Tuesday, January 29, 2013

1984 - O Bem Amado Sai do Ar

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 9/11/1984
Autora: Míriam Lage
ESTES PERSONAGENS ESTÃO MORRENDO
Vai ao ar hoje, pela última vez, o seriado mais politizado da TV brasileira. Apesar dos protestos de intelectuais e artistas



Com um defunto fresquinho nos braços, o prefeito Odorico Paraguaçu chega "aos finalmentes". Vai ao ar, hoje à noite, o último capítulo de O Bem Amado, colocando um ponto final no seriado de maior sucesso já exibido pela televisão brasileira. Sucupira será sepultada viva, enterrando personagens que conquistaram um batalhão de fãs. Tão ardorosos que, ano passado, quando a TV Globo ameaçou aposentá-los, fizeram abaixo-assinados para que continuassem na ativa. Entre eles o poeta Carlos Drummond de Andrade, Ziraldo e Mário Lago, intelectuais dispostos a manter na televisão o que consideravam a verdadeira dramaturgia brasileira.

Esse ano as coisas correram mal para Odorico. A TV Globo resolveu cancelar suas aventuras e não houve apelo que a fizesse voltar atrás. Pelo menos até agora. Jorge Amado telegrafou, Miro Teixeira e José Colagrossi idem e, em Macaé, corre um abaixo-assinado pedindo vida longa aos habitantes de Sucupira. Em vão. E Chegamos Aos Finalmentes é o último episódio da série, batizado, inicialmente, de O Presunto Malufante. Título meio incômodo para a emissora que pediu a Dias Gomes, autor do seriado, algo menos óbvio.

Uma dissimulação dispensável. Afinal, no capítulo de hoje, Sucupira é inundada de presentes. As irmãs Cajazeiras ganham três máquinas de costura, Zeca Diabo um cavalo árabe, Dirceu Borboleta uma gorda soma de dinheiro, Conchita e Bebel são surpreendidas com um colar de pérolas e um Mercedes. Para Odorico, o sonho de cinco anos de prefeito se materializa num defunto, só seu. Desta vez, o cemitério será inaugurado. Mas de onde vêm tantos mimos? De um candidato à Presidência da República, interessado em aumentar sua fatura de votos.

O capítulo andou empacando dentro da TV Globo. A certa altura as gravações foram interrompidas porque, dizia-se, não haveria espaço para sua apresentação este ano. Mas Odorico acabou conseguindo uma vaga na programação, pelo menos para encenar seu! grand finale. Retira-se de cena porque estaria saindo caro à emissora, cada episódio consumiria Cr$ 300 milhões.

Se a decisão foi tomada em cima de números, por que a TV Globo comprou os direitos autorais de Dias Gomes? Há pouco mais de um mês o negócio foi fechado pelo período de um ano. Dias Gomes foi convidado, pela emissora, para voltar às novelas. Não quis, preferindo dirigir um grupo de criação que se dedicará a revitalizar o gênero. Com isso, ficou sem tempo para escrever O Bem Amado e cedeu os direitos à TV Globo, que começou a formar um grupo para redigir os textos do seriado. Foram convidados Ziraldo, Luis Fernando Veríssimo, Joaquim Cruz e Carlos Eduardo Novaes. Três semanas atrás o projeto foi cancelado.

- Estou triste, gostaria que O Bem Amado continuasse no ar - diz Dias Gomes. E completa: "É toda uma família que está enlutada". Como o fim de O Bem Amado já foi decretado outras vezes, Dias Gomes, por via das dúvidas, poupou Odorico da morte. Na novela, exibida em 1973, Zeca Diabo matou o prefeito e, para iniciar o seriado, Dias Gomes foi obrigado a artimanhas para tirá-lo do cemitério. "Deu muito trabalho, tive que imaginar uma síncope, Odorico batendo no caixão. Dessa vez a história fica em aberto".

O Bem Amado nasceu em 1961, numa versão teatral, mas Dias Gomes não gostou do texto final e engavetou-o até 1963. A revista Cláudia pediu uma peça inédita para publicar no número de Natal e acabou saindo com o título O Bem Amado e os Mistérios do Bem e da Morte. Os direitos foram vendidos para cinema, um filme que ficou no papel. Em 1968 a peça foi reescrita e chegou ao palco no Teatro de Amadores de Pernambuco. Só em 1970 teve sua primeira montagem profissional, no Rio, com Procópio Ferreira encarnando o principal personagem. Não chegou .a ser sucesso, estourando apenas em 1973, adaptada para a televisão. Repercutiu tão bem que a Globo pediu a Dias Gomes para espichar a história. "Mas achei que era uma exploração do sucesso. Em 1979 começaram os seriados e, no ano seguinte, transformei o texto. Foi um novo sucesso", conta o autor.

Em cinco anos, O Bem Amado atravessou o período de censura com muito sofrimento. Os capítulos eram podados sem piedade. Apenas um, no entanto, não foi ao ar. Fazia parte de uma trilogia satirizando a campanha eleitoral de 1982. "Brizola e Sandra Cavalcanti vestiram as carapuças e pediram ao tribunal para interditá-lo", lembra Dias Gomes. O episódio faz parte do livro Sucupira Vai Às Urnas. O autor reuniu em dois livros os capítulos de que mais gosta: Sucupira, Ame-a ou Deixe-a e Odorico na Cabeça.

O seriado manteve, durante toda a sua vida, um tom de sátira viva em cima dos principais acontecimentos nacionais, da política à arte. Mas foi sempre a política seu tempero mais forte. Odorico personificava a origem do político brasileiro, o coronel prepotente e corrupto do interior. Dias Gomes brincou com tudo, até mesmo com a censura que lhe riscava os textos originais. E fez incursões pela política externa, criando um memorável capítulo sobre a guerra das Malvinas, em sua versão A Guerra das Malvadas. Odorico e as fiéis irmãs Cajazeiras invadiam uma ilha nas costas de Sucupira e saiam escorraçados, espantados por uma matilha de vira-latas.

É provável que esse tom político do seriado tenha desanimado a TV Globo a mantê-lo no ar. Parece que o raciocínio da direção é que O Bem Amado perderia sua força com a entrada de Tancredo Neves no Palácio do Planalto. Não teria a mesma graça fazer sátira em torno da conciliação. Se o presidente fosse Maluf, certamente Odorico passaria por dias difíceis. O mais prudente, no caso, é deixar Sucupira na prateleira.

1 comment:

  1. Falam da censura no período militar, mas o interessante é que o único episódio censurado do bem-amado foi censurado por iniciativa de um oposicionista ao regime (Leonel Brizola).

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