Sunday, January 20, 2013

1994 - Tom Cavalcante em Destaque

O Globo
Data de Publicação: 2/1/1994
Autora: Lilian Arruda
HUMOR SIMPLES VENCE A SOFISTICAÇÃO
Tom Cavalcante é o melhor do ano na eleição da "Revista da Tevê".

Tom Cavalcante entrou em recesso. Até o final de janeiro, a grande revelação do humor em 93 vai curtir suas férias no Ceará, ao lado dos filhos Ivete, de 8 anos, e Ivens, de 5. Passeios a praias distantes, caminhadas à beira-mar, caranguejos fritos e ...fãs. Muitos fãs.

De sua casa até a praia mais próxima, como diz o humorista, "são 15 paradas no mundo". Com o bebum, com o lixeiro, com o limpador de carros...E da simplicidade que ele tira o humor que leva graça à "Escolinha do Professor Raimundo" e ao show "É cana e brava" - já assistido por 305 mil pessoas - que retorna em março ao Palladium, em São Paulo.

Por enquanto, nem sinal de um programa só seu na Rede Globo. O caminho ainda é de muita conversa. Mas o talento é indiscutível. Como diz o humorista João Kleber, Tom, de 31 anos, chegou para consolidar a geração dos 30 no humor brasileiro. E está agradando a diferentes correntes. "Ele é uma criança, costumo dizer que é meu filho mais velho", entrega a mulher Zélia, com quem está casado há nove anos. Seguindo as convicções religiosas do humorista, que Deus o conserve assim.

'O POVO BRASILEIRO RI DO QUE É CORRIQUEIRO'

O GLOBO - Como você está aproveitando as férias?

TOM CAVALCANTE - Na praia. Eu e Fagner vamos para as praias distantes e a gente desaba, como diz o amigo. Saio muito com as crianças também. Posso até queimar minha língua e morrer embriagado numa festa um dia. Mas não sou de badalação.

O GLOBO - E o seu programa na Globo?

TOM - Estou atento à redação. Se não estiver a contento, posso desistir na hora de pôr no ar.

O GLOBO - Como é o seu processo de trabalho?

TOM - Improviso muito. Durante oito anos fiz rádio em produção mambembe. Isto me ajudou. E ainda passei pelos palcos de bares de Fortaleza. As pessoas não estavam ali para me ver. Apresentar-se às 8h em um bar cheio de bebum te chamando de viado...foi um exercício muito bom. Como os palanques. Só queria fazer o meu show, depois comecei a captar o que era ideologia.

GLOBO - Hoje você não animaria campanhas?

TOM - Faria para os mesmos que já fiz. Tasso Jereissati, por exemplo. Tudo que foi dito, foi pregado. Não ficou só na retórica. O Ceará hoje respira.

GLOBO - Como nascem seus personagens?

TOM - Da vida. Eles são reais e eu passo a imitar. O João Canabrava é um resumo de tudo que é bebum que conheci pelo Brasil.

GLOBO - Você acha que é esse tipo de humor que sensibiliza as pessoas?

TOM - E como o jogador de futebol que joga o. feijão com arroz. Como o Romário. O humor deve ser isso, o nonsense captado de forma tranqüila e verdadeira, sem complicações. O povão brasileiro está rindo do corriqueiro. O humor mais sofisticado é para as convenções. Quando exigem um texto muito elitizado, eu estou fora. Não dá para viajar nessa.

GLOBO - Onde você pretende chegar?

TOM - O artista não pode ultrapassar seus limites. Ouço o Chico Buarque cantando "Para todos" e vejo a plenitude de uma carreira, a riqueza de um trabalho que foi semeado ao longo do tempo... Ali que eu quero chegar. Vou já comprar o CD. Você conhece a música? (Começa a cantar o refrão). Uma explosão.

GLOBO - Você está no caminho certo?

TOM - Por enquanto sou uma revelação do humor. Mas a manutenção e a consagração são caminhos longos. Estou aberto às críticas. E o segredo é conversar com as pessoas mais velhas. Com todo mundo. Falo com o lixeiro do caminhão, com o bebum na rua...Ontem passei 15 minutos conversando com os limpadores de carro. Eu sou assim. Até à praia, são 15 paradas no mundo.

O GLOBO - Como está a relação com o público no Ceará?

TOM - Existem as abordagens mais felizes na rua, mas às vezes fico assustado. As pessoas perguntam: "Mas você não batalhou para chegar aí?". Nem tanto ao céu, nem tanto ao mar...

O GLOBO - E a CPI, está otimista?

TOM - Essa CPI não vai dar em nada. Estão fazendo um show no Parlamento.

RÁPIDO, É O REI DO IMPROVISO - Seja pulando como a radical Maria Paula ou narrando um jogo como o bêbado João Canabrava, Tom Cavalcante não perde o rebolado. Humilde, agradece ao "padrinho" Chico Anysio a oportunidade de mostrar sua cara no vídeo. E não parece que seguirá os passos dos também talentosos Pedro Bismarck, o Nelson da Capitinga, e Cláudia Jimenez, a Dona Cacilda. Ambos deixaram a "Escolinha" por falta de espaço para crescer profissionalmente. Queriam algo mais do que as quatro paredes da sala de aula do professor Raimundo. Tom é paciente.

- A "Escolinha" é um trampolim de comediantes e parece que o Tom está sabendo administrar bem sua carreira. O Brasil tem cinco milhões de contadores de piadas de botequim, e ele é a personificação disso. E engraçado, competente, e veio para renovar o mercado. A novidade ele - diz Cláudio Paiva, ex-redator do "TV Pirata" e do "Programa legal".

Para Cininha de Paula, atual diretora da "Escolinha", Tom mistura três elementos importantes: a imitação, a composição do personagem e a música. Tem um vozeirão digno de um Fagner ou de uma Adriana Calcanhoto. E, como já disse Bussunda, ele consegue passar de um personagem a outro com a maior rapidez.

- Tom é versátil, improvisa muito, é tudo o que um humorista tem de ser. Não existe o humor moderno, mas o humor engraçado e o sem graça. Ele está no caminho certo. Além disso, gostamos muito dele como pessoa -afirma Eliezer Mota, o Batista, que senta ao lado de Tom na "Escolinha".

Segundo a mulher Zélia, Tom também leva seu bom humor para dentro de casa. Mas como ninguém é perfeito, há dias em que levanta com a macaca:

- Não dá para ficar bem-humorado todo dia, mas ele é muito brincalhão. Rola no chão com os filhos, cai na gargalhada... E apesar do sucesso, continua o mesmo de sempre. Anteontem fomos almoçar num barzinho só de caminhoneiros. A gente se identifica. Não adianta viver enclausurado mesmo - diz Zélia. E Tom sabe disso.

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