Sunday, January 13, 2013

1976 - Barbara Walters: Primeira Mulher-Âncora nos EUA

Jornal do Brasil


Data de Publicação: 24/10/1976

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''ANCHORMEN'', A ESCOLA EM QUE WALTERS NUNCA ENTROU



Os estilos sofrem variações, mas ligeiras: quase que por definição, o anchorman da TV americana é mais do que o simples locutor do telejornal. São "verdadeiros serviços públicos", como disse um crítico. O que eles são, mesmo, é: senhores grisalhos, oriundos da imprensa de jornal, feios, bem informados e garantias de audiência para a TV em 42 milhões de residências norte-americanas na hora do jantar. São a base de um ritual que não muda há 30 anos. Suas imagens dão à TV a aparência de ser séria e verdadeira, no início da noite. Para eles, com a notícia não se brinca. Bem diferentes de Barbara Walters, que será a primeira apresentadora feminina de um telejornal em horário nobre nas redes de TV americanas. Ela estará co-apresentando o ABC News, com Harry Reasoner, que parece não estar gostando da sua nova companheira, com quem aparecerá, pela primeira vez, nesta semana. Walters fez sua carreira no programa matinal Today, na NBC, onde fazia entrevistas importantes, mas, ao mesmo tempo, se dedicava a pautas consideradas leves, voltadas ao público feminino. Walter será a mais bem paga apresentadora de telejornais, com 1 milhão de dólares por mês. Mas um motivo de controvérsia, considerando-se o peso pesado dos outros âncora de telejornal americanos.



WALTER CRONKITE (CBS)



Uma pesquisa de opinião entre os norte-americanos, há alguns anos, indicou que a pessoa em quem mais confiavam no país era Walter Cronkite, apresentador do telejornal da cadeia CBS. Com 59 anos de idade e quase 40 de experiência no jornalismo (foi correspondente de guerra da UPI), Cronkite tem hoje o noticiário de maior audiência da TV americana.



Um rosto sóbrio e envelhecido: voz pausada e às vezes rouca, devido a um problema de laringe, Cronkite jamais ganharia um concurso de locução e muito menos um de fotogenia. É um defensor rígido do telejornalismo voltado para a informação e não hesita em criticar as emissoras preocupadas com "o lado cosmético do telejornal" - muito filme, gráficos em excesso, ação, repórteres jovens e bonitos, mas indiferentes à informação prestada ao telespectador.



Cronkite não é apenas um apresentador de notícias. Ele ajuda a editar o telejornal redige parte das notícias. Nas apresentações ao vivo (convenções nacionais dos partidos, festividades do Bicentenário, assassinatos de lideres nacionais, viagem à Lua), Cronkite cumpre a função que os americanos sonham num anchorman. Sentado no estúdio, com monitores ao lado, ele coordena o trabalho dos repórteres através do país, trazendo-os ao ar nos momentos certos, inserindo perguntas ao vivo nas apresentações, esclarecendo o telespectador sobre os pontos obscuros.



No primeiro debate de Ford e Carter deste ano, quando uma falha técnica criou um silêncio embaraçante na transmissão, Cronkite entrou no ar de improviso e, de memória, sem ler anotações, fez um resumo dos principais pontos discutidos até aquele momento, ao mesmo tempo em que orientava seus repórteres, no ar, para verificarem o que tinha ocorrido. De cada entrevista, recheada de retórica eleitoral a favor de um dos candidatos, Cronkite filtrava o essencial, identificando as ligações partidárias dos vários entrevistados.



Paul Klein, ex-pesquisador de audiência da CBS, acha que os telespectadores admiram em Cronkite sua linguagem racional, que serve como refúgio de sanidade, diante das notícias freqüentemente assustadoras no vídeo.



A única vez em que Cronkite deixou trair um emocionalismo na cobertura foi durante a primeira viagem do homem à Lua. Ao subir o foguete de Cabo Kennedy, o jornalista se permitiu desabafar, com entusiasmo: "Go, baby, go!" Fora disso, ele insiste em apresentar, sem variações de entonação ou expressões faciais, as notícias do dia, do trágico ao cômico, convencido de que "o jornalista não tem direito de privar o público de saber dos fatos".



"Não devemos nunca considerar as conseqüências de nossa informação sobre o público ou sobre nós mesmos" - disse ele, recentemente - "o que devemos fazer é nos certificarmos de que os fatos são apresentados de maneira correta. Não devemos decidir o que é bom ou mau para o povo, não importa quem seja este povo. No momento em que fizermos este julgamento moral, o jornalismo livre estará acabado, porque então terá sido negada ao povo a informação que uma democracia exige para sobreviver".



ERIC SEVAREID (CBS)



Os congressistas e políticos entram e saem, mas Eric Sevareid, comentarista da cadeia CBS, permanece, há mais de 30 anos, com seus exórdios e prédicas de três minutos, ao fim dos noticiários. Sevareid domina a câmera com o seu queixo proeminente, todo arrumado e preparado pelos maquiladores da televisão: e suas opiniões firmes são um balanço de prós e contras, um equilíbrio que ilustra e comenta sem opinar definitivamente. A única opinião formada de Sevareid é defender a liberdade de imprensa.



Sevareid, tal como Harry Smith, da ABC, não é um anchorman, ou seja, não apresenta os noticiários, embora compartilhe com Cronkite, Reasoner e Chancellor do mesmo passado de repórter e correspondente de guerra. Seus são os três minutos finais do noticiário noturno da CBS - o comentário político.



Mais de 60 milhões de pessoas escutam Sevareid quase todas as noites. Seu potencial de persuasão suplanta em muito o de quase todos os senadores e funcionários públicos norte-americanos.



Um texto dele próprio, escrito em 1970, em reação à proposta de Spiro Agnew de que os comentaristas de televisão fossem examinados pelo Governo sobre suas ideologias, dá a medida de seu pensamento. Naquela noite, Sevareid disse no noticiário da CBS: "O Sr Agnew quer saber qual é nossa posição. Estamos bem aqui, sob os holofotes, em posição desvantajosa em relação aos políticos. Não podemos dar um voto numa comissão e um voto oposto no plenário - não podemos dizer uma coisa no Norte e outra no Sul. Não temos um mandato de quatro anos: podemos ser afastados com uma simples troca de canal."



"Não podemos, insultar ninguém, nem ridicularizá-los, não podemos nem sonhar em contestar patriotismo de cidadãos importantes, ou reduzir cada questão complexa a sim ou não, preto ou branco. E preferiríamos ir para cadeia a agredir o idioma inglês. Não podemos apoiar um ou outro lado de cada questão pública controversa, porque estamos tentando explicar mais do que defender, e porque algumas questões não têm dois lados: têm três, quatro, meia dúzia e nestes casos, duvidamos que saibamos a resposta certa. Este pode ser o motivo pelo qual muitos de nós mostramo-nos um pouco exaustos, enquanto o Sr Agnew parece tão sereno."



"Nenhum de nós acredita que a verdade total sobre alguma coisa esteja contida em alguma exposição ou comentário, mas que emergirá através da informação e discussão livres, como Walter Lippman colocou. O ponto central a respeito de uma imprensa livre não é o fato de que ela seja precisa - embora deva tentar sê-lo - nem mesmo que seja justa - embora deva tentar sê-lo - mas que seja livre. E isto significa liberdade para se defender de qualquer poder governamental que tente coagi-la, intimidá-la ou policiá-la."



DAVID BRINKLEY E JOHN CHANCELOR (NBC)



A dupla Chet Huntley-David Brinkley chegou a ficar tão conhecida do público americano quanto o Gordo e o Magro. Apresentadores do noticiário nobre da cadeia NBC durante 12 anos, eles mantiveram, na década de 60, a liderança na audiência do telejornalismo americano, mais tarde conquistada pela CBS.



Em 1970, a dupla se separou amigavelmente. Huntley se aposentou e Brinkley ficou no ar durante algum tempo, acabando por abandonar o telejornal noturno, e se limitando a comentários esporádicos. Pouco depois, Huntley morreria, e Brinkley foi regressando à sua antiga função. Até que, depois de comentar as prévias eleitorais deste ano, acabou recontratado para apresentar o telejornal noturno da NBC, juntamente com John Chancellor.



A nova dupla cobriu não só as prévias, mas também as duas convenções nacionais deste ano, tradicionalmente um desafio para o telejornalismo americano, pois os acontecimentos, nem sempre claros, se desenrolam com muita rapidez e devem ser cobertos ao vivo. Como se estas dificuldades não fossem suficientes, existem ainda mais duas redes concorrentes fazendo o mesmo trabalho, em disputa de melhor resultado, maior audiência, anúncios mais caros, lucros mais gordos.



Como muitos de sua geração, Brinkley chegou à televisão a partir do jornalismo gráfico. Foi repórter na Carolina do Norte, onde nasceu em 1920, e passou dois anos na UPI, encarregado do chamado radio-wire: reescrevia os telegramas tradicionais de noticias, usando uma linguagem mais apropriada ao rádio.



Aos poucos, Brinkley decidiu que tinha um talento especial para escrever para o ouvido e não para os olhos. Em 1943, foi contratado pela NBC, onde, durante vários anos, além de redigir notícias e scripts para locutores, cobriu Washington como repórter. Foi progredindo na emissora até que, em 1956, durante as convenções nacionais partidárias, acabou se juntando a Chet Huntley, formando assim a dupla de tanta popularidade.



Mesmo depois de se transformar em estrela do vídeo, Brinkley não parou de redigir os textos que ele próprio apresentava no ar. Não só porque participava do processo editorial de decidir o que constituía notícias no dia-a-dia, mas também porque seu texto era simples, direto e coloquial, desvinculado dos vícios do jornalês.



Apresentador do telejornal da NBC desde 1970, (quando a dupla Huntley-Brinkley se desfez), John Chancellor, hoje com 49 anos, chegou a esta posição com um número considerável de credenciais. Começou no jornalismo em sua cidade natal, Chicago, trabalhando para o Sun Times. Foi demitido em 1950, numa das febres de "contenção de despesas" que assolam jornais periodicamente, e obteve uma posição temporária como redator da NBC.



Acabou contratado por tempo integral, e se viu nas ruas cobrindo incêndios e perseguindo criminosos. Trabalhava para à divisão de radio-jornalismo. tinha seu próprio carro, com equipamento para controlar as comunicações da policia (processo legal até hoje nos Estados Unidos), e muitas vezes chegava à cena do prime antes das autoridades.



Entre as atuações mais conhecidas de Chancellor está a cobertura dos conflitos de integração racial em Arkansas, em 1957, quando a Guarda Nacional foi convocada para garantir a entrada de estudantes negros nas escolas, contra a vontade do Governador do Estado.



Em novembro de 1960, ganhou reputação de "homem de ferro", ao comandar ao vivo a cobertura do discurso de vitória de John Kennedy, recém-eleito Presidente. Kennedy se atrasou para a cerimônia, e Chancellor foi deixado no ar durante hora e meia, sozinho.



Na Convenção Republicana de 1964, foi retirado à força do plenário por um encarregado de segurança. "É muito difícil manter uma postura de dignidade num momento como este" - disse ele de improviso, no ar. Enquanto desaparecia da tela, encerrou a transmissão: "Aqui John Chancellor, preso em algum. lugar".



Com mais de 25 anos na NBC, Chancellor já cobriu seis campanhas presidenciais e foi chefe de sucursais em Viena, Londres, Moscou, Bruxelas e Berlim. Em 1961, achou que o trabalho excessivo o estava impedindo de ler e se informar melhor: tirou uma licença e passou oito meses em seu apartamento, recuperando o que tinha deixado de ler em livros. Entre 1965 e 1967, chefiou A Voz da América.



Como a maioria de seus colegas nos telejornais das redes nacionais, Chancellor não se satisfaz com a simples leitura do material, tomando parte também na edição e redação do noticiário. Embora reconheça que 22 minutos de notícias por noite (meia hora, menos comerciais) não sejam suficientes para informar um público que não leia jornais, revistas e livros, Chancellor discorda dos críticos que não vêem importância num telejornal.



"É verdade que um script nosso só ocupa um trecho da primeira página do The New York Times. mas esta analogia é falsa, pois o Times não pode mostrar Richard Nixon empurrando seu assessor de imprensa, nem pode mostrar gotas de suor escorrendo de um rosto no vídeo".



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