Sunday, December 23, 2012

1970 - O "Primo" de Topo Gigio

Correio do Estado (MT)


Data de Publicação: 20/9/1970

Autor: João Rodolfo do Prado


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UMA ESTRÉIA DEVAGAR



Apos uma badalação de mês e meio a Tupi estreou, na quarta-feira passada, o show (de) Pisulino. Quem deu o nome ao programa foi um boneco daqueles que ficam no colo dum ventríloquo que lhe dá os movimentos. Pisulino é oriundo da Itália e deve ser primo em segundo grau do Topo Gigio, mas não possui os atrativos técnicos do rato.



Quando soube que o Canal 6 iria produzir um programa especialmente para sustentá-lo fiquei meio cabreiro. Afinal, dois bonecos a dizer gracinhas é dose um tanto forte. Além do mais, Pisulino é um nome horrível, soa mal e favorece a imaginação de mil e um piadistas inoportunos.



Deu para ficar um pouco mais animado quando a Tupi anunciou a reforma do palco (que agora é "mecanizado"), corpo de baile de primeira e a participação do "grande elenco de humoristas" da emissora. Se a realização do programa era pra cabeça, bem que as terríveis perspectivas de mais um boneco ficavam atenuadas. Seria-se um bom show e aproveitava as manifestações pisulinescas para um cafezinho ou algo semelhante.



E restava a esperança de que o boneco fosse pelo menos divertido.



Visto o programa, fico naquela dúvida: é tão bom que a gente nem percebeu, é muito ruim ou não existe? Resolvi caminhar por etapas. Pisulino é melhor que Meus Amigos e Eu, mas isto não lhe dá muitos méritos (difícil era ser pior...). Foi atingido o objetivo de ser um show luxuoso? Bem, a produção caprichou, é preciso reconhecer que houve até uma certa ostentação: uns vinte bailarinos, cenários que existiam (a Tupi tem caprichado em matéria de não-cenário ou descenário - escolham), vários comediantes, guarda roupa imponente, etc. e etc.



Observando-se as diversas partes que compõem o programa, vê-se que elas possuem vários pontos positivos.Mas reunindo-as num espetáculo não se pode dizer o mesmo. Faltou garra ao programa, não deu para sacudir. O ritmo foi lento e Pisulino arrastava-se entre um e outro comercial. A parte humorística esteve fraca, descambando com muita facilidade para o grosseiro; um pouco mais original estava Costinha e a história do telefone, o que garantiu o purgatório.



O ballet não foi mal. Estava corretamente mareado, todo mundo os mesmos movimentos, ao mesmo tempo e constitui-se na melhor parte do espetáculo. A direção de tevê foi correta e soube explorar as possibilidades de imagem que foram oferecidas. A direção geral escorregou, não conseguindo soluções dinâmicas que permitissem um ritmo eficiente. Vale notar que os quadros duravam um tempo enorme, mas isto parece ser marca registrada do humor feito no Canal 6.



As duas grandes atracões de Pisulino, o próprio e Rosemary, mantiveram-se num nível abaixo do necessário. O boneco é realmente sem graça, o texto que fizeram para o ventríloquo (é mesmo?) não merece mais do que a classificação de boboca. Ao contrário de Pisulino, Rosemary deverá crescer com o programa. A cantora ainda não se adaptou ao novo papel de show-woman, parecendo apática e vazia. Como era a estréia, isto tudo torna-se compreensível e desculpável.



Este é um primeiro comentário sobre Pisulino, um espetáculo que não satisfez. É preciso mais força, um timming vibrante e aquele charme que se espera de um show musical. Em termos de producão a Tupi deu um pulo, o mesmo valendo para a imagem transmitida. Mas, infelizmente, Pisulino não foi mais que um Café Sem Concerto recauchutado.







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