Thursday, December 27, 2012

1981 - Crianças-Celebridade

Jornal do Brasil


Data de Publicação: 1/1/1981


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OS FILHOS PROBLEMA DA FAMÍLIA TV



Provavelmente muitos deles já estão condenados pela máquina a serem psicologicamente crianças-adulto para sempre. Ou fisicamente, como Ferrugem aos 11 anos tem tamanho de seis e gasta tudo o que ganha na TV para vencer um distúrbio da hipófise que atrapalha seu crescimento



Crescer sempre foi o grande problema dos meninos prodígios do cinema e da televisão. Hollywood, por exemplo, nunca soube muito bem o que fazer com Mickey Rooney quando ele começou a ter de se barbear duas vezes por dia. E Judy Garland era constantemente multada pela Metro por se apresentar de ressaca para a filmagem, embora tivesse apenas 14 anos. A carreira de Shirley Temple começou a declinar quando o estúdio se deu conta de que seus cachos não estavam combinando com o busto que insistia em emergir. No fundo, o problema do cinema não foi exatamente o de que seus meninos prodígios cresciam - a idade mental dos espectadores é que estava crescendo. Em meados dos anos 30, ninguém mais seria capaz de admitir Mary Pickford - mãe de família várias vezes - interpretando Pollyanna.



Seja como for, o menino Luís Alves Pereira Neto, conhecido no Brasil inteiro pelo apelido de Ferrugem, provavelmente nunca terá esse problema: aos 11 anos, sua altura não ultrapassa a de uma criança normal de seis - e tudo indica que ele não crescerá muito mais, devido a um distúrbio em sua glândula hipófise. Assim, enquanto tamanho for documento para seu estrelato infantil, Ferrugem terá futuro assegurado na televisão.



Claro que, para seus pais, a carreira artística de Ferrugem é, por enquanto, um acidente. Na realidade, só querem que ele cresça, e quanto mais depressa melhor. D Maura, sua mãe e agente, explica:



Já não sei o que fazer. Ferrugem fez um tratamento, mas cresceu muito pouco. Agora precisamos comprar um remédio sueco que custa Cr$ 1 mil a ampola, num total de 10 por mês. Como ele ganha apenas Cr$ 5 mil na TV Tupi, tem de se defender trabalhando em comerciais. Se não, o dinheiro não daria nem para o tratamento.



Isto, de certa forma, abala bastante a idéia de que a vida de um miniastro é um sonho dourado, trabalhando em pé de igualdade com os grandes ídolos da televisão e ele próprio convertendo-se, aos poucos, também num ídolo. A carreira de Ferrugem nunca chegou a ser fácil. Morando com sua família em Barretos, a 450 quilômetros de São Paulo, foi descoberto pelo produtor Lúcio Mauro e convidado a trabalhar em Gente Inocente. Durante um ano Ferrugem dividiu-se entre São Paulo e Barretos, para trabalhar e estudar, acabando por não fazer direito nem uma coisa, nem outra. Finalmente sua família mudou-se para São Paulo, indo morar na Lapa (um bairro tradicionalmente de operários), o que pelo menos poupou-o das idas e vindas.



Há algum tempo, Ferrugem saiu do Gente Inocente, passando a aparecer em Domingo É Dia de Graça, ao lado de Costinha. Ás vezes grava oito horas por dia na TV Tupi, ao vivo, ouvindo toda espécie de desaforos que os produtores dirigem ao auditório, pedindo silêncio. Ferrugem sempre sabe suas falas de cor, porque, segundo sua mãe, não gosta de usar o ponto na orelha - um aparelhinho que dá as deixas para a entrada em cena e que hoje substitui o antigo ponto do teatro, encerrado numa caixa. (Costinha, por exemplo, não consegue decorar seus textos. Apesar disso, os dois se dão bem, e há pouco fizeram um filme juntos, Costinha e o King Monk, a estrear em junho.)



Ferrugem tem oito irmãos. Seu dia é passado em cima de scripts e dos deveres do Colégio Campos Sales, em São Paulo. "As aulas em primeiro lugar", diz. D Maura acrescenta que ele é "um garoto responsável e aplicado." Mas, com todo o seu sucesso, Ferrugem não se sente satisfeito: o que gostaria mesmo é de morar no Rio, para ir à praia e - embora corintiano de coração - ver o Flamengo (seu time favorito) jogar. Seu prato favorito é macarrão com batata frita e ele tem rigorosa formação religiosa:



Nunca vi Nossa Senhora, mas deve ser parecida com minha irmã Marisa.



Em novela, criança e bicho são indispensáveis. Se possível, reúna os dois", diz Gilberto Garcia, que trabalha no Departamento de Elenco da TV Globo. Nos seus fichários contendo nomes, fotografias, idade, peso e habilidades de centenas de pessoas, há também inúmeras crianças que esperam por um contrato como atores. Por coincidência, seus três filhos foram alguns dos contemplados:



Rosana, Isabela e Ricardo são extremamente profissionais na hora das gravações. Fora da televisão, são crianças normais. Encaram o trabalho apenas como diversão. E faço questão de que estejam na cama às nove da noite.



Rosana, a Narizinho do Sítio do Pica-Pau Amarelo, está longe de ser estreante. Aos cinco anos trabalhou com Sérgio Cardoso em O Primeiro Amor. Agora tem 12 e muito mais experiência. Até já sabe o que não quer:



Quando crescer não pretendo ser atriz e sim psicóloga infantil, porque adoro crianças. Mas fico contente quando gostam do meu trabalho. No começo faziam muitas perguntas, mas agora já estou acostumada.



No Parque Lage, onde são gravadas as externas do Sítio, Rosana tem de descobrir tempo para fazer alguns dos deveres da escola. Ma começa, é chamada pelo diretor Geraldo Casé e tem de entrar nova mente em cena com Pedrinho e com c Marquês de Rabicó, um leitãozinho que reluta em comer as jabuticabas indispensáveis ao quadro. Distraída, Narizinho esquece o texto, e Casé já nervoso com o atraso, berra:



- Você é macaca velha, Rosana. Não pode esquecer nada!



Longe dali, sua irmã Isabela explica a personagem que representará na próxima novela das 10 - A la Garçonne - e que trará uma mudança radical na sua tumultuada vida de miniartista: passará a deitar-se quase às 11, depois de ter assistido aos capítulos que terá gravado algumas semanas antes:



Vou fazer uma menina chamada Isadora, de sete ou oito anos, que perdeu a mãe quando ainda era muito pequena. O pai dela, prof. Frazão, dá aulas de dança. A história se passa nos anos 20 ou 30, não sei bem, acho que é isso. Aliás, eu só recebi o primeiro capítulo. Ainda não conheço o script completo.



Atualmente, Isabela vai à escola de manhã e depois participa (com seus colegas mais velhos) das reuniões de elenco que antecedem as primeiras tomadas. Não perde uma só palavra e não tira os olhos de Maria Fernanda, que também está na novela:



Maria Fernanda é muito inteligente e imito tudo que ela faz. Se ela ri, eu também rio, porque assim finjo que estou entendendo tudo e não passo por boba.



Mais tarde, Isabela acompanha com sua mãe e a irmã as gravações do Sítio do Pica-Pau Amarelo e, antes do jantar repassa com seu pai os textos a serem decorados para as filmagens de A la Garçonne. Só então Isabela está livre para fazer o que quiser. E o que ela mais gosta de fazer, naturalmente, é ver televisão.



Chegar à posição de Isabela é hoje o sonho de muitas crianças brasileiras. As vezes é apenas o sonho dos pais, que inscrevem os seus prodigiosos filhos nos pesados catálogos de candidatos a artistas de TV. Os mais velhos pensam que ali pode estar a garantia para o futuro de seus filhos. Mas estes, quase sempre, encaram a coisa apenas como uma brincadeira divertida.



- Na época em que fazia O Feijão e o Sonho, diz Márcio Bernstein, de 12 anos - tinha muita garota que dava em cima de mim. Na escola só me chamavam de Edgar, que era o nome do meu personagem. Mas foi bom. Naquele tempo, ganhava Cr$ 2 mil 600 por mês e emprestava uma parte para minha mãe. Cheguei até a comprar uma bicicleta, daquelas bacanas, com 10 marchas. Hoje só estou aceitando propostas de trabalho se não atrapalharem minhas provas na escola.



Depois de gravar alguns capítulos da censurada Despedida de Casado, onde fazia o papel de filho de Regina Duarte e Antônio Fagundes ("menino bagunceiro, filho de pais separados"), Márcio impõe agora certas condições para aceitar personagens:



- Se for muito cansativo, não faço mesmo. Também não quero fazer papel de gente besta. E, de mulherzinha, não faço de jeito nenhum.



A mesma sinopse do personagem que Márcio exige, para saber se aceitará ou não o papel, é também enviada ao Juizado de Menores. Gilberto Garcia explica como isso é feito:



-Junto ao pedido de autorização, enviamos o perfil do personagem e normalmente não há cortes. Todas as crianças são obrigadas a comprovar que estudam e seus horários são limitados. A produção faz a divisão de maneira a que nenhuma criança fique nos estúdios depois das 19 horas. Elas vêm aqui e tiram as medidas para suas roupas, exatamente como os adultos. Todos os atores têm guarda-roupa próprio, mesmo que a novela não seja de época. Também tomam parte nas reuniões e devem ser acompanhadas por responsáveis até o local da gravação. E no contrato está estipulado que deverão trabalhar durante seis meses, embora o personagem possa ser esticado para mais quatro meses.



Carlinhos Poyart é o Téo de Duas Vidas, filho de Bete Faria e Francisco Cuoco. Mas quem cuida de sua carreira e o leva diariamente aos estúdios da Usina é a sua mãe na vida real, D Inês:



- Foi tudo muito natural. Moro perto da Ruth de Sousa, que é atriz, e tentei saber quais eram as possibilidades de Carlinhos. Depois, perguntei a ele se gostaria de trabalhar. Quando fez o teste final, junto a outras crianças, a Bete o escolheu logo. Era o que tinha maior sensibilidade. Os dois têm-se dado muito bem. A vida de artista não está atrapalhando em nada o dia-a-dia de Carlinhos. Acho que foi até muito bom porque, aos oito anos, ele desenvolveu um enorme senso de responsabilidade.



Carlinhos também está vibrando: - Gosto de ser ator, e acho que vou continuar sendo quando crescer. No princípio não foi muito legal. Minha mãe me botou para fazer o teste e acharam que eu era o melhor, mas foi meio chato porque os outros meninos ficaram dizendo que eu era sortudo. Agora dizem que tenho talento. Não sei bem o que é isso, mas devo ter. Afinal, não é qualquer um que entra aqui. Lá na escola, os outros dizem que gostariam de ser eu. Não sabem como essa vida é sacrificada!



O próprio Carlinhos se surpreende com sua loquacidade:



Eu acho gozado, assim, sei lá, eu ficar batendo papo. Mas é bom, porque, se eu falo errado, não tem importância, não é? Não estou sendo adulto, estou? Criança fala assim mesmo. Meu signo é Touro. No colégio, não sou o melhor aluno, mas tenho amigos até no ginásio. Tem até um lá que me defende. Hoje não brigo tanto, mas antigamente era muito folgado e apanhava pra valer. Eu era um chato. Agora todos gostam de mim.



Gisela Carneiro não tem muito tempo para conversar. Aos 10 anos, sua preocupação maior é a de que as gravações de As Loco Motivas acabem logo, para que possa ter umas férias. Em sua pasta carrega apenas o material da novela - roteiro para mais uma semana de trabalho que terá de decorar em casa.



Não vejo televisão, não tenho tempo. Fico lendo o script de manhã à noite e só paro para filmar. Por isso quase não dá para estudar. Que trabalho cansativo!



E Gisela pede licença porque o diretor ("Ele é muito legal"! quer fazer as últimas cenas da manhã. A troca de roupa é rápida e ela reaparece de biquíni e camiseta, pois a próxima locação será num clube da Barra da Tijuca. Mais uma cena e Gisela sai correndo. Recebe as últimas instruções pára a cena da tarde e sai apressada, porque sua babá está lá fora, esperando para levá-la ao colégio.



Com os Cr$ 500 que recebe por dia de trabalho, Gisela já comprou um anel, uma pulseira e um relógio. Só lamenta ainda não ter recebido nenhuma carta de fã.



Não sei o que pensam de mim. Ela diz ansiosa - mas sou uma estrela. Ou não sou?



Hoje, aos 22 anos e com uma filha de três, Elisângela - o grande exemplo da criança que cresceu artista - divide com Míriam Fisher e Gisela Carneiro o sucesso de As Loco Motivas junto ao público infantil. Diz ela:



Prodígio, nunca fui. O que eu tinha era murta "Sensibilidade. Mas não imaginava que ficaria na profissão por tanto tempo. Comecei aos sete anos, fazendo um programa para adultos, e achei que aquilo tudo fazia parte de mim. Mas só na adolescência comecei a perceber o que realmente estava fazendo e tive estrutura para sustentar-me. Para os que estão começando, eu diria que nunca esquecessem o lado infantil. Ganhei muita noção de responsabilidade, mas perdi a infância e custei a perceber isso. Fui adulta demais.



Pelo menos por enquanto, Júlio César, de 12 anos, não tem nenhuma queixa de sua vida profissional. Depois de ser filho de Tarcísio Meira em várias novelas, o atual Pedrinho do Sitio do Pica-Pau Amarelo não dá entrevistas durante o almoço, não diz quanto ganha e não erra suas falas:



- Não me considero muito adulto para minha idade. O que interessa é que estou trabalhando. Todos dizem que sou minigênio, mas o que eles não sabem é que vou me aposentar muito mais cedo do que pensam.



Nas gravações do Sítio, Narizinho pergunta:



Você não acha que a gente devia continuar brincando de faz-dei conta?



Ao que Pedrinho responde:



- Acho que fiz de conta errado!



Narizinho deixa a cena. Desta vez para retocar a maquilagem, um problema de fácil solução. Nenhum deles sente o drama de Ferrugem, condenado a ser criança, mas com todas as responsabilidades de um adulto, sem poder crescer o bastante para se defender de gente, quase sempre, muito pouco inocente.



UM SACI PERERÊ DE VERDADE - Da Vila América, em Salvador, para o Sitio do Pica Pau Amarelo, em Guaratiba, a vida de Genivaldo dos Santos transformou-se radicalmente. Aos 13 anos ele representa o Saci Pererê, um papel fácil para quem, com uma perna só, caminha, corre e joga bola sem qualquer ajuda.



A encarnação do mitológico personagem do folclore do Norte brasileiro foi muito natural para Genivaldo, que fuma tranqüilo seu pito e enverga o capuz vermelho com ar maroto.



"Não sei decorar o texto, mas acho que ainda vou aprender como é."



Seus espertos olhos pretos mexem-se rapidamente e Genivaldo prepara-se para atirar uma pedra em seu doublé, Romeu Evaristo, ou no Tio Barnabé, também personagem do Sítio, com quem ele vive no camping da Barra da Tijuca.



"Quando é sábado pra domingo, os meninos vão ao camping e aí eu jogo bola. Não, caio não. Agora a praia que mais gosto de ir é a de Botafogo, porque lá o mar é mais calmo."



Enquanto alguém da produção interrompe para dizer que ele nunca esteve na praia de Botafogo, ele continua: "Só estive até agora no parque de diversões e outros lugares. Falta ainda o Pão de Açúcar, o Cristo, muita coisa.



Com a responsabilidade de comparecer às gravações da novela, Genivaldo sabe bem o que veio fazer no Rio: "Vim trabalhar. Mas vou começar a estudar também. Lá em Salvador, fazia o 3° primário. Era muito melhor, porque tinha amigos para brincar. E depois eu volto para Salvador, já estou com saudades!"



Romeu Evaristo diz as falas de Genivaldo, que segundo ele, "não tem expressão como ator, por isso me chamaram". Tendo participado da novela João da Silva, ele é operador de telecine na TVE à noite e estuda Comunicação de manhã. A tarde está gravando o Sítio: "Em termos de ator, estou realizado". E relembra alto as falas da gravação: "Pensei que isso fosse coisa do meu primo Curupira, que é tinhoso feito eu, mas que tem dois pés, só que virado para trás". E dá uma risada.



Como Curupira, Romeu tem duas pernas e pés, só que na posição normal, e ganha Cr$ 4 mil 800. Genivaldo não diz quanto ganha. Está mais preocupado em brincar, arrancando galhos das árvores em que sobe com a maior rapidez. Soltando fumaça, ele ri: "Vocês tão me abusando. Não vou falar mais nada."



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