Sunday, January 20, 2013

1980 - Apedrejando o TV Mulher

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 13/4/1980
Autora: Maria Helena Dutra
INFORMAÇÃO É SEMPRE PROBLEMA
Para quem? Os primeiros programas da TV Mulher, de nove ao meio dia na Rede Globo, mostram o padrão de sempre, a produção cuidada, fluência entre seus múltiplos quadros e direção eficiente e profissional de Nilton Travesso. Todo um esforço dirigido, de acordo com os anúncios e entrevistas dos seus produtores, a mulher da classe média baixa porque os integrantes da Alta estão, neste horário, dormindo, trabalhando fora do lar ou levando e apanhando filhos em colégios, cursos, natação e tudo mais que a turma desta classe inventa para tirar a paz das crianças. Então seria urna apresentação diária planejada para concorrer e tirar público dos dominantes programas radiofônicos tipo Haroldo de Andrade e Cidinha Campos no Rio, e shows da manhã de São Paulo já que a TV Mulher é transmitida apenas para estes dois Estados. E para as suas habitantes mais tipicamente domésticas e caseiras.




Mesmo assim, complicou. É que toda a linguagem e a informação do programa é visivelmente sofisticada para este tipo de público. Os ensinamentos estéticos, jurídicos, educacionais e editoriais são finíssimos mas, me parece, muito pouco práticos. Fala-se de inflação sem dizer o que é isto e de cuidados extremamente caros para qualquer beleza. O apogeu desta linha é Panela no Fogo que trata de culinária.

Na estréia a imagem de belíssima frigideira e uma voz em off que dizia: Encha-a completamente com manteiga. Estão brincando. O pratinho tinha ainda molho de poisson, sem tradução, lagosta e uvas, daquelas bem pequenas, de casca cortada uma a uma. Delírio. Em outra edição, um cuscus paulista cujos ingredientes devem estar custando muito.

Será que é outro programa apenas para sonhar? A exceção ao onirismo vigente é Clodovil que se dirige mesmo às mulheres que não podem ser freguesas de seu atelier e revela também ser o único a ter senso de humor no programa inteiro. Abaixo da média, três registros: a péssima forma como entrevistadora da boa apresentadora Maria Gabriela; a educadora Fanny Abramovich que se balança tanto que chega a enjoar o fraco estomago matinal da espectadora, com seus "né" depois de cada três palavras e o final mentiroso mostrando mulheres gerindo toda a parte operacional de urna televisão ao mesmo tempo que os créditos, fixados em cima desta imagem, mostram a verdade. Apenas, entre 47 nomes da parte técnica, nove são femininos. Para elogio maior, a inclusão de cena da novela Pé de Vento, da Bandeirantes, entre os destaques diários da TV. Para piche total, reprisar também nesta produção uma novela. Será que não tem outras armas?

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