Sunday, March 31, 2013

1969 - Censura

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 30/8/1969

FRESTA NA CENSURA
A censura ao freqüentador de cinemas em nosso país criou, por paralelismo, uma censura ao mercado de filmes, impedindo que obras de arte autênticas, dirigidas a um público acima do nível médio, sejam exibidas com regularidade. Quando um desses filmes aparece por acaso, em meio a um lote arrematado nos estúdios estrangeiros, a exigência do certificado de censura trava em geral a sua apresentação, mesmo em salas especiais.

É contristador verificar-se que os circuitos de cinema de arte, inclusive o Museu da Imagem e do Som, estejam sujeitos a uma seleção prévia dos censores federais, a quem entregamos, forcados, o juízo do nosso gosto estético. São eles os críticos primeiros da nossa critica, e como viciaram a capacidade de julgamento na censura de filmes destinados ao grande público, impõem toda uma gama de convencionalismo a setores mais sofisticados da inteligência brasileira.

Não nos referimos especificamente ao cinema tipo underground, mas à obra de arte cinematográfica que, como tal, goza de privilégios e isenções especiais nos. países de tradição cultural assentada. Esses filmes, feitos sem espírito de concessão ao chamado gosto popular, que se contenta via de regra com receitas pré-fabricadas, ou náo chegam ao Brasil ou, se importados, sofrem cortes e mutilação que desfiguram inteiramente suas intenções originais.

Ainda recentemente, dois cineastas brasileiros, aos mais lúcidos desta geração, se comprometeram a importar o mais recente filme de um mestre, Bunuel; mas como bons conhecedores dos arroubos puritanos da nossa censura, condicionaram o-pagamento à possibilidade de liberação integral, aqui, da obra. São distorções que em nada nos recomendam como nação ansiosa por um amadurecimento de concepção e de ideal civilizatório.

A censura no Brasil, além de todo-poderosa nos seus conceitos e hipersensível nos seus pruridos pretensamente moralizantes, tem no critério das massas a sua diretiva única. Isso cerceia o acesso a obras fora dos padrões comuns da indústria - cinematográfica, estabelecendo uma popularização que, por ser dirigida, nega os fundamentos de liberdade essenciais à criação e difusão das manifestações do espírito.

O fato ainda é mais lamentável quando se constata que as restrições no terreno artístico são acentuadas pelo tabelamento das salas de espetáculos, o que amesquinha o mercado e desestimula por completo o aparecimento de salas mais nobres onde se possa satisfazer o gosto apurado A censura e o tabelamento, juntos, constituem veículos de nivelamento cultural por baixo, e em termos de indústria e comercialização sufocam o engenho e abastardam a arte.

Temos um Instituto Nacional do Cinema e dele se espera uma ação pioneira que se traduza logo em afirmação cultural Acima das suas atribuições normais de controlar a arrecadação e fornecer estímulos, paira, indevassada ainda, uma missão didática de amplas possibilidades e conseqüências. Concebido originalmente como meio de entretenimento, o cinema se afirma cada vez mais como instrumento de cultura, e nesse contexto requer um planejamento racional a que a autoridade pública não pode ficar indiferente.

Precisamos dar ao público espectador oportunidade de opção além dos bangue-bangues importados em massa e que aferem mal o nosso quociente de inteligência. O filme de arte tem sido até aqui uma exceção tratada como exceção por exibidores e censores. Sem um programa que derrube critérios arcaicos de julgamento e divulgação, semeando salas de espetáculos para todos os gostos, jamais extrairemos do bom cinema as suas virtudes de expositor de idéias e conflitos humanos. O cinema, como arte, existe para sublimar o espírito, jamais para amortecê-lo ou anestesiá-lo pela vida afora.

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