Sunday, March 31, 2013

1969 - Ibope

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 17/10/1969
Autor/Repórter: Eni Creimer



A IMAGEM DO SUCESSO
Luzes fortes sobre o palco, as câmaras funcionando. Um homem gordo aparece todo fantasiado, grita: "Teresinha' '- e o auditório superlotado responde freneticamente. Por toda a cidade e adjacências, aparelhos de televisão estão ligados e um público de milhões fica preso a eles duas horas seguidas, enquanto desfilam cantores, calouros, bailarinas, toda sorte de atrações.

Exaltação da mediocridade - dizem uns. Grande poder de comunicação - dizem outros. Com o termo comunicação tão em moda , ninguém - principalmente os que a têm em tão grandes escala - conseguiu ainda explicar direito em que consiste o fascínio do Chacrinha, da Derci Gonçalves, da novela A Rosa Rebelde. Os estudiosos da comunicação já estão achando que a mediocridade não é tanta assim, que há virtudes nos grandes da TV, porque eles consegue dizer algo.

Bom ou ruim, não interessa: o que importa é comunicar. Tarcísio Meira, Glória Meneses, J. Silvestre, Bibi Ferreira, Flávio Cavalcânti, todos têm um ponto em comum: eles dão IBOPE. Televisão é negócio, e os melhores índices de audiência garantem os maiores salários.

Eles são ídolos. No mercado da televisão, as mercadorias valiosas guardadas a qualquer preço. Cobiçados por outros canais, num leilão de lances altíssimos. Alguns passam dos NCrS 100 mil. Seus nomes garantem audiência: atraem as grandes contas de publicidade. Audiência é faturamento. Televisão, um mundo imediatista que não pode perder tempo. Os artistas devem estar feitos.

- Um elenco de grandes atracões é o maior investimento da televisão diz Borjalo, diretor de criação da TV Globo. - Garantem os níveis, o interesse do público permanentemente aceso. Eu nunca penso em faturamento quando escolho os artistas, mas procuro trazer para o nosso canal pessoas de grande poder de comunicação.

Nossos programas não são vendidos; só os intervalos. E' o Departamento Comercial que vende. Logicamente, eu procuro valorizá-los o máximo possível.

- O êxito de um artista pode ser uma surpresa, até para mim. Minha filha tinha três anos (está com sete) quando ouviu o Roberto Carlos cantar. Roberto ainda não era conhecido, mas a garota ficou fascinada. Sentiu o que eu, como produtor na época, não havia percebido.

Ted Boy Marino, um outro fenômeno. Há dois anos foi lançado com o elenco de catch no Canal 4.

- Todos os lutadores tinham a mesma promoção. O Ted foi um sucesso. Não falava, era só a figura. A função do diretor é aplicar esse charme. Então, transformamos Ted no herói do programa, o lutador quase imbatível. Como explicar? Não há uma lei física. Cada grande artista tem a sua maneira de comunicar. E' quase um fenômeno pessoal. O Chacrinha é um produtor que não descansa um minuto. Tem uma equipe de mais de 20 pessoas. Usa sua inteligência, seu talento e charme como apresentador de um programa em que é o principal sem sê-lo. O condutor de um programa que dura duas horas, no qual ele aparece uns minutos somados.

PROFISSIONALISMO - Tarcísio Meira entra na sala do diretor.

- Borjalo, a Janete está apavorada. O telefone não pará um segundo. O pessoal está indignado com a ausência da Rosa. Talvez seja bom dar um comercial explicando a razão. O que é que você acha? O IBOPE baixou?

A Rosa Rebelde, uma novela de Janete Clair, com Tarcísio Meira e Glória Meneses nos papéis principais, é o maior índice de audiência do Brasil. Uma média de 60% de espectadores. Quatro milhões só no Rio e cidades vizinhas, que esperam a volta de Rosa. E Rosa volta. Afinal Rosa é Glória Meneses, uma das atrizes mais populares da TV, e um personagem importante só morre, em geral, quando não agrada ao público. Uma novela custa de NCr$ 600 mil a NCr$ 800 mil, permanecendo em cartaz de seis a oito meses. No Brasil, só a televisão conseguiu elevar os atores à categoria de astros, trazendo-lhes também uma total independência financeira. Um ator principal ganha de NCr$ 5 mil a NCr$ 10 mil.

Um papel pequeno recebe NCr$ 1 mil por mês, o que pode ser considerado um bom salário, comparando se com o que recebiam antes, em teatro. Só o elenco gasta 20% da novela.

- Na televisão nada pode ser improvisado. Entra muito dinheiro em jogo. Um figurante passa 10 anos sonhando em representar um papel. Quando chega a oportunidade, não fala uma palavra - explica Borjalo. Nós não podemos arriscar. Os valores desconhecidos não são pontos de venda. Os espectadores vão ver a novela do Tarcísio e da Glória, a novela do Sérgio (Cardoso).

Um papel esticado pela autora, quando é bem recebido pelo público, podendo se transformar num papel de importância. Todas as reações do publico, acusada pelo IBOPE, têm influencia no desenrolar da novela. IBOPE, pesquisa de opinião pública, indicador de tendências, fantasma diária dos líderes. O IBOPE baixou, subiu?

- A nossa preocupação com o IBOPE é muito criticada. Mas a televisão é comercial, tem que ter bons índices. A audiência levanta o faturamento da emissora, que pode assim investir em novas atracões. Um Oh! Que delícia de Show, com José da Silva, não interessa ninguém. Se for com Abelardo Barbosa, todo mundo vai ver.

QUESTÃO DE 'CLIC'

A razão do sucesso? E, difícil colocar um peso - diz Glória Meneses. Não é qualidade artística, nem talento. Em novela, o sucesso depende muito do papel. Eu recebo cartas que não são dirigidas a mim, mas ao personagem.

- O êxito de uma dupla? O casal forma um todo, garantindo o sucesso de um e de outro. Existem poucos na televisão: a Ioná e o Carlos Alberto, o Tarcísio e eu. O par romântico não deve se separar. Deve fazer um intervalo entre uma novela e outra, para não cansar o público e deixá-lo esquecer-se de seus personagens anteriores. Quando eu e Tarcísio nos separamos, a experiência não foi boa. Tarcísio foi fazer, com Ioná Magalhães, A Gata de Vison, e eu fiz. com Carlos Alberto, O Passo dos Ventos. O público é fiel e não aceitou. O fato de saber que somos casados na vida real, que somos felizes, contribui para o sucesso. E' a historinha que os espectadores formam na cabeça e associam.

- Nossa profissão é como as outras. Existem ótimos médicos que não têm chance de subir. Logo que comecei a trabalhar, em fins de 61, tive boas oportunidades. Seis meses depois fiz O Pagador de Promessas, que estourou na Europa. Conseguira a grande chance. - O que faz um ator de televisão destacar-se dos outros? É o clic em relação ao público, como diz Antunes Filho. E' o ator que cativa. Existem atrizes que nascem para grandes estrelas, e outras excelentes que não passam nunca de boas coadjuvantes.

MOMENTO EXATO - Para Borjalo, o magnetismo dos protagonistas é uma qualidade eliminatória e o poder de comunicação, um item. Sozinhos, não bastam. Atrás deles tem que haver uma novela bem escrita, bem produzida, bem dirigida.

- O sucesso existe, isto é inegável. Por que? Eu não sei, nem ninguém sabe - diz Tarcísio Meira. O momento psicológico do artista, o momento psicológico do público, o personagem, a história, são alguns fatores. Pode ser fabricado, mas não subsiste, não sobrevive, se o próprio artista não tem condições inerentes a sucesso. Há personagens esmagadores que, por uma série de circunstâncias ficam conhecidos. O público não aceita um ator que se despersonaliza. Um bom ator é aquele que consegue ser ele vivendo as experiências de um personagem, não o personagem vivendo as suas experiências. Um verdadeiro ator não se anula.

- Alguns bons atores fazem grande sucesso numa novela, mas não conseguem repeti-lo. São os papéis que casam cm os artistas, as histórias que não despertam não despertam o mesmo interesse. No cinema acontece a mesma coisa. Existem artistas que se destacam em filmes inesquecíveis e depois passam dois, três anos, até estourar novamente - lembra Borjalo.

HORA CERTA - Horário nobre, o horário dos líderes, vai das 19h às 22h. Um segando nesse horário, num programa determinado, custa NCr$ 75,00. Antes e depois, os preços descem à metade (NCr$: 37,50). Apesar da diferença, a procura dos anunciantes pelos horários nobres é muito maior do que pelos comuns .

- À tarde não há audiência. O mercado comprador está trabalhando, as crianças na escola - fala Herci Gouveia Falcone, da direção comercial da TV Tupi. - O anunciante quer aumentar o volume de vendas rapidamente. As grandes verbas de publicidade (algumas de mais de NCrS milhão, por ano) vão para os canais que têm audiência. A falta de atrações prejudica a emissora, como o caso da Continental, que não tem grandes nomes nem faturamento. Uma televisão funciona e tem que gastar para funcionar.

Antigamente, eram as firmas patrocinadoras que pagavam os grandes salários. Hoje, é a própria televisão que paga, para não depender de um só anunciante.

- Como são vários anunciantes que compram os intervalos de um programa, nós não ficamos na mão se um desiste, o que antes acontecia diz Herci.

Os maiores salários da televisão são daqueles que comandam um show, e que pagam seus convidados. Os cantores ganham por chachet, e não são na sua maioria, exclusivos de nenhum canal.

- A TV Tupi tem 16 canais de televisão. O dinheiro investido em nomes consagrados como J. Silvestre, Bibi Ferreira, Golias, Blota Júnior, Flávio Cavalcânti, será recuperado e virá em dobro - afirma Herci.

CARA E COROA - Líderes de audiência, um bom negócio para a televisão. Artisticamente, valem o que recebem?

- Em televisão o que conta não é o valor, diz J. Silvestre, o maior salário da Tupi: NCrS 120 mil por mês.

- O que vale é o sucesso, e sucesso nem sempre é o melhor. Sucesso é imponderável e até mais, imprevisível. O profissional sabe que tem que utilizar ingredientes e fórmulas que às vezes não alcançam o objetivo. Fritar ovos na televisão pode ser um brutal sucesso, e ler poemas de Guerra Junqueiro, um fracasso total. Se fritar ovos é sucesso, vamos fritar ovos. Os críticos não gostam muito que a gente fale isto. Mas não faço meus programas para agradar a uma meia-dúzia de críticos, por mais que os respeite. A televisão é um reflexo do próprio povo, tem que ir a ele, não procurar trazê-lo para um determinado nível..

Para Bibi Ferreira, sucesso é só comunicação

- E tudo e ao mesmo tempo não é nada. Para quem tem muito o que dar, como seja o dom da palavra cultura, simpatia está aí o sucesso. Ao mesmo tempo está aí, para aquele que nada tem. O grande segredo é comunicabilidade. Tanto faz para o que muito sabe, como para o que não sabe, o que inconscientemente transmite chega até o público. Isto é um dom que Deus dá, um dom que a gente pode perder. Como um aparelho que pifa tampado com outras coisas, por exemplo, a sofisticação. Não se aprende em escola dramática, experiência não adianta nada, o saber ou não saber dá na mesma. É só comunicação, como aquela pessoa que numa festa ou numa reunião íntima se sobressai das demais. Uma onda que do corpo emana e que o homem não descobriu, ainda não soube explicar. É como o amor. Amor para mim é isso. Duas pessoas que se comunicam, que ligam, no caso o artista e o público.

Uma diferença que no teatro também é marcante, na opinião de Bibi.

- A diferença entre o grande ator e o ator correto. O grande, quando entra no palco, parece que este ganha mais luzes.

RENOVAÇÃO - Flávio Cavalcânti, NCrS 80 mil mensais, salário que ele revela pela primeira vez.

- Antes de mais nada, sorte. O sucesso tem razões que a própria razão desconhece. Sei que deveria dizer talento, mas o meu A Grande Chance vem comprovando que de talentos o Brasil está cheio, e a televisão não está cheia de talentos, mas de gente de sorte - Televisão é muito trabalho, mas um montão de trabalho. Só é divertimento para quem liga o botão. Para o profissional cônscio, uma pedreira. Há 13 anos eu não tiro férias.

Em dados objetivos, o que pode representar um programa líder de audiência para o anunciante?

- Há 8 anos, eu fazia um programa, A Notícia É O Espetáculo, patrocinado pela Mílton Bastos Imóveis. Eu vendi todo um edifício de apartamentos, que na época valia 1 bilhão.

Renovar, uma preocupação de todo dia de Flávio.

- Se o espectador concorda com o estilo do artista, este deve continuar o mesmo, mas o conteúdo tem que ser novo. Seria bom também que os diretores não corressem com tanta avidez pelo IBOPE, o que deixa um Gílson Amado, por exemplo, estrangulado. Se não der audiência, seja quem for, pode ser o rei do ié-ié-ié, eles chutam. A televisão tem uma capacidade de persuasão impressionante. Deveria ser mais pedagógica, sem sei professoral, sem assustar.

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