Wednesday, December 5, 2012

1969 - Telemitos

Jornal do Brasil


Data de Publicação: 20/9/1969

Autora: Maria Alice Barroso


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COMO FUNCIONAM OS MITOS NA TV



"Chacrinha continua balançando a pança



E buzinando a moça massa e comandando a massa



Alo, alô, seu Chacrinha, velho palhaço!



Alô, alô, Teresinha, aquele abraço!" (Gilberto Gil)



Antigamente, antes de se dirigir ar publico, um orador tinha o hábito de pigarrear. Hoje, talvez ele ainda o faça, porém logo em seguida citará Marshall McLuhan, o famoso teórico sobre comunicação de massas . O autor de Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem está desempenhando um curioso papel nessa briga entre o ser pensante versus televisão (pelo menos a televisão comercial, tal como a conhecemos). Ele me faz recordar a sovadíssima anedota do homem que não podia pagar sua divida, e, aceitando a sugestão da esposa, telefonou para o seu credor, avisando que não possuía dinheiro para repor a quantia em apreço - desse momento em diante ele adormeceu e quem passou a noite em claro foi o credor.



É claro que como bom teórico McLuhan é, antes de tudo, um justificador: o meio é a mensagem e com esta frase os produtores da TV brasileira podem dormir tranqüilos. Porém não me posso furtar ao prazer de perturbar o sono desses cavalheiros - transcreverei um trecho do livro de McLuhan, que evidencia ser o mesmo um inocente ou um deslumbrado, no sentido suediano do termo:



''Nas novas roupas e moradias, a nossa sensibilidade unificada se diverte em meio às mais variadas sortes de consciência de materiais e cores, o que faz com que a nossa era seja umas das maiores da Historia - em Música, Poesia, Pintura e Arquitetura.



Quem é suficientemente ingênuo para emitir esse desvanecedor juízo critico á respeito de uma época indefinida como a que vivemos, merece as minhas restrições. Porém recorrerei novamente ao livro de McLuhan, para dele extrair a seguinte historinha:



''No show de (Jack' Paar, de 8-3-53, Richard Nixon foi paarificado e remodelado de acordo com a imagem da TV. Revelou-se que o Sr. Nixon era também pianista e compositor. Com o tato seguro de quem conhece o caráter do meio que usa Jack Paar mostrou o lado pianoforte do Sr. Nixon, com excelentes resultados. Em lugar de um Nixon habilidoso, escorregadio e jurídico, vimos um esforçado executante criativo e modesto. Uns poucos toques oportunos deste tipo teriam alterado o resultado da campanha Kennedy-Nixon. A TV é um meio que rejeita as personalidades muito delineadas e favorece mais a apresentação de processos do que de produtos."



O grifo - acrescente-se - é meu, porque são justamente esses processos que estou tentando sondar agora.



Talvez o mais antigo consagrador de mitos da nossa TV seja o próprio Chacrinha (ele próprio também um mito, por que não?). Sua Discoteca apresenta, semanalmente, uma série de cantores novos, com um repertório tateante, em busca de público: esses cantores antes lembram Copacabana, em pleno verão, quando uma chusma de banhistas aguarda, além da ar rebentação, pelas melhores ondas para seus jacarés. Na crista da vaga, apenas dois ou três conseguem retornar à beira da praia, o resto ficando perdido na metade da trajetória.



O REINADO DA TV



Nos tempos em que apenas pontifica va o rádio, somente o sucesso musical seria capaz de consagrar um cantor. Hoje em dia. em pleno e absoluto reinado da TV, sentimos que como pano de fundo da música que começa a ser sucesso atua, paralelamente, todo o complexo mítico que compõe a figura que determinado cantor projeta para o público. À semelhança daquelas velhas senhoras, que apresentavam em suas casas de tolerância novas atrações, atualmente os empresários bolam desde o corte de cabelo do artista até a criação de tiques que possam marcá-lo para o público. Creio que ninguém esqueceu a guinada de Caetano Veloso, no Festival de São Paulo, quando apresentou Alegria, Alegria. Calhando com a musica (marcada pelos acordes das guitarras elétricas), Caetano se apresentou com uma enorme e revolta cabeleira, camisa larga, de cores berrantes: ele segurava o microfone com uma das mãos, com a outra cocava a cabeça, cruzando displicentemente o pé, com aquele ar desamparado, que tanto sucesso conquistou. Tempos depois, Gilberto Gil apareceu vestindo o djabala africano, barbicha pontuda, a figura fancionando como pano de fundo ao Batmacumha. Sentia-se na inovação das roupagens o dedo autoritário do empresário, que hoje é o fac totum na vida do artista brasileiro.



Porém retorno ao Chacrinha, porque ninguém exemplifica melhor do que ele o que seja o mito da TV: sem a buzina, as roupas extravagantes e as frases feitas (Salve, salve, D. Aurora, acontece que estou chegando agora e etc., etc.) ele talvez chegasse a ser apenas um bom vendedor de geladeiras. Do tipo que, ao abrirmos a portinhola da entrada, começa a falar e acaba nos vendendo o produto porque é o único meio de recuperarmos a paz. Não há inteligência em seu olhar, mas esperteza - o que não dá para assustar ninguém. A grossura intencional de suas atitudes, quando atira sobre o público do auditório latas de banha, restos de cebola e pedaços de bacalhau faz parte desse complexo mítico que o tornou não só famoso como também o profissional mais bem pago da televisão brasileira (dizem que atualmente está ganhando 160 milhões de cruzeiros velhos, com impostos pagos pela emissora e verba de 10 milhões). Seu sucesso é tão intrigante que até mesmo sociólogos estrangeiros já se ocuparam de estudar sua figura, tentando decifrar as causas dessa consagração popular.



Porém nem só desse tipo de animadores vive a TV brasileira: J. Silvestre, o apresentador de Show Sem Limite, encarna o mito oposto ao do Chacrinha. Antes de mais nada, Silvestre parece conseguir emocionar o telespectador bastando que surja na tela: é como se ele tivesse atingido, moço demais, o posto de maior responsabilidade de uma empresa. Figura correta, testa larga, facilidade de expressão, seu maior recurso é sorrir cronometricamente certo. Sem ser um homem sisudo, ele é um apresentador sério, que comanda o publico do auditório como só um professor fascinante é capaz de se impor ao grupo de alunas adolescentes. Tendo surgido na TV através de um programa de exelente nível cultural (Céu é o Limite), ao iniciar O Domingo Alegre da Bondade - cujo objetivo é a assistência social, esse assunto que geralmente degenera numa espécie de Pátio dos Milagres, com o desfile de pobres débeis mentais - houve o perigo de que o mito do homem justo descambasse para a vulgaridade sensacionalista do Homem do Sapato Branco. Porém Silvestre sabe cuidar de sua imagem perante o público melhor do que ninguém: o programa não vai além de distribuir prêmios para entidades de benemerência, sem a exposição de casos individuais que visam menos despertar compaixão do que fazer sensacionalismo.



Recentemente, no episodio da Noivinha da Pavuna, quando a candidata Leni Orsida deixou de responder a uma pergunta sobre o tema Guerra Junqueiro, o mito do homem bom, fraterno e humano que Silvestre representa para o público foi posto à prova. Caso o apresentador tivesse se limitado a obedecer à decisão da Comissão Julgadora, desclassificando a candidata, seus admiradores não o perdoariam. conforme os órgãos de consulta à opinião pública demonstravam.



DO MELODRAMA À AGRESSIVIDADE



Um outro tipo de mito é representado pelo casal que lidera a audiência das telenovelas: Carlos Alberto e Ioná Magalhães. A circunstância de ambas terem-se apaixonado um pelo outro, durante a representação de Eu Compro Essa Mulher, foi importantíssima para a sua consagração; formava-se diante de nossos olhos um par que repetia a proeza de Elizabeth Taylor e Richard Burton. À semelhança do ator galês, que costuma dar entrevistas criticando as atitudes da bela Elizabeth, Carlos Alberto também fez o mesmo, no inicio do romance, declarando a uma revista, com o indefectível tom amoroso. que "Ioná era mal-educada, retraída, chata e etc.'" A partir dai o público entendeu que ele consentia no jogo, como o próprio Burton e Elizabeth haviam feito. Quando eu falo em consentir no jogo quero me referir ao casal de artistas que transfere um pouco da intimidade do seu amor para o cenário de um palco ou para diante das câmeras. Esse é o fugaz momento de glória amorosa para as mocinhas do Encantado, que lêem Capricho ou Sétimo Céu: a sensação de estarem partilhando uma intimidade que não lhes pertence torna essa mesma intimidade ainda mais excitante. E se alguém quiser cronometrar o: tempo que leva um beijo de Carlos Alberto em Ioná, verá que o diretor carrega no gênero, prolongando a melosidade das caricias "porque elas são do agrado dos telespectadores. "



Já o mito agressivo da TV é representado por Flávio Cavalcânticomeçou quebrando, que começou



quebrando os discos que ele considerava maus para o cancioneiro popular brasileiro, no programa Um Instante, Maestro! Talvez inconscientemente, náo sei, mas minha impressão pessoal é a de que Flávio ainda não conseguiu esquecer a mise-en-scŠne de Carlos Lacerda diante de uma câmera de televisão. A semelhança e tão profunda que deixa de ser simples coincidência para tornar-se uma afinidade. Há o mesmo bota-tira-tira-bota dos óculos, nos comunicados sérios ouvimos a familiar empostação cavernosa de voz e valendo tanto para Lacerda quanto para Flávio: ambos tem a mais extraordinária noção de ritmo (timing) que já me foi dada observar na TV. Neles dois também notei um fato estranho: refiro-me ao pudor que ambos têm de sorrir. O apresentador de Grande Chance chega a tapar a boca com a mão, para que o público não lhe veja o riso, talvez num medo inconsciente de que o mito do crítico veemente e violento fique um pouco abalado. E a propósito de A Grande Chance, vemos um desdobramento de mitos, que funcionam a contento, Zé Fernandes e o homem mau das notas baixas; Carlos Renato e o bonzinho, que sempre incentiva os candidatos; Mariozinho Rocha é o jovem prá frente, que defende as composições de vanguarda e etc. etc.



Em Bibi Ferreira a televisão tem o mito da apresentadora de programas mais intelectualizada do naipe feminino; não foi por acaso que a Tupi colocou-a no mesmo dia e hora que Derci Gonçalves, como uma opção para os que abominam o mito de Mãe West de minissaia e botinhas. Poliglota, inteligente e comunicativa, Bibi continua sugerindo ao telespectador a figura da menina prodígio, filha de Procópio.Cada Bibi ao Vivo é como se estivéssemos participando de sua festa de aniversário, inclusive com a nota de inesperado mau humor que, às vezes, acomete a aniversariante. Nesses momentos, o telespectador fica um pouco sem jeito, como se tivesse comparecido à festa sem ser convidado. Porém como Bibi é uma espécie de Mary Pickford da atualidade, ninguém chega a lhe querer mal por esses destemperos.



O BACHAREL E O HERÓI POPULAR



Blota Júnior estourou, no plano nacional, com o programa Esta Noite Se Improvisa, no qual Caetano Veloso, Carlos Imperial, Chico Buarque também aumentaram sua popularidade; com uma figura limpa de chefe-escoteiro, Blota é o entrevistador que não está interessado em revelar o lado sórdido ou meramente sensacionalista de seus entrevistados. Suas perguntas antes procuram desvendar o passado destes últimos, no que ele contém de luta e esforço para atingirem a projeção que justifica sua presença ao lado de Blota. A atuação dele, contrariamente ao tipo de entrevista que vigora na TV, é uma espécie de campo neutro ande os seres humanos valem pelo que têm de melhor - mais explicitamente, Dr. Jekyll é quem brilha, sem que Mr. Hyde tenha a oportunidade de aparecer. Falando um português correto, de bacharel que náo comprou seu diploma, esse paulista longilíneo e simpático fortalece, a cada programa, o mito do entrevistador cavalheiresco e fraterno, que dá ao próximo não elogios baratos, mas o respeito que o ser humano merece.



Finalmente temos o mito que eclipsou o conjunto internacional de Sérgio Mendes, no Maracanãzinho: o cantor Wilson Simonal. Sua extraordinária comunicação com o público repousa no que o carioca chama de um certo 'jeitão folgado', constituído pela gíria personalíssima, um sorriso meio cínico (que, na melhor das hipóteses, é a versão cabocla e atual do charme francês de Maurice Chevalier) e a capacidade de induzir o público a acompanhá-lo em suas músicas, comandando-o com uma alegria marcada pela auto-confiança. Ele poderia encarnar o poder negro, em sua marcha inexorável, caso o Brasil não fosse ''a terra em que, onde preto não entra, branco pobre também não pisa"- segundo definição do próprio Simonal. O curioso é que ele não possui uma faixa de público especificamente sua, no que tange à idade, condição social e sexo: a conquista de audiência tanto pode acontecer na proletária Cidade de Deus quanto na sofisticada Sucata, bastando que ele surja, microfone na mão, roupas de tons berrantes e um balanço no corpo que contagia a quem o rodeia. Por último, Simonal talvez venha a ser, em pleno fastígio da TV, o artista que mais fielmente representa o que se poderia chamar de herói popular brasileiro, após a epopéia do Macunaíma. Ou seja, o produto de sécuios de uma miscigenação racial sem os problemas que ocorrem nos Estados Unidos, por exemplo.



E, possível que, a esta altura, paire alguma dúvida sobre o que seja mito da TV: quis eu dizer que os artistas representam aquilo que eles absolutamente não são?



O que tento frisar é que não interessa ao público de TV aquilo que os artistas possam ser além da imagem (mito) através da qual ficaram conhecidos e admirados. Para os telespectadores não coexiste, no artista, o ser humano, com suas fraquezas, celulites e hálito áspero: no momento em que se acende a luz vermelha na câmera e o contra-regra avisa "Atenção. que o programa está no ar!" - aí paradoxalmente, começa o jogo da verdade para o público. O processo responsável por esse mito foi o que eu procurei analisar aqui, em sua composição externa ou representativa. Se devido a exigências profissionais, algum deles é forcado a representar ou penetrar, numa vida que não é a sua (e este é o trabalho constante do ator, não se esqueçam), somente o próprio artista poderá aquilatar até que ponto o parecer faz o ser .



Porém isto é assunto para psicólogos e psicanalistas e não desta escriba, que apenas desejou fazer alguns reparos sabre a televisão de agora e da hora de nossa morte, améns.



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