Thursday, December 27, 2012

1971 - Abaixo-assinado contra a Baixaria na TV

Revista Intervalo


Data de Publicação: 2/9/1971


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SEU SETE FAZ O MILAGRE: A TV VAI MUDAR!



As emissoras de televisão já haviam decidido abolir o mundo-cão, quando surgiram os protestos contra a apresentação do famoso "guia" carioca



A luta por maiores índices de audiência levou Chacrinha e Flávio Cavalcanti a apresentarem, em seus programas, d. Cacilda, que se intitula Seu Sete (um exu de Umbanda), quando está em transe. A essa "entidade espiritual" foram atribuídas curas milagrosas, mas sua presença na TV provocou veementes protestos do público, das autoridades e uma inteligente atitude das próprias emissoras de televisão.



O dia 2 de setembro de 1971 vai ficar como uma data de importância fundamental no livro de ouro da TV brasileira. Aquele "algo de novo" que todo mundo estava esperando dos realizadores das programações está finalmente mais perto do que muitos imaginavam. Ao que parece, Seu Sete da Lira fez um bom milagre: "baixando", na frente das telecâmaras de Flávio Cavalcanti e Chacrinha, no corpo da umbandista Cacilda, provocou tamanha onda de protestos, de polêmicas e de reações, que nem foi necessária a intervenção da censura ou da policia federai para que os responsáveis pelas duas mais importantes redes de TV (Globo e Tupi) encontrassem inspiração para novos caminhos a seguir. A assinatura do protocolo redigido pelos diretores das duas redes, na tarde de quinta-feira, 2 de setembro, revela não somente a necessidade de mudar um estilo, mas também, e principalmente, a vontade de imprimir à nossa televisão um sentido mais responsável e mais positivo. É bastante significativo frisar que, enquanto o documento era redigido e assinado no Rio de Janeiro, a redatora de Intervalo em Brasília, Susana Veríssimo, em entrevista com o dr. Jeovah Cavalcante, chefe do Departamento de Censura Federal, ficava sabendo que "nada havia de oficial sobre o assunto - eventual intervenção da mesma censura - que tudo não passava de especulações dos jornais". O protocolo assinado pela Globo e pela Tupi não foi redigido, pois, em vista de ameaças ou sanções mais drásticas, mas revelou a espontânea atitude de homens de bom senso vitimas, eles mesmos, de tendências e de modas impostas pelo monstro sagrado do índice de audiência dos programas.



Lendo o texto do protocolo (que publicamos nestas páginas), surge espontânea uma pergunta: Flávio Cavalcanti, Chacrinha, Sílvio Santos, Cidinha Campos, Ayrton Rodrigues e todos os outros animadores de auditório acabaram de vez? Conhecendo a inteligência, a honestidade, a argúcia e a experiência destes profissionais do vídeo, a resposta não somente é negativa. mas das mais animadoras: eles mesmos, finalmente libertados de uma concorrência que os obrigava a lutar com as armas mais arriscadas do sensacionalismo, poderão encontrar um caminho novo na qualidade e na sobriedade, na elegância e no brilho de bons shows. O telespectador, vitima por sua vez desta batalha combatida à força de mórbidos recursos, vai finalmente poder escolher entre o bom e o medíocre, entre o Interessante e o inexpressivo: começa, pois, uma nova era em nossa TV, e o Código de Ética de Televisão Brasileira, que está para ser aprovado, vai somente confirmar uma nova filosofia que os mesmos responsáveis pela nossa TV quiseram adotar. Seu Sete da Lira, pois, fez o milagre. Talvez um ou outro dos apresentadores que ofereceram em seu programa o delirante espetáculo da macumbeira de cartola e charuto receba um puxão de orelha, mas depois tudo vai entrar na normalidade. Isto é, tudo entrará nos eixos, e a televisão sairá desta aventura mais adulta e mais vibrante.



O SHOW E SUAS CONSEQšÊNCIAS



O show oferecido por dona Cacilda de Assis e seu espirito Sete da Lira nos programas de Flávio Cavalcanti e de Chacrinha, no domingo dia 29 de agosto, provocou reações e comentários dos mais vivazes. A noticia de que os dois apresentadores teriam sido suspensos de suas atividades pela Censura Federal correu solta, assim como o boato de que nunca mais seriam produzidos programas de auditório. Horas antes da assinatura de um protocolo entre a Rede Globo e a Rede Tupi sobre a filosofia a seguir no futuro imediato, Abelardo "Chacrinha" Barbosa declarava ao nosso repórter: "Não recebi nenhuma informação oficial, mas se realmente a Censura Federal determinar que foi um erro ter levado o Seu Sete ao programa, estamos aqui para acatar o que ela determinar. Se a suspensão acontecer, eu aceitarei". No mesmo tempo, Flávio Cavalcanti, não chegando a esconder sua perplexidade ante a reação das autoridades religiosas, tentava defender seu ponto de vista afirmando: "Eu achei Seu Sete um assunto jornalístico muito bom, e não entendo toda essa gritaria: logo contra mim, um fiel servidor da Igreja e das Ligas Católicas há mais de dezessete anos." Quando Flávio soube que uma delegação da Liga das Senhoras Católicas do Rio tinha viajado para Brasília tentando encontrar o ministro das Comunicações, Hygino Corsetti para discutir o caso, enviou por sua vez dois telegramas para a Capital Federal - um para o mesmo ministro e outro para o chefe do Departamento de Censura Federal - em que se mostrava, ele mesmo, alarmado com a repercussão do fato, e lembrava que no "script" de seu programa de domingo, dia 29 de agosto, aprovado pela censura e pela direção da Rede Tupi, constava a presença de Seu Sete.



Enquanto as autoridades de Brasília, do Rio e de São Paulo, evidentemente preocupadas com o espetáculo de baixo nível oferecido nos dois shows, estudavam a possibilidade de medidas exemplares, os diretores das duas emissoras envolvidas no clamoroso episódio encontravam um inteligente entendimento para aproveitar o ensejo e enfrentar, de agora em diante, uma nova linha de produção mais responsável e menos sensacionalista. Nos bastidores de outras emissoras nacionais, que não chegaram a assinar o protocolo, a atmosfera era de alivio: "Se este negócio de 'mundo cão' vai acabar para todo mundo, sem perigo de concorrência, vai ser bom para nós também, obrigados fatalmente a entrar nessa corrida para manter nosso Ibope". E comentava-se, na manhã de sexta-feira, com extremo interesse e bastante simpatia, uma noticia que acabava de chegar de Buenos Aires. Aqui, o presidente da Argentina, general Lanusse, havia resolvido - por decreto - proibir a divulgação dos índices de audiência do Ibope local, para evitar uma desenfreada concorrência entre as emissoras daquele pais, a qual estava ameaçando não somente a boa qualidade dos programas, mas também a estabilidade econômica das mesmas emissoras, obrigadas a esforços impossíveis para manter ou ganhar um pontinho a mais no termômetro de uma efêmera popularidade.



Nos meios religiosos, o caso do Seu Sete foi amplamente comentado. Em São Paulo, a Liga das Senhoras Católicas manteve uma atitude de austero silêncio, limitando-se a dizer, por meio de sua vice-presidente, dona Rute Matos Barreto: "Nossa finalidade é filantrópica, não estamos aqui para dar opiniões sobre programas de televisão". Por outro lado, o Vicariato do Rio de Janeiro dedicou em sua reunião semanal boa parte da pauta à aparição de Seu Sete da Lira na TV, afirmando: "A Igreja Católica respeita a fé verdadeira, de qualquer religião, mas condena demonstrações públicas como aquela ridícula do Seu Sete na televisão". Na opinião de D. Ivo Lorscheiter, Secretário Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a apresentação do "guia" na TV pode até ter sua justificação, quando se pensa em homens simples e sem necessária bagagem cultural que buscam um certo conforto em fontes que o mesmo padre não teve medo de qualificar de "pseudo religiosas".



Finalmente, bastante liberal foi a atitude da Federação Espirita do Brasil, que disse através de seu presidente , Armando Oliveira de Assis: "A organização não tem direito de julgar ninguém. Todos são absolutamente livres para fazer o que quiserem".



AS PRÓPRIAS EMISSORAS JÁ HAVIAM REAGIDO



Quando os boatos de que seriam proibidos os programas ao vivo ganhava as ruas, as direções das Redes Globo e Associadas já haviam decidido assinar um protocolo de autocensura de suas programações, cujo texto é o seguinte:



"As direções da Rede Globo de Televisão e da Rede Associada de Televisão decidiram redigir e assinar o seguinte protocolo, a partir desta data:



1 - Fica expressamente proibido: a) Apresentar, em qualquer programa e sob qualquer pretexto, pessoas portadoras de deformações físicas, mentais ou morais; b) Apresentar quadros, fatos ou pessoas que sirvam para explorar a crendice ou incitar a superstição, bem como falsos médicos, curandeiros, ou qualquer tipo de charlatanismo; c) Apresentar, de forma sensacionalista, ou vulgar, te mas de ordem cientifica; d) Provocar ou permitir polêmicas, falsas ou verdadeiras, entre profissionais de diferentes emissoras de tevê; e) Promover a apresentação de quadros ou concursos, com ou sem prêmios, nos quais se explore, sob qualquer forma ou pretexto, a miséria, a desgraça, a degradação e a tragédia humanas; f) Promover concursos que tenham por objetivo a escolha e premiação de animais, salvo em números circenses ou quando se refiram à competições legalmente reconhecidas e dentro das condições aceitas pela Sociedade Protetora de Animais; 9) Promover a apresentação de números que possam, de qualquer forma, pôr em risco a integridade física do público presente ao espetáculo, bem como promover concursos que exponham a risco a integridade física dos participantes, não profissionais; h) Fazer a promoção de temas, assuntos ou pessoas que não serão realmente apresentados nos programas, ou cuja apresentação, sabidamente, se fará ou terá de ser feita de forma diferente da anunciada; i) Apresentar, explorar, discutir ou comentar de forma sensacionalista, ou depreciativa, problemas, fatos, sucessos, de foro intimo ou da vida particular de qualquer pessoa.



2 - As duas redes de televisão se comprometem, ainda, a cientificar convidados, participantes eventuais e artistas ou personalidades nno contratadas, dos termos das obrigações da emissora face ao Código Brasileiro de Telecomunicações e demais normas legais, fazendo-os responsáveis pelas infrações que venham a cometer.



3 - O presente protocolo permanecerá em vigor até a assinatura do Código de Ética da Televisão Brasileira.



Rio de Janeiro, 2 de setembro de 1971.







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