Wednesday, January 9, 2013

1992 - Novelas em Questão

VEJA


Data de Publicação: 11/3/1992

Autor: Antunes Filho



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TELENOVELAS EMPROBRECEM O PAÍS



Parece que não há vida inteligente na telenovela brasileira. O que se assiste todos os dias às 6, 7 ou 8 horas da noite (sem falar nas reprises vespertinas) é algo muito pior do que os mais baratos filmes "B" americanos. Os diálogos são péssimos. As atuações sofríveis. Três minutos em frente a qualquer novela são capazes de me deixar absolutamente entediado - nada pode ser mais previsível. Se eu quero ver a Floresta Amazônica e toda sua fauna e flora, para que assistir a uma telenovela com esse tema? Os velhos documentários do Jean Manzon ainda são bem melhores. Quanto às peruas perigosas, as de verdade, que freqüentam o Gallery ou o Hippopotamus, são muito mais interessantes. Agora, o pior de tudo é ver que autores e atores acreditam piamente estar fazendo algo de qualidade. "Atingimos o povo", pensam. Isso, sim, é de cortar o coração. A culpa, entretanto, não é deles.



O maior responsável por essa situação é o golpe militar de 1964 e o conseqüente AI-5. A ditadura fraturou a espinha dorsal da cultura brasileira. Não foi um simples amordaçamento através da censura. A violência foi muito maior. O Brasil vivia, até então, o esplendor do processo teatral. Com o surgimento das novelas, os maiores nomes do teatro migraram para a televisão, que servia ao regime. Poucos ficaram do lado de fora. A vinda do pós-modernismo, enfronhado na telinha, terminou de arrebentar com a estrutura dramática do país. E está sendo quase impossível recuperá-la. Se surgir um escritor com algum talento, ele não vai entregar seu texto para um diretor de teatro que pode transformar todo seu trabalho numa "parafernália" irreconhecível. Ele será seduzido peio canto de sereia das telenovelas, onde pelo menos rola mais dinheiro - e onde sua arte será empobrecida. Infelizmente, não vemos surgir sequer um bom autor desde o genial Nelson Rodrigues. Com os atores, as coisas também não foram diferentes. Assim que chegaram à televisão, enveredaram por um certo naturalismo, um coloquialismo fácil que não dá para engolir. O grande intérprete nunca é naturalista! Pode fingir ser "natural", mas naturalista, nunca. E triste ver promissores artistas se perderem num veículo desses. Uma verdadeira tragédia. E tudo pela grana. Não sou contra os benefícios que eles desfrutam. Aliás, conheço muitos que têm até mesmo apartamento em Nova York. Nada contra, repito - desde que socializassem o apartamento.



Muita gente prega que as novelas servem para democratizar a arte dramática. Pois é o contrário. Ela somente vulgariza o ato dramático. Essa história da "socialização do conhecimento" é papo furado. O que acontece é uma nivelação por baixo que obedece às leis do mercado. Quando se faz uma novela, está-se vendo o esplendor do velho e bom capitalismo selvagem. Não sou contra a diversão - mas e a educação? E possível escapar a essa ditadura do entertainment e fazer algo mais profundo. Eu próprio já fiz, nos heróicos tempos da televisão ao vivo, em que se respirava um certo "amadorismo sadio". Encenei, em programas como o TV Arte e o TV de Comédia, da Tupi, e em outros programas da TV Cultura, textos clássicos de Tennessee Williams, Pirandello, Bernard Shaw e Sartre. Levei à telinha autores brasileiros como Leilah Assunção. Jorge Andrade, Roberto Gomes, Rubem Fonseca e Lygia Fagundes Telles. Sem contar os grandes atores do teatro - a imensa maioria trabalhou sob o meu comando. Era parte de uma atitude....existencial. Mas fica apenas o exemplo, pois acho que hoje não voltaria à TV.



As emissoras só querem coisas fáceis para agradar o público. Não quero ser obrigado a colocar ponte de safena e nem ter de contornar a tirania do patrocínio. O merchandising obriga a mudar toda uma história. É claro que não se pode ser ingênuo a ponto de afirmar que "não se conversa com um diretor comercial". Cineastas como Ingmar Bergman e David Lynch com certeza sentaram para conversar com sujeitos desse tipo durante o período em que fizeram televisão. Mesmo assim, conseguiram resultados belíssimos. Por que não acontece o mesmo com a nossa telenovela?



Porque, pelo jeito, não interessa ninguém seja aos donos de redes de televisão, seja aos diretores comerciais, autores ou atores. Poucos têm a coragem de enfrentar esse esquema caça-níqueis - e esses poucos merecem ser celebrados.



Entre essas exceções se destaca-se nome de Luis Melo. Ele viverá o papel principal da minha adaptação do Macbeth de Shakespeare, Trono de Sangue, que deve estrear no Teatro Sesc Anchieta no dia 14 de maio. Luís é o melhor ator do país, em minha modesta opinião - recusou, até agora convites da Globo, da Manchete ou do SBT. Por essas e outras, pode se enxergar no espelho de manhã para fazer a barba e não sentir vergonha. Tem a consciência limpa.



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