frente da casa vizinha, o corpo do capitão americano Chandler atravessado de balas.***

O cineasta Lima Barreto, criador de O Cangaceiro, foi entrevistado por ela em setembro último. Quando Hebe precisou ver as horas, ele disse:

- Aproveite e diga que seu relógio é uma gra-ci-nha!

Em dado momento, Lima Barreto foi mostrar-lhe um livro e recuou:

- Ah, é mesmo, você não sabe ler.

Depois disse alguma coisa triste e olhou no rosto de Hebe:

- Chore, agora é hora de chorar. As duas únicas coisas que você sabe fazer é rir e chorar.

A entrevista não foi para o ar. O grande cineasta brasileiro nesse dia errou as medidas de sua veia satírica e a conversa ficou meio cangaceira. Essa e mais a de uma cantora carioca, que estava em má situação emocional e não conseguiu cantar certo nem uma vez, foram as únicas entrevistas não aproveitadas. Já passaram pelo programa, até hoje, mais de 1.600 pessoas. Do Dr. Barnard aos vencedores do festival penitenciário do Presidente Frei a um grupo de hippies de São Paulo, de Gunter Sacha - o último marido de Brigitte Bardou - ao homem do periquito e um carregador de malas. Durante três anos, o programa durou de quatro a cinco horas. Hebe fala com doze a quinze personagens por noite, sem intervalos. Às vezes um entrevistado falta e, em cima da hora, é substituído por outro. No palco, Hebe recebe uns bilhete: "Ficha quatro não vale. Entra no lugar a menina que ganhou o concurso de escultura na areia".

Hebe começa a entrevista, brinca com a menina, faz com que ela conte sua história. A certa altura comenta:

- Veja, estamos aqui conversando há tanto tempo e você ainda nem disse ao auditório como é o seu nome.

A menina diz. Hebe então fica sabendo.

Há um rapaz, em São Paulo, que tem um capricho: anotar os erros que ela comete durante as entrevistas. Já a ouviu perguntar o número dos integrantes de um sexteto, a idade de um gêmeo depois de saber a do outro e prometer que ainda levaria Ibsen ao programa para falar de suas peças. O rapaz diz:

- Comecei a pesquisa de tanto ouvir falar das barbaridades dessa moça. Hoje fico pensando: que pessoa no Brasil, trabalhando nas condições em que ela trabalha e enfrentando assuntos tão variados cometeria menos erros?

Hebe é uma pessoa simples, quase simplória, sem nenhuma pose. Sente-se insegura por não ter estudado, sofre com isso e procura compensar: quando ouve uma pessoa culta falar, bebe as suas palavras sem esconder uma admiração quase infantil. Sabe até onde pode ir: transformou em piada um movimento para fazê-la candidatar-se ser vereadora e outro que lhe daria o título de cidadã paulistana. Às vezes tenta o tempo perdido: agora quer aprender inglês a jato para não precisar mais de intérpretes. Na televisão, o que ela é, é apenas isso: uma pessoa normal, com qualidades e defeitos. Uma mulher brasileira de hoje, da classe média, preocupada com as pequenas coisas de uma dona de casa comum, com as suas mesmas perplexidades e admirações. Um psiquiatra a definiu:

- Hebe é uma autêntica maravilha burguesa. O tipo da mulher que toda a família brasileira gostaria de ter como madrinha de um filho. Se está numa posição acima da que deveria estar, não é porque Hebe está errada, a televisão é que talvez esteja.

Aponta-lhe o que pode ser um caminho;

- A televisão devora seus filhos mais queridos. Hebe deveria parar por um ou dois meses, todo ano, para ver novas coisas, renovar o vocabulário, conservar certa curiosidade a respeito de sua pessoa e criar sempre a expectativa da volta.

''Para viver bem", diz. Hebe, "é preciso não ter inveja dos outros - quem tem inveja fica doente - e saber valorizar os bons momentos que a gente tem no presente, em vez de ficar minhocando dias fantásticos no futuro".

Em seu programa, ela está sempre preocupada em mostrar o lado bom das pessoas, em ajudar quem precisa, em levar ao público entretenimento, diversão, felicidade, alegria, otimismo. Agnaldo Rayol, Martinho da Vila, Zé Vasconcelos.

- E quem quiser saber de problemas e assistir a programas culturais? Muito fácil: é só ligar a televisão educativa, ela existe justamente para isso.

No comments:

Post a Comment

Followers