Sunday, March 31, 2013

1969 - A Mágica das Novelas

Realidade
Data de Publicação: 1/5/1969
Autor: Hamilton Ribeiro
A ILUSÃO ESTÁ NO AR
Um mundo irreal começa a ganhar forma neste instante: é a gravação de mais um capítulo de telenovela. Atores, contra-regras, cenógrafos, figurinistas, diretor e autor vivem muitos dramas para que tudo saia perfeito. Mais tarde, em casa, os espectadores admiram-se com o realismo das cenas. Não sabem o que há nos bastidores do estúdio.

Às 8 horas pára tudo na casa de Dona Alcina. Pode o jantar não estar pronto, pode ter neto sem banho, pode até haver visita em casa - esse momento é sagrado. É a hora da novela, e a história está emocionante. O orgulhoso Maurício vai saber, a qualquer momento, que sua mãe não é a sua verdadeira mãe (quem será ela? uma escrava, logo a do Maurício, que é racista?); o pai do mocinho, que é tido por morto, está atuando na sombra e por duas vezes o seu filho quase o vê e o reconhece (ambos os papéis são feitos pelo mesmo ator); os dois namoros da novela, tão enrolados no começo, já começaram a ter jeito de que vão dar certo; e o mesquinho Dr. Clóvis ainda nem desconfiou de que as suas maldades e os seus golpes um dia se voltarão contra si próprio, e então sua mulher, que ele faz passar por louca, deixará de sofrer e de chorar e será, finalmente, compreendida e amada pelo filho, a quem ela ainda não pôde contar todos os podres do marido.

Hoje, a televisão está um cinema. Ótima. O capítulo de ontem terminou quando Lúcio, o galã, estava em sério aperto. Tinha ido com outros idealistas assaltar uma cadeia para libertar escravos, mas a polícia, avisada por um traidor, chegou. Seus companheiros fugiram, mas ele, por ter sido o mais ousado, estava soltando as algemas do escravo quando um guarda, armado, deu-lhe voz de prisão. Houve o dramático efeito sonoro e o capítulo terminou.

Hoje, a história recomeça exatamente - como não podia deixar de ser - no suspense de ontem. Lúcio está perdido, à mercê do policial: será reconhecido e desmascarado. Mas, após um pequeno lapso de indecisão, ele recobra o domínio de si, distrai o guarda com um gesto de quem vai entregar-se e então, rápido como um felino, arremete-se sobre ele, muda a direção da arma e uma luta de vida e morte se inicia. Na confusão, a arma dispara, e não se sabe quem morreu. Novo acorde de suspense, acompanhando o tiro. Quando a música baixa, Lúcio começa a se levantar. Faz o charme de quem preferiria que o guarda não tivesse morrido, ergue-se depressa, acaba de libertar o escravo e os dois, vitoriosos, ganham a liberdade na noite escura. A cena se esmaece e uma sucessão de acordes, bem conhecidos de Dona Alcina, anuncia o intervalo comercial. Ela comenta com a empregada: - Que beleza de novela! Que perfeição! Parece que tudo aconteceu mesmo, de verdade. E que luxo, que ambiente fino' que roupas maravilhosas!. . .

O AUTOR VIVE O SEU DRAMA

Numa casa do Jardim Paulista, um senhor, também colado à sua tevê, tem um ataque de raiva.

- Meu Deus do céu, como é que o Lúcio foi matar o guarda? Quem foi o louco que fez isso? Era só ele dar uma coronhada no homem, para deixá-lo sem sentidos . . .

- Quieto, Vicente, deixa nóis escutar. . .

- Quieto como? Como posso ficar calmo? O senhor já viu algum herói de novela assassino? Já viu? E isso tinha de acontecer logo na minha novela, logo na minha? E bem agora que começamos a bater o Beto Rockfeller...

- Que a cena ficou bonita, ah, isso ficou . . .

-Bonita, é o senhor achou bonita? E isso é tudo? A censura já passou a gente das 7 para as 8 horas. Só falta agora, por causa de uma coisa dessas, passarem a gente para as 10 da noite - e então será o fim. E a agência de publicidade, que será que a agência vai dizer? Que horror, meu Deus, que horror ...

Vicente Sesso, o autor da novela, homem que já fez de tudo na televisão: produziu shows, foi ator, diretor, cenógrafo, figurinista. Seu mundo é a tevê e foi talvez por isso que ele chegou ao enfarte com apenas 49 quilos. Mas hoje, querendo ou não, tem de esmagar a sua neurose e esquecer a raiva com a morte do guarda. É terça-feira e ele ainda não escreveu os seis capítulos da semana que vem, e tem de entregá-los depois de amanhã. Cada capítulo exige em média 25 folhas de papel; em suma, ele precisa, nas próximas 48 horas, conceber, estruturar e datilografar uma história cheia de detalhes e suspenses, para preencher 150 folhas. São seis capítulos de quarenta minutos cada um: 240 minutos por semana, o equivalente a dois filmes de longa metragem. Para ele, mais uma vez, a noite ainda é uma criança.

OS IMPREVISTOS ENTRAM EM CENA

Às 9 horas da manhã, o estúdio da televisão é um castelo de horror. Paredes falsas, relógios que não funcionam, estranhos objetos pelo chão, a mesa posta para um banquete sem convidados. Mulheres com longos vestidos e homens de suíça e cavanhaque andam de lá para cá, fazendo gestos, falando sozinhos, sussurrando. Um velho, como se estivesse bêbado, conversa com um estrado de iluminação. Começa baixinho, num cochicho, mas logo sorri e movimenta largamente os braços. De súbito empolga-se e grita:

- Não, isso não. Isso eu jamais permitirei . . .

O berro ecoa pelos cenários vazados, todos o olham num relance, mas logo o silêncio volta a dominar. A estranha movimentação continua. São os artistas decorando os papéis para as cenas que serão gravadas dali a pouco. Nicete Bruno, com toda a dignidade e a roupa de uma grande dama do século XIX, pergunta a Fernanda Montenegro:

- Que você acha, Fernanda, do título da novela?

- Sangue do Meu Sangue? Olhe, Nicete, já houve uma epidemia de cólera, na explosão da carruagem morreram seis, o Cuoco matou um polícia, todo dia tem escravo sendo sangrado. . . Acho que o título mais próprio seria mesmo hemorragia . . .

As duas riem, baixinho.

No gabinete do diretor do banco, onde o homem mau da história trama diariamente os mais nefandos golpes, Sérgio Brito, o diretor da novela, acerta com Ismael, seu assistente, detalhes para a cena que vai ser tomada amanhã, no Teatro Municipal. Aproveitando o fato de que Sarah Bernhardt esteve no Rio no tempo em que se passa a novela - década de 80 do século passado -, o autor arranjou um jeito de fazê-la entrar na história. A cena é de um ensaio com a equipe da grande artista francesa. Sérgio vai dizendo:

- É preciso uma mesa com escrivaninha; pena de pato, papel de carta, os homens devem estar de cartola e bengala; não esquecer a escada da casa da Dama das Camélias. Ah, os extras. São doze extras, todos adultos, e três deles precisam ficar cochichando em francês. Gravação amanhã, ao meio-dia.

- Não pode ser, Sérgio. Amanhã não pode ser. A Tônia entra nesse episódio, mas nas quintas-feiras ela não vem a São Paulo. Tem vesperal no seu teatro. no Rio. Só podemos gravar sexta.

- Sexta?! Outra vez temos de gravar no dia o capítulo que vai ao ar nesse mesmo dia?! Isso é de enlouquecer' santo Deus...

Agora, Sérgio Brito ensaia uma cena fácil, para ser gravada em seguida, no estúdio. Henrique Martins e Armando Bogus conversam, enquanto a carruagem os leva da residência ao banco, onde Henrique é o diretor. Nenhum problema no ar.

- Silêncio! Gravando!

Os dois atores estão dentro da carruagem, montada sobre pneus. Enquanto a câmara fixa apenas os seus rostos, e eles conversam, três elementos de cenografia, com ótima disposição física, balançam a carruagem para que, na televisão se tenha idéia de que o carro está em movimento.

- Volte tudo, desde o começo!

- Que foi?

- Avião.

Mesmo em cena de estúdio, o ruído de um avião passando penetra no microfone e o diálogo fica inaudível. Quando não há diálogo, o sonoplasta - homem que cuida do fundo musical - arranja um acorde para mascarar o barulho do avião e a cena vale. Mas, quando há fala, isso é impossível.

- Pronto Gravando!

Recomeça o chacoalhar da carruagem, volta a cena desde o começo e a coisa segue até que o câmara transmite um recado do diretor de tevê.

- Pára tudo. A fita do vetê (videotape) está com defeito.

Aguarda-se nova ordem, recompõe-se a operação, volta o chacoalhar da carruagem e, agora, a cena vai até o fim.

- Valeu. Agora, o episódio dos mendigos. Cuoco e Rodolfo Mayer, nos exteriores da casa de Clara.

Câmaras, iluminadores. o rapaz que segura o microfone - um moço que às vezes não consegue dormir de tanta dor no joelho por trabalhar o dia inteiro agachado na frente dos atores e pulando como um gato, para não ser apanhado pela câmara -, o decorador, o assistente de maquilagem, a costureira - todos seguem Sérgio Brito. No local, já estão os dois atores, esperando. Sérgio esquenta de novo.

- Que é isso? Absolutamente, não vai dar para gravar aqui. O mato está completamente seco, não vai parecer árvore coisa nenhuma. E mais ainda, por estar seco, faz barulho quando alguém se encosta. Cadê o Barra?

Rubens Barra é o cenógrafo. Ele é quem cria e constrói os cenários' com tudo que os completa. Para essa novela, que exige muita cena de exterior - conspirações e fuga de escravos, gente que se esconde para espionar, e o tipo que vive na sombra por ser tido como morto - ele está gastando dez caminhões de mato por semana. Como a televisão não tem uma floresta para ele desbastar, o mato é sempre um problema. Ele chega e Sérgio cai-lhe em cima.

- Barra, eu não posso, de nenhuma maneira, gravar aqui. Você não sabia que precisava renovar o mato? Que foi que houve?

- Um pequeno incidente. Sérgio. O nosso mateiro, o Ximbica, está preso. com caminhão e tudo.

- O quê?!

- Pois é, sem perceber, o Ximbica invadiu o Horto Florestal. Quando estava em plena operação de desflorestamento, a Guarda Florestal descobriu, botou os cachorros em cima dele e houve até tiro. Mas ele já me telefonou e botei outros dois homens para catar mato nos terrenos baldios aqui na Vila Guilherme mesmo. Em vinte minutos, o cenário está pronto, eu garanto.

Sérgio não pode deixar de sorrir.

- Então não se preocupe, Barra. É uma cena pequena, podemos deixar para gravá-la amanhã.

Regina Helena, do Departamento de Divulgação da emissora. aproxima-se:

- Sérgio, chegaram cartas e vários telefonemas, reclamando que o relógio de parede da casa da Fernanda faz três capítulos que não sai das 8 horas... Não dá jeito de fazer esse relógio trabalhar um pouco?....

O "SUSPENSE": UM BOM ESTOQUE

Na sua casa-museu do Jardim Paulista, Vicente Sesso, o autor da novela. está com um problema.

- Como é que Júlia vai voltar para casa, sozinha, à meia-noite?

Como ele primeiro imagina os suspenses (tem 26 em estoque) para depois rechear o capítulo com falas e situações, às vezes arma um nó tão complicado, que ele próprio tem dificuldade para desnovelar. Desta vez, Júlia, que é mulher de Clóvis - o homem mau da história - teve de sair de casa à noite, para alertar os estudantes sobre uma emboscada da polícia. (O marido de Júlia, por interesse financeiro e por maldade, tenta fazê-la passar por louca e conta, para isso, com a colaboração da governanta.) Vendo a patroa sair à noite e sabendo que isso é um bom prato para seu patrão e cúmplice, a governanta fecha a porta por dentro. Quando Júlia volta, pé ante pé, não consegue entrar na casa. Então, ela sai outra vez para a noite, aflita e angustiada. O marido acorda, a governanta conta-lhe tudo e ele, com toda a sua cara de mau, fica tranqüilamente esperando a mulher chegar. Está feito o maior suspense:

- De que forma Júlia vai explicar a sua saída?

- O que não lhe fará agora o mando perverso!

- Será que ele vai descobrir o plano dos estudantes, para mais uma vez delatá-los à policia?

- Será que Lúcio vai ser descoberto?

Enquanto a boa e sofredora Júlia caminha às tontas pela noite, Vicente Sesso faz a imaginação funcionar para que a volta de sua heroína a casa seja uma coisa bem normal.

- Digamos que ela foi visitar uma amiga doente.

- Sim, mas então não precisaria esconder isso da governanta

- É. E se ela tivesse ido encontrar o marido no banco, ele já tinha saído, ela vem sozinha para casa.

- Mas chegar à meia-noite?...

- E se ela. . .

Sesso não está hoje nos seus melhores dias. Uma coisa corriqueira está impedindo sua concentração mais profunda. É que Sérgio Brito comunicou-lhe, ontem, que uma figura importante da novela - um nobre escravocrata, ligado à repressão contra os abolicionistas - talvez precise morrer. Sesso deve arranjar-lhe um enfarte, ou coisa parecida. O rapaz que faz o papel, apesar de esforçado, está sem firmeza, treme quando vai contracenar com as figuras principais e, com isso, seu personagem está fraco, balbuciante, sem aquela decisão e segurança que um barão do Império deve mostrar quando fala de política. Foi dado ao ator o espaço de três capítulos para se reabilitar. Se nesse tempo o personagem não se firmar, o barão será morto e Sesso criará para o seu lugar, a fim de que a história não fique manca, uma outra figura.

É a terceira vez que isso acontece na novela; primeiro, uma empregada, que não conseguia falar - essa entrou nas vítimas da epidemia. Depois, um médico, que não convencia ninguém, e para o qual se arranjou uma viagem sem volta, enquanto a família contratava outro médico, na pele de um artista mais vitaminado. E houve até um caso inverso: o ator Eduardo Abbas entrou para fazer uma pontinha, como mendigo. Mas revelou-se um mendigo tão autêntico, que Sesso não o dispensa mais. Em vez de sumir, seu papel cresceu.

Sesso vive em casa todos os problemas da novela, quase em nível do realidade. Os parentes o procuram para dar noticia:

- Escute, Vicente, de repente a novela pulou dez anos no tempo e só o Henrique Martins envelheceu?

- Que que há com o rosto do Lúcio? Por que lhe aparece assim tão mais branco do que os outros?

- Quando é que você vai matar esse enjoado contador do banco?

A casa de Sesso parece um museu de teatro. Ele guarda, em tranqüila desordem, quatrocentas perucas de época, quase mil vestidos, cortinas, cenários, roupas de homem e muita coisa mais que lhe sobrou do tempo em que produzia seus próprios espetáculos. Após escrever cada capitulo, ele o representa para si próprio, usando um gravador, para escutar tudo depois. Quando põe um personagem novo na história, ele se veste como ele, caminha, fala, grita, raciocina como ele. Mas hoje seu problema é Júlia, a mulher de um banqueiro, solta na noite do Rio em pleno século XIX.

- Se ela tivesse ido...

OS EXTRAS E SEU SUBMUNDO

- Que tipo de gente os vampiros do Sangue do Meu Sangue vão querer dessa vez?

O pedido de extras para a cena do Teatro Municipal chega às mãos de Décio Ferreira, o coordenador do elenco. É ele de quem sai caçando os artistas à noite, quando é preciso, na última hora, gravar de novo uma cena porque se descobriu tarde demais um defeito na fita do vetê. Ele, também, quem controla os extras, uma estranha e dramática população que compõe o submundo da novela.

- Tomara que pecam de novo trinta loucos, isso é o que não falta...

O painel humano de Décio Ferreira grande. Quase não há pedido que ele não possa satisfazer: tem um microcéfalo de quase 2 metros, um anão, um rapaz com tres fileiras de dentes; tem um velho de 78 anos, uma velha de setenta, uma quarentona bonita com muitas jóias; tem três carecas, oito barbudos e cabeludos, 28 negros, quinze negras, cinqüenta crianças de várias idades, cinco índios, duas índias. Ao todo, 930 pessoas fichadas, com fotos e atestado de antecedentes. Duas vezes por semana, elas comparecem ao estúdio, para saber a escalação. Os que são escalados devem chegar às 7 horas e ficar até à noite, para ganhar 10 cruzeiros por dia, a condução por sua conta.

O pedido para a cena do Teatro Municipal pode ser fácil - pensa Décio -, mas também pode ser, como iá aconteceu muitas vezes, que queiram dois recém-nascidos. Então, ele tem de percorrer a Vila Guilherme, caçando quem queira alugar duas criancinhas que às vezes precisam ser beliscadas para chorar em cena.

- Bom é quando as próprias artistas têm menino novo...

Dessa vez, o pedido é simples: seis casais, de idade variável, bom porte; três deles precisam ficar cochichando em francês. Décio vai ao encontro da sua multidão e começa a selecionar os doze que lhe interessam. Lá no meio, o moço com três fileiras de dentes fica rindo alto, a boca muito aberta, para deixar bem claro que, se o negócio é de monstros ou de louco, ele está ali, feio e pronto. Décio escolhe os seus doze e usa energia para dispensar os outros. Eles saem aos grupos, cabisbaixos. O rapaz de três dentições vai com um amigo tomar café no bar. Traz na mão um lenço para cobrir, com constrangimento e vergonha, a estranha boca, para que ninguém o importune por causa do seu sorriso triplo e assustador.

O REALISMO, A EMOÇÃO, O CHORO

- Agora, a cena de Cuoco a cavalo. Externa, no pátio de estacionamento!

Nesta manhã de quinta-feira, Sérgio Brito está tranqüilo. As cenas de hoje não permitem supor nenhuma dificuldade maior; para amanhã, só ficou mesmo a parte do teatro. Tudo indica um fim de semana calmo. Para a cena no Teatro Municipal, tudo foi previsto, os atores estão mais do que avisados, não há nenhum problema de guarda-roupa nem de cenografia. Apesar de conter uma briga e de envolver bastante gente, a cena é simples.

Atraídas pela fama de Sarah Bernhardt, várias pessoas vão assistir ao seu ensaio. Lá pelas tantas, a artista francesa desentende-se com uma colega, as duas trocam tapinhas, o filho de Sarah Bernhardt toma as dores da mãe e passa a espancar a outra mulher. Bate tanto, que o nosso herói, acostumado a intervir toda vez que espancam escravos, esquece que é um convidado e, subindo ao palco, esmurra vigorosamente o francês. Arma-se a maior confusão e uma linda mulher, que também peruava o ensaio, ajuda o galã a fugir quando chega a polícia. Disso vai decorrer, capítulos depois, o início de um romance; tudo bem novelesco, bem movimentado, mas simples, do ponto de vista da televisão. Sérgio Brito está, por isso, com a cabeça fria.

- OK, moçada. Passemos para o cavalo.

Nesta cena, o pérfido Maurício, recém-chegado de Paris, quase atropela, com seu impetuoso cavalo, uma linda moça, irmã de Lúcio, o nosso herói. (Isso vai acabar em duelo. . .) O cavalo, alugado por dia, já funcionou em tantas novelas que é mais pacífico do que um gato siamês. Para que seu tratador consiga que ele levante as patas para um take é uma dificuldade danada. Ensaia-se várias vezes e começa a gravação. Até que Sérgio grita:

- Pára tudo! Cíntia, você é uma menina de dezesseis anos na novela, não seria bom tirar a aliança?!

Inicia-se de novo e a cena quase chega ao fim.

- Pára. Avião.

Começa outra vez e tem de parar porque uma atriz aqueceu o texto. Nova tentativa e nova volta atrás porque um caminhão está fazendo manobras bem na esquina. Recomeça e tem de estancar porque um carro buzinou. Uma outra vez e nova suspensão, agora porque o cavalo ficou numa posição sem possibilidade de o artista descer. Tenta-se de novo e aí é a direção de tevê que manda parar: sombra no rosto de Cíntia. Com mais três tentativas, chega-se ao fim, sem incidentes.

- Valeu! Agora, o diálogo das mulheres.

Todos começam a tomar posição, mas surge Francisco Carlos, o diretor de tevê, baixinho e bravo:

- Aqui eu não gravo mais. Esta cena pode muito bem ser feita no estúdio com absoluto controle de luz e de som, e onde não passa automóvel, não tem caminhão fazendo manobra e nem nuvens para fazer sombra. Não vamos fazer aqui só porque ela fica mais bonitinha. . .

O diretor de tevê fica fechado em sua sala, ao lado do homem que dosa o fundo musical, os acordes de suspense, de horror, de alegria, etc. Ele controla as cenas através de monitores de tevê que recebem as tomadas feitas pelas câmaras, junto dos artistas. Apartado dos pequenos incidentes da gravação, ele só se guia, lá em cima, pelo produto acabado, isto é, pelo resultado final no vídeo. Com isso, acaba tornando-se um verdadeiro ditador da imagem. E o homem é bravo.

- Ou vamos para o estúdio, ou eu não gravo mais.

Volta todo mundo para o estúdio e, como por ironia, a cena do diálogo dá certo logo na primeira. Agora é o episódio dos mendigos, o tal cuja gravação passou de ontem para hoje por causa da falta de mato. Rodolfo Mayer, um mendigo filósofo e zombeteiro, e Francisco Cuoco, um falso mendigo, participam da cena. O mendigo verdadeiro está implicado com o fato de seu companheiro andar muito triste e calado, e viver rondando uma família, sempre pronto a arriscar-se para proteger os rapazes e as moças daquela casa (na verdade, seus próprios filhos). Após um rodeio de frases, pergunta-lhe frontalmente:

- Mas, João, que história você está me escondendo? Conte, velho, no nosso ambiente não há mistérios, ninguém precisa esconder nada um do outro. Afinal, João, eu sou seu amigo. Que é que se passa com você?

João ainda não pode contar seu segredo (isso atrapalharia toda a novela), mas, diante da provocação tão interessada do amigo, ensaia uma resposta. Começa a chorar e diz, entre lágrimas:

- É que, Raposo... (Soluços.) É que eu matei o pai dessas crianças...

A cena devia terminar aí. Mas os atores estavam tão à vontade, Cuoco chorava tão profundamente, a expressão no rosto do Rodolfo Mayer era tão válida, que Sérgio Brito, de longe, fez-lhes sinal para que continuassem, que dessem à cena o máximo efeito dramático que conseguissem. Com o rabo do olho, os atores entenderam. Então, Rodolfo avançou para perto do amigo, fez uma careta, começou a dizer alguma coisa muito filosófica, mas gaguejou, não conseguiu. Enquanto, sem nada para dizer, erguia as mãos para acarinhar o ombro do companheiro, o estúdio todo viu, perplexo, o rosto do velho ator intumescer, corar e despregar no choro mais convulso. Agora eram os dois velhos que soluçavam, irmanados, cúmplices, entregues um ao outro. Quando Sérgio Brito gritou ''Corta!". Pedrinho, o rapaz do microfone, estava também chorando. O próprio Sérgio tinha os olhos vermelhos. E aconteceu uma coisa que é rotina nos bastidores da novela, mas que é sempre emocionante. Todos os que estavam ali, trabalhando ou não, aplaudiram demoradamente os dois artistas. E até o ditador Chico Carlos, que da sua sala de controle teve sensibilidade bastante para deixar a cena correr, desceu para confraternizar com os artistas.

Mas o dia não ia terminar assim tão euforicamente:

- Sérgio, reunião às 4 horas na sala do Zara. O Sesso já foi chamado.

Carlos Zara é o diretor de teleteatro e o cérebro das novelas da casa. Ele só intervém quando o problema é muito importante. Será que o Ibope baixou? Serão problemas com a agência? Com a censura? Serão novos cortes de pessoal? Que será?

"VAMOS REESCREVER A HISTÓRIA"

Zara foi claro e franco, como sempre: - A cena do ensaio de Sarah Bernhardt não vai mais ser feita no Teatro Municipal. Primeiro, porque teríamos grandes problemas de iluminação. Segundo, porque a cena vai ao ar no dia da gravação, e não posso correr os riscos próprios de uma externa. E se, por um probleminha qualquer, não der tempo? Não, não vamos correr esse risco; a cena tem de ser gravada no estúdio.

Sesso foi quem gritou primeiro:

- Você está sugerindo, Zara, que de hoje para amanhã eu reescreva o capítulo inteirinho, para que todos os incidentes acabem acontecendo num dos nossos cenários?

- Exatamente.

Sérgio gritou depois:

- Mas, Zara, nós temos quatro cenas gravadas em que os personagens fazem referência ao quebra-pau no Teatro. E agora?

- Vamos regravá-las todas, adapta das para o quebra-pau numa das casa da novela, e isso não é nenhuma tragédia.

Muito mais se falou e se discutiu, mas a decisão foi aquela mesma. Todos os planos e previsões tinham de ser refeitos, o Teatro Municipal não seria mais usado. Sérgio aproveitou o fim de quinta-feira para consertar as quatro cenas que falavam do incidente. Em três, conseguiu perfeitamente. Uma delas, entre tanto, não podia ser refeita porque o Sadi Cabral, que lia em voz alta um jornal com a noticia do conflito, tinha viajado para o Rio. O jeito foi acrescentar, em outro personagem, naquela cena, a seguinte fala:

- Esses jornalistas, como contam mentira esses jornalistas! Madame Sarah Bernhardt nem sequer foi ao Teatro Municipal . . .

Alguém tinha de pagar 0 pato.

OS MILAGRES DO GUARDA-ROUPA

Na sexta-feira, às 10 horas, chegaram os originais, com as complicações todas agora se passando na casa de Tônia Carrero. Até que se providenciassem as vinte cópias do script, 11 horas. Só ao meio dia é que Isabel Pancada, chefe do guarda-roupa, foi avisada da mudança, e isso implicava conseguir vestido para duas pessoas a mais (as duas empregadas) e arranjar chapéus e casacos para todas as mulheres da troupe, coisa que não aconteceria se estivessem no teatro, em roupa de trabalho. O departamento de Isabel se acabou em pancadaria; quando a gravação começou, porém, estiva todo mundo bonitinho. Só que ela preveniu:

- Esta senhora aqui tem de ficar encostada na parede, e todos tomem cuidado para não ir para o lado dela, na hora da briga. O vestido está seguro por alfinetes: se um deles desprender, a peça desmonta. Vai ser um strip-tease meio fora de lugar...

Para explicar na novela a realização do ensaio na casa de Tônia, foi bastante um dos personagens chegar afobado na casa e dizer para a empregada:

- Bentinha, me ajude, por favor. O palco do teatro não ficou pronto e por isso Madame Sarah Bernhardt vem ensaiar aqui. Vamos dar um jeito rápido nessas cadeiras, depressa, depressa, que eles já vêm chegando.

Fora isso, a estrutura da cena foi mantida, com um detalhe. O herói, ao invés de fugir pela platéia, foge casa adentro, e Tônia, já simpatizada com ele, esconde-o dentro do guarda-roupa.

Cena com muita gente, muitos extras, briga, correria dá sempre bastante trabalho. Ela foi começada e interrompida oito vezes. Na nona deu tudo certinho e a briga saiu até com bastante realismo. Um figurante entusiasmou-se tanto com o conflito, que, entrando para apartar, acabou arrancando sangue da boca do filho de Sarah Bernhardt, o ator Sílvio de Abreu. Sílvio estava em outra novela mas, como é um dos poucos na casa que falam francês, foi convocado para a cena.

A próxima tomada seria o momento em que Tônia esconde o herói dentro do guarda-roupa. A gravação ia muito bem, até que Cuoco deu o grito:

- Pára, porque eu não caibo dentro desse móvel. . .

Ninguém tinha pensado nisso. O marceneiro de plantão arrancou uma tábua do fundo e, assim, dobrando-se todo. Cuoco conseguiu entrar. Mas não havia cristo que conseguisse fechar a porta. Tônia sugeriu

- Eu digo que vou deixar a porta meio aberta, para entrar ar.

- Ótimo. Assim fica explicado.

Grava-se a cena do guarda-roupa, com o Cuoco lá dentro; logo a seguir, uma outra em que Sarah Bernhardt, para recuperar-se da emoção sentida por ver o filho apanhar, vai para o mesmo quarto, descansar um pouco. Há problemas de marcação e a cena é feita e refeita várias vezes, até dar certo. No fim, Tônia se ilumina:

- Santo Deus, ninguém se lembrou de tirar o Cuoco lá de dentro!

Só então é que o ator sai do guarda-roupa. Seu rosto é uma careta de dor. Ele tem problemas de coluna e a posição fetal dentro do móvel atingiu-o duramente:

- Agora vou levar dois meses para por a espinha outra vez no lugar...

As 6 horas vem a notícia de que de que está todo bem com o capítulo que vai ao ar dali a pouco, com toda a briga. Há um suspiro de alívio no rosto de Sérgio Brito. Aí, ele apanha os scripts dos seis capítulos da semana que vem, que começará a gravar segunda-feira. Isabel Pancada vem filar uma espiada e dá o grito:

- O quê?! Tem baile de gala na casa da Fernanda segunda-feira?!

- Isso mesmo, beleza. Baile de gala. com todas as figuras femininas em lindos vestidos de noite...

- Você pensa, Sérgio Brito, que eu vou fazer seis vestidos novos, e mais chapéus, e casacas, e não sei o que mais, neste fim de semana?. . .

- Penso, sim, minha querida. Do contrário estaremos todos fritos!

A ilusão faz efeito

Na segunda-feira, às 8 horas, Dona Alcina está outra vez firme na frente da sua tevê, paga em 48 prestações, com o dinheirinho que ela apanha todo mês na fila do INPS. Nessa hora, os seus problemas não contam. Pode o jantar não estar pronto, pode ter neto sem banho. pode haver visitas em casa, o momento é sagrado. Então, ela vai saber que Júlia chegou à meia-noite em casa porque. . . porque foi apanhar o filho que tinha ido assistir a Sarah Bernhardt. E verá, extasiada, as lindas valsas dançadas no baile de gala da casa de Fernanda. E, outra vez, comentará com a empregada:

- Você viu, Teresinha, que roupas maravilhosas! E que ambiente fino, que gente elegante! E que perfeição de cenas!... Maravilhoso, maravilhoso!!...

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