Sunday, March 31, 2013

1969 - Ibope

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 17/10/1969
Autor/Repórter: Eni Creimer



A IMAGEM DO SUCESSO
Luzes fortes sobre o palco, as câmaras funcionando. Um homem gordo aparece todo fantasiado, grita: "Teresinha' '- e o auditório superlotado responde freneticamente. Por toda a cidade e adjacências, aparelhos de televisão estão ligados e um público de milhões fica preso a eles duas horas seguidas, enquanto desfilam cantores, calouros, bailarinas, toda sorte de atrações.

Exaltação da mediocridade - dizem uns. Grande poder de comunicação - dizem outros. Com o termo comunicação tão em moda , ninguém - principalmente os que a têm em tão grandes escala - conseguiu ainda explicar direito em que consiste o fascínio do Chacrinha, da Derci Gonçalves, da novela A Rosa Rebelde. Os estudiosos da comunicação já estão achando que a mediocridade não é tanta assim, que há virtudes nos grandes da TV, porque eles consegue dizer algo.

Bom ou ruim, não interessa: o que importa é comunicar. Tarcísio Meira, Glória Meneses, J. Silvestre, Bibi Ferreira, Flávio Cavalcânti, todos têm um ponto em comum: eles dão IBOPE. Televisão é negócio, e os melhores índices de audiência garantem os maiores salários.

Eles são ídolos. No mercado da televisão, as mercadorias valiosas guardadas a qualquer preço. Cobiçados por outros canais, num leilão de lances altíssimos. Alguns passam dos NCrS 100 mil. Seus nomes garantem audiência: atraem as grandes contas de publicidade. Audiência é faturamento. Televisão, um mundo imediatista que não pode perder tempo. Os artistas devem estar feitos.

- Um elenco de grandes atracões é o maior investimento da televisão diz Borjalo, diretor de criação da TV Globo. - Garantem os níveis, o interesse do público permanentemente aceso. Eu nunca penso em faturamento quando escolho os artistas, mas procuro trazer para o nosso canal pessoas de grande poder de comunicação.

Nossos programas não são vendidos; só os intervalos. E' o Departamento Comercial que vende. Logicamente, eu procuro valorizá-los o máximo possível.

- O êxito de um artista pode ser uma surpresa, até para mim. Minha filha tinha três anos (está com sete) quando ouviu o Roberto Carlos cantar. Roberto ainda não era conhecido, mas a garota ficou fascinada. Sentiu o que eu, como produtor na época, não havia percebido.

Ted Boy Marino, um outro fenômeno. Há dois anos foi lançado com o elenco de catch no Canal 4.

- Todos os lutadores tinham a mesma promoção. O Ted foi um sucesso. Não falava, era só a figura. A função do diretor é aplicar esse charme. Então, transformamos Ted no herói do programa, o lutador quase imbatível. Como explicar? Não há uma lei física. Cada grande artista tem a sua maneira de comunicar. E' quase um fenômeno pessoal. O Chacrinha é um produtor que não descansa um minuto. Tem uma equipe de mais de 20 pessoas. Usa sua inteligência, seu talento e charme como apresentador de um programa em que é o principal sem sê-lo. O condutor de um programa que dura duas horas, no qual ele aparece uns minutos somados.

PROFISSIONALISMO - Tarcísio Meira entra na sala do diretor.

- Borjalo, a Janete está apavorada. O telefone não pará um segundo. O pessoal está indignado com a ausência da Rosa. Talvez seja bom dar um comercial explicando a razão. O que é que você acha? O IBOPE baixou?

A Rosa Rebelde, uma novela de Janete Clair, com Tarcísio Meira e Glória Meneses nos papéis principais, é o maior índice de audiência do Brasil. Uma média de 60% de espectadores. Quatro milhões só no Rio e cidades vizinhas, que esperam a volta de Rosa. E Rosa volta. Afinal Rosa é Glória Meneses, uma das atrizes mais populares da TV, e um personagem importante só morre, em geral, quando não agrada ao público. Uma novela custa de NCr$ 600 mil a NCr$ 800 mil, permanecendo em cartaz de seis a oito meses. No Brasil, só a televisão conseguiu elevar os atores à categoria de astros, trazendo-lhes também uma total independência financeira. Um ator principal ganha de NCr$ 5 mil a NCr$ 10 mil.

Um papel pequeno recebe NCr$ 1 mil por mês, o que pode ser considerado um bom salário, comparando se com o que recebiam antes, em teatro. Só o elenco gasta 20% da novela.

- Na televisão nada pode ser improvisado. Entra muito dinheiro em jogo. Um figurante passa 10 anos sonhando em representar um papel. Quando chega a oportunidade, não fala uma palavra - explica Borjalo. Nós não podemos arriscar. Os valores desconhecidos não são pontos de venda. Os espectadores vão ver a novela do Tarcísio e da Glória, a novela do Sérgio (Cardoso).

Um papel esticado pela autora, quando é bem recebido pelo público, podendo se transformar num papel de importância. Todas as reações do publico, acusada pelo IBOPE, têm influencia no desenrolar da novela. IBOPE, pesquisa de opinião pública, indicador de tendências, fantasma diária dos líderes. O IBOPE baixou, subiu?

- A nossa preocupação com o IBOPE é muito criticada. Mas a televisão é comercial, tem que ter bons índices. A audiência levanta o faturamento da emissora, que pode assim investir em novas atracões. Um Oh! Que delícia de Show, com José da Silva, não interessa ninguém. Se for com Abelardo Barbosa, todo mundo vai ver.

QUESTÃO DE 'CLIC'

A razão do sucesso? E, difícil colocar um peso - diz Glória Meneses. Não é qualidade artística, nem talento. Em novela, o sucesso depende muito do papel. Eu recebo cartas que não são dirigidas a mim, mas ao personagem.

- O êxito de uma dupla? O casal forma um todo, garantindo o sucesso de um e de outro. Existem poucos na televisão: a Ioná e o Carlos Alberto, o Tarcísio e eu. O par romântico não deve se separar. Deve fazer um intervalo entre uma novela e outra, para não cansar o público e deixá-lo esquecer-se de seus personagens anteriores. Quando eu e Tarcísio nos separamos, a experiência não foi boa. Tarcísio foi fazer, com Ioná Magalhães, A Gata de Vison, e eu fiz. com Carlos Alberto, O Passo dos Ventos. O público é fiel e não aceitou. O fato de saber que somos casados na vida real, que somos felizes, contribui para o sucesso. E' a historinha que os espectadores formam na cabeça e associam.

- Nossa profissão é como as outras. Existem ótimos médicos que não têm chance de subir. Logo que comecei a trabalhar, em fins de 61, tive boas oportunidades. Seis meses depois fiz O Pagador de Promessas, que estourou na Europa. Conseguira a grande chance. - O que faz um ator de televisão destacar-se dos outros? É o clic em relação ao público, como diz Antunes Filho. E' o ator que cativa. Existem atrizes que nascem para grandes estrelas, e outras excelentes que não passam nunca de boas coadjuvantes.

MOMENTO EXATO - Para Borjalo, o magnetismo dos protagonistas é uma qualidade eliminatória e o poder de comunicação, um item. Sozinhos, não bastam. Atrás deles tem que haver uma novela bem escrita, bem produzida, bem dirigida.

- O sucesso existe, isto é inegável. Por que? Eu não sei, nem ninguém sabe - diz Tarcísio Meira. O momento psicológico do artista, o momento psicológico do público, o personagem, a história, são alguns fatores. Pode ser fabricado, mas não subsiste, não sobrevive, se o próprio artista não tem condições inerentes a sucesso. Há personagens esmagadores que, por uma série de circunstâncias ficam conhecidos. O público não aceita um ator que se despersonaliza. Um bom ator é aquele que consegue ser ele vivendo as experiências de um personagem, não o personagem vivendo as suas experiências. Um verdadeiro ator não se anula.

- Alguns bons atores fazem grande sucesso numa novela, mas não conseguem repeti-lo. São os papéis que casam cm os artistas, as histórias que não despertam não despertam o mesmo interesse. No cinema acontece a mesma coisa. Existem artistas que se destacam em filmes inesquecíveis e depois passam dois, três anos, até estourar novamente - lembra Borjalo.

HORA CERTA - Horário nobre, o horário dos líderes, vai das 19h às 22h. Um segando nesse horário, num programa determinado, custa NCr$ 75,00. Antes e depois, os preços descem à metade (NCr$: 37,50). Apesar da diferença, a procura dos anunciantes pelos horários nobres é muito maior do que pelos comuns .

- À tarde não há audiência. O mercado comprador está trabalhando, as crianças na escola - fala Herci Gouveia Falcone, da direção comercial da TV Tupi. - O anunciante quer aumentar o volume de vendas rapidamente. As grandes verbas de publicidade (algumas de mais de NCrS milhão, por ano) vão para os canais que têm audiência. A falta de atrações prejudica a emissora, como o caso da Continental, que não tem grandes nomes nem faturamento. Uma televisão funciona e tem que gastar para funcionar.

Antigamente, eram as firmas patrocinadoras que pagavam os grandes salários. Hoje, é a própria televisão que paga, para não depender de um só anunciante.

- Como são vários anunciantes que compram os intervalos de um programa, nós não ficamos na mão se um desiste, o que antes acontecia diz Herci.

Os maiores salários da televisão são daqueles que comandam um show, e que pagam seus convidados. Os cantores ganham por chachet, e não são na sua maioria, exclusivos de nenhum canal.

- A TV Tupi tem 16 canais de televisão. O dinheiro investido em nomes consagrados como J. Silvestre, Bibi Ferreira, Golias, Blota Júnior, Flávio Cavalcânti, será recuperado e virá em dobro - afirma Herci.

CARA E COROA - Líderes de audiência, um bom negócio para a televisão. Artisticamente, valem o que recebem?

- Em televisão o que conta não é o valor, diz J. Silvestre, o maior salário da Tupi: NCrS 120 mil por mês.

- O que vale é o sucesso, e sucesso nem sempre é o melhor. Sucesso é imponderável e até mais, imprevisível. O profissional sabe que tem que utilizar ingredientes e fórmulas que às vezes não alcançam o objetivo. Fritar ovos na televisão pode ser um brutal sucesso, e ler poemas de Guerra Junqueiro, um fracasso total. Se fritar ovos é sucesso, vamos fritar ovos. Os críticos não gostam muito que a gente fale isto. Mas não faço meus programas para agradar a uma meia-dúzia de críticos, por mais que os respeite. A televisão é um reflexo do próprio povo, tem que ir a ele, não procurar trazê-lo para um determinado nível..

Para Bibi Ferreira, sucesso é só comunicação

- E tudo e ao mesmo tempo não é nada. Para quem tem muito o que dar, como seja o dom da palavra cultura, simpatia está aí o sucesso. Ao mesmo tempo está aí, para aquele que nada tem. O grande segredo é comunicabilidade. Tanto faz para o que muito sabe, como para o que não sabe, o que inconscientemente transmite chega até o público. Isto é um dom que Deus dá, um dom que a gente pode perder. Como um aparelho que pifa tampado com outras coisas, por exemplo, a sofisticação. Não se aprende em escola dramática, experiência não adianta nada, o saber ou não saber dá na mesma. É só comunicação, como aquela pessoa que numa festa ou numa reunião íntima se sobressai das demais. Uma onda que do corpo emana e que o homem não descobriu, ainda não soube explicar. É como o amor. Amor para mim é isso. Duas pessoas que se comunicam, que ligam, no caso o artista e o público.

Uma diferença que no teatro também é marcante, na opinião de Bibi.

- A diferença entre o grande ator e o ator correto. O grande, quando entra no palco, parece que este ganha mais luzes.

RENOVAÇÃO - Flávio Cavalcânti, NCrS 80 mil mensais, salário que ele revela pela primeira vez.

- Antes de mais nada, sorte. O sucesso tem razões que a própria razão desconhece. Sei que deveria dizer talento, mas o meu A Grande Chance vem comprovando que de talentos o Brasil está cheio, e a televisão não está cheia de talentos, mas de gente de sorte - Televisão é muito trabalho, mas um montão de trabalho. Só é divertimento para quem liga o botão. Para o profissional cônscio, uma pedreira. Há 13 anos eu não tiro férias.

Em dados objetivos, o que pode representar um programa líder de audiência para o anunciante?

- Há 8 anos, eu fazia um programa, A Notícia É O Espetáculo, patrocinado pela Mílton Bastos Imóveis. Eu vendi todo um edifício de apartamentos, que na época valia 1 bilhão.

Renovar, uma preocupação de todo dia de Flávio.

- Se o espectador concorda com o estilo do artista, este deve continuar o mesmo, mas o conteúdo tem que ser novo. Seria bom também que os diretores não corressem com tanta avidez pelo IBOPE, o que deixa um Gílson Amado, por exemplo, estrangulado. Se não der audiência, seja quem for, pode ser o rei do ié-ié-ié, eles chutam. A televisão tem uma capacidade de persuasão impressionante. Deveria ser mais pedagógica, sem sei professoral, sem assustar.

1969 - Retrato de Hebe Camargo

Realidade
Data de Publicação: 1/11/1969
Autor/Repórter: José Hamilton Ribeiro


COM VOCÊS, A HEBE
Quando Hamilton Ribeiro a procurou para a primeira entrevista, ela quase não o recebeu. Estava chorando porque tinha lido nos jornais um ataque ao seu programa de tevê - famoso no Brasil inteiro há quatro anos. Ex-cantora de rádio, de origem humilde, que só fez o primário, sente-se insegura e desamparada se a criticam. Mas talvez seja essa a razão de seu sucesso: ela entrevista o Dr. Barnard ou um vendedor ambulante com a mesma simplicidade de quem conversa entre amigos.

Depois que voltei do Vietnam com certa marca da guerra, fui levado a comparecer a vários programas de televisão. Quando me convidaram para o Hebe, um amigo se adiantou:

- Recuse, recuse. Ela vai acabar dizendo que sua perna "é uma gracinha".

O pessoal da revista achou que devia ir; eu fui. Mas fui, como se diz, com um pé na frente e outro atrás; esperando nos bastidores, estava pronto para engrossar à primeira provocação. Eu ia ser o segundo entrevistado da noite. Aimoré Moreira, na época o técnico da Seleção, o primeiro, Dener, que seria depois de mim, lutava no espelho para ajeitar a cabeleira e o colarinho. Pensei:

- Futebol, guerra, alta costura. Para lidar com assuntos assim tão variados, uma pessoa tem de ser ou muito culta ou muito inteligente. Ou então estamos fritos.

A entrevista de Aimoré chega ao fim; o auditório aplaude. De trás do cenário, Sérvulo Amaral, um dos coordenadores do programa, sussurra para dentro do palco:

- Agora, aquele cara que quase morreu no Vietnam. Ficha seis.

Ouço urna porção de palavras bonitas a meu respeito, e logo a ordem:

- Pode entrar, é você.

Sigo para o palco com a impressão de que chegou ao fim a minha dignidade humana: para divertir o auditório, vou ser transformado em alvo de espetáculo, vão usar-me como se eu fosse um macaquinho de circo. Estou desconfiado, na defensiva. Caminho de cabeça baixa e, quando, já no meio do palco, ergo o olhar, tenho um choque: está na minha frente uma figura luminosa, que irradia calor. Hebe olha-me nos olhos como se quisesse ver através deles a minha alma e toda a minha história, apanha a minha mão direita e a fica apertando, como se há muito a quisesse apertar assim. Sempre com o olhar direto e firme, me diz:

- Zé Hamilton, você não sabe a honra que eu sinto por poder apertar a sua mão. Este é um grande momento da minha vida!

Um ditado me veio à cabeça: um criminoso não consegue olhar diretamente nos olhos de ninguém. Sei que isso não tem nada a ver com o momento, mas imediatamente minhas desconfianças desaparecem. Sinto-me outra vez digno, forte e seguro. Chego a pensar:

- Aqui tem coisa: ou essa mulher é uma atriz diabólica a ponto de fingir assim tão completamente ou então, e isso é bastante improvável, ela está mesmo sendo sincera.

Três dias depois estou de novo na televisão, para outro programa. Ao atravessar um corredor, vejo Dona Hebe conversando e fico em dúvida sobre si devo cumprimentá-la ou não. Afinal, ela vê tanta gente que por certo nem se lembra mais de mim. Enquanto estou pensando, ela me vê, abre o seu sorriso de proporções industriais e vem ao meu encontro:

- Zé Hamilton, você não imagina a repercussão de sua entrevista, que coisa maravilhosa. Todas as minhas amigas estão loucas para conhecer você.

Diz outras coisas amáveis, agradeço encabulado e sigo o meu caminho, com aquele pensamento outra vez:

- Qual será o negócio dessa mulher? Será que ela está outra vez posando? A troco do que essa simpatia toda comigo?

Hoje, terça-feira, estou em sua casa. São 2 e meia da tarde, nós marcamos três encontros, em três dias diferentes, todos a essa hora, Este é o primeiro. A sala de visitas é apertada, Dona Hebe está demorando. O cachorro - um pastor alemão muito gordo chamado Tinoco de Bergerac - se aproxima e me cheira. Vem um cafezinho. Depois de quinze minutos de espera, vejo por um espelho que ela vem descende a escada. Não é mais aquela figura luminosa da televisão.

- Estou muito nervosa, Zé Hamilton. Estive a ponto de telefonar para você não vir hoje.

Tenta sorrir, mas o sorriso sai forçado. Tenta dizer alguma coisa e então não se controla mais. Começa a chorar, a princípio baixinho, mas logo soluçando, as lágrimas descendo pelo rosto liso e sem maquilagem. De tempos em tempos procura dar alguma explicação, mas parece até pior - mais ela se entrega à sua dor. O choro dura vinte minutos. Quando se domina, ela diz a razão de tanto sofrimento:

- Você viu o que o jornal disse de mim?

Eu tinha visto: era uma crítica serena, na seção de tevê, sobre o tipo de programa - com auditório - que Hebe faz, em contraposição com outro, da mesma emissora, feito no estúdio. Jamais poderia imaginar que uma crítica como aquela faria chorar uma estrela como Hebe Camargo.

Era um mistério a mais para mim.

*** A nona criança na casa de Fêgo Camargo, violinista de Cinema Politeama, em Taubaté, era para chamar-se Beatriz. Uma tia interferiu e conseguiu mudar para Hebe.

- Hebe é a deusa da eterna juventude; representa também aquela onda de calor que faz crescer as flores.

Seu Fêgo nunca foi homem de dizer não. Aceitou o Hebe e no batismo acrescentaram Maria. Com tanta criança em casa, o casal não fazia muita questão do nome. As duas primeiras filhas, cujos nomes tinham sido escolhidos com tanto carinho - Josefina e Première Rose -, morreram antes de completar dois anos. Os outros sete filhos - três meninos, quatro meninas - estavam muito bem. O ano do nascimento de Hebe - 1929 - representa um marco triste na vida do violinista: inaugura-se em Taubaté o cinema falado, e os músicos, que entretinham o público durante o filme, são dispensados. Agora com 82 anos, mas ainda lúcido, Seu Feguinho lembra:

- Naquele ano, entre São Paulo e Rio, milhares de músicos ficaram a pão e laranja.

Perdido o emprego no cinema, a família conhece dias negros. Fêgo conseguindo algum dinheiro em shows e quermesses nas cidades vizinhas. Chega o ano de 1932, com ele a Revolução Constitucionalista, e acontece uma coisa boa a Fêgo Camargo: ele é incorporado ao exército de São Paulo como soldado, para tocar baixo-tuba na banda militar.

Enquanto durou a Revolução, a família tirou seu pão do baixo-tuba. Quando terminou, a banda foi desfeita, mas o maestro convidou Fêgo a fazer parte, agora novamente como violinista de uma orquestra de quarenta figuras para a inauguração da Rádio Difusora de São Paulo. A orquestra acabou contratada pelas rádios. Fêgo nunca mais saiu de São Paulo, até aposentar-se em 1952. Ganha agora 152 cruzeiros por mês. ***

O programa da Hebe, em seu quarto ano, passa por uma crise de audiência. Há as limitações impostas pela Censura, as dificuldades da emissora após três incêndios seguidos, inclusive com a perda do auditório, a existência de entrevistas obrigatórias, certo cansaço e desencanto da equipe de produção e algumas questões internas. Mas ele foi, durante mais de três anos o mais importante da teve brasileira. O General Candal da Fonseca, quando presidente da Petrobras, tinha uma comunicação a divulgar, e escolheu o programa da Hebe.

- Eu podia requisitar uma cadeia de televisão, mas acho que aqui a mensagens é mais ouvida e fica mais simpática.

A lista de pessoas aprovadas para as entrevistas, esperando vez, tem mais de 2.200 nomes, entre eles alguns muito destacados. Umas 8 mil pessoas foram dispensadas. Muita gente - especialmente de firmas comerciais e industriais - tentou entrar através de suborno, e as propostas variaram de 500 a 10.0000 cruzeiros novos. Durante todo o tempo, um fato raro: havia fila de patrocinadores para o programa. Só os ''intervalos comerciais'', que nada têm a ver com a verba dos patrocinadores, custam perto de 30.000 cruzeiros novos.

Nestes três anos e tanto, Hebe não tirou férias, não faltou a nenhum programa (seu ou de outro, quando escalada), não impôs nenhum nome para ser entrevistado, não vetou ninguém. Nunca descansou porque, em -televisem tirar férias é um perigo - pode aparecer um substituto que agrade mais. Mas há outro motivo:

- A consciência profissional de Hebe Camargo chega a ser emocionante - diz um produtor do seu programa.

Com isso tudo - mais o seu inegável sucesso pessoal, as seiscentas cartas por mês, a necessidade de trocar o telefone de três em três meses para evitar tantos telefonemas, seu salário, um dos mais altos da televisão paulista - com isso tudo, Hebe chora e se desmorona quando sabe de alguma maledicência a seu respeito ou lê alguma critica no jornal. Em qualquer jornal.

- Como uma pessoa incapaz de falar mal de quem quer que seja, Hebe não entende por que possam falar dela, Isso é incrível, mas ela ainda não se conforma com o fato de o sucesso custar caro, principalmente para uma mulher bonita.

Isso quem diz é Blota Júnior. Para ele, Hebe é a primeira mulher com imagem nacional na televisão, conquistada no trabalho duro antes mesmo do videoteipe e da Embratel.

*** Nove anos, dia da primeira comunhão. Hebe está vestida de anjo azul, mas de tênis. O dinheiro não chegou para um sapato. A família Camargo mora num porão, na Rua São Joaquim, em São Paulo. Em casa, às vezes, para comer só há arroz, e arroz branco, sem molho e sem tomate.

Mas o violinista Fêgo Camargo é um romântico, Quando fica encarregado de acordar de manhã uma das filhas, posta-se ao lado da cama com o violino e inicia uma valso, em pianíssimo. Se a primeira não foi suficiente, ele toca uma segunda, uma terceira, até que a menina acorde, suavemente. A pobreza é grande, mas maior é a ternura. Um amigo da família conta que, nessa época, Feguinho encontrou-se com Deodato, outro amigo, de Jundiaí. Na conversa, Deodato diz que tinha prometido à filha que ela passaria férias em São Paulo, mas está em dificuldades. Seu Camargo não pensa duas vezes, traz a menina para passar as férias em sua casa, E, na hora do almoço, naquela casa de porão, o arroz branco tinha de bastar para um prato a mais. ***

Hebe me mostra a sua casa. É grande mas simples, ampliada várias vezes sem um plano diretor, com um anexo no quintal, para as dependências de empregados, e um salão para receber os amigos e para Décio Capuano (o marido) jogar pif-paf com parceiros certos. Hebe não tem paciência para jogar baralho, não fuma e, de bebida, arrisca de vez em quando a batida que seu pai prepara em ocasiões especiais. A batida de Seu Camargo é famosa; alguns de seus companheiros de orquestra, lembrando velhos tempos, nem o chamam de Feguinho falam Foguinho mesmo.

No salão está um armário com prêmios, medalhas e troféus. São tantos, que alguns tiveram de ir para a estante embaixo, uma estante quase vazia de livros, só uma enciclopédia e uma coleção encadernada. Nas paredes do salão, dependurado, quadros com distinções e menções honrosas por seu trabalho em campanhas beneficentes. Diante de um deles, ela para e brinca:

- Quem é que disse que só tenho o diploma do primário? Veja, este é um senhor diploma!

Leio: "Diploma homenagem a Hebe Camargo, pela colaboração prestada na divulgação do primeiro aniversário do Governo do Presidente Costa e Silva". Assinatura de três ministros.

Hebe é agora, novamente, aquela onda de calor. Ela passa facilmente de um estado de prostração para a euforia. Não se cansa, ri muito, lembra casos, distribui simpatia e energia para todo lado. Mas não consigo esquecer que durante vinte minutos chorou como uma criança, diante da notícia de jornal, ela chora não apenas porque é incapaz de agredir os outros. Ela chora porque é insegura, porque sente - erradamente, a meu ver - que a sua carreira não tem a sustentação cultural que deveria ter. E teme que, de um momento para outro, todos os jornais passem a dizer: Hebe só tem primário. Hebe não tem cultura, Hebe é medíocre. Hebe só faz perguntas frívolas, ela só sabe dizer "Que gracinha'' e que isso se torne uma torrente incontrolável, capaz de levá-la ao desconforto espiritual e à desmoralização artística, Sente a sua falta de escola como um ponto vulnerável e não é capaz de contrapô-lo ao talento e à inteligência intuitiva que tem de sobra.

Walter Forster é o conhecido diretor de um canal de televisão. Produziu um dos primeiros programas de entrevista de Hebe Camargo, O Mundo é das Mulheres. O programa ficou no ar seis anos, com grande êxito, e desapareceu porque, casando-se Hebe, a emissora não encontrou uma substituta à altura.

- Entre as candidatas ao posto - diz Walter - havia uma mulher muito bonita, muito conhecida e com vários diplomas universitários.

- O mistério de Hebe - opina ele - é que toda a sua simplicidade, autenticidade, espontaneidade, simpatia, vivacidade e malícia, isto é, toda a sua imensa capacidade de se comunicar envolve, como se fosse um gás, a pessoa do entrevistado e este, mesmo que seja um homem formal ou um técnico bem quadrado, contagia-se e passa também a comunicar-se, a dizer coisas que o povo gosta de ouvir e entende. Sabe o que é? É o hebismo, o hebiamo pega, contamina.

Hebe diz assim:

- Diante das pessoas, eu não me sinto como entrevistadora, eu as admiro, eu vibro com elas, eu fico gostando e digo isso diretamente, sem reservas e sem receio de parecer ridícula.

Ela é como é, nunca está representando - acrescenta Walter Forster. Um crítico de televisão do Rio sintetizou:

- Hebe: finalmente uma mulher normal em nosso aparelho de tevê.

*** Com doze anos, Hebe começa o trabalhar fora. Ganha 60 mil reis por mês. Para arrumar a cozinha de uma casa. Começa a frequentar os programas de calouros, imitando Carmem Miranda. Fora uma vez em que foi gongada, nas outras nunca pegou menos do que segundo lugar. Recebia os prêmios, em dinheiro, e levara para casa.

Do programa de calouros até o dia em que cantou já como profissional - uma música da dupla Brinquinho e Brioso - tentou vários caminhos. Primeiro formou com a irmã Stela uma dupla caipira: Rosalinda e Florisbela. ''A duplo não foi pra frente'', diz Hebe, "porque a Stela era multo sem graça e eu tinha vergonha''. Veio depois um quarteto. Ela, Stela e duas primas. Quando uma das primas casou, o conjunto virou trio. Casando outra prima, se desfez completamente. Já no tempo do trio, entretanto, Hebe começou a cantar sozinha e a se destacar. Nesse tempo, quase tudo mudou de nome. O diretor artístico de uma rádio disse-lhe que o seu era um nome em baixo, um nome ruim para ser gritado no auditório.

- E agora, com vocês, HEBE CAMARGO.

Havia na época a superstição de que um artista só fazia sucesso se o seu nome tivesse cinco sílabas. Os exemplos eram muitos: Or-lan-do Sil-va, Car-mem Mi-ran-da, Francisco Alves, Carlos Galharda, Nelson Gonçalves, Paulo Gracindo, Osvaldo Moles: Sônia Ribeiro.

O diretor sugeriu um nome de guerra para ela: Magali Porto. Além das cinco sílabas cabalísticas, era um nome no alto, muito bom para ser gritado pelos locutores. Hebe riu muito, mas preferiu continuar sendo Hebe Camargo mesmo, principalmente porque, sem nenhum extra, as cinco sílabas fatais estavam garantidas.

Do tempo da dupla caipira ficou uma história. Apesar de muito nova, Hebe era muito desenvolvida, uma morena do tipo violão, então muito valorizado. O Capitão Furtado fazia o programa onde a dupla cantava - no Arraiá da Curva Torta. Seu Camargo também trabalhava no horário com sua Bandinha do Arraiá. Uma coisa quase em família. Chega um dia e dizem a Hebe que ela vai casar com o Capitão Furtado. Seu Camargo já tinha até consentido.

- O que, papai, o senhor então concedeu a minha mão?'

- Pois é, filhinha, ele pediu com tanto jeito, que não tive meio de negar. ***

Hebe tem uma memória de político - diz Luísa, sua cabeleireira e uma de suas amigas mais íntimas - lembra-se de fatos, pessoas e situações com uma fidelidade espantosa e conhece uma barbaridade de gente.

O número de pessoas, entretanto, que participam da vida de sua casa é restrito: algumas amigas da alta sociedade, para quem telefona sempre, a cabeleireira, sua irmã e três ou quatro casais do meio artístico ou ligados a Décio.

Muito comodista, sai pouco de casa. Além dos compromissos profissionais, sai para fazer compras - gosta muito - eventualmente, para ir ao cinema, ao clube de campo no fim de semana ou a um show de boate, quando gosta do artista.

Quase não vai a teatro porque o marido não gosta, e a lugares públicos nunca vai sem ele. Onde Hebe se esparrama e se sente um peixe dentro da água é com a família Camargo. Todos os irmãos e irmãs estão casados, mas todos aceitam a sua liderança - em muitos casos precisam dela. Não há problema - seja um emprego ou o pagamento de uma taxa escolar - que não exija uma decisão da irmã caçula.

A Hebe não é irmã, ela é mãe dos irmãos - diz Seu Feguinho.

O casal de velhos - ambos com 82 anos - vive numa casinha comprada pela filha; na mesma situação estão três irmãos (nunca se falou em aluguel). Hebe preocupa-se muito com o pai. Apesar da idade, ele é ''muito levadinho'' e vira e mexe está aceitando convites para tocar violino em festas de aniversário. Quando descobre, Hebe não o deixa ir, sempre com medo de que ele tome um uísque a mais. Para melhor controle, ela vê os pais todos os dias, ou vai à casa deles, ou manda buscá-los para a sua. E fica namorando os dois velhinhos. Às vezes está conversando com eles e sai de repente para chorar no quarto. É que lhe ocorre, no meio da conversa, que eles um dia morrerão.

Quem conhece os pais de Hebe diz, que ela é uma síntese perfeita dos dois. Seu Camargo, apesar da origem humilde, mantém a postura elegante, conversa bem, não dispensa na lapela um crachá da Revolução de 1932, sorri bastante, é delicado, romântico e incapaz de dizer não. Dona Ester é um espírito irrequieto, os olhinhos, vivos percebendo e maliciando tudo. Perguntei-lhe como era sua casa; ela explicou:

- Aqui embaixo, a sala, a copa e a cozinha. Lá em cima, o banheiro e os dois quartos Num dorme o Fêgo, noutro durmo eu; agora não adianta mais dormir junto.

*** Quando era apenas cantora, Hebe tinha uma blusa de que gostava muito, um colar de argolas, como enfeite, cruzando o regaço sob o seu busto cinematográfico. Quando punha essa blusa, sabia que vinham brincadeiras. Uma delas:

- Você desmancha os noivados, mas mantém as alianças junto ao peito, hein?

Hebe só conhece o sucesso. Pouco depois de passar a cantora profissional, ganhou um apelido: "Estrelinha do Samba". Logo depois seria "Estrela de São Paulo''. Bonita, exuberante, expansiva, simpática, tornava-se logo o centro de atração onde quer que estivesse. Não havia homem que não a notasse, e daí lhe vem - segundo um velho homem de rádio e televisão de São Paulo, muito atento a essas coisas - um título que dificilmente perderá:

- Ela foi a mulher mais cortejada do ambiente artístico durante quase vinte anos.

A sua aparente disponibilidade sentimental, aliada a histórias que se inventaram, criaram para ela, durante certo tempo, a imagem da mulher fácil. Ninguém se dava conta, entretanto, de que ela sempre morou com a família e que, nos dois anos em que foi cantora de boate, trabalhando de 10 às 4 da manhã, o pai ou a mãe, todas as noites, iam com ela e ficaram até o fim, esperando o show terminar.

Teve muitos amores e só se casou com 35 anos. Foi noiva três vezes: a primeira, com dezoito anos, de um pianista - ele era ''ciumento demais''; a segunda, de um artista - esse noivado durou pouco, e foi um ''equívoco mútuo"; e, a terceira, de um homem muito rico, da família Matarazzo. Esse caso durou quase dois anos e, no rompimento, Hebe devolveu-lhe os presentes que havia ganho como namorada e noiva. Uma amiga diz hoje:

- Se ela tivesse ficado só com as joias, nunca mais precisaria trabalhar.

O caso mais longo não deu um noivado, nem poderia dar em casamento: o rapaz era separado. Tratava-se do diretor de uma estação de televisão, muitas vezes confundido - nas fofocas do ambiente - com Vítor Costa, o próprio dono da empresa Mas ela amargou também algumas desilusões.

Apaixonou-se uma vez - "perdidamente'' - por um animador de auditório. Ele também a queria, mas, muito galã, cortejava ao mesmo tempo três outras moças. Era uma disputa e Hebe se preparou para ganhá-la - como sempre. Foi então fazer temporada fora de São Paulo, tomou bastante sol, comprou um lindo vestido cor-de-rosa - era a cor de que ele gostava - e na volta, foi assistir ao seu programa. Sentou-se na primeira fila e montou a surpresa, assim que a cortina abrisse, ele a veria ali pertinho, linda, cor-de-rosa, toda amor. Quando a cortina se abriu, antes que ele a visse, Hebe viu no seu dedo a aliança de noivado.

- Não assisti mais a programa nenhum. Foi para casa, chorei a noite inteira. Chorei baixinho, porque dormia na mesma cama de uma irmã, no mesmo quarto de meus pais e não queria que eles percebessem. Decidi deixar de amá-lo. Da noite para o dia, não o armava mais, sinceramente, honestamente. Deixei de amá-lo naquela noite, por achar que ele simplesmente não merecia que eu o amasse. ***

Hebe não perdoa Jacqueline Kennedy, porque não chorou no enterro do marido.

- Perder um marido daqueles e ainda fazer pose! Afinal, homens como ele, Roosevelt e Faria Lima só aparecem de cem em cem anos.

Gosta do Presidente Costa e Silva.

- Você viu, ele chorou no dia da posse. Homem que tem capacidade de chorar é porque é bom, não tem veneno na alma, pode compreender o problema dos outros. Que pena que ele esteva doentinho.

Admira Walt Disney e, para minha surpresa, não vibra quando digo que Disney, como ela, só tinha o primário.

- É, mas ele era Walt Disney.

A sua insegurança, mais uma vez. Hebe é católica, acredita em destino e não concorda com missa de sétimo dia. Acha que essa missa é teatralização cruel de um fato que precisa ser esquecido e, pior ainda, a oportunidade que muita gente aproveita para ir observar a viúva e depois comentar que "ela estava até meio alegrinha''.

Com ótima saúde, só procurou médico, em toda a vida, quando foi a hora de controlar a gravidez.

- Olha, se meu caso fosse o normal, esse negócio de reclamar da gravidez ia acabar. Não senti absolutamente nada e só acreditei quando vi minha barriga crescendo.

No dia do nascimento de seu filho - Marcello, agora com quatro anos - Hebe trabalhou normalmente. Tinha um programa de rádio das 3 às 4; um pouco antes estourou a bolsa de água. Ela desculpou-se com os entrevistados por ter de permanecer sentada - "estou muito gripada'' - e foi até o fim. Só depois telefonou para a médica:

- O que? Vá já para a cama; estou voando para aí.

*** Hebe viveu dois momentos públicos de grande humilhação. O primeiro, num festival de música, em que o simples anúncio de seu nome foi o bastante para iniciar uma vaia monumental. Todo o teatro gritando e assobiando enquanto durou a música. Ela sabia que isso poderia acontecer e, para dar sorte, tinha levado uma imagem de Nossa Senhora, para manter na mão enquanto cantava. Quando seu número terminou, a imagem, de alumínio, estava irreconhecível, com o nervosismo, tinha-a amassado.

- A vaia foi horrível, mas o dia seguinte foi maravilhoso. Minha casa ficou repleta de flores e telegramas, e o telefone não parou de tocar. Até o General Syzeno (então comandante do II Exército) telefonou para me confortar. A outra vez foi mais dura, uma Miss Brasil, em pleno reinado, esteve no seu programa para contar os motivos de sua renúncia ao título. Como entrevistadora, Hebe fez o seu papel: perguntou. E perguntou bastante, porque, num assunto desses, ela se sente segura e se liberta das fichas que a produção lhe prepara. A rainha da beleza criticou duramente o concurso, a empresa que o promove e os contratos vinculados ao título de Miss, criou um grande caso.

O programa foi ao ar normalmente, no domingo. Na segunda-feira, todas as rádios e televisões - ligadas ao certame de Miss Brasil - leram, a intervalos regalares, um comunicado. Ele criticava a estação por ter deixado o programa ir ao ar, e depois atacava pessoalmente a entrevistadora, identificada como "aquela coroa já conhecida por suas gafes e insinuações maldosas''. No meio fazia tortuosas alusões a suas '''aventuras amorosas''. Para Hebe aquilo foi dose muito exagerada. Chorou uma semana inteira e, apesar de ver sua casa outra vez encher-se de flores, jurou nunca mais pôr o pé em dependências da organização responsável pelos ataques.

Mas, se ela sente na pele e acata na hora, chorando, a menor agressão que lhe façam, tem também uma capacidade enorme de esquecer e de buscar razões que expliquem - e perdoem - os atos dos outros. E já perdoou e esqueceu as duas humilhações.

Agora está com um dilema: a cantora Maysa, que tem programa numa das emissoras da cadeia que promove o concurso de Miss, convidou-a para uma grande entrevista lá. Ela não sabe o que fazer.

- Como é que eu posso dizer não à Maysa? ***

Após a gravação de um show de que ela e Lolita Rodrigues acabam de participar, as duas, que moram perto, voltam para casa no carro de Lolita. Hebe tem na mão uma sacola onde estão os sapatos que usou no espetáculo. Joga a sacola no banco de trás e as duas lá vão, numa daquelas conversas que não acabam mais. Em frente de casa, Hebe desce, beijinhos pra cá, beijinhos pra lá, entra e esquece a sacola. No dia seguinte, Hebe telefona, depois do almoço - só em condições especiais ela se levanta antes do meio-dia.

- Lolita, e aquele pacote com meus sapatos está no carro? Lolita confirma, está lá.

- Uma hora que você vier aqui em casa, você traz, tá bem? É que deixei dentro de um sapato aqueles meus brincos de brilhante.

Hebe não se prende a bens material. Compra muita coisa, mas é capaz de emprestar (ou dar) tudo: roupas, vestidos, sapatos, joias Principalmente às colegas. Lolita Rodrigues diz: - - É um perigo a gente dizer que gosta de alguma coisa dela. Imediatamente, ela arranja um pretexto para nos dar de presente.

Preza muito a sua imagem profissional e procura estar sempre ao lado dos colegas, seja em casos isolados, seja em problemas de classe.

*** Cinira, uma mulata de 51 anos, é a babá de Marcelo e uma das figuras indispensáveis da casa de Hebe Camargo e Décio Capuano. A outra é Lourdes, "anjo protetor" de Hebe, com ela há mais de dez anos. Cinira foi freira durante dez anos e mantém ainda o voto de castidade, muito instruída, fala italiano com os adultos quando precisam conversar alguma coisa que o menino não deve entender. Além de babá, Cinira é quituteira e responsável pelo portão: ela é quem atende e faz a triagem da multidão de pessoas que procuram diariamente a casa de Hebe; 80 por cento para pedir.

Cinira conta o que considera os seus "dias mais tenebrosos nesta casa''. No ano passado, em seu programa, Hebe entrevistou Sábado Dinodos. Por causa das coisas que disse no programa e em outros de que participou, Sábado acabou preso como integrante de um grupo terrorista. Dias após, Décio recebe um telefonema anônimo. O tipo se diz do grupo de Sábado e avisa para ele tomar cuidado: a família de Hebe Camargo torre perigo. Pode ser um trote, mas é melhor prevenir. Cinira recebe ordem de manter o portão fechado a chave, só entra gente com autorização direta de Décio ou de Hebe. Marcelo só sai de casa com os pais, dentro do carro. E mais: Cinira fica encarregada de observar todo movimento suspeito na pracinha em frente.

Nos primeiros dias, nada de anormal. No dia 7 de outubro, Cintra vê um Volks parado do outro lado da praça, com três homens dentro. Um deles toma notas numa folha de papel. Ela apanha o binóculo para observar melhor, mas não percebe o que é que o homem escreve. Parecem estudantes, discutindo uma apostila. Como o carro permanece por muito tempo, ela resolve consultar Décio e recebe a sugestão de avisar a polícia. Enquanto procura o número, disca, explica e a polícia chega. O carro já tinha ido embora.

Dia 11 de outubro, outra vez o carro lá. Uma hora, hora e meia, duas horas. Telefona para a polícia, mas quando ela chega, já o carro não está mais.

- Parece que alguém avisava.

Dia 12 de outubro, um sábado. Está no quarto, brincando com Marcello, resolve dar uma espiada na janela; outra vez o carro, o mesmo carro, no mesmo lugar. Com um pressentimento, corre ao telefone; mal começou a discar, ouve uma porção de tiros. Deixa o telefone, volta à janela e vê, em frente da casa vizinha, o corpo do capitão americano Chandler atravessado de balas.***

O cineasta Lima Barreto, criador de O Cangaceiro, foi entrevistado por ela em setembro último. Quando Hebe precisou ver as horas, ele disse:

- Aproveite e diga que seu relógio é uma gra-ci-nha!

Em dado momento, Lima Barreto foi mostrar-lhe um livro e recuou:

- Ah, é mesmo, você não sabe ler.

Depois disse alguma coisa triste e olhou no rosto de Hebe:

- Chore, agora é hora de chorar. As duas únicas coisas que você sabe fazer é rir e chorar.

A entrevista não foi para o ar. O grande cineasta brasileiro nesse dia errou as medidas de sua veia satírica e a conversa ficou meio cangaceira. Essa e mais a de uma cantora carioca, que estava em má situação emocional e não conseguiu cantar certo nem uma vez, foram as únicas entrevistas não aproveitadas. Já passaram pelo programa, até hoje, mais de 1.600 pessoas. Do Dr. Barnard aos vencedores do festival penitenciário do Presidente Frei a um grupo de hippies de São Paulo, de Gunter Sacha - o último marido de Brigitte Bardou - ao homem do periquito e um carregador de malas. Durante três anos, o programa durou de quatro a cinco horas. Hebe fala com doze a quinze personagens por noite, sem intervalos. Às vezes um entrevistado falta e, em cima da hora, é substituído por outro. No palco, Hebe recebe uns bilhete: "Ficha quatro não vale. Entra no lugar a menina que ganhou o concurso de escultura na areia".

Hebe começa a entrevista, brinca com a menina, faz com que ela conte sua história. A certa altura comenta:

- Veja, estamos aqui conversando há tanto tempo e você ainda nem disse ao auditório como é o seu nome.

A menina diz. Hebe então fica sabendo.

Há um rapaz, em São Paulo, que tem um capricho: anotar os erros que ela comete durante as entrevistas. Já a ouviu perguntar o número dos integrantes de um sexteto, a idade de um gêmeo depois de saber a do outro e prometer que ainda levaria Ibsen ao programa para falar de suas peças. O rapaz diz:

- Comecei a pesquisa de tanto ouvir falar das barbaridades dessa moça. Hoje fico pensando: que pessoa no Brasil, trabalhando nas condições em que ela trabalha e enfrentando assuntos tão variados cometeria menos erros?

Hebe é uma pessoa simples, quase simplória, sem nenhuma pose. Sente-se insegura por não ter estudado, sofre com isso e procura compensar: quando ouve uma pessoa culta falar, bebe as suas palavras sem esconder uma admiração quase infantil. Sabe até onde pode ir: transformou em piada um movimento para fazê-la candidatar-se ser vereadora e outro que lhe daria o título de cidadã paulistana. Às vezes tenta o tempo perdido: agora quer aprender inglês a jato para não precisar mais de intérpretes. Na televisão, o que ela é, é apenas isso: uma pessoa normal, com qualidades e defeitos. Uma mulher brasileira de hoje, da classe média, preocupada com as pequenas coisas de uma dona de casa comum, com as suas mesmas perplexidades e admirações. Um psiquiatra a definiu:

- Hebe é uma autêntica maravilha burguesa. O tipo da mulher que toda a família brasileira gostaria de ter como madrinha de um filho. Se está numa posição acima da que deveria estar, não é porque Hebe está errada, a televisão é que talvez esteja.

Aponta-lhe o que pode ser um caminho;

- A televisão devora seus filhos mais queridos. Hebe deveria parar por um ou dois meses, todo ano, para ver novas coisas, renovar o vocabulário, conservar certa curiosidade a respeito de sua pessoa e criar sempre a expectativa da volta.

''Para viver bem", diz. Hebe, "é preciso não ter inveja dos outros - quem tem inveja fica doente - e saber valorizar os bons momentos que a gente tem no presente, em vez de ficar minhocando dias fantásticos no futuro".

Em seu programa, ela está sempre preocupada em mostrar o lado bom das pessoas, em ajudar quem precisa, em levar ao público entretenimento, diversão, felicidade, alegria, otimismo. Agnaldo Rayol, Martinho da Vila, Zé Vasconcelos.

- E quem quiser saber de problemas e assistir a programas culturais? Muito fácil: é só ligar a televisão educativa, ela existe justamente para isso.

1969: O Fenômeno Beto Rockefeller

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 29/11/1969




A NOVELA NÃO É MAIS A MESMA
Beto Rockefeller acabou ontem, em São Paulo; chega ao fim a primeira experiência brasileira da novela-verdade. Inovou, quase revolucionou, regenerou a telenovela que a crítica não poupava desde o estrondoso sucesso (na sua área intelectual) de Direito de Nascer. Com o Beto aconteceu o fenômeno que a Sociologia chama de permissão social, ou seja: quem assistia novelas às escondidas passou a ter o direito de proclamá-lo, de discutir em publico o tema que de repente se tornou inserido no contexto e, portanto, válido. Agora, sem correr o risco de se ver epitetado de pobre de espírito e alienado todo mundo pode ver novela. Mas a televisão no Brasil é eminentemente comercial e, a partir do momento em que se começa a falar muito de boa telenovela, os empresários se entusiasmam com os números mais ou menos misteriosos do IBOPE. Aí e que está o problema - a telenovela não acaba mais; os tantos capítulos previstos são aumentados n vezes. Como diz a atriz, Marília Pêra, "ninguém consegue mais levar aquilo a sério." Nem o autor, Bráulio Pedroso, que entrou em férias e deixou a responsabilidade de muitos capítulos a um substituto; nem o diretor, Lima Duarte, idem; nem o ator principal, Luís Gustavo, idem.

No entanto, um dia tem que acabar - e, finalmente, um ano, um mês e nove dias depois de iniciada, a história do mau-caráter Beto Rockefeller chega ao fim. Apesar dos senões, considera-se que foi uma boa experiência. Tanto que, de acordo com uma pesquisa especial JB/Marplan, 27% dos cariocas estão acompanhando a novela que aqui continua até janeiro ou fevereiro.

A INVASÃO VEIO DE CUBA

Talvez o maior responsável seja Felix Caignet, que escreveu em 1946, o dramalhão mais identificado pelo brasileiro com o estilo mexicano do que com o cubano que ele é. Mas quem lançou O Direito de Nascer na televisão, em dezembro de 1964, foi Válter Clark, então na TV Rio, hoje na Globo, como diretor-geral.E ele continua fiel à linha que lançou: ''A grande propaganda desenvolvida ao redor da propalada nova linha de telenovelas não tem maior consistência (embora sem negar o valor de Bráulio Pedroso). É, no entanto, preciso deixar bem claro que há fatores indispensáveis a uma telenovela, sem os quais não se consegue de fato atingir o público. Acredito que o dramalhão, a história essencialmente marcada pelo sofrimento, pela dor humana, seja condição indispensável à estruturação de uma novela. À medida que tais ingredientes sejam negligenciados, creio que o público será afastado pelo fato mesmo".Nélson Rodrigues (que escreveu A Morta Sem Espelho, sob o pseudônimo de Verônica Blake) já dizia que "a telenovela é feita à nossa imagem e semelhança e tem que ter o nosso mau gosto; o padrão tem que ser este mesmo que os intelectuais acham hediondo".Injustiça: não são apenas os intelectuais que acham hediondo o padrão lácrimo-alienado da televisão brasileira; quase todos os atores estão procurando lugar nessa canoa batizada Beto Rockefeller e que procura novos caminhos no oceano de mediocridade, no qual quase todos mergulham quando teatro indigente os afoga em problemas financeiros. São eles que dizem:"A TV é uma engrenagem monstruosa. Assim que puder escapar de la, volto ao teatro", (Sérgio Cardoso, criador de Antônio Maria, o ator mais bem pago da televisão nacional)."Sei que a TV vive dentro de um esquema comercial. O sujeito quer vender salsichas e você trabalha num espetáculo que tem público e as pessoas são convidadas a comprar salsichas", (Cláudio Marzo, o índio Robledo de A Rainha Louca, que já fez teatro sério — Os Pequenos Burgueses — enquanto o dinheiro deu).''Não pretendo fazer carreira de ator, em caráter definitivo. Considero isso um simples episódio em minha vida", (Carlos Alberto, o Federico Aldama de Eu Compro Essa Mulher, professor formado nos Estados Unidos.)Não foi, porém, por força de qualquer posição revolucionária e de desprendimento intelectual que se resolveu lançar a experiência de Beto Rockefeller. O motivo foi absolutamente comercial (sem que se dê ao termo qualquer sentido pejorativo): a TV Tupi de São Paulo estava nos últimos lugares de audiência e precisava fazer alguma coisa para subir.O diretor-artístico Cassiano Gabus Mendes acreditou na palavra do padre Ozanã, diretor do Curso de Sociologia e Política da PUC (''Acho que programas como esses subestimam o povo; ele merece coisa muito melhor e tem capacidade para compreendê-la"), e partir para algo mais inteligente. Foi ele quem imaginou o personagem Beto Rockefeller, observando na boate de que é sócio, na Rua Augusta, o bicão, um tipo que a freqüentava assiduamente acompanhando grupos de pessoas mais ricas, embora fosse modesto comerciário.— A personalidade de Beto enquadra-se no quadro genérico de personalidade psicopática. São aquelas personalidades anormais, que sofrem e fazem sofrer a sociedade — diz o neuropsiquiatra Washington Loyello, do Serviço Nacional de Doenças Mentais.— Tais tipos são chamados desequilibrados psíquicos, caracteriopatas ou condutopatas. Beto se aproxima mais dos denominados psicopatas necessitados de estima, ou pseudólogos, aqueles que falseiam seus valores para o mundo exterior, seja por vaidade, por carência de afeto ou pela tendência a aparentar mais do que aquilo que realmente são. Sempre insatisfeitos, tentam subir demais e geralmente são desmascarados .Bráulio Pedroso, teatrólogo, ex-crítico literário, jovem, foi encarregado de desenvolver o tipo, em texto simples mas bem elaborado, que permitisse aos intérpretes a inclusão de cacos sem perda da linha original. Lima Duarte (que já dirigira O Direito de Nascer — ''só 26 capítulos; depois não agüentei mais") assumiu a direção, imprimindo à telenovela um ritmo ágil, alegre, quase de cinema, aproveitando-se das muitas cenas externas.Veio o sucesso e o estica-estica, até que os dois cansaram, inclusive por causa da censura — afinal, não se podia permitir a apresentação daquele mau exemplo para a juventude, um personagem que vivia da mentira (aí a novela passou para aquele horário após o aviso: ''Senhores pais, já passa das tantas horas, etc").Com a palavra, novamente, o Dr. Loyello:— E' na juventude que o personagem Beto tem maior repercussão. A própria condição de insegurança, de busca de auto-afirmação, e a necessidade de estima, que são características da situação juvenil, despertam admiração pelas conquistas fáceis e sucessos momentâneos obtidos por Beto. Mesmo assim, ele será sempre um marginal. Beto não é um herói tradicional, porque mais cedo ou mais tarde a sociedade o irá desmascarar e afastar (como se vê no último capitulo da novela: o bem tem que vencer o mal). Tampouco é um anti-herói na verdadeira acepção do termo, porque não nega nem é indiferente aos valores da sociedade em que vive. Pelo contrário, quer penetrar nela e sair vencedor sem modificar-lhe as estruturas.Então, qual é a vantagem de Beto Rockefeller? Meia hora depois de terminada a gravação do último capítulo, todo o elenco concluída que a realização marcou um ponto na história da televisão brasileira, porque elevou seu nível cultural.Demonstrado que um bom programa também pode fazer sucesso — os índices de audiência fornecidos pelo IBOPE estiveram sempre entre o máximo de 39%, e o mínimo de 20%, no horário nobre, considerados muito bons numa cidade em que há seis emissoras de televisão — todos estão entusiasmados com a possibilidade de continuar realizando alguma coisa de mais interessante que a mediocridade reinante. O interesse puramente comercial transbordou até os artistas, os profissionais, que não podem largar a mina da televisão mas desejam fazer alguma coisa que lhes dê realização pessoal, em nível intelectual. O autor Bráulio Pedroso analisa sua criação:— A grande vantagem de Beto Rockefeller foi ter mostrado que as verdades não são tão verdades assim. Geralmente, os meios de comunicação de massa estabelecem alguns padrões como definitivos Assim, até o surgimento do Beto ninguém poderia admitir a existência do anti-herói e os personagens não podiam ser nem bons nem maus. O que Beto Rockefeller mostrou é que o público não quer apenas a suposta verdade dos velhos esquemas .— Beto mostrava o comportamento das classes sociais com grande dose de realidade, na medida em que a maior parte de seus personagens existe, alguns mesmo com nomes iguais.E as andanças de Beto entre as classes sociais são a razão intrínseca do sucesso e da aceitação do personagem na classe média, segundo o sociólogo Carlos Alberto de Medina.— O atrativo principal é a multiplicidade de papéis sociais que o personagem é chamado a desempenhar. Isso porque a classe média é sociologicamente indefinível, não tendo uma posição social fixa. Normalmente, o indivíduo da classe média se reveste de várias formas ou desempenha vários papéis, de acordo com o ambiente em que se encontra. Existe assim uma identificação entre Beto e o telespectador da classe média.Nas novelas convencionais, ao contrário, os personagens principais são tipos sociais fixos: o galã, o galã feio, o vilão, a mulher fatal, a ingênua, etc. As camadas mais baixas, financeira e intelectualmente aceitam essa rigidez porque não expressam, como as classes média e alta, um processo de mobilidade social.''A novela — dramalhão — alienante causa impacto apenas epidérmico, as pessoas atingidas profundamente já são predispostas a isso pela própria natureza, de modo que qualquer outra coisa, por mais boba que seja, exerce nelas uma grande influência", acrescenta o já citado padre Ozanã a tese do professor Carlos Alberto de Medina. Continua o sociólogo:— Beto Rockefeller demonstra ainda que a classe alta oferece uma possibilidade de abertura ao aventureiro decidido que nela queira penetrar. Os espectadores são levados a crer que o acesso às mulheres, ao dinheiro e ao sucesso social não é assim tão difícil. Neste ponto o encontro de Beto (Luís Gustavo) com Nélson Rockefeller (o Governador de Nova Iorque, que esteve no Brasil como emissário do Presidente Richard Nixon) teve uma importância fundamental para quem acompanhava a novela. Ficou provado, por meio desse símbolo, que o acesso às mais altas esferas é possível e pode passar da ficção à realidade .(E o Departamento de Estado norte-americano, preocupado, mandou perguntar à Embaixada americana no Brasil se aquele encontro era uma gozação ou coisa parecida. Responderam que não; era só propaganda, a alma do negócio).Além dos aspectos intrínsecos, este fator á propaganda bem dirigida — justifica o sucesso de Beto Rockefeller. Através dela se conseguiu a dita permissão social para assistir à novela avançada, moderna, pra frente. ''Por si só — conclui o sociólogo Carlos Alberto de Medina — Beto Rockefeller não tinha condições de conquistar um público que não gostasse de novelas."

VERDADE E FANTASIA CUSTAM QUASE O MESMO

custo de produção de uma telenovela oscila entre NCr$ 600 mil e NCrS 800 mil; não há diferenças sensíveis entre um texto de época e um atual. A despesa maior é a do lançamento: publicidade, produção de cenários e figurinos, eventuais viagens do elenco para gravações externas.Na contabilidade, a novela de texto moderno deveria ser mais cara. Nas novelas de época, os trajes são quase todos fornecidos pelo guarda-roupa da própria televisão. O público não é exigente quanto à ambientação em uma época que não conhece; por isso, os atores passam quase toda novela variando pouquíssimo as roupas. Também o cenário é fácil: um mesmo tapete na parede, aquela janela - está criado o palácio. No texto atual, não. O público sabe o que está vendo e exige fidelidade nos cenários, muito caros quando se trata de uma casa de gente rica. Também os figurinos são mais caros, pois o ator e a atriz não podem aparecer com a mesma roupa, que todo mundo repara. A solução, que impede o encarecimento, é a permuta de publicidade, o guarda-roupa e o mobiliário são cedidos por lojas comerciais, creditando-se as ofertas nos letreiros que antecedem cada capítulo. Quanto à sonoplastia, requer-se muito mais sentimento e sensibilidade do que conhecimentos profundos de música.— O importante é saber escolher o tema que se coadune com os personagens e que se identifique com as imagens apresentadas — diz um sonoplasta da TV Globo.A música é tão importante que, às vezes, o autor se inspira no tema para criar novos quadros e até capítulos. Geralmente a trilha sonora compõe-se de um tema composto especialmente para cada novela, de músicas que sublinhem o estado dos atores em determinado momento (suspense, tensão, medo, espanto), o que às vezes é conseguido com simples acordes, sempre escolhidos pelo sonoplasta.Nos textos de época a sonoplastia é mais difícil; não se pode colocar música de guitarra num castelo do século XVII.A mecânica da telenovela baseia-se toda no trabalho de equipe. Escolhido o tema-base pela direção artística da emissora, a encomenda é feita aos escritores (entre outros, Dias Gomes, Janete Clair, Glória Magadan). Em seguida, diretor, autor, produtor, cenógrafo, figurinista e sonoplasta se reúnem para decidir os detalhes. O autor sugere muita coisa, mas a última palavra é sempre do diretor, que controla atores, figurantes, maquiladores, operadores de câmara, técnicos de vídeo-tape, eletricistas, carpinteiros, pintores .Segundo a escritora Glória Magadan ( exilada cubana que vive no Brasil há cinco anos) , esta mecânica é a mesma para qualquer tipo de novela, seja de época ou moderna.— Em estrutura não existe diferença. Volto a repetir que o processo de construir um personagem — que tenha um denominador comum com gente que existe — é o mesmo. A imperatriz foi traída pelo marido, coitada; mas qualquer mulher moderna também vai sofrer com a traição do marido. A mecânica é a mesma, sempre, com exceção de Beto Rockefeller, que não segue os caminhos tradicionais, pois fotografa a realidade tal qual é. É um desses fenômenos que marcam fortemente, mas não conseguem ser imitados. E, muito especial.Já a atriz Regina Duarte acha que Beto Rockefeller não é uma novela ''é uma crônica muito bem-feita".Talvez isso explique o sucesso da novela-verdade: não é novela, embora aparente por ser dividida em capítulos.

LUÍS GUSTAVO, O BETO

Luís Gustavo, casado, 35 anos, é o ator que criou o personagem Beto Rockefeller. Foi seu maior sucesso, mas — para ele — não seu papel mais importante.— Se me perguntam se este é o trabalho que mais me significou, digo que não. Acho que meu papel de Raskolnikoff no Crime e Castigo, de Dostoievsky, foi mais precioso, artisticamente falando. Beto me exige muito, à medida que é muito arisco, sempre por dentro, essencialmente móvel e dinâmico, traços que chegam a me cansar bastante.Beto Rockefeller já não entusiasma tanto Luís Gustavo — "não tem para mim sentido tão atual, pois comecei a gravá-la há mais de um ano; para falar a respeito preciso mesmo recorrer à memória."Luís Gustavo reconhece que desde então todo o cenário das telenovelas evoluiu, mas nem tanto quanto gostariam ele e seu grupo.— O plano original era fazer o trabalho com base apenas em exteriores, de modo a reagir violentamente contra o esquema fechado que então predominava. Todavia, o fator tempo e o alto custo decorrente fizeram com que os interiores ganhassem relevo. Não havia condições para sermos tão fiéis a nossos objetivos quanto queríamos.No entanto, ele destaca coisas importantes que ficaram da experiência com a primeira novela-verdade:— Muito importantes me parecem as tendências evidenciados pela ambientação das tomadas de cenas nos lugares da moda e pela utilização constante das músicas mais em voga no momento, o que sem dúvida muito contribui para atrair a juventude. Esse público jovem sente-se em foco e reage muito bem. As moça s deixam-se conquistar por Beto, cuja fundamental boa intenção é muito acatada; os rapazes sentem-se mais ou menos retratados, ao menos nos traços de Beto que constituem um arquétipo do jovem brasileiro dos grandes centros urbanos.Luís Gustavo, porém, não considera que este seja o único caminho para a telenovela, admitindo a permanência da linha melodramática.— Acredito que as novelas de época, ou desengajadas nos pontos-de-vista tempo e espaço, continuarão a ter sentido, ao mesmo tempo em que a linha de Beto também será cada vez mais enriquecida por iniciativas semelhantes e ainda mais pra frente. É nesse sentido que Bráulio Pedroso está preparando o Super-Plá, novela na qual represento um personagem de histórias em quadrinhos, que fica superpoderoso quando toma determinado refrigerante fabricado pela namorada (sem ciclamato).

ÚLTIMO CAPÍTULO

E aqui está o último capitulo (o .. 298°) de Beto Rockefeller, cuja gravação demorou quase oito horas.Cena 1: Beto no escritório de Otávio. O pai de Lu estende-lhe um contrato de casamento com cláusula de separação de bens Beto espanta-se; imediatamente faz das "ótimas relações" entre seus pais o assunto da conversa. Otávio corta e pergunta se Pedro, o pai de Beto, sabe escrever.— Quem, papai? Já escreveu dois livros de psicologia e muitos artigos para jornais e revistes — responde Beto com cinismo .— Eu pergunto porque vi uma carta escrita por seu pai — diz Otávio. — Émuito mal redigida, embora o conteúdo seja excelente.Beto se cala, olha para os lados, ten ta sair pela tangente: a carta é falsa. Otávio estoura:— Beto, você é um moleque, mentiroso, sem-vergonha, de quem todos já estão cansados.— Ora, Otávio, você não precisava me insultar.— Você está acima do insulto, Beto, você é o próprio insulto - reafirma Otávio com um sorriso no canto dos lábios.Beto pega o contrato de casamento, diz que vai fazer uma consulta a seu advogado, e sai.Otávio telefona a Manuela contando a novidade: Beto é mentiroso, um duro que não tem onde cair morto. Manuela ri e, pouco depois, numa cena rápida, em conversa com Otavinho, filho de Otávio e recém-chegado de uma bolsa-de-estudos nos Estados Unidos, torna-se evidente que eles são amantes. Otávio perde Beto, um grande amigo, Manuela, amante potencial, e Neide, sua ex-amante, que fica com um jornalista carioca.Uma cena na sala de visitas, entre Beto e Lu. Ela está satisfeita em encontrá-lo; ele, não muito. Lu chora quando ouve Beto confessar que não a ama e que tudo era uma farsa, mas ainda tenta prendê-lo. Não adianta; Beto se despede e sai pela varanda. Carlucho torna-se namorado oficial de Lu.Vitório e Cida, num diálogo, anunciam seu casamento. Foi ela quem entregou a Carlucho e este a Otávio, a carta de Pedro cheia de erros de português. Isso não importa para Vitório, que promete não dar muita importância às advertências que Cida he faz sobre o próprio temperamento; acha que assim mesmo serão felizes e que vale a pena tentar. Cida beija-o na boca; Vitório explode: "Gooool".Beto tem um encontro com Renata, amiga de Lu, que já sabia de tudo, antes mesmo de surgir a carta. O diálogo mostra que Renata era a grande amiga de Beto. No sofá, ele deitado, ela sentada, a mala pronta para uma viagem, os dois se despedem rapidamente.Antes, ele já havia passado pela casa dos pais, mas não conta que pretende desaparecer de São Paulo sozinho A mãe percebe que talvez não o veja mais e ten ta mais um abraso, mais um beijo.Beto sai rapidamente e nem fica sabendo que Otávio e Maitê se reconciliaram para viver felizes por muitos e muitos anos.

NOVELAS EM CARTAZ NO RIO

Novela Canal Dia Hora Antônio Maria (reapresentação) 6 segunda a sexta 11h30m Rosa Rebelde (reapresentação) 4 segunda a sábado 13h30m Algemas de Ouro 13 segunda a sexta 18h A Menina do Veleiro Azul 2 segunda a sexta 18h30m Enquanto Houver Estrelas 6 segunda a sexta 18h30m Nino, o Italianinho 6 segunda a sexta 19h Vidas em Conflito 2 segunda a sexta 19h10m A Cabana do Pai Tomás 4 segunda a sábado 19h10m Dez Vidas 2 segunda a sexta 20h Véu de Noiva 4 segunda a sábado 20h Verão Vermelho 4 segunda a sábado 21h30m Beto Rockefeller 6 segunda a sexta 22h.

1969 - Cidinha Campos Brilha

VEJA
Data de Publicação: 3/12/1969
Autor/Repórter:



CIDINHA SEM PERIGO
Cidinha vive se arriscando no seu "Dia D". Mas a liderança do programa na tabelinha do IBOPE está garantida

O homem subia e descia pela parede, montado numa lambreta. Depois convidou uma mocinha que assistia ao número de acrobacia: ''Você quer dar uma volta comigo?". A moça aceitou. Lá em cima ele avisou: ''Não respire fundo nem incline a cabeça pra frente que você cai". Esta semana, a mesma moça. Cidinha Campos apareceu no seu programa "Dia D" - levado ao ar às 8 e meia da noite de segunda-feira, pela TV Record de São Paulo - voando num planador. Mas ela também já entrevistou um domador dentro de uma jaula de leões e permitiu que um atirador derrubasse, com um tiro, um alvo colocado sobre sua cabeça. Cidinha Campos nunca fugiu dos riscos que corre em uma das melhores partes do "Dia D": ''Os perigos da Cidinha". Esse sacrifício garante, em grande parte, o sucesso da mais recente realização da Equipe A do Canal 7. O ''Dia D" - iniciado há três meses com 16% de IBOPE e ocupando um modesto décimo lugar de audiência - vem disputando há quatro semanas os dois primeiros lugares. Na semana passada estava em segundo, com 28,9% de IBOPE, e mostrava Cidinha entrevistando Pelé depois do milésimo gol - ela foi a única mulher a entrar nos vestiários.

Quem é Cidinha - Nasci num empório, em São Paulo. no dia 5 de setembro. Em casa fui a única felizarda que teve uma parteira. Minha mãe era uma portuguesa forte que não queria preocupar meu pai com os pequenos problemas de um parto; então. todos os filhos (quatro) nasceram sozinhos". Cidinha Campos parece ter enfrentado situações estranhas desde que nasceu: "Nesse dia meu pai estava trabalhando no empório; minha parteira me embrulhou numa fralda e me entregou a minha irmã mais velha - então com seis anos - para que eu fosse mostrada a ele". Começou sua "carreira artística" cantando, ainda pequena, no Clube Papai Noel, da TV Tupi. Fez secretariado e concluiu o curso de piano no Conservatório Musical de São Paulo. Hoje, pressionada pelas exigências do "Dia D", toca violão, acordeão, marimba, garrafa e serrote. Já trabalhou até em novelas, mas só começou a ficar conhecida após sair na ''Família Trapo'', do Canal 7. As pontas em ''Hebe'' e o ''Programa Cidinha Campos", só seu, a prepararam definitivamente para o "Dia D".

A volta ao estúdio - A principal característica do "Dia D'' é a ausência do auditório. Quando o auditório da Record, na Consolação, pegou fogo, a Equipe A (Antônio Augusto Amaral de Carvalho, Nilton Travesso, Manuel Carlos - marido de Cidinha -, Raul Duarte e Edmundo Margherito) notou, num retrospecto, que todos os programas obedeciam a um mesmo esquema: havia o público presente e o ângulo das câmaras não mudava. "Com o "Dia D'' promovemos a volta da TV ao estúdio". Basicamente, ele é um show jornalístico, vive mais da reportagem. Quase todas as semanas Cidinha Campos viaja. Esta semana ela irá ao Ceará, para entrevistar um menino que faz milagres. O ''Dia D'' já avança também para as reportagens internacionais. Em dezembro Cidinha estará na Inglaterra acompanhando Caetano Veloso e Gilberto Gil; em janeiro, na França e Itália, cobrirá o Festival de San Remo e o do MIDEM. Em fevereiro está programa da uma viagem aos Estados Unidos. E há dois planos mais ousados: fazer o Natal do ''Dia D'' no Vietnam e acompanhar um safári na Africa.

Imagem e movimento - Os números musicais entre as reportagens são valorizados por efeitos técnicos: fundo em movimento, cortes fazendo o artista aparecer apenas num pequeno quadrado ou círculo dentro de uma paisagem. multiplicação de imagens, etc. Os efeitos são conseguidos acionando-se os botões de um painel eletrônico. Todas as emissoras de televisão tem sua ''mesa de cortes'' ou ''sweet,' (nome dado ao painel), mas é difícil arranjar um técnico que saiba manejá-la. A da Record. capaz de produzir uns oitenta efeitos. estava encostada há três anos. As músicas são todas dubladas (isso dispensa orquestras e conjuntos) e não se constrói um único cenário.

Para a Equipe A, o sucesso do ''Dia D", que venceu facilmente em São Paulo o programa de Dercy Gonçalves, apresentado no mesmo dia e mesmo horário. prova uma coisa: O tabu de que ''só programas ruins dão IBOPE" não existe.

1969 - Cobertura da Morte de Costa e Silva

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 21/12/1969
Autor: Valério Andrade



DE OLHA NA HISTÓRIA
A cobertura do funeral do Presidente Costa e Silva representa um esforço de reportagem que merece ser registrado.

A transmissão direta foi realizada pela Globo e a Tupi. As demais estações se limitaram a registrar o fato em seus respectivos telejornais.

No conjunto da cobertura, do ponto-de-vista jornalístico, o Canal 4 ofereceu um trabalho mais amplo e completo. Foi o último a suspender as transmissões do cemitério São João Batista, enquanto, simultaneamente, a sua narrativa era valorizada pelo som direto, de boa qualidade.

O ponto mais fraco, tanto da Globo como da Tupi, está no relato verbal dos acontecimentos.

Nas transmissões diretas, não importa a televisão ou o assunto, esse tipo de falha vem-se repetindo sistematicamente; até mesmo um repórter tarimbado como Hílton Gomes, 100% integrado no mecanismo do telejornalismo, ainda incorre no velho erro: dizer (e repetir, várias vezes) o óbvio - o que a câmara está mostrando.

Até hoje, nossa televisão ainda não conseguiu livrar-se do vírus verbal, herdado do rádio, e difundido pelos locutores esportivos .

Todo mundo que lida com cinema conhece e respeita o poder da imagem. A turma da TV, entretanto, mostra-se insegura a esse respeito, preferindo apelar para o rádio, esquecendo que o seu meio de comunicação é um filhote precoce do cinema.

No caso da transmissão do funeral do Presidente, salvo as informações de praxe, e uma ou outra observação adicional, o próprio assunto pedia silêncio, suportava pausas verbais. A música, pouco usada pela 4, complementaria a imagem, criando uma atmosfera adequada, emocionalmente envolvente.

No setor do telejornal, coube ainda, ao Canal 4, em seu informativo da noite (19h40m), o mérito de ter feito a melhor cobertura sobre a morte de Costa e Silva, dedicando-o inteiramente ao assunto: em seleção criteriosa apresentou os flagrantes mais expressivos da cobertura ao vivo, suprimindo, inclusive, as partes supérfluas do relato.

Enquanto, no Canal 6, o Repórter Esso optou por outra linha. Não mudou a estrutura habitual do programa, mas, em compensação, focalizou aspectos (cenas da cidade, bancos fechados, etc.) correlacionados e decorrentes da morte do Presidente. A última notícia, porém, foi dedicada ao funeral: teve a duração de cinco minutos. E o texto, como de hábito, foi informativo, conciso, jornalístico.

Portanto, graças ao trabalho dos Canais 4 e 6, o carioca teve um painel completo sobre a morte do Presidente Costa e Silva, enquanto a televisão, mais uma vez, foi notícia ao registrar a História.

1969 - Brasil sem Copa na TV?

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 2/10/1969




BRASIL ESTÁ AMEAÇADO DE NÃO VER E OUVIR A COPA
Os brasileiros estão ameaçados de não verem a transmissão direta, pela TV, dos jogos da Copa do Mundo de 1972, e as estações comerciais de rádio talvez não o transmitam, porque não chegaram a bom termo as negociações entre as emissoras e o empresário mexicano Emílio Azcárraga.

Tudo em razão do precedente aberto pela FIFA, que, pela primeira vez na história da Copa, negociou a concessão das transmissões com uma empresa particular, a Telessistema Mexicano, de propriedade do Sr. Azcárraga, que está procurando dividir as emissoras nacionais, a fim de obter um melhor preço pelo direito de irradiação e imagem.

O PROBLEMA - Em caso de desacordo total, apenas uma rádio estatal, sem interesse comercial, poderá transmitir diretamente as partidas, segundo as normas que orientaram a FIFA, quando do contrato que fechou com o Sr. Emílio Azcárraga .

Por esse motivo é que os representantes das principais emissoras de rádio e TV do país estiveram reunidos ontem, na sede da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão E a conclusão a que chegaram foi a de que nenhuma delas aceitará exclusividade para a transmissão, que caberá a todas ou a nenhuma.

No inicio da reunião, o Sr. Almeida Castro, representante das emissoras de rádio e TV Associadas, lembrou que a falta de união, tal como é desejada pelo Sr. Azcarraga, fez com que duas estações de televisão de Lima, no Peru, se degladiassem, disputando a compra do direito da transmissão, o que levou uma das empresas a oferecer, ao Telessistema Mexicano, US$ 250 mil, enquanto a outra solicitou um prazo para saber se pode cobrir esta proposta.

Diante de fato tão expressivo, os empresários brasileiros reafirmaram a necessidade de união, sobretudo porque nenhuma emissora nacional de TV teria condições de adquirir, sozinha ou com apenas as congêneres de sua cadeia via microondas, o direito de transmitir os jogos ao vivo.

Foi também levado em conta que talvez Sr. Emílio Azcárraga peça mais que US$ 250 mil pela venda do direito da transmissão, baseado no motivo de que o brasileiro dá grande importância ao futebol. Esta manobra teria por fim fazer dobrar as empresas, responsabilidade nas impondo-lhes, mesmo unidas o com igual responsabilidade nas despesas, uma quantia astronômica.

INTERESSE NACIONAL - Daí a formação de uma comissão - composta dos Srs. Almeida Castro, dos Associados; Válter Clark, da Globo, Flávio Alcarraz Gomes, da TV Gaúcha; e Enéas Machado, representante das emissoras de rádio - que irá ao México para negociar diretamente com o Sr. Azcárraga os preços das transmissões pelo rádio e televisão. A oferta inicial dos empresários será de US$ 264 mil para o direito de transmissão pela TV e de US$ 60 mil para o direito de transmissão pelo rádio.

O total calculado para a transmissão da televisão foi baseado no preço da transmissão da Copa de 1966, em Londres (US$ 220 mil). A este se anexou US$ 44 mil equivalentes a 20 por cento que é a percentagem a mais que completaria o valor justo do direito de trazer a imagem até o Brasil, segundo os empresários. Quanto à transmissão pelo rádio, ficou resolvido que será proposto o mesmo preço pedido pela FIFA em Londres, ou seja, US$ 60 mil. Isto porque, com a transmissão ao vivo pela TV, a irradiação perde muito do seu interesse, razão pela qual faltariam patrocinadores para aceitar o conseqüente alto custo da propaganda.

A comissão terá o direito de, recusadas as suas propostas iniciais, oferecer mais. A tendência é concordar com até 50 por cento sobre o preço da Copa de Londres, com relação à TV. Pelo menos é o que ficou assentado a priori, embora esteja prevista outra reunião, esta secreta, para fixar o limite que não será ultrapassado.

PODER NAS MÃOS - Quando conseguiu a concessão para a transmissão radiofônica e pela TV dos jogos da Copa, o Sr. Emilio Azcárraga designou uma empresa de sua propriedade, a TV Latin Programs sediada no Panamá, para tratar da questão com as emissoras latino-americanas. Esta, por sua vez, designou sua representante no Brasil, a empresa de publicidades Soma, que fez a seguinte proposta aos empresários brasileiros: daria a todos o direito à transmissão, contanto que aceitassem o fato de que os anúncios, tanto para a TV, como para o rádio. fossem apenas de sua responsabilidade. Ficariam assim, as estações de rádio e televisão sem nenhum lucro, que seriam exclusivos da empresa publicitária.

1969 - Profeta Silvio Santos

Realidade
Data de Publicação: 1/9/1969
Autor/Repórter: Nemércio Nogueira



O SUPER SÍLVIO
O que está acontecendo com a televisão comercial brasileira? Talvez ele possa dizer: é um dos seus profetas e está sentado à mão direita do IBOPE (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística); é um dos favoritos do público e super-herói da tevê, feito à sue imagem e semelhança

Infelizmente, senhoras e senhores, não temos imagem para que todos possam ver o que está acontecendo aqui. Mas, pelo som (e naturalmente, através da nossa transmissão), podem fazer uma idéia do espetáculo maravilhoso a que estamos assistindo. Era o que dizia a gente da rádio, vinte anos atrás. Então veio a televisão.

Eles se passaram para a tevê com armas (inadequadas) e bagagem (insuficiente). Hoje costumam dizer que infelizmente, senhoras e senhores, não temos imagens a cores para que todos possam realmente ver o que está acontecendo aqui. Mas, pelo som (e, naturalmente, através da nossa imagem), podem fazer uma idéia do espetáculo maravilhoso a que estamos assistindo.

Do jeito que a coisa vai, a televisão a cores não demora. E a turma vai dizer que, infelizmente, senhoras e senhores, não transmitimos ainda em três dimensões - ou os cheiros, quem sabe? -, para que todos possam realmente ver e sentir o que está acontecendo.

Afinal, o que é que está acontecendo com a televisão comercial brasileira, acusada de ser um instrumento contra a cultura do povo? Talvez ele possa responder. Senhoras e senhores, é com prazer que apresentamos Sílvio Santos, o Super-Sílvio, que é um dos profetas da tevê comercial, está tranqüilamente sentado à mão direita do IBOPE, é um dos grandes favoritos do auditório e do chamado público de casa, e que (sem dúvida) foi feito e cresceu à imagem e semelhança da tevê, com todas as suas qualidades e a maior parte dos seus defeitos.

No domingo, 20 de julho, quando o homem botou pela primeira vez o pé na Lua, a televisão estava lá, transmitindo diretamente e com uma imagem perfeita, apesar dos 400 000 quilômetros de distância. O índice de audiência foi a um bom nível: 41,4% das pessoas que têm tevê estavam assistindo ao espetáculo, enquanto 20% dos aparelhos permaneciam apagados. Os técnicos em pesquisa e estatística calculam que 5,5 milhões de telespectadores brasileiros assistiram ao vivo o feito inédito, só contando o público de São Paulo, do Rio e das cidades vizinhas.

Só a chegada à lua conseguiu ter mais audiência que os programas de Sílvio Santos - Na mesma semana, sem ir à Lua, Sílvio Santos conseguiu em São Paulo uma audiência apenas 1% menor (40,4), na sexta-feira, com o programa Cidade contra Cidade. E no domingo o IBOPE marcou 35,8 para o Programa Sílvio Santos, que ficou com o segundo e o terceiro lugares entre os programas de maior audiência, perdendo apenas para a transmissão da aventura da Apollo 11.

Quem é este Sílvio Santos, muito mais popular do que o Topo Gigio (que custa milhões e marcou 33,5%). mais sensacional do que o seriado Missão Impossível (32%), com mais magnetismo do que o Chacrinha (que só atraiu 28,4%), e mais romântico do que Nino, o Italianinho (25,8%)?

- Eu? Eu sou um homem comum, que sempre se esforçou para viver sozinho. Sempre fui ultra-independente.

Sílvio nasceu no dia 12 de dezembro de 1935, na Travessa Bem-Te-Vi. É carioca da gema. Estudou na Escola Celestino da Silva, em seguida foi para a Escola Amaro Cavalcanti. Pouco depois precisava trabalhar, ganhar dinheiro, aos doze anos já era camelo nas ruas do Rio. Vendia de tudo, da caneta tão mais barata e tão melhor do que a Parker às carteiras para título de eleitor, muito mais em conta do que qualquer loja do ramo. Com um olho nos fregueses e outro no "rapa", falava, falava, falava. E vendia, sempre com um largo sorriso.

- O sorriso é a melhor arma para inspirar confiança. O homem que sorri é um homem confiante, de quem toda gente gasta.

Hoje, aos 33 anos, ele tem fama de ser o homem mais rico da televisão brasileira, sempre falando muito (seus programas duram até dez horas) e sorrindo. Ainda é um camelô - e é ele mesmo quem diz isso. Continua na defensiva, como no tempo em que os camelôs eram perseguidos, presos e levados para o Depósito de Presos da Central de Polícia.

Naquela época, Sílvio tinha um trunfo: era menor de idade, já era simpático, quando o carro da fiscalização chegava e ele não tinha tempo de correr, tentava "enrolar o rapa". Falava manso, sorrindo sempre. Se não dava resultado, jogava a clientela, o povo contra os fiscais, falando alto, dizendo que era honesto, precisava ganhar a vida, a polícia não deixava, preferia que ele fosse ladrão.. .

- Sempre fui de falar, e sempre fui louco por dinheiro.

Um dia, o chefe da repressão aos camelôs, Renato Meira Lima, viu Sílvio Santos trabalhando. Já sabia quem era o garoto que causava tanto trabalho aos seus fiscais. Deu alguns conselhos e um cartão de apresentação para Jorge de Matos, dono do Café Globo e da Rádio Guanabara. Sílvio foi inscrito em um concurso de locutores, ganhou o primeiro prêmio, foi contratado: 1200 cruzeiros (dos velhos) por mês.

- Preferi ser camelô. Eu fazia 3 000 por mês. (Cada caneta custava 20 cruzeiros velhos ao freguês, e eram pagas a 160 a dúzia, no atacado.)

Mas chegou a hora do serviço militar. Não dava para ser camelô com o cabelo cortado à escovinha. Sílvio entrou para a escola de paraquedistas e montou a "primeira emissora marítima do Brasil". Era um serviço de alto-falantes, numa das barcas de Niterói. Transmitia músicas e anúncios. Um dia, a barca foi para o estaleiro e Sílvio para São Paulo.

Montou um bar, perto da Rádio Nacional. Pouco depois era locutor de rádio, ganhando 5 000, dos velhos. Com menos de um ano de casa, porém, foi mandado embora: deu uma entrevista dizendo que os diretores não entendiam coisa alguma de rádio, só tinham audiência por sorte. Pior ainda: confessava que não saia de lá só porque queria fazer clientela para o bar (Nosso Cantinho) entre os colegas e amigos.

Desculpado, a pedido dos amigos, vendeu o bar por 240 000 cruzeiros e lançou uma revista de palavras cruzadas e charadas.

- No bar, eu não podia fazer publicidade.

E começou a melhorar de vida, sem sair da Rádio Nacional, onde até hoje tem o programa de maior audiência no Brasil (18%, enquanto o segundo colocado, uma novela, tem só 10%).

Em 1958, Sílvio tinha que fazer de tudo para sobreviver: fabricava folhinhas, aceitava qualquer ponta na televisão, trabalhou até em circo, organizou caravanas artísticas pelo interior, fez uma campanha política em troca de um jipe, foi ajudante de animador no programa Praça da Alegria, que Manoel de Nóbrega tem até hoje.

Foi Nóbrega quem chamou Sílvio Santos para trabalhar na sua firma, o Baú da Felicidade, que funcionava no porão de um prédio em reforma, sem arquivos, um caixote servindo de mesa. Sílvio trabalhou com entusiasmo. Em 1961, Nóbrega vendeu sua parte e deixou o sócio sozinho. Hoje, o Baú tem 600 mil clientes, 2 200 empregados, 25 lojas, centenas de representantes, 84 carros, precisa até dos serviços de um computador eletrônico.

Paralelamente ao crescimento do Baú, Sílvio montou uma agência de publicidade, uma construtora, uma indústria de televisores. Comprou tempo na televisão e passou a fazer os seus próprios programas.

O Baú paga tudo. E o que é o Baú?

Uma firma de crédito que vende carnês. Quem compra paga 4 cruzeiros novos por mês, durante catorze meses. E concorre (se estiver em dia) a sorteios pela Loteria Federal (a última extração de cada mês). Dando o número do seu carnê no primeiro prêmio, pode ganhar uma casa, um apartamento ou um automóvel. O segundo prêmio vale 1 milhão (dos velhos) em mercadorias. O terceiro dá direito a um refrigerador ou a uma alta-fidelidade. O quarto vale a máquina de lavar ou um televisor.

Cada cliente pode comprar quantos carnês desejar. Depois de tudo pago, mesmo sem ser sorteado, ele não perde: ganhou a economia que fez, podendo retirar o equivalente ao dinheiro empatado em qualquer loja do Baú (tudo: de sapatos e roupas a eletrodomésticos, de cama-e-mesa a copa-cozinha, mais de trezentos artigos diferentes).

Mas, em vez de comprar um carnê, o cliente pode, se preferir, abrir um crediário para comprar seja o que for, em 36 meses, recebendo também um talão numerado que concorre ao sorteio dos mesmos prêmios.

"Dizem que o que eu faço na tevê é rádio com imagens. Mas é isso mesmo que o público quer" - Dizem que o meu programa é comercial. E que eu faço na televisão rádio com imagem. É verdade. Mas é isso mesmo que o público quer E ninguém conhece o público como eu conheço. Eu pesquiso, gasto dinheiro procurando saber o que é que ele quer, o que não quer. Não sou eu quem está por fora, são os que falam sem saber.

há dezenove anos, quando a televisão brasileira nasceu, a goiabada Peixe patrocinou o programa inaugural: um musical, sem Ari Barroso, Lamartine Babo, ou Pixinguinha, sem Dorival Caymmi, sem Sílvio Caldas, sem Francisco Alves sem Elizabeth Cardoso, sem samba. Começou com a chamada atração internacional, no caso Frei José Mojica, cantando uma hora de boleros.

Ninguém estava preparado para televisão, nem ficou preocupado com a novidade. Televisão, para a gente de rádio, era uma coisa simples, rádio com imagem. E foi assim mesmo que o esquema começou a funcionar, exatamente com a gente de rádio, os mesmos programas, as mesmas atrações.

Apenas uma insignificante minoria foi estudar o assunto. A maioria tinha que trabalhar no rádio e na tevê, não sobrava tempo para mais nada. No máximo, um tempinho para ir aos Estados Unidos ter idéias, ver o que é que estavam fazendo por lá.

Mas a televisão cresceu rápido, ficou forte, ganhou muito dinheiro, e a própria estrutura comercial desviou os esforços dos que tentaram melhorar o nível cultural da tevê.

- O que a crítica não percebe - diz Sílvio - é que a televisão é um reflexo da realidade brasileira. Eu fabrico televisores e vendo, só em São Paulo, quinhentos por mês, a 30 cruzeiros novos, sem entrada, sem mais nada. Eu sei quem é que compra: o antigo público de rádio. Hoje em dia, quem não tem televisão não tem coisa alguma. O aparelho de tevê substituiu a máquina de costura como elemento indispensável em um casamento. E é para este público que devemos fazer televisão, se é que a audiência tem importância.

A conclusão só pode ser uma: num país em que a maioria dos aparelhos de tevê está nas mãos de pessoas mal informadas, a preocupação principal da tevê foi ser comercial, ganhar dinheiro, ter audiência em termos de quantidade. A tal ponto que, sem querer, o IBOPE passou a ditar as regras do jogo, um jogo de números, onde a letra não entra. Quem tem público continua; quem não está com as massas fica de fora, seja quem for. O que realmente importa não é o que se diz, como se diz, por que se diz, quando ou onde. O que importa é saber quantas pessoas estão ali para serem oferecidas ao anunciante. Se o esquema está funcionando, para que discutir com os ouvintes? Enquanto a máquina der dinheiro, está tudo bem.

A tevê é um gigante tímido, acanhado: um supercamelô que só se preocupa em vender produtos - Sílvio também é criticado (como toda a televisão comercial) por ser um improvisador.

- Sou - confessa ele. - Como todo brasileiro que se preza, eu me adapto a qualquer circunstância. Mas isso é fundamental para quem quer conseguir alguma coisa na televisão e na vida.

Na televisão contam uma anedota, que é verídica:

Jaci Campos, produtor e diretor de tevê (Câmera Um, por exemplo), chamou um amigo nos primeiros tempos da televisão para ser seu iluminador.

- Eu? Mas eu não entendo nada de televisão, nem de iluminação.

E Jaci, tranqüilo:

- Não tem importância; você tem boa vontade, é vivo, aprende rápido. Se aparecer algum problema, você improvisa.

Sílvio Santos sabe muito bem que assim tem sido na história da televisão. A frase mais comum entre os técnicos é ''ninguém nasce sabendo". E o aprendizado, ainda hoje, é a prática, o trabalho, a capacidade de improvisar" até de inventar, e o erro.

Limitada no tempo e no espaço, a televisão comercial brasileira abriu mão da sua força como canal de comunicação e hoje é um gigante tímido" acanhado" um supercamelô cujo único objetivo é vender. Com uma notável capacidade de prender, interessar, viciar e comunicar, ela prende e vicia, mas não interessa nem comunica porque a estrutura comercial só está preocupada (salvo casos isolados e raros) com o auditório e a audiência. Com o auditório que anima o animador e com a audiência que dá pontos no IBOPE.

É preciso não confundir audiência com público de casa: a audiência é importante, mas é sobretudo ao público de casa que se dirige a publicidade, gravada dois tons acima (porque, de outro modo, pode ser que ninguém dê ouvidos a ela, geralmente mal produzida). Esse público é freqüentemente desrespeitado com o atraso dos programas (sem que alguém apareça para se desculpar); é impedido de optar, porque os horários são divididos em faixas sem imaginação (a hora de novela em todos os canais, assim como hora de humor é hora de humor).

A propósito de humor, um leitor da revista Intervalo, especializada em televisão, escreveu para informar que sabe uma porção de anedotas sujas, velhas e sem graça. Perguntando: "Será que eu poderia ser aceito como produtor humorístico numa emissora de televisão?"

Até mesmo quem tem formação profissional sofre as limitações da engrenagem comercial: por que perder tempo com programas não comerciais, que não dão audiência? Então, o falecido cronista Antônio Maria chegou um dia com o texto de um programa de humor e o produtor reclamou imediatamente do autor:

- Está bom demais para o nosso público. É preciso descer o nível.

Antônio Maria refez. Novo pedido para refazer. Na terceira vez, ele jogou os originais na mesa do homem:

- Está aí; pior eu não sei fazer.

Diz Sílvio Santos que ''não é problema de pior ou melhor. É problema de atingir ou não a massa". E explica:

- No meu programa há uma parte com perguntas e respostas. Se em dez perguntas o telespectador não conseguir responder pelo menos seis, ele vira o botão, vai ver outra coisa, diz que o programa está ruim. Mas, se ele responde as dez, fica bem com a mulher, com os filhos, com ele mesmo, e fica satisfeito comigo, com o programa, dá audiência, entende?

Sílvio compreende perfeitamente que, improvisada em juiz de gosto popular, a gente da televisão não se preocupa em estudar os mecanismos de reação do público. Não vê que, nas novelas, o público foge do dia-a-dia, dos problemas existenciais, na certeza de que toda aquela desgraça terminará bem e que o bom (cada um de nós é sempre bom para si mesmo) será premiado no último capítulo - o único que realmente importa. Não vê que, além disso, o público está atraído pela ação, pelo mistério, pela matéria de interesse humano, o amor, a luta, o contraste. E que tudo isto pode ser oferecido de outra forma, sem ser preciso fazer novela ruim.

Não será evidente que o que atrai na luta-livre - que todos sabem ser uma luta arranjada - é simplesmente a possibilidade de descarregar agressividade contra o ''vilão", pela antecipada identificação do vencedor, o "mocinho"?

A absoluta falta de interesse cultural, de estudo, a submissão completa ao interesse comercial (também discutível) é que leva os improvisadores às soluções mais simples: novela, luta-livre e programas humorísticos baseados em personagens fixas e situações imutáveis na sua substância. Não percebem o perigo que representa para o público esse gênero de humor onde já se sabe, de antemão, o que vai acontecer. É bem verdade que os viciados em tevê acompanham o programa e entendem tudo, o que Lhes dá satisfação pessoal. Mas é grande risco para pequena satisfação, entender onde não há nenhum problema de entendimento.

O grande perigo da tevê comercial é criar um homem supercivilizado e subprimitivo - Marshall McLuhan - um especialista em comunicação de massa - chama a atenção para o grande mal da televisão comercial: massificar sem informar; embotar o espírito empreendedor, limitar a curiosidade e reduzir o interesse vital. Diz ele que, ao ultrapassarmos a escrita, evocamos um homem supercivilizado e subprimitivo.

Diz Sílvio Santos:

-Tentei fazer programas de nível melhor, mas não deu certo. Programas sérios, de debates, não fizeram público. A verdade é que a tevê é uma arena. O público hoje é quase exclusivamente composto pelos antigos ouvintes de rádio. Quem critica não sabe, mas para nós não há salvação. A luta pela audiência é feroz e ninguém trabalha para perder dinheiro. Se a televisão é comercial, e só, a única preocupação tem que ser mesmo ganhar dinheiro.

Isso ele faz; e bem. Este ano pagou 2,2 milhões de cruzeiros novos de imposto de renda (2,2 bilhões de cruzeiros velhos). Se, para tanto, chega a fazer concurso para escolher o nome mais feio do Brasil (Tropicão de Almeida, entre os homens, e Cólica de Jesus, entre as mulheres, numa injustiça a Magnésia Bisurada do Patrocínio), isso é apenas um detalhe. Na linha de mostrar o mais gordo, o menor, o mais bigodudo, nada escapou. Depois, trazendo do interior duas cidades de cada vez, institucionalizou o que há de mais interiorano, no mau sentido: o menino que sobe no tronco de cabeça para baixo; a filha-de-não-sei-quem que não é a mais bonita da cidade mas que é quem tem prestígio para representá-la como miss; o treinador-de-cavalos-que-diz-morre-e-o-cavalo-deita, diz olha-o-fotógrafo-e-o-cavalo-sorri; esse tipo de coisa que é assunto de sábado no Grande Ponto e constitui uma das fontes do orgulho municipal.

Também é verdade que ele dá casa, carro, refrigerador, alguns milhões em utilidades domésticas, além de vinte, trinta, até mais milhões toda semana para Santas Casas dessas cidades. Mas ele sabe que isso também é detalhe. Tanto, que prevê:

- Não acredito que esse tipo de programa vá durar muitos anos. O Brasil não pode ficar sempre assim e próprio público acaba cansando. Mas, enquanto a estrutura da televisão comercial não mudar, enquanto os índices de audiência continuarem prevalecendo, enquanto o público não exigir mais, a televisão não melhora. Porque não precisa, não quer nem pode.

No dia em que mudar, Sílvio não sabe como estará, o que vai fazer. Mas, se quiser, pode fazer boa televisão. Ele sabe como. Só não faz porque não compensa e, ao contrário, está provado que dá prejuízo.

A curto prazo, qual seria a solução?

É difícil dizer. Mas, se as emissoras fizessem frente única e estabelecessem um nível mínimo de qualidade, recusando o ruim, mesmo pago, pode ser que desse certo. O problema é que tudo no Brasil acontece devagar. Nossa televisão também vai mudar no mesmo ritmo, conforme o público for mudando, progredindo.

Nos Estados Unidos, por exemplo, as emissoras de tevê limitam-se a transmitir programas. Não produzem, não têm cast, só vendem seu tempo. Os produtores são independentes, têm os seus estúdios, seus técnicos, seu auditório, até seu público. O produtor faz o seu programa e leva à emissora, pronto, perfeito, muito bem acabado, propondo negócio: a compra de tempo para transmiti-lo (sob patrocínio que o próprio produtor trata de arranjar). A direção comercial faz o negócio, submetendo-se à apreciação do diretor artístico que pode, inclusive, vetar o negócio se não gostar do nível do programa. Então, o que acontece é que o pessoal trata de produzir o melhor possível, para comprar o melhor horário, ganhar mais dinheiro, não se arriscar ao prejuízo de ficar com um programa ruim na mão, sem ter quem transmita. E a estrutura lá também é comercial, só que a audiência é medida segundo a quantidade e a qualidade. Isto é: às vezes, importa mais a qualidade do público, a sua capacidade intelectual e de compra, do que o número. Aqui, nós ainda estamos na fase da quantidade.

Moral da história, segundo Sílvio: cada público tem a televisão que merece - Moral da história, segundo Sílvio Santos: o dia em que o nosso público for mesmo maravilhoso, a televisão também terá que ser maravilhosa.

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