Sunday, January 20, 2013

1986 - Morre Flávio Cavalcanti

Revista: Afinal
Data de Publicação: 3/6/1986
Autor: Dirceu Soares
DIZIA ''SOU QUADRADO''.
A morte de um homem polêmico: Flávio Cavalcanti



"Nunca fiz nada escondido: sempre declarei meus atos e minhas opiniões publicamente pela televisão ou em entrevista à imprensa.'' Talvez por isso mesmo, Flávio Cavalcanti, morto do coração na segunda-feira, 26, em São Paulo, foi o mais polêmico de todos os apresentadores de programas da televisão brasileira.

Eis algumas de suas opiniões, ao longo de sua carreira: "Sou tão quadrado, tão conservador, que continuo achando que o homem tem que cantar como homem e a mulher como mulher; que me desculpem Ney Matogrosso, Maria Bethânia ou a Simone". Sobre a censura: "A censura é indispensável e se ela decreta, por exemplo, que o Dener é prejudicial, eu me curvo, mesmo achando que ele é uma criatura maravilhosa''. Sobre política: "Sou apolítico até onde se pode ser; sei que há comunistas fabulosos e democratas pavorosos". Sobre o golpe militar de 1964: "Eu ajudei a fazer a Revolução, mas depois vi que ela tinha pifado''. Sobre os comentários de que era dedo-duro: "Nunca ninguém me fez tal acusação, nem mesmo o Antônio Maria, que sempre me criticava, nem mesmo os maiores esquerdistas; o que fiz, fiz às claras, dizendo diante das câmaras que a imprensa estava minada de comunistas. Mas nunca fui ao DOPS ou ao SNI denunciar ninguém".

QUEBRANDO DISCOS - Grande parte de suas discussões foi sobre a música popular. Nos seus primeiros programas de televisão, quebrava no palco os discos que achava ruins. Quebrava e pisava em cima. Crítico musical antes mesmo de se tornar apresentador de TV (trabalhou no jornal A Manhã e na Rádio Mayrink Veiga, do Rio de Janeiro), fazia severas restrições a Ary Barroso: "Ele nunca foi um bom letrista; imaginem alguém escrever coqueiro que dá coco! Será que coqueiro dá banana, abacaxi?" Justificando seu mau humor com certos compositores, argumentava: "Eu nunca encontrei nada de ruim em Chico Buarque, Dolores Duran ou Noel Rosa". Ele se orgulhava de ter lançado, em seus programas, os cantores Simonal, Taiguara, Emílio Santiago e Alcione. Foi também grande amigo e incentivador da cantora e compositora Dolores Duran. E, vez ou outra, era letrista. Um de seus sambas-canções fez sucesso - Manias - e tornou-se um dos clássicos da MPB,

Filho de um professor de medicina da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, o menino Flávio, no entanto, não queria nada mais com os estudos. Foi expulso de várias escolas, até que o pai resolveu interná-lo em um colégio de padres do Verbo Divino. Os padres, então, tentaram tratá-lo de modo diferente; ao invés de repreensões, deram-lhe um apito e a tarefa de convocar os 600 colegas nas horas das refeições. Flávio sentia-se uma autoridade.

Em seus programas de televisão costumava manter um ar professoral, permanecendo de pé atrás de uma tribuna. Entre gestos nervosos de retirar e recolocar seus óculos, costumava fazer discursos dramáticos. Uma das idéias que defendia: a criação de colônias penais na Amazônia. E argumentava: "Esses assassinos e ladrões têm é que trabalhar, ao invés de ficar tomando banho de sol o dia inteiro. Eles seriam pagos pelo trabalho, mas o dinheiro não seria entregue a eles e sim às famílias de suas vítimas".

SENSACIONALISMO - Flávio entrou para a televisão em 1953, substituindo o colunista social Jacinto de Thormes em um programa de entrevistas, na antiga TV Tupi do Rio. Posteriormente passou a ter o seu próprio programa, que ao longo dos anos teve os títulos de Noite de Gala, A Grande Chance, Um Instante Maestro, Boa Noite Brasil e, finalmente, Programa Flávio Cavalcanti. Foi ele o primeiro animador a criar um corpo de jurados em um programa de televisão. Mudou de emissoras, passando da Tupi para a Bandeirantes e o SBT, sempre com brigas e estardalhaços amplamente divulgados pelos jornais. Para animar seus programas, usava com freqüência o jornalismo sensacionalista. Por causa disso, em 1973, durante o governo Medici, a censura o suspendeu da televisão durante 60 dias. Na época, Flávio apresentava uma curandeira chamada Mãe Cecília, fazendo desfilar um enorme grupo de pessoas que se diziam curadas por ela. Houve também a gravação de um depoimento de um suicida, que teria sido feita pouco antes de ele morrer; dias depois, descobriu-se que tudo aquilo era falso. Mas a gota d'água, para os censores, foi uma reportagem de um caboclo que, impotente, arranjou um vizinho para manter relações sexuais com sua mulher.

Na quinta-feira, 22, Flávio Cavalcanti sentiu-se mal durante a apresentação de seu programa nos estúdios da SBT, emissora de Sílvio Santos, na Vila Guilherme, em São Paulo. Pouco depois foi internado no Hospital Unicor com problemas de coronária. Uma parada cardíaca matou-o quatro dias depois. Foi sepultado em Petrópolis, onde residia, deixando sua mulher, Belinha, e três filhos, Júnior, Fernanda e Márcia.





No comments:

Post a Comment

Followers