Sunday, January 20, 2013

1980 - Xênia Bier e Hebe Camargo: Gata Borralheira e Cinderela

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 10/2/1980
Autor/Repórter: Alberto Beuttenmuller
XÊNIA E A VIDA DIFÍCIL QUE HEBE NÃO TEVE

São Paulo - Ex-empregada doméstica, ex-operária, ex-balconista, apresentadora do programa Xênia e Você, a discutida e discutível Xênia Bier se define como "intelectual orgânica". E explica:



- Venho das classes mais humildes - e põe humildade nisso! - e só cheguei aonde estou depois de apanhar muito da vida.

Mais rebelde do que frustrada, ela se orgulha do sucesso de seu programa de entrevistas, transmitido todas as tardes pela Bandeirantes. E, antes que seja perguntada, vai logo respondendo:

- Quer saber a diferença entre mim e Hebe Camargo? A vida foi muito mais difícil para mim do que para ela.

Xênia sabe que as comparações entre ela e Hebe são freqüentes:

- Hebe não é minha rival, pelo menos no sentido mais usual do que seja rivalidade. Se vem sendo acusada de alienação ou desconhecimento da vida, é porque as coisas sempre foram fáceis para ela. Hebe sempre foi uma mulher bem-amada. Talvez por isso eu seja mais atuante.

No estúdio da Bandeirantes, Xênia está ansiosa. Seu convidado desta tarde é nada menos do que o ex-Presidente Jânio Quadros, por cuja oportunidade de entrevistar 'diz ter esperado 20 anos.

- Certa vez, eu passava pela Avenida São João e me encontrei corri ele, na época Governador de São Paulo. Tomei um susto, pois Jânio era meu ídolo político. Hoje, finalmente, vou entrevistá-lo.

Durante a entrevista, enquanto conversa com o velho ídolo, às vezes passando-lhe pitos - "Isso é machismo", ou "O senhor fala muito em idade e velhice...", - Xênia deixa claro por que seu programa tem' tão grande audiência. Há descontração e objetividade em suas perguntas. É, como ela mesma diz, seu jeito de "colocar o dedo na ferida" .

Aos 44 anos - nasceu em São Paulo a 21 de fevereiro de 1936 - Xênia ainda é uma mulher bonita. Admite já ter despertado muitas paixões, algumas até violentas, e se diz tranqüila, hoje, por ter "o coração liberado". Há treze anos faz 'esse programa diário pela Bandeirantes, mas já tem quase 20 de profissão, tendo começado como garota-propaganda nos Canais 2 e 5 de São Paulo ("Já não se recebia salário em dia nas Associadas, naquela época"). Fala sempre com orgulho de seus êxitos profissionais, repetindo que nunca precisou de psicanalista para nada:

- Me aceito completamente. Sou livre, nunca me subjuguei a ninguém, na televisão ou fora dela.

Sua vida é um drama que não faz a menor questão de esconder: - Aos 12 anos, lavava roupa para uma família alemã. Trabalhava pesado das 7 da manhã até a hora do jantar. O sabão, devido à soda cáustica, formava sulcos em minha mão. Ainda sofro de reumatismo por causa disso. Mesmo sendo descendente de alemães, até hoje não os Suporto, so de lembrar o que padeci com aquela família. Não passava de uma escrava. Por isso posso falar de sofrimento em meus programas.

Aos 14 anos, quando era operaria de uma indústria têxtil, conheceu seu primeiro amor. O pai era alcoólatra e a mãe vivia sozinha.

- Tem idéia do que isso significava naquela época? Só faltavam me apedrejar na rua. Aos 15 anos, liderava minhas companheiras de fábrica e fui despedida por esse motivo. Empreguei-me no Laboratório Torres, seção de fechamento de ampolas. Naqueles tempos morávamos numa garagem, minha mãe e eu. Posso dizer que nasci da miséria, da fome.

Xênia conta como, com sacrifício, pagou o dentista para a mãe, comprando-lhe a dentadura que até hoje é guardada como uma espécie de símbolo.

- Aos 17 anos, meu patrão me convidou para viver com ele. Sei que muita gente torce o nariz por causa dessas coisas, mas tudo é possível quando se passa fome. A história é assim como uma My Fair Lady tropical. Acabei aprendendo tudo com meu patrão: a vida de família, o conforto, o teatro, o cinema. Até concertos freqüentava. Tudo que sei devo a ele, que me afastou definitivamente daquela vida de operária. Mas acabei trocando tudo aquilo pela liberdade.

Foi ser balconista. Aos 22 anos, casou-se de novo, com um negro. Nova separação, novo casamento, outro negro:

- Sou gamada em crioulo.

Aos 35 anos, desistiu de novas relações permanentes. Prefere a liberdade. Seu programa tenta refletir esse anseio de liberação - e nesse sentido ela procura orientar as telespectadoras. Alguns dos temas que focaliza lhe têm valido problemas com a Censura. Fala de "uma minoria frustrada, hipocritamente puritana". E reage corajosamente a ação dos censores.

- Homossexualismo, por exemplo, é tabu na televisão. E no entanto as revistas expostas nas bancas demonstram que há um homossexualismo latente em homens e mulheres. Trouxe médicos ao meu programa para discutir o problema. E a censura entrou em ação. Isso me faz lembrar que dona Judite, uma velha censora caquética que se tornou minha inimiga por que eu era jovem, Chegou a dizer que educação sexual era coisa de comunista.

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