Sunday, January 20, 2013

1980 - Martha Suplicy Censurada

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 25/5/1980
Autor: Paulo Maia
A VOLTA DA CENSURA E A IDA DE PIPOCA
O repórter policial Afanásio Jazadji e a sexóloga Martha Suplicy saíram do ar antes de TV Mulher completar seu primeiro mês. Segundo garante o diretor do programa, Nilton Travesso, é a primeira interferência séria da censura na nova programação matinal da Rede Globo de Televisão.

Sexologia não é assunto novo nos meios de comunicação de massa de São Paulo. Outra sexóloga, Maria Helena Matarazzo, tem um programa, sucesso absoluto, na Rádio Globo paulista dando conselhos sobre a vida sexual dos casais e consultas a pessoas que gostariam de saber como fazer para melhorar seu desempenho sexual. O programa existe há dois anos e já faz parte do cotidiano da cidade, de tal forma que foi criado um atendimento por telefone, também com sucesso. A forma informal com que Martha Suplicy tratava do assunto na televisão impediu, contudo, que ela continuasse no ar.

Apesar do nome pouco comum, Afanásio Jazadji é um repórter policial conceituado nos meios jornalísticos de São Paulo. Setorista de jornais e emissoras de rádio, na Delegacia de Policia do Grande São Paulo DEGRAN, sua atuação sempre foi marcada pela independência. Convidado a fazer parte da equipe de TV Mulher, desde o primeiro programa seu objetivo era tentar instruir as donas-de-casa a adotarem normas elementares de segurança, para evitar o acesso de ladrões e marginais a suas casas.

Afanásio saiu do ar porque, segundo garante Nilton Travesso, a censura chegou à conclusão de que, em vez de orientar às donas de casa, na verdade ele estava dando dicas aos próprios marginais para a criação de novos métodos de trabalho. Na interpretação da censura, quando o repórter mostrava no vídeo uma caixa de fundo falso, usada por pseudo-vendedor na captura de objetos em residências e lojas, estava, na verdade, disseminando essa prática. Da mesma forma que, quando alertava para o uso de revólveres e punhais envoltos em buquês de flores, entregues a domicílio ou vendidos em cruzamentos de muito tráfego, estava usando um veículo poderoso de comunicação para ensinar mais um truque aos marginais.

O programa de Martha Suplicy, Comportamento Sexual, foi considerado muito pesado para o horário. Na verdade, o que a sexóloga fazia era expor detalhada, mas didaticamente o que é sexo. O objetivo do trabalho de Afanásio Jazadji também parecia ser meramente didático, conforme comprovam as 38 cartas que recebeu de telespectadores agradecendo por terem aprendido coisas aparentemente simples como os detalhes da fisionomia de um assaltante, que deve ser bem gravados para a confecção de um retrato falado.

Mas não era bem assim, segundo a ótica dos conceitos ou preconceitos dos censores.

No comments:

Post a Comment

Followers