Tuesday, January 29, 2013

1984 - O Bem Amado Sai do Ar

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 9/11/1984
Autora: Míriam Lage
ESTES PERSONAGENS ESTÃO MORRENDO
Vai ao ar hoje, pela última vez, o seriado mais politizado da TV brasileira. Apesar dos protestos de intelectuais e artistas



Com um defunto fresquinho nos braços, o prefeito Odorico Paraguaçu chega "aos finalmentes". Vai ao ar, hoje à noite, o último capítulo de O Bem Amado, colocando um ponto final no seriado de maior sucesso já exibido pela televisão brasileira. Sucupira será sepultada viva, enterrando personagens que conquistaram um batalhão de fãs. Tão ardorosos que, ano passado, quando a TV Globo ameaçou aposentá-los, fizeram abaixo-assinados para que continuassem na ativa. Entre eles o poeta Carlos Drummond de Andrade, Ziraldo e Mário Lago, intelectuais dispostos a manter na televisão o que consideravam a verdadeira dramaturgia brasileira.

Esse ano as coisas correram mal para Odorico. A TV Globo resolveu cancelar suas aventuras e não houve apelo que a fizesse voltar atrás. Pelo menos até agora. Jorge Amado telegrafou, Miro Teixeira e José Colagrossi idem e, em Macaé, corre um abaixo-assinado pedindo vida longa aos habitantes de Sucupira. Em vão. E Chegamos Aos Finalmentes é o último episódio da série, batizado, inicialmente, de O Presunto Malufante. Título meio incômodo para a emissora que pediu a Dias Gomes, autor do seriado, algo menos óbvio.

Uma dissimulação dispensável. Afinal, no capítulo de hoje, Sucupira é inundada de presentes. As irmãs Cajazeiras ganham três máquinas de costura, Zeca Diabo um cavalo árabe, Dirceu Borboleta uma gorda soma de dinheiro, Conchita e Bebel são surpreendidas com um colar de pérolas e um Mercedes. Para Odorico, o sonho de cinco anos de prefeito se materializa num defunto, só seu. Desta vez, o cemitério será inaugurado. Mas de onde vêm tantos mimos? De um candidato à Presidência da República, interessado em aumentar sua fatura de votos.

O capítulo andou empacando dentro da TV Globo. A certa altura as gravações foram interrompidas porque, dizia-se, não haveria espaço para sua apresentação este ano. Mas Odorico acabou conseguindo uma vaga na programação, pelo menos para encenar seu! grand finale. Retira-se de cena porque estaria saindo caro à emissora, cada episódio consumiria Cr$ 300 milhões.

Se a decisão foi tomada em cima de números, por que a TV Globo comprou os direitos autorais de Dias Gomes? Há pouco mais de um mês o negócio foi fechado pelo período de um ano. Dias Gomes foi convidado, pela emissora, para voltar às novelas. Não quis, preferindo dirigir um grupo de criação que se dedicará a revitalizar o gênero. Com isso, ficou sem tempo para escrever O Bem Amado e cedeu os direitos à TV Globo, que começou a formar um grupo para redigir os textos do seriado. Foram convidados Ziraldo, Luis Fernando Veríssimo, Joaquim Cruz e Carlos Eduardo Novaes. Três semanas atrás o projeto foi cancelado.

- Estou triste, gostaria que O Bem Amado continuasse no ar - diz Dias Gomes. E completa: "É toda uma família que está enlutada". Como o fim de O Bem Amado já foi decretado outras vezes, Dias Gomes, por via das dúvidas, poupou Odorico da morte. Na novela, exibida em 1973, Zeca Diabo matou o prefeito e, para iniciar o seriado, Dias Gomes foi obrigado a artimanhas para tirá-lo do cemitério. "Deu muito trabalho, tive que imaginar uma síncope, Odorico batendo no caixão. Dessa vez a história fica em aberto".

O Bem Amado nasceu em 1961, numa versão teatral, mas Dias Gomes não gostou do texto final e engavetou-o até 1963. A revista Cláudia pediu uma peça inédita para publicar no número de Natal e acabou saindo com o título O Bem Amado e os Mistérios do Bem e da Morte. Os direitos foram vendidos para cinema, um filme que ficou no papel. Em 1968 a peça foi reescrita e chegou ao palco no Teatro de Amadores de Pernambuco. Só em 1970 teve sua primeira montagem profissional, no Rio, com Procópio Ferreira encarnando o principal personagem. Não chegou .a ser sucesso, estourando apenas em 1973, adaptada para a televisão. Repercutiu tão bem que a Globo pediu a Dias Gomes para espichar a história. "Mas achei que era uma exploração do sucesso. Em 1979 começaram os seriados e, no ano seguinte, transformei o texto. Foi um novo sucesso", conta o autor.

Em cinco anos, O Bem Amado atravessou o período de censura com muito sofrimento. Os capítulos eram podados sem piedade. Apenas um, no entanto, não foi ao ar. Fazia parte de uma trilogia satirizando a campanha eleitoral de 1982. "Brizola e Sandra Cavalcanti vestiram as carapuças e pediram ao tribunal para interditá-lo", lembra Dias Gomes. O episódio faz parte do livro Sucupira Vai Às Urnas. O autor reuniu em dois livros os capítulos de que mais gosta: Sucupira, Ame-a ou Deixe-a e Odorico na Cabeça.

O seriado manteve, durante toda a sua vida, um tom de sátira viva em cima dos principais acontecimentos nacionais, da política à arte. Mas foi sempre a política seu tempero mais forte. Odorico personificava a origem do político brasileiro, o coronel prepotente e corrupto do interior. Dias Gomes brincou com tudo, até mesmo com a censura que lhe riscava os textos originais. E fez incursões pela política externa, criando um memorável capítulo sobre a guerra das Malvinas, em sua versão A Guerra das Malvadas. Odorico e as fiéis irmãs Cajazeiras invadiam uma ilha nas costas de Sucupira e saiam escorraçados, espantados por uma matilha de vira-latas.

É provável que esse tom político do seriado tenha desanimado a TV Globo a mantê-lo no ar. Parece que o raciocínio da direção é que O Bem Amado perderia sua força com a entrada de Tancredo Neves no Palácio do Planalto. Não teria a mesma graça fazer sátira em torno da conciliação. Se o presidente fosse Maluf, certamente Odorico passaria por dias difíceis. O mais prudente, no caso, é deixar Sucupira na prateleira.

1977 - Betty Faria de Faca na Bota

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 23/5/1977
A LUTA PELO DIREITO À PRÓPRIA IMAGEM
A atriz Betty Faria depôs sexta-feira, perante o Juiz José Rodriguez Lemma, no processo que ela e outros artistas de televisão e teatro movem contra a Editora Abril, acusada de ter usado fotografias suas com fins comerciais, sem a necessária autorização. O material foi publicado sob a forma de posters na revista Contigo. Os atores sustentam que, devido à sua profissão, seus direitos autorais abrangem as suas próprias imagens. Processo idêntico foi movido antes, com sucesso, contra a Editora Bloch.




Para Betty Faria, o importante seria, antes de mais nada, a regulamentação da profissão. "Mas estão sempre falando nisso, e a coisa continua. Seria bom, também, que existisse o direito de intérprete no Brasil. Em principio, é isso. O resto é apenas detalhe sobre um desrespeito maior. Mas se, em nossa impotência, não podemos brigar por isso, então vamos nessa".

A atriz chegou apressada ao fórum, sexta-feira, entrando pela rampa que leva ao terceiro andar. Às 14h55m teve início a sessão. De um lado, Betty e o advogado do Sindicato dos Artistas e Técnicos de Diversões, Daniel Furtado; do outro, o advogado da Editora Abril, José Tavares Garduzin, e o diretor das revistas Contigo e Ilusão, Paulo Sttein. A princípio, o juiz não quis deixar que se fizessem fotos, pois observou que o problema em questão era justamente esse. "A menos", acrescentou, "que a artista não se oponha".

"Eu não me oponho", disse Betty.

O juiz perguntou ao diretor das duas publicações por que julgava que os artistas não se incomodariam com a publicação de suas fotos. Tavares Garduzin respondeu que outros já haviam sido fotografados antes e não se opuseram. Disse que havia uma espécie de acordo entre o artista e a editora: ele se deixa fotografar sabendo que as fotos serão publicadas.

"Desde quando vem esse acordo?" - perguntou o juiz.

"Desde que eu trabalho na empresa, e nunca tivemos problemas".

"Mas já publicaram fotos iguais a esta?"

"Ora, existem posters em todas as revistas Contigo". "Mas iguais a este, sem nenhuma modificação?" - insistiu o juiz, sorrindo e apontando um exemplar da revista sobre a mesa.

"Sim", respondeu Paulo, meio embaraçado.

Ainda com o mesmo sorriso, o magistrado observou que só podia concluir que a edição era uma homenagem à artista, sem nenhuma intenção lucrativa. O Dr Daniel Furtado perguntou então ao Dr Tavares Garduzin se, ao publicarem o poster, haviam feito alguma referência ao trabalho artístico dos fotografados. A resposta, numa voz quase inaudível, foi negativa. Diante de mais outras hesitações por parte dos representantes da Abril, o juiz comentou que havia uma "certa anomalia" no caso, e explicou:

"Já que os senhores sabiam que iam ser chamados para depor, qual a razão de estarem tão por fora dos fatos?"

"Não me informei sobre o problema financeiro da empresa, não me preparei para este tipo de perguntas", respondeu Paulo Sttein. "Só o departamento comercial tem condições de informar se a edição deu lucro ou prejuízo".

José Rodriguez Lemma observou então que se estava, ali, diante de um caso em que se discutiam valores, e se os atores ganhassem, haveria execução. "E execução significa dinheiro", disse.

Sem saber qual era o custo real da revista, que nas bancas é vendida a dez cruzeiros, e sem sequer poder informar quem, na empresa, se encarrega desse aspecto da produção, o acusado calou-se. Disse o juiz: "Não preciso mais fazer perguntas. O Sr está liberado. Boa tarde."

O advogado da Abril perguntou a Betty se sabia onde fora feita a fotografia motivo da questão. "Claro que sei. Foi em Pedra de Guaratiba, numa externa de Roque Santeiro, em junho de 75." O advogado insistiu: queria saber se a foto fora posada ou tirada ao acaso.

"Essa fotografia é de uma cena da novela. Não foi posada para fotógrafos. Havia muitos fotógrafos por lá, acompanhando as gravações, autorizados pelo diretor da novela para fazerem reportagens. Neste caso, o fotógrafo disse que era para uma matéria sobre a novela, eu me lembro".

"E a foto veio sem a matéria", disse o juiz.

"É", respondeu Betty, acrescentando com certa ironia: "mas parece que eles perderam dinheiro. Só queriam fazer uma homenagem aos artistas".

O advogado da Abril tornou a intervir, perguntando se ela já tivera outras fotos publicadas em posters da empresa. "Antes de responder, quero deixar claro o seguinte", disse a atriz: "esta edição é somente de posters. As outras tinham fotonovelas, anúncios etc. É claro que esta tinha objetivos comerciais".

"Mas essas publicações não lhe trazem promoção?", quis saber o advogado.

"Isso é discutível e discutido. Pode-se fazer promoção e desrespeitar o artista. Eu não admito isso comigo. Qualquer coisa tem de ser autorizada. Nem que eu cobre um cruzeiro pela foto, mas quero saber o que vai ser publicado sobre mim".

O juiz fez uma última pergunta: "Alguma vez a senhora teve fotografias publicadas mediante pagamento?"

"Tive. Foi para um suplemento de Natal da Status, e o dinheiro deu para comprar um jipe. Isto porque assinei contrato, senão não poderia comprar".

Marcando-se a última audiência para 3 de junho, quando deporão as testemunhas da Abril, encerrou-se a sessão.

"ELES EMBRULHAM A GENTE FEITO BALA, E VENDEM" - Estúdio de gravações da Rede Globo, no Jardim Botânico. Quarta-feira. Artistas, técnicos, operários movimentam-se agitados. Gravam-se os últimos capítulos da novela Duas Vidas. Correndo para trocar de roupa para outra cena, Betty Faria comenta com a repórter: "Não sou de falar muito, sabe? Mas vivo minha profissão, atriz. Minha imagem se forma através do que eu faço profissionalmente, e isso tem de ser respeitado".

Sentado a seu lado, à vontade, com as botas de verniz azul-marinho ao lado e os pés descalços sobre outra cadeira, o ator Mário Gomes, que está às voltas com outro tipo de problema, identifica-se com os companheiros: "É, eles embrulham a gente feito bala, e depois vendem".

Rondando os corredores, muito pensativo, Francisco Cuoco dá a sua opinião: "É um abuso. Depois de tanto trabalho, trocando uma camisa atrás da outra para fazer as capas da Bloch, não recebo nem uma revista de cortesia". E mais decisivo: "Eu vivo de vender a minha imagem e não concordo com que a vendam e tirem lucro com isso sem o meu consentimento".

Luís Gustavo conta como for o seu depoimento: "O advogado dizia: "Pergunta se ele já fez algum poster". E eu: sem matéria, nunca, nem autorizei que se fizesse. O juiz perguntou se eu não achava que isso era promoção. Veja só! Sabe o que respondi? Que não era santinho de igreja. Minha imagem na TV é promoção, nas revistas não".

Susana Vieira não quis falar sobre o assunto. Comentou apenas que a presente ação não é a reivindicação mais importante dos artistas. "Estávamos abandonados, agora que despertamos temos de partir de alguma coisa. Chegou a hora de acordar".

Para Otávio Augusto, presidente do Sindicato, o Brasil é único lugar no mundo onde o artista não significa nada. "Para nós, a luta maior é pela regulamentação da profissão e o direito do intérprete. Já estamos brigando com as potências do país, uma das quais é a TV Globo." Ele fala da exportação das novelas Gabriela, para Portugal, e O Bem-Amado para a América Latina inteira. "A gente começou a mexer no caso da TV Globo, mas não conseguimos nada. Eles combinavam um preço para o direito de intérprete e pagavam. Só que depois vinha descontado no 13º salário. No final, nós é que pagávamos. Isso é uma desmoralização."

Ele diz que há muitos processos correndo na Justiça, e destacou um, especificamente: "É o processo administrativo que está na Delegacia do Trabalho contra a TV Globo, há um ano e meio. Até agora não tivemos nenhum parecer ou conclusão do Ministério. É sobre o contrato de trabalho. Eles conseguiram fazer com que as horas extras fossem compensadas com. folgas, o que não está direito. Todo o contrato é ilegal. O que convém à Globo, ela põe no contrato e fica."

Saturday, January 26, 2013

1965 - Glaucio Gil Morre Ao Vivo

Folha de S. Paulo
Data de Publicação: 2/11/1997
Autor: Marcelo Mansfield



DRAMA AO VIVO
Se fosse hoje, os programas de TV teriam um dia farto. Camisetas seriam vendidas, ex-namoradas iriam chorar frente às câmeras e brigar pela posição de "primeira viúva".

Os familiares iriam querer processar quem quer que fosse que remotamente pudesse estar ligado à desgraça, "especiais" seriam feitos na última hora e alguma música teria uma versão "sampleada" para acompanhar a cobertura do féretro.

Mas, naquele dia 13 de agosto de 1965, a TV era mais respeitosa e menos sensacionalista.

Glaucio Gil apresentava o seu "Show da Noite" como de costume, enquanto a estrela italiana Claudia Cardinalle filmava no Rio uma de suas peças, "Uma Rosa Para todos".

Ator e autor, começara a carreira na revista "O Cruzeiro" e era formado pelo Curso Nacional de Teatro.

Em 1957, ajudou Nelson Rodrigues na adaptação da peça "Perdoa-me Por Me Traíres". Em seguida, traduziu o livro "Como Vencer na Vida Sem Fazer Força". Aos 29 anos, fundou o Teatro Santa Rosa com a peça "Procura-se uma Rosa", três histórias num só espetáculo, sendo uma delas escrita por ele.

Em seguida, debutou como ator em "Auto da Compadecida" e, logo depois, estreou como autor com sua peça mais conhecida: "Toda Donzela Tem um Pai Que É uma Fera".

Naquela noite, Glaucio Gil começara o programa dizendo: "Hoje é sexta-feira, 13 de agosto, mas até agora vai tudo caminhando bem, felizmente".

Diretores de uma revista carioca eram os entrevistados. Lá pelas tantas, o câmera desviou o foco para os convidados. A seguir, sem que o programa tivesse terminado, a TV colocou um filme no ar.

A verdade é que, logo após ser desviada a câmera, Glaucio Gil morria, vítima de um ataque cardíaco, ao vivo, em plena transmissão. Sua mãe, percebendo que havia algo errado, telefonou para a emissora e recebeu a notícia. Se fosse hoje, ela teria recebido a notícia de sopetão, ali, em frente à TV. Mas os tempos eram outros, mais respeitosos. E só depois de a família ter sido avisada é que a notícia foi divulgada.

Sunday, January 20, 2013

1985 - Martha Suplicy Ataca José Serra no TV Mulher

VEJA
Data de Publicação: 6/11/1985

DESACORDO NO AR
Eleição gera tumulto no programa TV Mulher

Acostumados ao tom ameno com que a atriz Irene Ravache, 41 anos, conduz a entrevista que marca o encerramento do programa TV Mulher, exibido pela Rede Globo no horário matutino, os telespectadores foram surpreendidos, na segunda-feira passada, com uma invasão do estúdio e um princípio de bate-boca político. A confusão, que retardou o término do programa e alterou a sobriedade do chamado padrão Globo de qualidade, envolveu Irene, seu entrevistado, o economista José Serra, 43 anos, secretário do Planejamento do governo paulista, e a sexóloga Marta Suplicy, dona do quadro Conversando sobre Sexo, que entrou no ar inesperadamente.

José Serra encerrou sua entrevista falando sobre as eleições municipais. "Eu queria dizer, encerrando, que a eleição em São Paulo é muito importante para a consolidação da democracia no Brasil", afirmou o economista, do PMDB. Nesse momento, ele era atentamente observado por Marta, 40 anos, casada com Eduardo Matarazzo Suplicy, candidato do PT à prefeitura de São Paulo. "Por falar em eleições, a Marta Suplicy está aqui atrás das câmaras", disse Irene Ravache, que tinha a intenção de lembrar que ela, a sexóloga e Serra haviam se encontrado numa festa, há alguns meses. Irene, no entanto, não conseguiu terminar a frase, pois Marta aproveitou a deixa e foi para a frente das câmaras.

"Os telespectadores me desculpem por eu estar sem maquilagem, mas eu gostaria de dizer que discordo da importância que se quer dar à eleição em São Paulo", afirmou a sexóloga, defendendo sua tese com a mesma impetuosidade com que combate o machismo.

Enquanto os técnicos do estúdio se entreolhavam espantados, sem saber o que fazer, Marta continuou seu discurso, afirmando que as idéias sustentadas por Serra não eram verdadeiras. Irene tentou contornar a situação. "Ora, Marta, você está sempre bonita, mesmo sem maquilagem", disse a atriz. Serra, elegantemente, observou que a discussão era importante. Com 1 minuto de atraso, o TV Mulher acabou com a saída de Marta da frente das câmaras e Irene Ravache dando um bom-dia aos telespectadores.

"Achei um absurdo que o Serra aproveitasse um programa de entrevista para fazer campanha pelo voto útil", argumenta a sexóloga. "Pensei que a Marta tivesse entrado para cumprimentar o secretário", lembra Irene Ravache, que votou no PT em 1982 e pretende votar no PMDB em novembro. Houve conversas na direção da Globo sobre o episódio e, no final, decidiu-se não recriminar Marta Suplicy. "Nesta época está todo mundo quente com o assunto das eleições", explica Nilton Travesso, 50 anos, diretor da Central Globo de Produções em São Paulo. Na Globo, continua valendo a regra de que apenas os jornalistas estão impedidos de aparecer nos horários gratuitos. Antônio Britto, por exemplo, fez um acordo no sentido de não aparecer nos programas da Globo até as eleições, para poder gravar algumas propagandas

1983 - Terceiro Aniversário do TV Mulher

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 10/4/1983
Autora: Martha Baptista
O QUE A TELEVISÃO ESTÁ DANDO À MULHER?
Três anos de TV Mulher. Uma façanha, se compararmos a trajetória da aniversariante à de outros programas seus contemporâneos, como o Delas e Nova Mulher que, apesar de elogiados, tiveram vida curta na TVE e Bandeirantes, respectivamente. Hoje, o programa comandado por Marília Gabriela na TV Globo, de segunda a sexta-feira, das 8 às 11h, reina praticamente sozinho (a Bandeirantes tem Ela, que por enquanto não é transmitido para o Rio, e a TVS acaba de lançar A Mulher é um Show, nas noites de terça-feira) sobre um público imenso e a cada dia mais ávido de informações.



Mas a presença da mulher no vídeo não se limita aos programas ditos femininos: ela ainda é a pièce de résistance da publicidade na TV e presença dominante em novelas e seriados. Será que a TV realmente acompanhou a evolução do público feminino? Terá sido parte atuante e fundamental nessa transformação? Aqui, cinco mulheres com presença marcante no mercado de trabalho, a maioria militante do movimento feminista, analisam a relação mulher x TV, tendo TV Mulher como ponto de partida.

São elas as cineastas Ana Carolina (Das Tripas Coração) e Leilany Fernandes (o curta-metragem Tempo Quente, sobre mulheres de uma comunidade carente), a socióloga Moema Toscano, a escritora Heloneida Studart e a Deputada estadual Lúcia Arruda, do PT. Todas foram unânimes em apontar o avanço que TV Mulher representou, principalmente por trazer ao vídeo um tema até então considerado tabu: o da sexualidade, através da sexóloga Marta Suplicy. Lúcia Arruda lembrou que o quadro quase foi tirado do ar há pouco tempo como uma prova da resistência ainda existente em alguns setores da sociedade.

Mas, não faltaram críticas ao TV Mulher. Ana Carolina, por exemplo, diz que o programa "repousa" sobre algumas características femininas negativas, como o interesse pela astrologia e pelas receitas culinárias, definidas por ela, como "pilares da bobagem". Leilany acha que, embora tenha conquistado um espaço social e político, TV Mulher tem seus "pecadilhos": o de estar pautado sempre em cima de "grandes mulheres", ou seja, a melhor atriz, a mais bela mulher, sem abrir espaço para as pessoas comuns.

A ex-Deputada Heloneida Studart critica o horário diurno de TV Mulher e dos programas femininos em geral, fruto, em sua opinião, do fato deles tratarem a mulher como uma pessoa excluída do mercado de trabalho.

- Já está na hora de ser criado um programa feminino à noite para atender à população feminina que trabalha. Esse programa deveria ser elaborado por mulheres e tratar de assuntos políticos e econômicos, enfim, todos os problemas do mundo com um enfoque feminino, porque a mulher não é inferior ao homem, mas diferente - sugere.

Já Moema Toscano tem outra visão: dividindo em três estágios a relação mulher x TV no Brasil, propõe como o quarto momento a chegada a uma programação única para ambos os sexos, já que o movimento feminista luta pela "integração plena da mulher na sociedade".

1981 - Aniversário do TV Mulher

O Globo
Data de Publicação: 5/4/1981
Autor: Artur da Távola
UM ANO DE 'TV MULHER'
Um ano de 'TV Mulher' depois de amanhã, dia 7 de abril, significa bastante em termos de televisão. A valorização cultural e mercadológica de um horário até então morto é fato importante. Abriu-se um maior mercado de trabalho para profissionais; ampliou-se a faixa publicitária, atraindo anunciantes novos impossibilitados de enfrentar os preços dos horários nobres; ventilaram-se temas maduros diante da mulher consumidora-telespectadora, ampliando a faixa temática de discussão, logo de cultura.



Pode passar despercebido, pois ocorre em programa matutino e sem análises detalhadas e constantes por parte da crítica, mas o que a psicóloga Martha Suplicy, com a maior seriedade, aos poucos vai discutindo com a mulher média brasileira, ainda presa a preconceitos e a temores de abordagem de assuntos sexuais, representa uma alteração cultural, um arejamento que iguala a televisão a certos cursos de atualização.

Assim em todos os demais campos, agora alargados com o quadro muito bem feito de Marisa Raja Gabaglia, mostrando que o consultório sentimental (que desde os tempos da jornalista Zsu Zsu Vieira passou a ser material importante) pode ser um gênero útil e sério. Clodovil, a par dos conselhos específicos, funciona de maneira terapêutica para milhões de pessoas temerosas ou assustadas com a vida. E assim por diante. Henfil agora voltará depois de uns meses fora e por certo vai trazer mais renovação ao cansado humor televisivo.

Quero é dizer que "TV Mulher", se no lado negativo retirou do ar uma programação infantil matutina, no lado positivo, porém, pode se orgulhar de ter sido realizado por uma equipe competente e brilhante, dai o seu sucesso. O acerto nas pessoas capitaneadas por Marília Gabriela e Ney Gonçalves Dias foi a condição maior do êxito de Nílton Travesso, o diretor geral.

1980 - O Começo de Martha Suplicy

O Globo
Data de Publicação: 25/5/1980

A DIFÍCIL ARTE DE FALAR SOBRE SEXO NA TELEVISÃO
O jeito de menina causou alguns problemas a Marta Suplicy nos primeiros anos de sua clínica de terapia sexual: "os clientes insistiam comigo que queriam falar com a doutora. Não acreditavam que era eu, ficavam assustados. Como falar sobre o os mais íntimos e difíceis assuntos sexuais com uma mocinha?" Hoje, no entanto, ela atinge milhões de pessoas com o quadro "Comportamento'' no programa "TV Mulher". Todas as segundas; quartas e sextas, às 9h30m, orienta o público, esperando "ajudar as pessoas a não cometer erros com a própria sexualidade e com a dos filhos, especialmente".

Para isso, é pouco o tempo que dispõe: "em apenas 10 minutos, tento fazer com que questionem tudo que lhes foi ensinado sobre sexo".

Formada em psicologia clínica na PUC, Marta foi para os Estados Unidos. Ficou cinco anos. Fez o curso de pós-graduação na Universidade de Michigan e trabalhou no Hospital dos Veteranos de Guerra, em Palo Alto, enquanto seu marido, o deputado estadual Eduardo Matarazzo Suplicy, dava aulas na Universidade de Stanford. Lá surgiram o interesse pela sexologia e a decisão de abrir uma clínica ao regressar ao Brasil: "surpreendi a todos. Diziam: "você está louca! Aqui, nunca terá clientes". De fato, foi difícil no começo. Aqui, não existe a profissão e, em São Paulo, conheço apenas cinco sexólogos. Mas, através de outros clínicos ginecologistas: começaram a conhecer meu trabalho". Depois de sete anos de clínica, a clientela é grande. No momento, quem quiser marcar uma consulta com ela, terá que esperar até setembro.

Casada há 16 anos, Marta tem três filhos: Eduardo, de 14 anos, André, de 11, e João, de cinco. Trabalhando uma média de seis horas por dia - "além do horário sagrado da terapia que faço há seis anos" - ainda encontra tempo para o curso de pintura, para ler muito - "tenho sempre três ou quatro livros de cabeceira" - e para as reuniões semanais da "Frente das Mulheres Feministas". Em tudo o que faz, o apoio do marido: "ele assiste ao programa e depois discute comigo.

Sempre peço sua opinião antes de levar ao ar um assunto mais controvertido, pois sou muito impulsiva, mais ele tem mais equilíbrio e muito bom senso". As coisas que mais gosta: viajar e correr.-Geralmente, vai ao exterior uma - vez por ano e, sempre que pode, foge com a família para a praia de Picinguaba, em Ubatuba.

Diariamente, uma corrida no Parque do Ibirapuera, ou pelo menos, nos quarteirões próximos a sua casa. Com os filhos, um relacionamento tranqüilo: "entre nós, a única coisa proibida é sair sem avisar onde vai".


1980 - Martha Suplicy Censurada

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 25/5/1980
Autor: Paulo Maia
A VOLTA DA CENSURA E A IDA DE PIPOCA
O repórter policial Afanásio Jazadji e a sexóloga Martha Suplicy saíram do ar antes de TV Mulher completar seu primeiro mês. Segundo garante o diretor do programa, Nilton Travesso, é a primeira interferência séria da censura na nova programação matinal da Rede Globo de Televisão.

Sexologia não é assunto novo nos meios de comunicação de massa de São Paulo. Outra sexóloga, Maria Helena Matarazzo, tem um programa, sucesso absoluto, na Rádio Globo paulista dando conselhos sobre a vida sexual dos casais e consultas a pessoas que gostariam de saber como fazer para melhorar seu desempenho sexual. O programa existe há dois anos e já faz parte do cotidiano da cidade, de tal forma que foi criado um atendimento por telefone, também com sucesso. A forma informal com que Martha Suplicy tratava do assunto na televisão impediu, contudo, que ela continuasse no ar.

Apesar do nome pouco comum, Afanásio Jazadji é um repórter policial conceituado nos meios jornalísticos de São Paulo. Setorista de jornais e emissoras de rádio, na Delegacia de Policia do Grande São Paulo DEGRAN, sua atuação sempre foi marcada pela independência. Convidado a fazer parte da equipe de TV Mulher, desde o primeiro programa seu objetivo era tentar instruir as donas-de-casa a adotarem normas elementares de segurança, para evitar o acesso de ladrões e marginais a suas casas.

Afanásio saiu do ar porque, segundo garante Nilton Travesso, a censura chegou à conclusão de que, em vez de orientar às donas de casa, na verdade ele estava dando dicas aos próprios marginais para a criação de novos métodos de trabalho. Na interpretação da censura, quando o repórter mostrava no vídeo uma caixa de fundo falso, usada por pseudo-vendedor na captura de objetos em residências e lojas, estava, na verdade, disseminando essa prática. Da mesma forma que, quando alertava para o uso de revólveres e punhais envoltos em buquês de flores, entregues a domicílio ou vendidos em cruzamentos de muito tráfego, estava usando um veículo poderoso de comunicação para ensinar mais um truque aos marginais.

O programa de Martha Suplicy, Comportamento Sexual, foi considerado muito pesado para o horário. Na verdade, o que a sexóloga fazia era expor detalhada, mas didaticamente o que é sexo. O objetivo do trabalho de Afanásio Jazadji também parecia ser meramente didático, conforme comprovam as 38 cartas que recebeu de telespectadores agradecendo por terem aprendido coisas aparentemente simples como os detalhes da fisionomia de um assaltante, que deve ser bem gravados para a confecção de um retrato falado.

Mas não era bem assim, segundo a ótica dos conceitos ou preconceitos dos censores.

1980 - Apedrejando o TV Mulher

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 13/4/1980
Autora: Maria Helena Dutra
INFORMAÇÃO É SEMPRE PROBLEMA
Para quem? Os primeiros programas da TV Mulher, de nove ao meio dia na Rede Globo, mostram o padrão de sempre, a produção cuidada, fluência entre seus múltiplos quadros e direção eficiente e profissional de Nilton Travesso. Todo um esforço dirigido, de acordo com os anúncios e entrevistas dos seus produtores, a mulher da classe média baixa porque os integrantes da Alta estão, neste horário, dormindo, trabalhando fora do lar ou levando e apanhando filhos em colégios, cursos, natação e tudo mais que a turma desta classe inventa para tirar a paz das crianças. Então seria urna apresentação diária planejada para concorrer e tirar público dos dominantes programas radiofônicos tipo Haroldo de Andrade e Cidinha Campos no Rio, e shows da manhã de São Paulo já que a TV Mulher é transmitida apenas para estes dois Estados. E para as suas habitantes mais tipicamente domésticas e caseiras.




Mesmo assim, complicou. É que toda a linguagem e a informação do programa é visivelmente sofisticada para este tipo de público. Os ensinamentos estéticos, jurídicos, educacionais e editoriais são finíssimos mas, me parece, muito pouco práticos. Fala-se de inflação sem dizer o que é isto e de cuidados extremamente caros para qualquer beleza. O apogeu desta linha é Panela no Fogo que trata de culinária.

Na estréia a imagem de belíssima frigideira e uma voz em off que dizia: Encha-a completamente com manteiga. Estão brincando. O pratinho tinha ainda molho de poisson, sem tradução, lagosta e uvas, daquelas bem pequenas, de casca cortada uma a uma. Delírio. Em outra edição, um cuscus paulista cujos ingredientes devem estar custando muito.

Será que é outro programa apenas para sonhar? A exceção ao onirismo vigente é Clodovil que se dirige mesmo às mulheres que não podem ser freguesas de seu atelier e revela também ser o único a ter senso de humor no programa inteiro. Abaixo da média, três registros: a péssima forma como entrevistadora da boa apresentadora Maria Gabriela; a educadora Fanny Abramovich que se balança tanto que chega a enjoar o fraco estomago matinal da espectadora, com seus "né" depois de cada três palavras e o final mentiroso mostrando mulheres gerindo toda a parte operacional de urna televisão ao mesmo tempo que os créditos, fixados em cima desta imagem, mostram a verdade. Apenas, entre 47 nomes da parte técnica, nove são femininos. Para elogio maior, a inclusão de cena da novela Pé de Vento, da Bandeirantes, entre os destaques diários da TV. Para piche total, reprisar também nesta produção uma novela. Será que não tem outras armas?

1980 - Começa o TV Mulher

O Globo
Data de Publicação: 30/3/1980
NASCE UMA NOVA TELEVISÃO
Numa época em que se discute a posição da mulher na sociedade, o que é feminismo e o que é feminino, constata-se que a grande maioria das mulheres brasileiras ainda vive uma rotina semelhante de suas avós. Ainda é dentro de lar que se desenvolve a maior parte de sua vida, sempre às voltas com mil problemas. Como solucioná-los, como dialogar? Um novo programa vai preencher esta lacuna.



A mulher que, mesmo trabalhando em dupla jornada dentro e fora de casa é sempre pressionada pelo preço cada vez mais alto da alimentação, problemas dos filhos, do marido, pelo solitário e repetitivo serviço doméstico, formará o público de "TV Mulher". Sua estréia será no próximo dia 7, ás 9 horas, no Rio e em São Paulo. De segunda a sexta, durante três horas, essa mulher será objeto e sujeito de um programa ao vivo que, mais do que isso, se propõe a ser uma nova televisão dentro da Rede Globo. Para Nilton Travesso, diretor geral do programa, ela precisa de diálogo: "basicamente vamos nos dirigir a mulher que não trabalha fora, que tem dificuldade de conseguir emprego, que é desassistida, que não tem fácil acesso é informação. No seu dia-a-dia, o máximo de diálogo que ela consegue é com a empregada, sua companhia mais constante".

Uma extensa lista de dados novos ou de retomadas de caminhos aparece em "TV Mulher", a começar pelo fato de ser um programa ao vivo, em plena época do videotape. Nilton não se preocupa com isso: "tenho 25 anos de televisão, na maioria com programação ao vivo. Nós precisamos nos aproximar mais do público, errar um pouco, cometer gafes". Outra novidade é que esta é uma produção nascida, formada e acabada em São Paulo, com uma ou outra exceção, e com uma equipe praticamente virgem em televisão. "A TV também nunca dedicou sua programação diurna a uma determinada faixa", lembra Nilton, "e aí surgiu a idéia de um programa para a mulher, num horário em que ela não tem opção na TV. Seu hábito matinal é o rádio. Então, vamos nos aproximar desta linguagem radiofônica de forma que o público não precise ficar preso ao vídeo. O programa não terá uma linguagem de imagem. A mulher poderá assisti-lo sem parar as tarefas de casa''.

Tudo isso acontecerá dentro de uma verdadeira casa rústica, que foi criada no palco da Globo-SP, pela "Art de vivre". Gente descontraída senta pelo chão, se encosta num sofá ou fica na mesa. O clima é de absoluta intimidade: "você não pode invadir um programa desses com acrílicos e brilhos", diz Nilton, "Esfria. A mulher se distancia. Por isto, idealizamos um ambiente simples e humano. Dentro disto, vamos procurar um tom informal, descontraído, de casa mesmo. Nossa meta é a mulher, é conversar com ela sobre seus problemas cotidianos, seus filhos, seu marido, receitas de bolos, legislação que diz respeito à mulher. Vamos dar atenção integral a ela, que é a nossa meta".

EM TRÊS HORAS, TUDO QUE INTERESSA AO MUNDO FEMININO - "TV Mulher" terá 20 sessões sobre assuntos diversos, além de exibir a reprise de uma novela, em suas três horas de duração. Marília Gabriela, sua apresentadora principal, abrirá o programa com um editorial sobre temas que estão nas manchetes dos jornais, traduzidos para o universo doméstico, isto é, mostrando suas conseqüências no mundo da mulher. "Bolsa de mercadorias" vai mostrar o que está acontecendo em relação aos preços dos produtos de primeira necessidade. A sessão "Panela no fogo" será apresentado por Marilu Torres Travesso, que terá três entradas no programa. Afanazio Jazadi apresentará "Polícia", com o noticiário policial que se refere à mulher, alertando-a também para as armadilhas que são montadas para ela, como os famosos "contos do vigário".

Com duas entradas diárias, o "Serviço de proteção ao telespectador" atenderá a qualquer solicitação do público. Ney Gonçalves Dias dividirá com Marília Gabriela sua apresentação. As reclamações serão apuradas e colocadas no ar, além de se cobrarem as soluções. "Flashback" vai pegar um aspecto novo do número musical. Antes de mostrá-lo, será contada a história da música; "Comportamento sexual",
 com a psicóloga Marta Suplicy, irá ao ar três vezes na semana, levantando temas de interesse da mulher, em relação aos filhos, ao marido e à ela mesma. "Saúde da criança" se revestirá com esta sessão. "A mulher no mundo" será um documentário curto. Hildegard Angel vai falar sobre os bastidores da TV, em "Claquete". "Novela" apresentará uma reprise do gênero. Consultas jurídicas serão atendidas em "O direito da mulher". Ala Szerman dará dicas para a beleza feminina em "Estética". Trechos de programas serão mostrados em "O melhor da TV". A programação infantil estará em "O que há para a criança", com Fanny Abramovich. A dos adultos estará em "Dicas de hoje". Clodovil dá nome à sua sessão de moda feminina. Uma entrevista diária será feita em "Ponto de encontro". O entrevistado será sempre uma pessoa de destaque, homem ou mulher, que falará de sua vida. Eventualmente, poderá aparecer uma pessoa não conhecida que tenha vivido experiências incríveis. Em "A mulher com a palavra", ela vai falar o que quiser, de segunda à quinta. Na sexta, o homem terá o mesmo direito. O "Boa tarde", uma mensagem curta retirada de um dos temas abordados no dia, encerrará "TV Mulher".

1980 - Estreia o TV Mulher

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 5/3/1980
AS ATRAÇÕES PARA A MULHER NAS MANHÃS DA GLOBO
A nova programação da Globo ainda não está inteiramente definida, sabendo-se apenas que, na área de jornalismo e programação orientada para a mulher, está acertado novo programa, produzido pela primeira vez em São Paulo. Trata-se do TV Mulher, de segunda a sexta, das 9 às 12h, com Marília Gabriela e Ney Gonçalves Dias, com estréia prevista para 7 de abril. Durante as três horas do programa, exibido em rede, o telespectador terá um editorial e um comentário sobre o melhor assunto do dia, uma bolsa de mercadorias, uma receita — Panela no Fogo — um serviço de proteção ao espectador e meia hora de novela. Contará ainda com os conselhos da psicóloga Martha Suplicy sobre comportamento sexual. Uma seção, A Mulher no Mundo, falará do direito da mulher visto por advogados, e mais Melhor na Televisão (em qualquer canal), o que há para crianças, apresentado por Fanny Abranovich, dicas, entrevistas e uma seção fixa em Clodovil. A saúde das crianças também será focalizada e, nas sextas-feiras, haverá um debate sobre o comportamento sexual. O homem também terá um espaço para os seus problemas, ocupado, no resto da semana, pela seção a mulher com a palavra.




1980 - Xênia Bier se Acerta com a Bandeirantes

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 29/2/1980
Autor: Luis Henrique Romagnoli
XÊNIA NÃO VAI PARA A GLOBO, PELO MENOS ATÉ JUNHO
SÃO Paulo - "Foi tudo num clima muito emocional. Choramos, xingamos e brigamos tudo a que tínhamos direito. No fim, fiquei". Bem ao seu estilo, foi assim que Xênia Bier descreveu sua reunião com a diretoria da Rede Bandeirantes, na qual ela decidiu aceitar a proposta de apresentar um programa semanal noturno. Pelo menos até junho, quando vence seu contrato.




Com isso termina, pelo menos por enquanto, a novela Xênia-Bandeirantes que começou na semana passada, quando ela ficou sabendo pelas chamadas na TV que seu programa havia mudado de horário. Seu último programa na semana passada reuniu centenas de fãs endoidecidos que pediam que ficasse. A campanha prossegue até hoje. Xênia diz que seu clube já arrecadou mais de 20 mil assinaturas pedindo a sua permanência no horário vespertino, onde já passou dos treze anos.

As pichações "Queremos Xênia" foram vistas em vários pontos da cidade, até mesmo em frente ao prédio onde ela mora na Avenida Brigadeiro Luiz Antônio. Recostada em almofadas com reproduções de cenas da "Guerra dos Dalmatas" de Walt Disney, Xênia confessa que quase aceitou a proposta da Rede Globo:

- Eu estava magoada e ia partir para aquela de revanchismo. "Ah é? Pois então eu vou pra Globo". O Nilton Travesso esteve aqui em casa e me convidou para fazer aquele programa matutino que eles vão lançar. Ele me garantiu que eu teria toda a liberdade e era justamente por isso que eles queriam que eu fosse para lá. Pelo meu jeito. Até a Globo já está notando que de um jeito ou de outro, existe uma abertura. Há dois anos quem falasse de Luis Carlos Prestes ou Arraes ia preso. Agora é tão normal falar neles como em modess.

Ela quase ia. "Pelo desafio", disse. "Mas eu não consegui dormir naquela noite. Dai para entrar em acordo com a Bandeirantes não foi tão difícil. O programa deverá entrar no ar em duas semanas, às sextas-feiras, às 22 horas.

Xênia, porém, fez uma exigência à Bandeirantes: "não quero nada de especial, plumas, paetês, porque eu me afogo nisso tudo. A Globo que inventou isso está querendo humanizar a programação. Não quero nada pasteurizado, mas também sem subdesenvolvimento apenas uma coisa natural. Quero que seja ao vivo; se o microfone cair, caiu; se eu espirrar, que o espirro entre no ar".

Muita gente desconfia que a entrada de Xénia no horário noturno possa vir a ser uma ameaça ao doce reinado dominical de Hebe. Mas Xênia afasta esta possibilidade: "São dois estilos diferentes. O público da Hebe foi chamado pelo Ricardo Bandeira de "desempregados da vida". E é isso mesmo. O público da Hebe não quer ser mexido; está estabilizado e apenas quer ver sua fada-madrinha. E a Hebe lhes dá isso, com aquela euforia toda, aquele deslumbramento. A Hebe é uma mulher bem-sucedida. Eu sou ao contrário, a maldita, a Geni da televisão".

- Eu mexo com as pessoas, eu futuco, e me futuco. Eu quero mexer. Eu sou assim, meio anarquista. Eu também me olho muito, me questiono muito. Por isso eu troco muita informação com meu público.

E esse público é muito variado. Durante a entrevista, ligaram para se informar sobre os rumos de Xênia gente tão oposta como o colunista social Tavares de Miranda e o cartunista Henfil. Para este já foi feito um convite para participar do primeiro programa e até para uma atuação fixa. "Henfil é ótimo. Ele me mandou um cartão lindo, me deu a maior força. Se ele participar do programa, vai ficar ótimo".

Xênia faz questão de desmentir que seu público seja apenas o feminino: "No Rio é meio a meio, homens e mulheres. Meu público jovem também é muito grande. Os universitários tinham muito preconceito contra mim. Mas depois de algum tempo, eles jogaram a toalha, principalmente depois que eu fiquei ao lado deles nas passeatas que eles fizeram. E eu também ganhei os estudantes pelas mães. Eles começaram a notar que suas mães se tornaram mais compreensivas, mais abertas e me descobriram".

- Isso não quer dizer que eu faça a cabeça do meu público. Acho isso de fazer a cabeça muito fascista. Falam também que eu sou líder. Eu tenho capacidade de liderança, mas não neste sentido fascista de atrair os seguidores. Eu quero é despertar idéias, mesmo que seja contra mim. O resto é populismo".

Xênia acredita que vai fazer sucesso no seu novo horário, mas não liga para os indicadores de audiência: "Ninguém acredita mais neste negócio chamado IBOPE. O Carlos Imperial está sendo processado porque comprou IBOPE. Eu não acredito mais". Além do novo horário na TV, Xênia vai estrear em abril um programa diário pela Rádio Globo de São Paulo, no mesmo esquema de suas tardes no estúdio da Bandeirantes.





1980 - Xênia Bier Prestes a Sair da Bandeirantes

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 24/2/1980
XÊNIA RESISTE MAS ACABA TROCANDO O DIA PELAQ NOITE
SÃO Paulo - O último programa de Xênia Bier, pelo menos no horário vespertino da Rede Bandeirantes, foi apoteótico. Centenas de fás acorreram aos estúdios da emissora, no Morumbi, e em meio a muito choro ela apresentou o programa ao ar livre, num palanque montado de improviso. Depois de 13 anos, Xênia e Você - seria retirado do ar. Mas agora deve apenas passar para as noites de sexta-feira.



No programa de despedida, ela anunciava que deixaria a emissora por não ter aceito a proposta de deslocar Xênia e Você para o horário das 13h. Dizia também, estar estudando propostas de outras emissoras.

Ontem, porém, o superintendente de Programação da Bandeirantes, Eduardo Lafon, afirmava que ela apenas entraria de licença por 15 dias, voltando para apresentar um programa semanal noturno.

O horário não ficou acertado, mas a princípio, informou Lafon, deverá ser às sextas-feiras, às 22 horas:

"Estamos valorizando Xênia, pois no horário da tarde ela tem muito prestígio, muito carisma, mas uma audiência baixa, já que nossa programação da tarde é muito irregular. Com esta mudança de horário, pretendemos manter seu público fiel e conquistar aquelas pessoas que não podiam ver seu programa a tarde.

O público de Xênia não parece muito satisfeito com a mudança. Um grupo de fás reuniu-se ontem em frente ao Teatro Municipal onde pregou vários cartazes pedindo a volta do programa ao horário da tarde. Para Eduardo Lafon, é uma reação natural:

- Mesmo o número de pessoas que veio para o último programa não é de espantar. Não se pode agradar a todos ao mesmo tempo.

Mas acreditamos que, com a mudança, vamos agradar a muito mais gente.

O programa de Xênia começou a merecer atenção quando ela passou a tratar de temas controvertidos, entre eles o coito anal. Ultimamente ela tem entrevistado nomes de destaque como Jânio Quadros, Chico Buarque e Rita Lee. Xênia disse que isto causou muito ciúme "e um clima de inveja entre alguns funcionários" - não quis identificá-los - e que tentaram derrubá-la.

Na sexta-feira ela afirmava que ainda não se havia decidido a aceitar o novo horário e impunha condições:

- Tem de ser como eu quero. ao vivo. Onde eu possa falar tudo o que sempre falei. Sem ter de fazer concessões. Aí aceitarei com prazer.

Segundo Eduardo Lafon, as condições seriam aceitas:

- Ela terá inclusive mais liberdade, em razão do horário.

Com esta modificação, a Bandeirantes remodela sua programação vespertina, tentando agora atender ao público infantil, com longas-metragens e desenhos.

Futuramente, talvez tenhamos programas infantis ao vivo.

1980 - Xênia Bier e Hebe Camargo: Gata Borralheira e Cinderela

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 10/2/1980
Autor/Repórter: Alberto Beuttenmuller
XÊNIA E A VIDA DIFÍCIL QUE HEBE NÃO TEVE

São Paulo - Ex-empregada doméstica, ex-operária, ex-balconista, apresentadora do programa Xênia e Você, a discutida e discutível Xênia Bier se define como "intelectual orgânica". E explica:



- Venho das classes mais humildes - e põe humildade nisso! - e só cheguei aonde estou depois de apanhar muito da vida.

Mais rebelde do que frustrada, ela se orgulha do sucesso de seu programa de entrevistas, transmitido todas as tardes pela Bandeirantes. E, antes que seja perguntada, vai logo respondendo:

- Quer saber a diferença entre mim e Hebe Camargo? A vida foi muito mais difícil para mim do que para ela.

Xênia sabe que as comparações entre ela e Hebe são freqüentes:

- Hebe não é minha rival, pelo menos no sentido mais usual do que seja rivalidade. Se vem sendo acusada de alienação ou desconhecimento da vida, é porque as coisas sempre foram fáceis para ela. Hebe sempre foi uma mulher bem-amada. Talvez por isso eu seja mais atuante.

No estúdio da Bandeirantes, Xênia está ansiosa. Seu convidado desta tarde é nada menos do que o ex-Presidente Jânio Quadros, por cuja oportunidade de entrevistar 'diz ter esperado 20 anos.

- Certa vez, eu passava pela Avenida São João e me encontrei corri ele, na época Governador de São Paulo. Tomei um susto, pois Jânio era meu ídolo político. Hoje, finalmente, vou entrevistá-lo.

Durante a entrevista, enquanto conversa com o velho ídolo, às vezes passando-lhe pitos - "Isso é machismo", ou "O senhor fala muito em idade e velhice...", - Xênia deixa claro por que seu programa tem' tão grande audiência. Há descontração e objetividade em suas perguntas. É, como ela mesma diz, seu jeito de "colocar o dedo na ferida" .

Aos 44 anos - nasceu em São Paulo a 21 de fevereiro de 1936 - Xênia ainda é uma mulher bonita. Admite já ter despertado muitas paixões, algumas até violentas, e se diz tranqüila, hoje, por ter "o coração liberado". Há treze anos faz 'esse programa diário pela Bandeirantes, mas já tem quase 20 de profissão, tendo começado como garota-propaganda nos Canais 2 e 5 de São Paulo ("Já não se recebia salário em dia nas Associadas, naquela época"). Fala sempre com orgulho de seus êxitos profissionais, repetindo que nunca precisou de psicanalista para nada:

- Me aceito completamente. Sou livre, nunca me subjuguei a ninguém, na televisão ou fora dela.

Sua vida é um drama que não faz a menor questão de esconder: - Aos 12 anos, lavava roupa para uma família alemã. Trabalhava pesado das 7 da manhã até a hora do jantar. O sabão, devido à soda cáustica, formava sulcos em minha mão. Ainda sofro de reumatismo por causa disso. Mesmo sendo descendente de alemães, até hoje não os Suporto, so de lembrar o que padeci com aquela família. Não passava de uma escrava. Por isso posso falar de sofrimento em meus programas.

Aos 14 anos, quando era operaria de uma indústria têxtil, conheceu seu primeiro amor. O pai era alcoólatra e a mãe vivia sozinha.

- Tem idéia do que isso significava naquela época? Só faltavam me apedrejar na rua. Aos 15 anos, liderava minhas companheiras de fábrica e fui despedida por esse motivo. Empreguei-me no Laboratório Torres, seção de fechamento de ampolas. Naqueles tempos morávamos numa garagem, minha mãe e eu. Posso dizer que nasci da miséria, da fome.

Xênia conta como, com sacrifício, pagou o dentista para a mãe, comprando-lhe a dentadura que até hoje é guardada como uma espécie de símbolo.

- Aos 17 anos, meu patrão me convidou para viver com ele. Sei que muita gente torce o nariz por causa dessas coisas, mas tudo é possível quando se passa fome. A história é assim como uma My Fair Lady tropical. Acabei aprendendo tudo com meu patrão: a vida de família, o conforto, o teatro, o cinema. Até concertos freqüentava. Tudo que sei devo a ele, que me afastou definitivamente daquela vida de operária. Mas acabei trocando tudo aquilo pela liberdade.

Foi ser balconista. Aos 22 anos, casou-se de novo, com um negro. Nova separação, novo casamento, outro negro:

- Sou gamada em crioulo.

Aos 35 anos, desistiu de novas relações permanentes. Prefere a liberdade. Seu programa tenta refletir esse anseio de liberação - e nesse sentido ela procura orientar as telespectadoras. Alguns dos temas que focaliza lhe têm valido problemas com a Censura. Fala de "uma minoria frustrada, hipocritamente puritana". E reage corajosamente a ação dos censores.

- Homossexualismo, por exemplo, é tabu na televisão. E no entanto as revistas expostas nas bancas demonstram que há um homossexualismo latente em homens e mulheres. Trouxe médicos ao meu programa para discutir o problema. E a censura entrou em ação. Isso me faz lembrar que dona Judite, uma velha censora caquética que se tornou minha inimiga por que eu era jovem, Chegou a dizer que educação sexual era coisa de comunista.

1978 - A Popular Xênia Bier

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 30/9/1978
Autora: Maria Helena Dutra
IMUNE AO TEMPO
Nada parece poder destruí-los. O mundo gira, as coisas rodam, mas o "consultório sentimental" permanece inalterado como grande atração popular nos veículos de comunicação. Atualmente, se faz presente no programa Falei e Disse, Rede Bandeirantes, de segunda a sexta, às três da tarde, gravado em São Paulo e aqui transmitido pelo Canal 7.


É apresentado há longos anos, o que prova uma cativa platéia, por Xênia Bier. O primeiro contato com o programa chega a causar espanto por ser um exercício prático de antitelevisão por excelência. Nenhum recurso técnico, de imagem ou áudio, é utilizado ou sequer cogitado. Durante quase uma hora diária, agora um pouco diminuída devido ao TRE, a sua dona apenas fala. É realmente uma produção que faz jus ao nome. Duas câmeras, quase imóveis, só mudam os angulas enquanto Xênia, num cenário constituído apenas por uma cadeira e mínima mesinha, responde cartas de leitoras. Os assuntos, invariavelmente, são aqueles típicos de revistas femininas ilustradas. Amor, sexo, solidão, criação de filhos, afirmação da mulher como ser humano e utilidade de existir.

Não deixa de ser fascinante descobrir ou assistir uma vez a esse monólogo de Xênia endereçado às suas "companheiras". As idéias e os conselhos variados refletem um feroz senso comum e as cartas que recebe são bastante sintomáticas das preocupações da mulher de baixa classe media. Também não deixam de ser interessantes as entrevistas que, na segunda parte do programa, são feitas com médicos, psicólogos, religiosos e outros especialistas.

O problema é repetir a dose em outros dias. Por que ficam por demais evidentes as limitações e as estreitas visões de todo esse consultório eletrônico. O mundo ou a cidade onde ele está instalado não parecem existir para seus participantes. Tudo é do tamanho de seus lares e as soluções simplistas e as ''verdades eternas" resolvem, em meio minuto, qualquer ocasional angústia. Em qualquer situação a Em qualquer situação a conversa continuará ali sendo sobre infidelidade, conflito de gerações, vivências e gratificações.

Imune ao tempo, ao aumento de custo de vida, às diferenças sociais e a qualquer situação política, esse tipo de programa parece ter seus ouvintes certos e fixos. Caso contrário, já teria cedido espaço para outros. Se resiste, espelha o retrato de seu público e o falar adequado de sua apresentadora.


1978 - Abaixo-assinado pela Xênia Bier


Jornal do Brasil
Data de Publicação: 1/1/1978

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Visitas pessoais e até abaixo-assinados já chegaram a TV Guanabara pedindo que o programa de Xenia Bier volte a ser apresentado integralmente no Rio. É que atualmente a estação cortou suas mesas redondas com médicos e outros convidados, passando apenas o longo recado da apresentadora sobre todas as coisas da vida. Isto mostra que o peculiar desempenho desta veterana apresentadora paulista de televisão - ela fica sozinha, em dose, falando incessantemente para uma câmara fixa sem mais nenhum recurso tecnológico - realmente interessou a platéia carioca. Talvez porque seja uma coisa muito diferente do costumeiro. Tanto que ela chega a realizar algo inédito na TV brasileira como gastar todo o seu tempo, quase trinta minutos, falando sobre a Rede Globo. Juro, é verdade. É a primeira crítica de televisão que usa a própria máquina para isso. Pouco comenta de sua estação, também não é louca, mas passa horas julgando detalhes, estilos e "mensagens" das novelas globais. Ataca muito, principalmente interpretações do elenco, mas defende comportamentos de personagens como se fossem íntimos dela e do público. Parece que tem razão porque faz sucesso e prova que a telenovela é mundo tão fechado que até muda as normas de comportamento da concorrência.





1982 - Sérgio Mallandro e O Povo Na TV

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 6/1/1982
O APRESENTADOR DE O POVO NA TV
No começo houve muito jogo político, já que muitos anunciantes quiseram a minha saída do programa", comenta Sérgio Neiva Cavalcanti, o Sérgio Malandro, ídolo das tardes cariocas no programa O Povo na TV, na TVS, que estréia como ator no filme Menino do Rio, dirigido por Antônio Calmon. Muito extrovertido, Sérgio conta que sua vocação pela arte começou há dois anos, quando, depois de ser vendedor de parafuso, camiseta e pecúlios de aposentadoria, resolveu entrar no programa Cidade x Cidade apresentado por Sílvio Santos. "Depois participei do antigo Aqui e Agora na Tupi, onde apresentei um desfile de moda e o Wilton Franco ficou amarradão na minha.

"AFEIÇÃO - Gesticulando e demonstrando senso de humor, Sérgio tem uma grande afeição pelo diretor do programa O Povo na TV. "Foi o Wilton que deu maior apoio para ficar, diante do jogo político que estava acontecendo." Mas hoje, conclui o apresentador, a situação mudou e os próprios anunciantes vivem lhe fazendo oferta. Recentemente, fechou um contrato com a RCA para a realização de um disco funk. "No disco, eu digo várias coisas para as gatinhas." Apesar de não divulgar os detalhes do contrato, Sérgio adianta que foi na base de milhões. Quanto a uma pesquisa realizada pela TVS, que o aponta com um dos ídolos mais populares do Brasil, Malandro disse que ficava "muito feliz de ver o seu trabalho recompensado". De segunda a sexta-feira, logo que chega à emissora, o apresentador já se vê cercado por fãs que ficam à espera de um autógrafo, ou de um beijo. No programa, faz um menino levado. que chega às vezes a descabelar o diretor Wilton Franco. Ousando sempre, dançando balé nos estúdios ou dando conselhos sérios a mulheres descasadas, Sérgio Malandro responde diariamente a 500 cartas que recebe por semana.

JUVENTUDE ETERNA - Filho de classe média, pai militar, morador de Ipanema, Sérgio diz que sua "idade é uma juventude eterna". Sobre sua adolescência, conta que foi a de muito jovem que teve uma vida estável em casa. "Graças a Deus estudei nos melhores colégios, aos 16 anos já tinha a minha bicicleta em que, com as gatinhas, ia sempre às festas." Em muitas dessas reuniões entrou como penetra, o que lhe causou transtornos. No último ano da faculdade de Comunicação resolveu abandonar o jornalismo, onde "não estava aprendendo nada", para partir para a vida.-No começo fiz algumas pontas em novela, apareci no Aqui e Agora, o Wilton Franco gostou do meu trabalho e quis que participasse do programa Reapertura, mas, como não tinha vaga, 0 lance não pintou. Com a transferência do programa para a TVS, a oportunidade aconteceu, e muito orgulhoso diz que já está na emissora há um ano e quatro meses. Quando fala do programa, Sérgio Malandro pára um pouco e diz com convicção que ele "devia existir no mundo inteiro". Acredita que 0 programa seja uma autêntica prestação de serviço à população e, acrescenta, que por ser um programa ao vivo, tudo é feito espontaneamente, sem nenhum ensaio. "O programa é uma realidade: se vivemos no mundo cão este mundo tem que ser mostrado." Aos que chamam o programa de baixo nível, Sérgio responde que estes pessoas "estão vivendo numa ilusão, andando do terno e gravata e roubando os outros".

1974 - Globo Avançando com as Novelas

Amiga TV
Data de Publicação: 31/12/1974
Autor: Artur da Távola
1974: BALANÇO DAS TELENOVELAS DA GLOBO
Fim de ano é época de balanço. Devagar, um assunto a cada semana, irei traçando uma panorâmica, tanto dos canais como de setores dos mesmos. Hoje o tema é novela e teleteatro na Globo. Como andou a produção da rede líder neste ano de 1974?



Em termos de teleteatro, a Globo caiu em relação a 73. Nesse ano ela realizava um Caso Especial a cada quinze dias. Em 74, sob o argumento de dar mais tempo para melhor elaborar os trabalhos, ela realizou apenas um por mês. Mas os realizou sem diferenças artísticas significativas em relação a 73. Claro, nesse setor houve uma evolução: usar só autores nacionais, com textos especialmente escritos. Isso é evolução em relação ao excesso de adaptações, levando, ainda, a vantagem de formar, preparar, experimentar, gerar, novos autores especializados em TV. Tem outra vantagem: melhor espelhar realidades brasileiras. Caiu a produção de teleteatros, nada obstante os levados ao ar tenham sido de boa qualidade. Onde a Globo deixou de evoluir foi tanto na duração (cinqüenta minutos é muito pouco, mas isso não entra na cabeça do Boni) e na freqüência: uma vez por mês não é suficiente para fixar o gênero, nem criar hábitos no telespectador. A realizá-lo nessa base, só com programas realmente especiais de mais de uma nora de duração, dando a autores, diretores e atores, reais condições de criatividade e tempo, em vez de serem obrigados ao clichê imposto pelas limitações dos tais cinqüenta minutos de duração. No campo da telenovela, a emissora continuou em sua trilha. Aqui podem ser apontados alguns pontos falhos: o infinito troca-troca de diretores, jamais criando uma unidade nas obras (exceção de O Espigão); outro, a deficiência do mise-en-scene de Fogo Sobre Terra. Se a gente comparar os recursos e o trabalho de produção de Fogo Sobre Terra com o realizado em novelas anteriores da emissora em seu principal horário, vai verificar enorme diferença.

Por exemplo: comparar com Irmãos Coragem que teve um tipo de movimentação e ambientação repleto de analogias, Fogo Sobre Terra foi totalmente inferior em termos de produção, locais, externas, tomadas, ritmos etc. É coisa que não se refere nem à obra, nem aos atores: refere-se à empostação da produção. Posso garantir que as constantes mudanças de direção e o fato de o canal não ter que conquistar o que àquela época tinha que conquistar, tenha sido um dos fatores de menor intensidade e qualidade de produção da obra. Fora desses pontos negativos tanto no teleteatro como na telenovela, resta, ainda um, a anotar. a política de renovação da emissora, mudando vários atores de seu cast, sem dúvida já começa a revelar algumas pessoas. Possivelmente se expanda em 75. Mas em 74, vários atores, hoje fora do vídeo na Globo, fizeram falta. Ainda não foram substituídos à altura. O mais, foram acertos. O maior de todos pode ser considerado O Espigão, tanto em termos de obra quanto de produção. Fogo Sobre Terra foi sucesso de positivos. Vários. Mas entrou, como eu disse antes, naquele joguinho responsável pela queda na produção: os caras cuidam os primeiros vinte capítulos, criam uma imagem, e depois mandam brasa descuidadamente. Corrida do Ouro foi sucesso total em todos os pontos, da concepção à Criação. O Rebu é cedo para fâlar. Mas em termos de produção foi outro sucesso do canal. Ainda na linha dos êxitos: vários teleteatros do Caso Especial.

Que a Globo, com a responsabilidade da liderança e ainda com fôlego para mantê-la por mais alguns anos, cuide e atente para estes detalhes. Senão, um belo dia pinta outro Beto Rockfeller e lhe tira a dianteira.

1994 - Tom Cavalcante em Destaque

O Globo
Data de Publicação: 2/1/1994
Autora: Lilian Arruda
HUMOR SIMPLES VENCE A SOFISTICAÇÃO
Tom Cavalcante é o melhor do ano na eleição da "Revista da Tevê".

Tom Cavalcante entrou em recesso. Até o final de janeiro, a grande revelação do humor em 93 vai curtir suas férias no Ceará, ao lado dos filhos Ivete, de 8 anos, e Ivens, de 5. Passeios a praias distantes, caminhadas à beira-mar, caranguejos fritos e ...fãs. Muitos fãs.

De sua casa até a praia mais próxima, como diz o humorista, "são 15 paradas no mundo". Com o bebum, com o lixeiro, com o limpador de carros...E da simplicidade que ele tira o humor que leva graça à "Escolinha do Professor Raimundo" e ao show "É cana e brava" - já assistido por 305 mil pessoas - que retorna em março ao Palladium, em São Paulo.

Por enquanto, nem sinal de um programa só seu na Rede Globo. O caminho ainda é de muita conversa. Mas o talento é indiscutível. Como diz o humorista João Kleber, Tom, de 31 anos, chegou para consolidar a geração dos 30 no humor brasileiro. E está agradando a diferentes correntes. "Ele é uma criança, costumo dizer que é meu filho mais velho", entrega a mulher Zélia, com quem está casado há nove anos. Seguindo as convicções religiosas do humorista, que Deus o conserve assim.

'O POVO BRASILEIRO RI DO QUE É CORRIQUEIRO'

O GLOBO - Como você está aproveitando as férias?

TOM CAVALCANTE - Na praia. Eu e Fagner vamos para as praias distantes e a gente desaba, como diz o amigo. Saio muito com as crianças também. Posso até queimar minha língua e morrer embriagado numa festa um dia. Mas não sou de badalação.

O GLOBO - E o seu programa na Globo?

TOM - Estou atento à redação. Se não estiver a contento, posso desistir na hora de pôr no ar.

O GLOBO - Como é o seu processo de trabalho?

TOM - Improviso muito. Durante oito anos fiz rádio em produção mambembe. Isto me ajudou. E ainda passei pelos palcos de bares de Fortaleza. As pessoas não estavam ali para me ver. Apresentar-se às 8h em um bar cheio de bebum te chamando de viado...foi um exercício muito bom. Como os palanques. Só queria fazer o meu show, depois comecei a captar o que era ideologia.

GLOBO - Hoje você não animaria campanhas?

TOM - Faria para os mesmos que já fiz. Tasso Jereissati, por exemplo. Tudo que foi dito, foi pregado. Não ficou só na retórica. O Ceará hoje respira.

GLOBO - Como nascem seus personagens?

TOM - Da vida. Eles são reais e eu passo a imitar. O João Canabrava é um resumo de tudo que é bebum que conheci pelo Brasil.

GLOBO - Você acha que é esse tipo de humor que sensibiliza as pessoas?

TOM - E como o jogador de futebol que joga o. feijão com arroz. Como o Romário. O humor deve ser isso, o nonsense captado de forma tranqüila e verdadeira, sem complicações. O povão brasileiro está rindo do corriqueiro. O humor mais sofisticado é para as convenções. Quando exigem um texto muito elitizado, eu estou fora. Não dá para viajar nessa.

GLOBO - Onde você pretende chegar?

TOM - O artista não pode ultrapassar seus limites. Ouço o Chico Buarque cantando "Para todos" e vejo a plenitude de uma carreira, a riqueza de um trabalho que foi semeado ao longo do tempo... Ali que eu quero chegar. Vou já comprar o CD. Você conhece a música? (Começa a cantar o refrão). Uma explosão.

GLOBO - Você está no caminho certo?

TOM - Por enquanto sou uma revelação do humor. Mas a manutenção e a consagração são caminhos longos. Estou aberto às críticas. E o segredo é conversar com as pessoas mais velhas. Com todo mundo. Falo com o lixeiro do caminhão, com o bebum na rua...Ontem passei 15 minutos conversando com os limpadores de carro. Eu sou assim. Até à praia, são 15 paradas no mundo.

O GLOBO - Como está a relação com o público no Ceará?

TOM - Existem as abordagens mais felizes na rua, mas às vezes fico assustado. As pessoas perguntam: "Mas você não batalhou para chegar aí?". Nem tanto ao céu, nem tanto ao mar...

O GLOBO - E a CPI, está otimista?

TOM - Essa CPI não vai dar em nada. Estão fazendo um show no Parlamento.

RÁPIDO, É O REI DO IMPROVISO - Seja pulando como a radical Maria Paula ou narrando um jogo como o bêbado João Canabrava, Tom Cavalcante não perde o rebolado. Humilde, agradece ao "padrinho" Chico Anysio a oportunidade de mostrar sua cara no vídeo. E não parece que seguirá os passos dos também talentosos Pedro Bismarck, o Nelson da Capitinga, e Cláudia Jimenez, a Dona Cacilda. Ambos deixaram a "Escolinha" por falta de espaço para crescer profissionalmente. Queriam algo mais do que as quatro paredes da sala de aula do professor Raimundo. Tom é paciente.

- A "Escolinha" é um trampolim de comediantes e parece que o Tom está sabendo administrar bem sua carreira. O Brasil tem cinco milhões de contadores de piadas de botequim, e ele é a personificação disso. E engraçado, competente, e veio para renovar o mercado. A novidade ele - diz Cláudio Paiva, ex-redator do "TV Pirata" e do "Programa legal".

Para Cininha de Paula, atual diretora da "Escolinha", Tom mistura três elementos importantes: a imitação, a composição do personagem e a música. Tem um vozeirão digno de um Fagner ou de uma Adriana Calcanhoto. E, como já disse Bussunda, ele consegue passar de um personagem a outro com a maior rapidez.

- Tom é versátil, improvisa muito, é tudo o que um humorista tem de ser. Não existe o humor moderno, mas o humor engraçado e o sem graça. Ele está no caminho certo. Além disso, gostamos muito dele como pessoa -afirma Eliezer Mota, o Batista, que senta ao lado de Tom na "Escolinha".

Segundo a mulher Zélia, Tom também leva seu bom humor para dentro de casa. Mas como ninguém é perfeito, há dias em que levanta com a macaca:

- Não dá para ficar bem-humorado todo dia, mas ele é muito brincalhão. Rola no chão com os filhos, cai na gargalhada... E apesar do sucesso, continua o mesmo de sempre. Anteontem fomos almoçar num barzinho só de caminhoneiros. A gente se identifica. Não adianta viver enclausurado mesmo - diz Zélia. E Tom sabe disso.

1986 - Morre Flávio Cavalcanti

Revista: Afinal
Data de Publicação: 3/6/1986
Autor: Dirceu Soares
DIZIA ''SOU QUADRADO''.
A morte de um homem polêmico: Flávio Cavalcanti



"Nunca fiz nada escondido: sempre declarei meus atos e minhas opiniões publicamente pela televisão ou em entrevista à imprensa.'' Talvez por isso mesmo, Flávio Cavalcanti, morto do coração na segunda-feira, 26, em São Paulo, foi o mais polêmico de todos os apresentadores de programas da televisão brasileira.

Eis algumas de suas opiniões, ao longo de sua carreira: "Sou tão quadrado, tão conservador, que continuo achando que o homem tem que cantar como homem e a mulher como mulher; que me desculpem Ney Matogrosso, Maria Bethânia ou a Simone". Sobre a censura: "A censura é indispensável e se ela decreta, por exemplo, que o Dener é prejudicial, eu me curvo, mesmo achando que ele é uma criatura maravilhosa''. Sobre política: "Sou apolítico até onde se pode ser; sei que há comunistas fabulosos e democratas pavorosos". Sobre o golpe militar de 1964: "Eu ajudei a fazer a Revolução, mas depois vi que ela tinha pifado''. Sobre os comentários de que era dedo-duro: "Nunca ninguém me fez tal acusação, nem mesmo o Antônio Maria, que sempre me criticava, nem mesmo os maiores esquerdistas; o que fiz, fiz às claras, dizendo diante das câmaras que a imprensa estava minada de comunistas. Mas nunca fui ao DOPS ou ao SNI denunciar ninguém".

QUEBRANDO DISCOS - Grande parte de suas discussões foi sobre a música popular. Nos seus primeiros programas de televisão, quebrava no palco os discos que achava ruins. Quebrava e pisava em cima. Crítico musical antes mesmo de se tornar apresentador de TV (trabalhou no jornal A Manhã e na Rádio Mayrink Veiga, do Rio de Janeiro), fazia severas restrições a Ary Barroso: "Ele nunca foi um bom letrista; imaginem alguém escrever coqueiro que dá coco! Será que coqueiro dá banana, abacaxi?" Justificando seu mau humor com certos compositores, argumentava: "Eu nunca encontrei nada de ruim em Chico Buarque, Dolores Duran ou Noel Rosa". Ele se orgulhava de ter lançado, em seus programas, os cantores Simonal, Taiguara, Emílio Santiago e Alcione. Foi também grande amigo e incentivador da cantora e compositora Dolores Duran. E, vez ou outra, era letrista. Um de seus sambas-canções fez sucesso - Manias - e tornou-se um dos clássicos da MPB,

Filho de um professor de medicina da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, o menino Flávio, no entanto, não queria nada mais com os estudos. Foi expulso de várias escolas, até que o pai resolveu interná-lo em um colégio de padres do Verbo Divino. Os padres, então, tentaram tratá-lo de modo diferente; ao invés de repreensões, deram-lhe um apito e a tarefa de convocar os 600 colegas nas horas das refeições. Flávio sentia-se uma autoridade.

Em seus programas de televisão costumava manter um ar professoral, permanecendo de pé atrás de uma tribuna. Entre gestos nervosos de retirar e recolocar seus óculos, costumava fazer discursos dramáticos. Uma das idéias que defendia: a criação de colônias penais na Amazônia. E argumentava: "Esses assassinos e ladrões têm é que trabalhar, ao invés de ficar tomando banho de sol o dia inteiro. Eles seriam pagos pelo trabalho, mas o dinheiro não seria entregue a eles e sim às famílias de suas vítimas".

SENSACIONALISMO - Flávio entrou para a televisão em 1953, substituindo o colunista social Jacinto de Thormes em um programa de entrevistas, na antiga TV Tupi do Rio. Posteriormente passou a ter o seu próprio programa, que ao longo dos anos teve os títulos de Noite de Gala, A Grande Chance, Um Instante Maestro, Boa Noite Brasil e, finalmente, Programa Flávio Cavalcanti. Foi ele o primeiro animador a criar um corpo de jurados em um programa de televisão. Mudou de emissoras, passando da Tupi para a Bandeirantes e o SBT, sempre com brigas e estardalhaços amplamente divulgados pelos jornais. Para animar seus programas, usava com freqüência o jornalismo sensacionalista. Por causa disso, em 1973, durante o governo Medici, a censura o suspendeu da televisão durante 60 dias. Na época, Flávio apresentava uma curandeira chamada Mãe Cecília, fazendo desfilar um enorme grupo de pessoas que se diziam curadas por ela. Houve também a gravação de um depoimento de um suicida, que teria sido feita pouco antes de ele morrer; dias depois, descobriu-se que tudo aquilo era falso. Mas a gota d'água, para os censores, foi uma reportagem de um caboclo que, impotente, arranjou um vizinho para manter relações sexuais com sua mulher.

Na quinta-feira, 22, Flávio Cavalcanti sentiu-se mal durante a apresentação de seu programa nos estúdios da SBT, emissora de Sílvio Santos, na Vila Guilherme, em São Paulo. Pouco depois foi internado no Hospital Unicor com problemas de coronária. Uma parada cardíaca matou-o quatro dias depois. Foi sepultado em Petrópolis, onde residia, deixando sua mulher, Belinha, e três filhos, Júnior, Fernanda e Márcia.





Sunday, January 13, 2013

1976 - Barbara Walters: Primeira Mulher-Âncora nos EUA

Jornal do Brasil


Data de Publicação: 24/10/1976

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''ANCHORMEN'', A ESCOLA EM QUE WALTERS NUNCA ENTROU



Os estilos sofrem variações, mas ligeiras: quase que por definição, o anchorman da TV americana é mais do que o simples locutor do telejornal. São "verdadeiros serviços públicos", como disse um crítico. O que eles são, mesmo, é: senhores grisalhos, oriundos da imprensa de jornal, feios, bem informados e garantias de audiência para a TV em 42 milhões de residências norte-americanas na hora do jantar. São a base de um ritual que não muda há 30 anos. Suas imagens dão à TV a aparência de ser séria e verdadeira, no início da noite. Para eles, com a notícia não se brinca. Bem diferentes de Barbara Walters, que será a primeira apresentadora feminina de um telejornal em horário nobre nas redes de TV americanas. Ela estará co-apresentando o ABC News, com Harry Reasoner, que parece não estar gostando da sua nova companheira, com quem aparecerá, pela primeira vez, nesta semana. Walters fez sua carreira no programa matinal Today, na NBC, onde fazia entrevistas importantes, mas, ao mesmo tempo, se dedicava a pautas consideradas leves, voltadas ao público feminino. Walter será a mais bem paga apresentadora de telejornais, com 1 milhão de dólares por mês. Mas um motivo de controvérsia, considerando-se o peso pesado dos outros âncora de telejornal americanos.



WALTER CRONKITE (CBS)



Uma pesquisa de opinião entre os norte-americanos, há alguns anos, indicou que a pessoa em quem mais confiavam no país era Walter Cronkite, apresentador do telejornal da cadeia CBS. Com 59 anos de idade e quase 40 de experiência no jornalismo (foi correspondente de guerra da UPI), Cronkite tem hoje o noticiário de maior audiência da TV americana.



Um rosto sóbrio e envelhecido: voz pausada e às vezes rouca, devido a um problema de laringe, Cronkite jamais ganharia um concurso de locução e muito menos um de fotogenia. É um defensor rígido do telejornalismo voltado para a informação e não hesita em criticar as emissoras preocupadas com "o lado cosmético do telejornal" - muito filme, gráficos em excesso, ação, repórteres jovens e bonitos, mas indiferentes à informação prestada ao telespectador.



Cronkite não é apenas um apresentador de notícias. Ele ajuda a editar o telejornal redige parte das notícias. Nas apresentações ao vivo (convenções nacionais dos partidos, festividades do Bicentenário, assassinatos de lideres nacionais, viagem à Lua), Cronkite cumpre a função que os americanos sonham num anchorman. Sentado no estúdio, com monitores ao lado, ele coordena o trabalho dos repórteres através do país, trazendo-os ao ar nos momentos certos, inserindo perguntas ao vivo nas apresentações, esclarecendo o telespectador sobre os pontos obscuros.



No primeiro debate de Ford e Carter deste ano, quando uma falha técnica criou um silêncio embaraçante na transmissão, Cronkite entrou no ar de improviso e, de memória, sem ler anotações, fez um resumo dos principais pontos discutidos até aquele momento, ao mesmo tempo em que orientava seus repórteres, no ar, para verificarem o que tinha ocorrido. De cada entrevista, recheada de retórica eleitoral a favor de um dos candidatos, Cronkite filtrava o essencial, identificando as ligações partidárias dos vários entrevistados.



Paul Klein, ex-pesquisador de audiência da CBS, acha que os telespectadores admiram em Cronkite sua linguagem racional, que serve como refúgio de sanidade, diante das notícias freqüentemente assustadoras no vídeo.



A única vez em que Cronkite deixou trair um emocionalismo na cobertura foi durante a primeira viagem do homem à Lua. Ao subir o foguete de Cabo Kennedy, o jornalista se permitiu desabafar, com entusiasmo: "Go, baby, go!" Fora disso, ele insiste em apresentar, sem variações de entonação ou expressões faciais, as notícias do dia, do trágico ao cômico, convencido de que "o jornalista não tem direito de privar o público de saber dos fatos".



"Não devemos nunca considerar as conseqüências de nossa informação sobre o público ou sobre nós mesmos" - disse ele, recentemente - "o que devemos fazer é nos certificarmos de que os fatos são apresentados de maneira correta. Não devemos decidir o que é bom ou mau para o povo, não importa quem seja este povo. No momento em que fizermos este julgamento moral, o jornalismo livre estará acabado, porque então terá sido negada ao povo a informação que uma democracia exige para sobreviver".



ERIC SEVAREID (CBS)



Os congressistas e políticos entram e saem, mas Eric Sevareid, comentarista da cadeia CBS, permanece, há mais de 30 anos, com seus exórdios e prédicas de três minutos, ao fim dos noticiários. Sevareid domina a câmera com o seu queixo proeminente, todo arrumado e preparado pelos maquiladores da televisão: e suas opiniões firmes são um balanço de prós e contras, um equilíbrio que ilustra e comenta sem opinar definitivamente. A única opinião formada de Sevareid é defender a liberdade de imprensa.



Sevareid, tal como Harry Smith, da ABC, não é um anchorman, ou seja, não apresenta os noticiários, embora compartilhe com Cronkite, Reasoner e Chancellor do mesmo passado de repórter e correspondente de guerra. Seus são os três minutos finais do noticiário noturno da CBS - o comentário político.



Mais de 60 milhões de pessoas escutam Sevareid quase todas as noites. Seu potencial de persuasão suplanta em muito o de quase todos os senadores e funcionários públicos norte-americanos.



Um texto dele próprio, escrito em 1970, em reação à proposta de Spiro Agnew de que os comentaristas de televisão fossem examinados pelo Governo sobre suas ideologias, dá a medida de seu pensamento. Naquela noite, Sevareid disse no noticiário da CBS: "O Sr Agnew quer saber qual é nossa posição. Estamos bem aqui, sob os holofotes, em posição desvantajosa em relação aos políticos. Não podemos dar um voto numa comissão e um voto oposto no plenário - não podemos dizer uma coisa no Norte e outra no Sul. Não temos um mandato de quatro anos: podemos ser afastados com uma simples troca de canal."



"Não podemos, insultar ninguém, nem ridicularizá-los, não podemos nem sonhar em contestar patriotismo de cidadãos importantes, ou reduzir cada questão complexa a sim ou não, preto ou branco. E preferiríamos ir para cadeia a agredir o idioma inglês. Não podemos apoiar um ou outro lado de cada questão pública controversa, porque estamos tentando explicar mais do que defender, e porque algumas questões não têm dois lados: têm três, quatro, meia dúzia e nestes casos, duvidamos que saibamos a resposta certa. Este pode ser o motivo pelo qual muitos de nós mostramo-nos um pouco exaustos, enquanto o Sr Agnew parece tão sereno."



"Nenhum de nós acredita que a verdade total sobre alguma coisa esteja contida em alguma exposição ou comentário, mas que emergirá através da informação e discussão livres, como Walter Lippman colocou. O ponto central a respeito de uma imprensa livre não é o fato de que ela seja precisa - embora deva tentar sê-lo - nem mesmo que seja justa - embora deva tentar sê-lo - mas que seja livre. E isto significa liberdade para se defender de qualquer poder governamental que tente coagi-la, intimidá-la ou policiá-la."



DAVID BRINKLEY E JOHN CHANCELOR (NBC)



A dupla Chet Huntley-David Brinkley chegou a ficar tão conhecida do público americano quanto o Gordo e o Magro. Apresentadores do noticiário nobre da cadeia NBC durante 12 anos, eles mantiveram, na década de 60, a liderança na audiência do telejornalismo americano, mais tarde conquistada pela CBS.



Em 1970, a dupla se separou amigavelmente. Huntley se aposentou e Brinkley ficou no ar durante algum tempo, acabando por abandonar o telejornal noturno, e se limitando a comentários esporádicos. Pouco depois, Huntley morreria, e Brinkley foi regressando à sua antiga função. Até que, depois de comentar as prévias eleitorais deste ano, acabou recontratado para apresentar o telejornal noturno da NBC, juntamente com John Chancellor.



A nova dupla cobriu não só as prévias, mas também as duas convenções nacionais deste ano, tradicionalmente um desafio para o telejornalismo americano, pois os acontecimentos, nem sempre claros, se desenrolam com muita rapidez e devem ser cobertos ao vivo. Como se estas dificuldades não fossem suficientes, existem ainda mais duas redes concorrentes fazendo o mesmo trabalho, em disputa de melhor resultado, maior audiência, anúncios mais caros, lucros mais gordos.



Como muitos de sua geração, Brinkley chegou à televisão a partir do jornalismo gráfico. Foi repórter na Carolina do Norte, onde nasceu em 1920, e passou dois anos na UPI, encarregado do chamado radio-wire: reescrevia os telegramas tradicionais de noticias, usando uma linguagem mais apropriada ao rádio.



Aos poucos, Brinkley decidiu que tinha um talento especial para escrever para o ouvido e não para os olhos. Em 1943, foi contratado pela NBC, onde, durante vários anos, além de redigir notícias e scripts para locutores, cobriu Washington como repórter. Foi progredindo na emissora até que, em 1956, durante as convenções nacionais partidárias, acabou se juntando a Chet Huntley, formando assim a dupla de tanta popularidade.



Mesmo depois de se transformar em estrela do vídeo, Brinkley não parou de redigir os textos que ele próprio apresentava no ar. Não só porque participava do processo editorial de decidir o que constituía notícias no dia-a-dia, mas também porque seu texto era simples, direto e coloquial, desvinculado dos vícios do jornalês.



Apresentador do telejornal da NBC desde 1970, (quando a dupla Huntley-Brinkley se desfez), John Chancellor, hoje com 49 anos, chegou a esta posição com um número considerável de credenciais. Começou no jornalismo em sua cidade natal, Chicago, trabalhando para o Sun Times. Foi demitido em 1950, numa das febres de "contenção de despesas" que assolam jornais periodicamente, e obteve uma posição temporária como redator da NBC.



Acabou contratado por tempo integral, e se viu nas ruas cobrindo incêndios e perseguindo criminosos. Trabalhava para à divisão de radio-jornalismo. tinha seu próprio carro, com equipamento para controlar as comunicações da policia (processo legal até hoje nos Estados Unidos), e muitas vezes chegava à cena do prime antes das autoridades.



Entre as atuações mais conhecidas de Chancellor está a cobertura dos conflitos de integração racial em Arkansas, em 1957, quando a Guarda Nacional foi convocada para garantir a entrada de estudantes negros nas escolas, contra a vontade do Governador do Estado.



Em novembro de 1960, ganhou reputação de "homem de ferro", ao comandar ao vivo a cobertura do discurso de vitória de John Kennedy, recém-eleito Presidente. Kennedy se atrasou para a cerimônia, e Chancellor foi deixado no ar durante hora e meia, sozinho.



Na Convenção Republicana de 1964, foi retirado à força do plenário por um encarregado de segurança. "É muito difícil manter uma postura de dignidade num momento como este" - disse ele de improviso, no ar. Enquanto desaparecia da tela, encerrou a transmissão: "Aqui John Chancellor, preso em algum. lugar".



Com mais de 25 anos na NBC, Chancellor já cobriu seis campanhas presidenciais e foi chefe de sucursais em Viena, Londres, Moscou, Bruxelas e Berlim. Em 1961, achou que o trabalho excessivo o estava impedindo de ler e se informar melhor: tirou uma licença e passou oito meses em seu apartamento, recuperando o que tinha deixado de ler em livros. Entre 1965 e 1967, chefiou A Voz da América.



Como a maioria de seus colegas nos telejornais das redes nacionais, Chancellor não se satisfaz com a simples leitura do material, tomando parte também na edição e redação do noticiário. Embora reconheça que 22 minutos de notícias por noite (meia hora, menos comerciais) não sejam suficientes para informar um público que não leia jornais, revistas e livros, Chancellor discorda dos críticos que não vêem importância num telejornal.



"É verdade que um script nosso só ocupa um trecho da primeira página do The New York Times. mas esta analogia é falsa, pois o Times não pode mostrar Richard Nixon empurrando seu assessor de imprensa, nem pode mostrar gotas de suor escorrendo de um rosto no vídeo".



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