Wednesday, January 9, 2013

1980 - Estreia o Canal Livre

Jornal do Brasil


Data de Publicação: 17/8/1980

Autora: Mara Cabellero


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CANAL LIVRE COMEÇA COM MURILO MACEDO NA BERLINDA



Hoje, às 10h da noite, uma nova atração vai ao ar pela TV Bandeirantes. Canal Livre, um programa simples, jornalístico abordando um tema em profundidade, com clima emocional, é a definição de seu diretor-geral, Fernando Barbosa Lima, que tem o seu currículo a direção do programa Abertura, até poucos meses no ar pela TV Tupi e que polemizou principalmente no seu período inicial. Canal Livre, garante Fernando Barbosa Lima, não tem nada a ver com o Abertura: sua hora de duração será toda voltada para uma única entrevista.



O convidado de hoje é o Ministro do Trabalho Murilo Macedo. Na pauta para os outros programas estão Leonel Brizola e Delfim Neto, mas o diretor-geral de Canal Livre observa que não é um programa eminentemente político, mas jornalístico. Também na lista de futuros convidados, diz ele, está o nome de UI Soares.



Haverá duas presenças fixas no programa. Uma é Roberto D'Avila, que fazia entrevistas internacionais para o Abertura e que estava sediado em Paris. D'Avila será uma espécie de "passador de bola", como diz Barbosa Lima, Roberto D'Ávila e os quatro jornalistas convidados, que mudam a cada domingo. Os nomes de hoje são Sebastião Néry, Tarcísio Holanda, Flávio Tavares e Tarso de Castro.



Sargentelli é outro que participará de todos os programas. Sempre em off, fará algumas perguntas previamente selecionadas por Fernando Barbosa Lima, que ficará na sala de cortes. Sempre que sentir que as perguntas estão-se repetindo ou um assunto estiver prolongando-se por demais, Barbosa Lima dará sinal para Sargentelli fazer uma das perguntas a fim de que o programa não se torne monótono. Conforme o ritmo, Sargentelli servirá para "acelerar ou desacelerar":



- O programa deve ser tenso, ter um clima emocional. Quando o homem foi à lua pela primeira vez, a audiência foi de 97%. Quando foi à lua pela segunda vez, a audiência foi de 14%. Não havia mais emoção.



Também participarão do programa 10 convidados especiais, uma espécie de platéia. também com direito a fazer perguntas. Neste domingo estarão, entre outros. uma dona-de-casa - "Afinal ela também é afetada pelo problema salarial" - um estudante, um líder sindical:



- Não será um Lula, mas um líder sindical neutro. Se fosse o Lula, terminaria discutindo com o Ministro Murilo Macedo e aí acabaria o programa.



Fernando Barbosa Lima afirma que terá liberdade de abordar qualquer problema, estando apenas vinculado a Paulo Mansur, diretor do jornalismo da Bandeirantes e supervisor geral do programa com quem Barbosa Lima discutirá as idéias principais.



Canal Livre terá um custo mensal de pouco mais de Cr$ 300 mil, verba destinada ao pagamento de -Barbosa Lima, Roberto D'Avila e Sargentelli, que não têm contrato de exclusividade com a casa. Também os quatro jornalistas convidados semanalmente receberão o cachê de Cr$ 5 mil cada um.



Quanto ao número de pontos que o programa poderá alcançar no IBOPE, Fernando Barbosa Lima não está muito preocupado, pois o horário já impõe uma certa limitação, atingindo principalmente as classes A e B:



- O Brasil ficou 15 anos sem liberdade de imprensa e devemos acostumar as elites com essa liberdade: empresários, jornalistas, militares, estudantes, universitários principalmente, serão a grande audiência do programa. É um público altamente interessado nos problemas mais sérios do país. O operário precisa acordar às quatro da manhã, não vai assisti-lo.



Fernando Barbosa Lima acredita que o jornalismo é o grande caminho da televisão brasileira:



- Continuar com novelas? Comprar mais filmes? Fazer musicais? São cinco ou seis que fazem sucesso e depois acabam se repetindo. O grande sentido de tevê é discutir idéias e não fazer alguém comprar este ou aquele sabonete.



Fernando Barbosa Lima diz não se preocupar com os pontos do IBOPE porque sabe que muito do público é cativo, permanecendo num mesmo canal. Depois de um programa de grande audiência como o Fantástico, na TV Globo, a tendência é continuar lá mesmo, quer os programas a seguir sejam concertos ou filmes. Na TV Educativa o programa do horário é uma mesa-redonda sobre futebol e na TV Sílvio Santos entra, pouco depois das 10h, O Homem do Sapato Branco:



- E o público que assiste a esse programa realmente não é o nosso. A verdade é que na nossa televisão John Wayne morto ganha muito mais do que qualquer jornalista.



O diretor de Canal Livre faz questão de salientar a diferença em relação ao Abertura, que, para ele, acabou e começou no momento certo:



- Na fase inicial da anistia era necessário mostrar ser possível avançar mais em televisão, discutir determinados assuntos que não eram abordados há 15 anos. Cumpriu o seu papel. Abertura era uma revista, enquanto Canal Livre é um programa que quer discutir um assunto apenas, com mais profundidade.



Fernando Barbosa Lima nega que o Abertura tenha acabado por problemas de censura:



- Cada um inventa uma coisa. Mas acabou pelo que aconteceu com a Tupi. Hoje todo mundo já sabe o que. Abertura era uma produção sofisticada, mobilizando muita gente, 40 pessoas por programa, mais as externas. O custo era de aproximadamente Cr$ 500 mil mensais.



O papel do programa Abertura - diz Fernando - foi o de abrir caminho. E se muitos seguiram sua linha, ele não se considera um plágio, mas sadio, pois foi um estilo que se impôs. Quanto a ser formalmente um programa parado ou não, Fernando Barbosa Lima lembra que era feito com apenas uma câmara:



Na realidade, era um programa mais pobre do que parado, mas era em cima de pessoas inteligentes. E o inteligente não precisa viver fazendo teste de Cooper. Prefiro ouvir uma grande personalidade sentada numa cadeira. Fusão e efeito de imagem é uma brincadeira. A televisão deve ser mais direta, sem truques. O brasileiro passou 15 anos sem ouvir idéias na televisão, só comerciais charmosos, sofisticados. Para mim, quanto mais a tevê se aproxima da entrevista, mais se faz televisão, que é um processo de transmissão e não de brincadeira. Mas não faço críticas, acho que aqui no Brasil se faz uma boa televisão.



Aos 45 anos e com 23 de televisão, Fernando Barbosa Lima já fez o Jornal de Vanguarda, "que acabou com o AI-5 e passou por vários canais". Antes, no período de Juscelino, fez o programa Grande Júri Popular:



Quando Kennedy invadiu a Baía dos Porcos, fizemos um debate para ver se estava certo ou errado. O poeta Augusto Frederico Schmidt ficou na defesa e Luís Carlos Prestes no ataque, o povo julgando.



Daria para se fazer um programa desses hoje?



Não. O processo de abertura tem de ser consciente. Acredito que o país procure realmente uma democracia ou eu não faria este programa Canal Livre. Mas não é a hora de tumultuar, e sim de ajudar. Dentro de algum tempo poderemos ter algo parecido. A televisão está abrindo.



Se Canal Livre terá a mesma importância do Abertura, em termos de ir um pouco mais longe na televisão e se será tão polêmico, Barbosa Lima acha difícil dizer, "pois em televisão tudo é imprevisível":



A gente sempre sonha. Se deixar de sonhar, não se faz mais nada.



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