Thursday, December 27, 2012

1975 - Diretor de Gabriela e o Perigo da TV

Amiga TV


Data de Publicação: 7/5/1975

Autora: Daisy Prétola


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AVANCINI: ''A TV ESTÁ FORA DA REALIDADE''



O diretor de Gabriela acha que ''é realmente perigoso o que os homens da televisão estão fazendo, seguindo definições que só vêem a realidade em nível urbano''



Como diretor de Gabriela, ele está entusiasmado, pois está trabalhando com uma novela inteiramente brasileira, ''inclusive a trilha sonora''. Mas Valter Avancini acha que o que a Globo está fazendo com Gabriela é apenas um primeiro passo, ''pois é necessário mudar toda a programação de TV, que está se deixando influenciar por conceitos sofisticados e apresentando uma realidade que não é nossa".



''É realmente perigoso o que os homens de TV estão fazendo. Eles estão seguindo definições que só vêem a realidade no nível urbano, Ora, a cultura urbana já é descaracterizada, porque não é nossa. É resultante de várias influências estrangeiras através da música, do cinema, do teatro e até mesmo da imprensa, Está se disseminando por todo o Brasil uma cultura importada. Adotamos uma linguagem que não é nossa. Podemos constatar isto em todas as formas de expressão artística. O público sente mais empatia por uma peça estrangeira do que por uma do Ariano Suassuna. Nós já começamos a rejeitar nossa própria imagem. Posso dar um exemplo que me envolve muito de perto: tenho dificuldade para compor uma cena de luta. O ator brasileiro aprende a lutar jiu-jitsu, caraté e kung-fu. Capoeira, que é nossa, ele não sabe. Sou obrigado a fazê-la nos moldes americanos. Isto me irrita!'*



Avancini enumera suas queixas contra os entendidos de televisão.



''Os críticos cobram da televisão um comportamento urbano. Eles estão por demais preocupados com McLuhan e pouco preocupados com a nossa realidade. Cada povo é um fenômeno à parte e isolado. Eles, os críticos, dão a terapêutica, sem o devido estudo do comportamento da grande massa brasileira. Precisamos nos conscientizar de que a nossa realidade é bem outra. Estive recentemente no interior baiano e tive a oportunidade de conviver com aquela gente de lá. Eles representam a grande maioria do público de TV. Vivem numa conjuntura completamente diferente da nossa, recebendo mensagens diárias que não se adaptam em absoluto às suas realidades. Eles são alijados das nossas atenções. E tudo isto por quê? Por que a crítica especializada está, cada dia mais, forçando os homens de TV a transformarem a televisão numa redundância de uma minoria. Informando, divertindo a quem menos precisa dela e que muitas vezes nem a assiste. Chega de modelos importados! A nossa nacionalização é importada. A maioria dos homens que estão ligados aos meios artísticos - rádio, cinema, teatro e TV - têm uma formação arraigada no "That's entertainment''. Foram fortemente influenciados na maneira de contar, apresentar; enfim em tudo."



"Estou lutando para que este estado atual de coisas tome um novo rumo. Expus meu ponto de vista aqui dentro da TV Globo. E um passo está sendo dado na novela Gabriela. Já a escolha do autor, Jorge Amado, nos impõe uma mudança. Não posso dizer que será um passo de gigante. Mudar toda uma estrutura ' assim de repente, é impossível. São setecentos minutos de gravação, por mês. Isto equivale a cinco filmes de longa-metragem. A trilha sonora que está a cargo de Guto Graça. Melo consta de duzentos mil metros de fitas gravadas exclusivamente com músicas brasileiras autênticas e que fazem parte do folclore brasileiro. Quanto a mim, estou procurando imprimir na novela toda a autenticidade que a obra requer.



Finalizando, Valter propõe:



- É necessário que se faça um trabalho lento de recuperação. Lento porque, como já disse, há um processo de rejeição muito violento por parte do público à sua própria imagem. Deverá ser feito um estudo muito profundo das estéticas e linguagens em todos os veículos de comunicação. Se preciso achar a linguagem comum à grande massa para aplicação correta de nossos valores. Chegaria a dizer até que se trata de "um caso de amor". A TV deve produzir programas experimentais. Não devemos rejeitar as inovações. Elas devem ser ministradas aos poucos. Seria um trabalho de laboratório. Posto em prática, restaria o bom-senso para saber se a experiência estava ou não alcançando seus objetívos. Eu daria uma definição para a TV brasileira atualmente: ''Somos pequenos burgueses brincando de fazer arte.''



ELE PODE FALAR - Quando fala da situação da TV brasileira, Válter Avancini se apóia numa experiência de 32 anos de vida artística, que começou em 1943, quando declamava poemas em programas infantis da Rádio Difusora de São Paulo. Ele é paulista, tem sobrenome italiano, mas sua bisavó era índia. E sua infância foi marcada pela influência de sua avó, Sabe, que quase não falava e só vivia cantando as canções indígenas que aprendera de sua mãe.



Essa influência marcou mesmo. ''Não posso me afastar de minhas raízes.'' Hoje Avancini já fez de tudo na TV, ''mas sempre produzindo e dirigindo histórias brasileiras''. Em teatro também: já foi premiado duas vezes como melhor diretor, é autor de algumas peças (que ele mesmo produziu) e foi ainda radio-ator, quando interpretava novelas de Oduvaldo Viana (pai).



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