Thursday, December 27, 2012

1971 - Silvio Santos e a Baixaria

Jornal do Brasil


Data de Publicação: 4/9/1971

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SÍLVIO SANTOS SÓ TEME UM ITEM



São Paulo (Sucursal) - O animador Sílvio Santos só está preocupado com o item B (quadros, fatos ou pessoas que sirvam para explorar a curandice, falsos médicos, curandeiros ou qualquer tipo de charlatanismo) do protocolo assinado pelas emissoras Globo e Tupi, porque quanto aos demais dispositivos há tempos que tomava todos os cuidados na produção dos programas, principalmente o de domingo.



- Depois disso - conta - o nível de nossos programas melhorou muito e pelas pesquisas percebemos que havíamos conseguido atingir um outro publico, até então distante de nossas programações. Eu me considero o maior beneficiado, pois sempre intenções de partir para isso, mas meus colegas, os outros animadores, descambavam para o lado de lá - afirmou Sílvio Santos, ontem à noite, depois de gravar um programa de TV.



Há três meses, quando retornou de sua última viagem aos Estados Unidos, Sílvio Santos reuniu seus produtores Luciano Calegari e Hélio Siqueira e juntamente com Leonardo, um assessor do delegado do Departamento da Polícia Federal em São Paulo, os censores Celso Adilise e Coelho Neo estudaram uma série de medidas para prevenir os programas nos quais Sílvio Santos é o animador.



O documento, impresso em papel timbrado do Departamento da Policia Federal - Delegacia Regional de São Paulo - ficou sendo a "orientação aos produtores do Programa Sílvio Santos." A orientação tem sete laudas e descreve quais as medidas e atitudes que os produtores devem tomar em cada um dos seus quadros apresentados durante as oito horas de programa.







1971 - Boni Reage contra a Baixaria

Jornal do Brasil


Data de Publicação: 4/9/1971

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DIRETOR DA GLOBO ANUNCIA OUTRA MENTALIDADE NA TV



O diretor da Central Globo de Produções, Sr. José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, disse ontem que o protocolo assinado pelas TVs Globo e Tupi para eliminar os espetáculos de mau gosto permitirá que se imponha uma nova mentalidade aos programas de nível popular.



- Desde o Congresso de Radiodifusão, realizado em Poços de Caldas há cerca de ano e meio, que iniciamos um trabalho minucioso para corrigir pequenos pontos que comprometiam ainda a qualidade de nossa programação, que já evidencia, na grande maioria dos casos. uma qualidade bem acima do nível normal - comentou.



PLANEJAMENTO



- Mas - continuou - a melhoria da qualidade de um produto industrial exige uma série de providências que envolvem estudos, pesquisas e correções para se chegar à sua fase de concretização. E este era exatamente o trabalho que vínhamos executando ao longo dos dois últimos anos, usando para tanto uma equipe de homens de direção, técnicos de pesquisa de opinião pública, censores, autoridades, intelectuais e jornalistas. Toda uma gama de profissionais mais ligados à comunicação de massa no setor de programação de nível popular.



- Graças ao planejamento elaborado há muito tempo é que foi possível, em menos de três horas, chegarmos à assinatura do documento proposto pela Central Globo de Produções, que define, em última análise, a conscientização de uma nova mentalidade que se de seja impor aos programas de nível popular.



Afirmou em seguida que "esta nova mentalidade implica, inclusive, numa operação muito delicada, pois envolve até mesmo a conduta do elemento humano, trabalho que só poderá dar resultados positivos a longo prazo, a não ser que se decida tomar medidas drásticas, como a assinatura deste documento, mas que somente podem ser adotadas em conjunto."



- A competição de baixo nível ainda nunca- declarou ainda-nunca nos interessou, mas muitas vezes tornou-se impossível controlar alguns de nossos contratados por falta de entrosamento, que só agora começa a se delinear. E de tal forma este entrosamento começa a existir, que a direção das duas principais redes da televisão brasileira já se declaram em condições de poder assinar até mesmo em branco um grande código de ética.



CÓDIGO



O diretor da Rede Tupi de Televisão, Sr. José de Almeida Castro, disse ontem que o Código de Ética da Televisão Brasileira já está sendo elaborado pela Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão, mas ainda não tem data certa para ser assinado.



O novo código substituirá o protocolo assinado anteontem pelas Redes Tupi e Globo de Televisão, que em nove itens se comprometeram a eliminar de suas programações espetáculos sensacionalistas, de superstição, de degradação alheia, exibição de deformidades e promoção de concursos que ponham em risco a integridade dos participantes.







1971 - Abaixo-assinado contra a Baixaria na TV

Revista Intervalo


Data de Publicação: 2/9/1971


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SEU SETE FAZ O MILAGRE: A TV VAI MUDAR!



As emissoras de televisão já haviam decidido abolir o mundo-cão, quando surgiram os protestos contra a apresentação do famoso "guia" carioca



A luta por maiores índices de audiência levou Chacrinha e Flávio Cavalcanti a apresentarem, em seus programas, d. Cacilda, que se intitula Seu Sete (um exu de Umbanda), quando está em transe. A essa "entidade espiritual" foram atribuídas curas milagrosas, mas sua presença na TV provocou veementes protestos do público, das autoridades e uma inteligente atitude das próprias emissoras de televisão.



O dia 2 de setembro de 1971 vai ficar como uma data de importância fundamental no livro de ouro da TV brasileira. Aquele "algo de novo" que todo mundo estava esperando dos realizadores das programações está finalmente mais perto do que muitos imaginavam. Ao que parece, Seu Sete da Lira fez um bom milagre: "baixando", na frente das telecâmaras de Flávio Cavalcanti e Chacrinha, no corpo da umbandista Cacilda, provocou tamanha onda de protestos, de polêmicas e de reações, que nem foi necessária a intervenção da censura ou da policia federai para que os responsáveis pelas duas mais importantes redes de TV (Globo e Tupi) encontrassem inspiração para novos caminhos a seguir. A assinatura do protocolo redigido pelos diretores das duas redes, na tarde de quinta-feira, 2 de setembro, revela não somente a necessidade de mudar um estilo, mas também, e principalmente, a vontade de imprimir à nossa televisão um sentido mais responsável e mais positivo. É bastante significativo frisar que, enquanto o documento era redigido e assinado no Rio de Janeiro, a redatora de Intervalo em Brasília, Susana Veríssimo, em entrevista com o dr. Jeovah Cavalcante, chefe do Departamento de Censura Federal, ficava sabendo que "nada havia de oficial sobre o assunto - eventual intervenção da mesma censura - que tudo não passava de especulações dos jornais". O protocolo assinado pela Globo e pela Tupi não foi redigido, pois, em vista de ameaças ou sanções mais drásticas, mas revelou a espontânea atitude de homens de bom senso vitimas, eles mesmos, de tendências e de modas impostas pelo monstro sagrado do índice de audiência dos programas.



Lendo o texto do protocolo (que publicamos nestas páginas), surge espontânea uma pergunta: Flávio Cavalcanti, Chacrinha, Sílvio Santos, Cidinha Campos, Ayrton Rodrigues e todos os outros animadores de auditório acabaram de vez? Conhecendo a inteligência, a honestidade, a argúcia e a experiência destes profissionais do vídeo, a resposta não somente é negativa. mas das mais animadoras: eles mesmos, finalmente libertados de uma concorrência que os obrigava a lutar com as armas mais arriscadas do sensacionalismo, poderão encontrar um caminho novo na qualidade e na sobriedade, na elegância e no brilho de bons shows. O telespectador, vitima por sua vez desta batalha combatida à força de mórbidos recursos, vai finalmente poder escolher entre o bom e o medíocre, entre o Interessante e o inexpressivo: começa, pois, uma nova era em nossa TV, e o Código de Ética de Televisão Brasileira, que está para ser aprovado, vai somente confirmar uma nova filosofia que os mesmos responsáveis pela nossa TV quiseram adotar. Seu Sete da Lira, pois, fez o milagre. Talvez um ou outro dos apresentadores que ofereceram em seu programa o delirante espetáculo da macumbeira de cartola e charuto receba um puxão de orelha, mas depois tudo vai entrar na normalidade. Isto é, tudo entrará nos eixos, e a televisão sairá desta aventura mais adulta e mais vibrante.



O SHOW E SUAS CONSEQšÊNCIAS



O show oferecido por dona Cacilda de Assis e seu espirito Sete da Lira nos programas de Flávio Cavalcanti e de Chacrinha, no domingo dia 29 de agosto, provocou reações e comentários dos mais vivazes. A noticia de que os dois apresentadores teriam sido suspensos de suas atividades pela Censura Federal correu solta, assim como o boato de que nunca mais seriam produzidos programas de auditório. Horas antes da assinatura de um protocolo entre a Rede Globo e a Rede Tupi sobre a filosofia a seguir no futuro imediato, Abelardo "Chacrinha" Barbosa declarava ao nosso repórter: "Não recebi nenhuma informação oficial, mas se realmente a Censura Federal determinar que foi um erro ter levado o Seu Sete ao programa, estamos aqui para acatar o que ela determinar. Se a suspensão acontecer, eu aceitarei". No mesmo tempo, Flávio Cavalcanti, não chegando a esconder sua perplexidade ante a reação das autoridades religiosas, tentava defender seu ponto de vista afirmando: "Eu achei Seu Sete um assunto jornalístico muito bom, e não entendo toda essa gritaria: logo contra mim, um fiel servidor da Igreja e das Ligas Católicas há mais de dezessete anos." Quando Flávio soube que uma delegação da Liga das Senhoras Católicas do Rio tinha viajado para Brasília tentando encontrar o ministro das Comunicações, Hygino Corsetti para discutir o caso, enviou por sua vez dois telegramas para a Capital Federal - um para o mesmo ministro e outro para o chefe do Departamento de Censura Federal - em que se mostrava, ele mesmo, alarmado com a repercussão do fato, e lembrava que no "script" de seu programa de domingo, dia 29 de agosto, aprovado pela censura e pela direção da Rede Tupi, constava a presença de Seu Sete.



Enquanto as autoridades de Brasília, do Rio e de São Paulo, evidentemente preocupadas com o espetáculo de baixo nível oferecido nos dois shows, estudavam a possibilidade de medidas exemplares, os diretores das duas emissoras envolvidas no clamoroso episódio encontravam um inteligente entendimento para aproveitar o ensejo e enfrentar, de agora em diante, uma nova linha de produção mais responsável e menos sensacionalista. Nos bastidores de outras emissoras nacionais, que não chegaram a assinar o protocolo, a atmosfera era de alivio: "Se este negócio de 'mundo cão' vai acabar para todo mundo, sem perigo de concorrência, vai ser bom para nós também, obrigados fatalmente a entrar nessa corrida para manter nosso Ibope". E comentava-se, na manhã de sexta-feira, com extremo interesse e bastante simpatia, uma noticia que acabava de chegar de Buenos Aires. Aqui, o presidente da Argentina, general Lanusse, havia resolvido - por decreto - proibir a divulgação dos índices de audiência do Ibope local, para evitar uma desenfreada concorrência entre as emissoras daquele pais, a qual estava ameaçando não somente a boa qualidade dos programas, mas também a estabilidade econômica das mesmas emissoras, obrigadas a esforços impossíveis para manter ou ganhar um pontinho a mais no termômetro de uma efêmera popularidade.



Nos meios religiosos, o caso do Seu Sete foi amplamente comentado. Em São Paulo, a Liga das Senhoras Católicas manteve uma atitude de austero silêncio, limitando-se a dizer, por meio de sua vice-presidente, dona Rute Matos Barreto: "Nossa finalidade é filantrópica, não estamos aqui para dar opiniões sobre programas de televisão". Por outro lado, o Vicariato do Rio de Janeiro dedicou em sua reunião semanal boa parte da pauta à aparição de Seu Sete da Lira na TV, afirmando: "A Igreja Católica respeita a fé verdadeira, de qualquer religião, mas condena demonstrações públicas como aquela ridícula do Seu Sete na televisão". Na opinião de D. Ivo Lorscheiter, Secretário Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a apresentação do "guia" na TV pode até ter sua justificação, quando se pensa em homens simples e sem necessária bagagem cultural que buscam um certo conforto em fontes que o mesmo padre não teve medo de qualificar de "pseudo religiosas".



Finalmente, bastante liberal foi a atitude da Federação Espirita do Brasil, que disse através de seu presidente , Armando Oliveira de Assis: "A organização não tem direito de julgar ninguém. Todos são absolutamente livres para fazer o que quiserem".



AS PRÓPRIAS EMISSORAS JÁ HAVIAM REAGIDO



Quando os boatos de que seriam proibidos os programas ao vivo ganhava as ruas, as direções das Redes Globo e Associadas já haviam decidido assinar um protocolo de autocensura de suas programações, cujo texto é o seguinte:



"As direções da Rede Globo de Televisão e da Rede Associada de Televisão decidiram redigir e assinar o seguinte protocolo, a partir desta data:



1 - Fica expressamente proibido: a) Apresentar, em qualquer programa e sob qualquer pretexto, pessoas portadoras de deformações físicas, mentais ou morais; b) Apresentar quadros, fatos ou pessoas que sirvam para explorar a crendice ou incitar a superstição, bem como falsos médicos, curandeiros, ou qualquer tipo de charlatanismo; c) Apresentar, de forma sensacionalista, ou vulgar, te mas de ordem cientifica; d) Provocar ou permitir polêmicas, falsas ou verdadeiras, entre profissionais de diferentes emissoras de tevê; e) Promover a apresentação de quadros ou concursos, com ou sem prêmios, nos quais se explore, sob qualquer forma ou pretexto, a miséria, a desgraça, a degradação e a tragédia humanas; f) Promover concursos que tenham por objetivo a escolha e premiação de animais, salvo em números circenses ou quando se refiram à competições legalmente reconhecidas e dentro das condições aceitas pela Sociedade Protetora de Animais; 9) Promover a apresentação de números que possam, de qualquer forma, pôr em risco a integridade física do público presente ao espetáculo, bem como promover concursos que exponham a risco a integridade física dos participantes, não profissionais; h) Fazer a promoção de temas, assuntos ou pessoas que não serão realmente apresentados nos programas, ou cuja apresentação, sabidamente, se fará ou terá de ser feita de forma diferente da anunciada; i) Apresentar, explorar, discutir ou comentar de forma sensacionalista, ou depreciativa, problemas, fatos, sucessos, de foro intimo ou da vida particular de qualquer pessoa.



2 - As duas redes de televisão se comprometem, ainda, a cientificar convidados, participantes eventuais e artistas ou personalidades nno contratadas, dos termos das obrigações da emissora face ao Código Brasileiro de Telecomunicações e demais normas legais, fazendo-os responsáveis pelas infrações que venham a cometer.



3 - O presente protocolo permanecerá em vigor até a assinatura do Código de Ética da Televisão Brasileira.



Rio de Janeiro, 2 de setembro de 1971.







1983 - Fofocas da Cidinha

Correio Braziliense


Data de Publicação: 1/12/1983

Autora: Cidinha Campos



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CIDINHA CAMPOS comenta:


A cobertura do enterro do Senador Teotônio Vilela, em Maceió, pelo Jornal Nacional, foi lamentável. Faltou imagem, faltou emoção, faltou edição, enfim, um desastre total. Não dá pra entender como a TV Globo, sempre tão exigente, apresenta um trabalho desses. E o problema é aqui, porque eu não acredito que o Eduardo Lobo tenha feito aquilo que foi mostrado. Ele fez melhor, o problema é que chegam na edição cortam tudo e, nem sempre tem a sensibilidade necessária pra deixar o melhor.



Ao mesmo tempo, a TV Manchete deu um verdadeiro show de jornalismo na matéria sobre o Senador Teotônio Vilela. Não se limitou ao comum, foi mais longe e buscou imagens do Senador em diferentes momentos da sua vida, falando sobre política, rindo descontraído, enfim, uma homenagem como merecia o "Menestrel Das Alagoas".



Na cobertura do enterro, em Maceió, a repórter Solange Bastos, entrevistando o filho do Senador, Teotônio Vilela Filho, chorava junto com ele, e a gente notava que não era uma coisa forçada, ela estava realmente emocionada. Mais uma vez. o cuidado que a TV Manchete tem e que a Globo não teria: Solange Bastos já trabalhou em Maceió, e conhece toda a família do Senador, por isso foi a escolhida pra fazer esse trabalho, porque poderia fazê-lo com mais sentimento, com mais carinho.



Na novela das 8, "Champagne", os exemplos são mesmo edificantes. Como se não bastassem dois ladrões assumidos, Antônia Regina ( Irene Ravache ) e João Maria ( Antônio Fagundes ), agora a família inteira participa dos roubos. Essa semana, a mãe de Antônia, interpretada pela Monah Delaci, ligou para o João. Maria pra combinar um assalto. Pode uma coisa dessas??? E a rotina daquela família planejar e executar assaltos. Não dá pra aguentar uma história dessas, viu Cassiano, nem com muito boa vontade.



E, por falar no Antônio Fagundes, precisam sugerir a ele que vá tomar um solzinho. Faz bem e não engorda. Ele não está branco mas, está ficando verde.



Na novela "Champagne" a única coisa que pode agradar é o que está por vir, porque até agora nenhuma chance. E vem por aí um novo par romântico: Olívia (Maria Helena Dias) e Juca Mercadante (Dionisio Azevedo). Os dois vão se conhecer na casa de Dinah (Manieta Severo) e vão começar um novo tititi.



Até agora nenhuma emissora resolveu investir seriamente no horário das 8, pra competir com a TV Globo. A TV Bandeirantes está levando agora, nesse horário, o seriado "Casa Da Irene", com Nair Bello, fazendo a Irene, uma italiana meio neurótica, Francoise Fourton é a filha dela, Neusa Borges, que é ótima, é a empregada, Gianfrancesco Guarnieri, que também é excelente, o irmão, e Tito, o filho, é Taumaturgo Ferreira.



A idéia é boa, mas o jeito que está não emplaca. O autor é Geraldo Vietri, que é muito experiente, escreve muito bem, mas' não pegou ainda o clima de seriado. A história vai muito no grito, tem um texto muito fraco e a a produção não é das melhores.



Tem um português, interpretado pelo Flávio Galvão, personagem fixo na história, e dono de uma padaria, mas que não tem nada a ver com o comerciante português. Esse usa terno e gravata e, se bobear, vira executivo. Na padaria dele tem três pacotes de açúcar. Pode??? Não pode, precisa investir. Se não tiver, no mínimo, uma produção decente, não vai. A sonoplastia é do Salatiel Coelho, um excelente profissional, mas não está acertando nessa. Os cenários são lamentáveis e o elenco de apoio, que faz os personagens transitórios, é muito fraco, não se sustenta, e ainda prejudica a história.



Há algum tempo atrás eu disse que Sandra Passarinho, correspondente da TV Manchete em Londres, ia dançar. Desmentiram de todas as maneiras. Essa semana o Jornal da Manchete fez a matéria sobre o roubo das barras de ouro na Inglaterra sem a Sandra Passarinho. Será que a minha bola de cristal acertou mais uma vez.???



O Comediante Lilico vai lançar seu segundo livro em janeiro. "Do Outro Lado Do Tunel"... O texto é sobre fatos da televisão. O cotidiano, tudo que acontece, ele transforma numa piada, ou numa história. O lançamento será no Teatro Princesa Isabel, no Rio de Janeiro, com um show. O dia ainda não foi escolhido. Lilico vai convidar Agildo Ribeiro para padrinho do seu livro.



Ontem Ada Chaseliov (Manoela) de "Guerra dos Sexos" voltou a gravar no capítulo 167. Ela aparece primeiro de costas, depois a câmera focaliza seus sapatos apagando um cigarro, vigiando a filha que está no colégio. Segundo Sílvio de Abreu, Manoela volta totalmente mudada pra melhor, é claro.



Ary Fontoura ( Dino) de "Guerra dos Sexos" não perde um minuto do seu tempo, pra onde vai, leva seu livro de inglês. Ele está há 2 anos sem estudar e precisa recordar o idioma. "Não dá pra fazer curso, por isso sou autodidata", explicava para os colegas que estavam sem saber o porquê do livro.



Mais um tititi correndo solto na Globo. Em fevereiro Roberto Talma estará de volta. Talvez para ser diretor geral da linha de show. Outro buchicho, é que Mário Lúcio Vaz, iria trabalhar com o vice-presidente, Boni. e quem assumiria a diretoria geral do elenco das novelas seria, Paulo Ubiratan ou Herval Rossano.



1972 - Futebol na TV

O Globo


Data de Publicação: 17/11/1972

Autor: Artur da Távola


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O CAMPEONATO NACIONAL NA TV



No país do futebol a televisão ainda não conseguiu traduzir, nem de longe, o que rádio e imprensa conseguiram. Há um obstáculo básico: a proibição das transmissões diretas. Aí esbarra tudo. A emoção futebolística é muito intensa. Paroxística, diria um teórico. A taxa de tensão se esgota nos noventa minutos, restando pouca disponibilidade para renovar-se nos requintados, isto é, nos teipes posteriores ao jogo. Estes ficam em geral para a curtição dos torcedores do time vencedor, desejosos de reviver alegrias. Mas tira' audiência das emissões.



Impossibilitada de reproduzir o momento do jogo, a televisão deixou de dedicar ao futebol a atenção, o cuidado, a busca de recursos técnicos e inovações dispensados a outros de seus campos, novela e telejornalismo principalmente.



Mas o Campeonato Nacional está ai, na reta de chegada. Dois canais cobrem os jogos como podem, o 3 e o 6. Este passa teipes. Aquele, em dias sem jogos no Maracanã, realiza o saudável esforço de transmitir partidas ao vivo de outros Estados.



A falta de desenvolvimento do jornalismo desportivo na televisão (pelas razões expostas) ainda nos submete a coberturas deficientes, antiquadas, palavrosas, radiofônicas, ao estilo de um tempo no qual a especialização engatinhava nos meios de comunicação. Louvo o esforço da Tv Rio. Mas sua equipe de narradores é de lascar! Idem seus cameramen e diretor de Tv, desacostumados ao desporto, quase sempre atrasados, principalmente nos chutes a gol. Quando a narração é de locutores dos Estados então, a tragédia é total. Palavrório desnecessário, regionalismo, frases enormes, absoluto desconhecimento das características visuais do meio. Estão fazendo rádio de quinze anos atrás. Nem meu bom e competente amigo Luís Mendes escapa. Narra e comenta ao mesmo tempo, canta as jogadas, opina, reclama, leva minutos comentando um fato enquanto o jogo já está em outro. É imagem para um lado (ela, sim, a verdadeira dona da nossa atenção) e som para outro, com evidente baixa da taxa de informação e cansaço para o telespectador. Ou narra ou comenta: os dois, não dá!



Na Tupi está o José Cunha, hoje um bom narrador para a Tv. Sabe atuar no subsídio ao entendimento do telespectador. Já as reportagens de campo da Tupi são uma lástima! Seu responsável (reparem) apenas se limita a repetir o que o Cunha acabou de dizer.



E a Globo? Fica fora da bronca? Não. Ela não empresta ao futebol maior destaque em sua programação. O que é pena. Como pena foi ter desistido da experiência do "Futebol Compacto" antes de tê-la desenvolvido. Futebol ainda é problema não resolvido dentro de sua vitoriosa trajetória.



1981 - Crianças-Celebridade

Jornal do Brasil


Data de Publicação: 1/1/1981


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OS FILHOS PROBLEMA DA FAMÍLIA TV



Provavelmente muitos deles já estão condenados pela máquina a serem psicologicamente crianças-adulto para sempre. Ou fisicamente, como Ferrugem aos 11 anos tem tamanho de seis e gasta tudo o que ganha na TV para vencer um distúrbio da hipófise que atrapalha seu crescimento



Crescer sempre foi o grande problema dos meninos prodígios do cinema e da televisão. Hollywood, por exemplo, nunca soube muito bem o que fazer com Mickey Rooney quando ele começou a ter de se barbear duas vezes por dia. E Judy Garland era constantemente multada pela Metro por se apresentar de ressaca para a filmagem, embora tivesse apenas 14 anos. A carreira de Shirley Temple começou a declinar quando o estúdio se deu conta de que seus cachos não estavam combinando com o busto que insistia em emergir. No fundo, o problema do cinema não foi exatamente o de que seus meninos prodígios cresciam - a idade mental dos espectadores é que estava crescendo. Em meados dos anos 30, ninguém mais seria capaz de admitir Mary Pickford - mãe de família várias vezes - interpretando Pollyanna.



Seja como for, o menino Luís Alves Pereira Neto, conhecido no Brasil inteiro pelo apelido de Ferrugem, provavelmente nunca terá esse problema: aos 11 anos, sua altura não ultrapassa a de uma criança normal de seis - e tudo indica que ele não crescerá muito mais, devido a um distúrbio em sua glândula hipófise. Assim, enquanto tamanho for documento para seu estrelato infantil, Ferrugem terá futuro assegurado na televisão.



Claro que, para seus pais, a carreira artística de Ferrugem é, por enquanto, um acidente. Na realidade, só querem que ele cresça, e quanto mais depressa melhor. D Maura, sua mãe e agente, explica:



Já não sei o que fazer. Ferrugem fez um tratamento, mas cresceu muito pouco. Agora precisamos comprar um remédio sueco que custa Cr$ 1 mil a ampola, num total de 10 por mês. Como ele ganha apenas Cr$ 5 mil na TV Tupi, tem de se defender trabalhando em comerciais. Se não, o dinheiro não daria nem para o tratamento.



Isto, de certa forma, abala bastante a idéia de que a vida de um miniastro é um sonho dourado, trabalhando em pé de igualdade com os grandes ídolos da televisão e ele próprio convertendo-se, aos poucos, também num ídolo. A carreira de Ferrugem nunca chegou a ser fácil. Morando com sua família em Barretos, a 450 quilômetros de São Paulo, foi descoberto pelo produtor Lúcio Mauro e convidado a trabalhar em Gente Inocente. Durante um ano Ferrugem dividiu-se entre São Paulo e Barretos, para trabalhar e estudar, acabando por não fazer direito nem uma coisa, nem outra. Finalmente sua família mudou-se para São Paulo, indo morar na Lapa (um bairro tradicionalmente de operários), o que pelo menos poupou-o das idas e vindas.



Há algum tempo, Ferrugem saiu do Gente Inocente, passando a aparecer em Domingo É Dia de Graça, ao lado de Costinha. Ás vezes grava oito horas por dia na TV Tupi, ao vivo, ouvindo toda espécie de desaforos que os produtores dirigem ao auditório, pedindo silêncio. Ferrugem sempre sabe suas falas de cor, porque, segundo sua mãe, não gosta de usar o ponto na orelha - um aparelhinho que dá as deixas para a entrada em cena e que hoje substitui o antigo ponto do teatro, encerrado numa caixa. (Costinha, por exemplo, não consegue decorar seus textos. Apesar disso, os dois se dão bem, e há pouco fizeram um filme juntos, Costinha e o King Monk, a estrear em junho.)



Ferrugem tem oito irmãos. Seu dia é passado em cima de scripts e dos deveres do Colégio Campos Sales, em São Paulo. "As aulas em primeiro lugar", diz. D Maura acrescenta que ele é "um garoto responsável e aplicado." Mas, com todo o seu sucesso, Ferrugem não se sente satisfeito: o que gostaria mesmo é de morar no Rio, para ir à praia e - embora corintiano de coração - ver o Flamengo (seu time favorito) jogar. Seu prato favorito é macarrão com batata frita e ele tem rigorosa formação religiosa:



Nunca vi Nossa Senhora, mas deve ser parecida com minha irmã Marisa.



Em novela, criança e bicho são indispensáveis. Se possível, reúna os dois", diz Gilberto Garcia, que trabalha no Departamento de Elenco da TV Globo. Nos seus fichários contendo nomes, fotografias, idade, peso e habilidades de centenas de pessoas, há também inúmeras crianças que esperam por um contrato como atores. Por coincidência, seus três filhos foram alguns dos contemplados:



Rosana, Isabela e Ricardo são extremamente profissionais na hora das gravações. Fora da televisão, são crianças normais. Encaram o trabalho apenas como diversão. E faço questão de que estejam na cama às nove da noite.



Rosana, a Narizinho do Sítio do Pica-Pau Amarelo, está longe de ser estreante. Aos cinco anos trabalhou com Sérgio Cardoso em O Primeiro Amor. Agora tem 12 e muito mais experiência. Até já sabe o que não quer:



Quando crescer não pretendo ser atriz e sim psicóloga infantil, porque adoro crianças. Mas fico contente quando gostam do meu trabalho. No começo faziam muitas perguntas, mas agora já estou acostumada.



No Parque Lage, onde são gravadas as externas do Sítio, Rosana tem de descobrir tempo para fazer alguns dos deveres da escola. Ma começa, é chamada pelo diretor Geraldo Casé e tem de entrar nova mente em cena com Pedrinho e com c Marquês de Rabicó, um leitãozinho que reluta em comer as jabuticabas indispensáveis ao quadro. Distraída, Narizinho esquece o texto, e Casé já nervoso com o atraso, berra:



- Você é macaca velha, Rosana. Não pode esquecer nada!



Longe dali, sua irmã Isabela explica a personagem que representará na próxima novela das 10 - A la Garçonne - e que trará uma mudança radical na sua tumultuada vida de miniartista: passará a deitar-se quase às 11, depois de ter assistido aos capítulos que terá gravado algumas semanas antes:



Vou fazer uma menina chamada Isadora, de sete ou oito anos, que perdeu a mãe quando ainda era muito pequena. O pai dela, prof. Frazão, dá aulas de dança. A história se passa nos anos 20 ou 30, não sei bem, acho que é isso. Aliás, eu só recebi o primeiro capítulo. Ainda não conheço o script completo.



Atualmente, Isabela vai à escola de manhã e depois participa (com seus colegas mais velhos) das reuniões de elenco que antecedem as primeiras tomadas. Não perde uma só palavra e não tira os olhos de Maria Fernanda, que também está na novela:



Maria Fernanda é muito inteligente e imito tudo que ela faz. Se ela ri, eu também rio, porque assim finjo que estou entendendo tudo e não passo por boba.



Mais tarde, Isabela acompanha com sua mãe e a irmã as gravações do Sítio do Pica-Pau Amarelo e, antes do jantar repassa com seu pai os textos a serem decorados para as filmagens de A la Garçonne. Só então Isabela está livre para fazer o que quiser. E o que ela mais gosta de fazer, naturalmente, é ver televisão.



Chegar à posição de Isabela é hoje o sonho de muitas crianças brasileiras. As vezes é apenas o sonho dos pais, que inscrevem os seus prodigiosos filhos nos pesados catálogos de candidatos a artistas de TV. Os mais velhos pensam que ali pode estar a garantia para o futuro de seus filhos. Mas estes, quase sempre, encaram a coisa apenas como uma brincadeira divertida.



- Na época em que fazia O Feijão e o Sonho, diz Márcio Bernstein, de 12 anos - tinha muita garota que dava em cima de mim. Na escola só me chamavam de Edgar, que era o nome do meu personagem. Mas foi bom. Naquele tempo, ganhava Cr$ 2 mil 600 por mês e emprestava uma parte para minha mãe. Cheguei até a comprar uma bicicleta, daquelas bacanas, com 10 marchas. Hoje só estou aceitando propostas de trabalho se não atrapalharem minhas provas na escola.



Depois de gravar alguns capítulos da censurada Despedida de Casado, onde fazia o papel de filho de Regina Duarte e Antônio Fagundes ("menino bagunceiro, filho de pais separados"), Márcio impõe agora certas condições para aceitar personagens:



- Se for muito cansativo, não faço mesmo. Também não quero fazer papel de gente besta. E, de mulherzinha, não faço de jeito nenhum.



A mesma sinopse do personagem que Márcio exige, para saber se aceitará ou não o papel, é também enviada ao Juizado de Menores. Gilberto Garcia explica como isso é feito:



-Junto ao pedido de autorização, enviamos o perfil do personagem e normalmente não há cortes. Todas as crianças são obrigadas a comprovar que estudam e seus horários são limitados. A produção faz a divisão de maneira a que nenhuma criança fique nos estúdios depois das 19 horas. Elas vêm aqui e tiram as medidas para suas roupas, exatamente como os adultos. Todos os atores têm guarda-roupa próprio, mesmo que a novela não seja de época. Também tomam parte nas reuniões e devem ser acompanhadas por responsáveis até o local da gravação. E no contrato está estipulado que deverão trabalhar durante seis meses, embora o personagem possa ser esticado para mais quatro meses.



Carlinhos Poyart é o Téo de Duas Vidas, filho de Bete Faria e Francisco Cuoco. Mas quem cuida de sua carreira e o leva diariamente aos estúdios da Usina é a sua mãe na vida real, D Inês:



- Foi tudo muito natural. Moro perto da Ruth de Sousa, que é atriz, e tentei saber quais eram as possibilidades de Carlinhos. Depois, perguntei a ele se gostaria de trabalhar. Quando fez o teste final, junto a outras crianças, a Bete o escolheu logo. Era o que tinha maior sensibilidade. Os dois têm-se dado muito bem. A vida de artista não está atrapalhando em nada o dia-a-dia de Carlinhos. Acho que foi até muito bom porque, aos oito anos, ele desenvolveu um enorme senso de responsabilidade.



Carlinhos também está vibrando: - Gosto de ser ator, e acho que vou continuar sendo quando crescer. No princípio não foi muito legal. Minha mãe me botou para fazer o teste e acharam que eu era o melhor, mas foi meio chato porque os outros meninos ficaram dizendo que eu era sortudo. Agora dizem que tenho talento. Não sei bem o que é isso, mas devo ter. Afinal, não é qualquer um que entra aqui. Lá na escola, os outros dizem que gostariam de ser eu. Não sabem como essa vida é sacrificada!



O próprio Carlinhos se surpreende com sua loquacidade:



Eu acho gozado, assim, sei lá, eu ficar batendo papo. Mas é bom, porque, se eu falo errado, não tem importância, não é? Não estou sendo adulto, estou? Criança fala assim mesmo. Meu signo é Touro. No colégio, não sou o melhor aluno, mas tenho amigos até no ginásio. Tem até um lá que me defende. Hoje não brigo tanto, mas antigamente era muito folgado e apanhava pra valer. Eu era um chato. Agora todos gostam de mim.



Gisela Carneiro não tem muito tempo para conversar. Aos 10 anos, sua preocupação maior é a de que as gravações de As Loco Motivas acabem logo, para que possa ter umas férias. Em sua pasta carrega apenas o material da novela - roteiro para mais uma semana de trabalho que terá de decorar em casa.



Não vejo televisão, não tenho tempo. Fico lendo o script de manhã à noite e só paro para filmar. Por isso quase não dá para estudar. Que trabalho cansativo!



E Gisela pede licença porque o diretor ("Ele é muito legal"! quer fazer as últimas cenas da manhã. A troca de roupa é rápida e ela reaparece de biquíni e camiseta, pois a próxima locação será num clube da Barra da Tijuca. Mais uma cena e Gisela sai correndo. Recebe as últimas instruções pára a cena da tarde e sai apressada, porque sua babá está lá fora, esperando para levá-la ao colégio.



Com os Cr$ 500 que recebe por dia de trabalho, Gisela já comprou um anel, uma pulseira e um relógio. Só lamenta ainda não ter recebido nenhuma carta de fã.



Não sei o que pensam de mim. Ela diz ansiosa - mas sou uma estrela. Ou não sou?



Hoje, aos 22 anos e com uma filha de três, Elisângela - o grande exemplo da criança que cresceu artista - divide com Míriam Fisher e Gisela Carneiro o sucesso de As Loco Motivas junto ao público infantil. Diz ela:



Prodígio, nunca fui. O que eu tinha era murta "Sensibilidade. Mas não imaginava que ficaria na profissão por tanto tempo. Comecei aos sete anos, fazendo um programa para adultos, e achei que aquilo tudo fazia parte de mim. Mas só na adolescência comecei a perceber o que realmente estava fazendo e tive estrutura para sustentar-me. Para os que estão começando, eu diria que nunca esquecessem o lado infantil. Ganhei muita noção de responsabilidade, mas perdi a infância e custei a perceber isso. Fui adulta demais.



Pelo menos por enquanto, Júlio César, de 12 anos, não tem nenhuma queixa de sua vida profissional. Depois de ser filho de Tarcísio Meira em várias novelas, o atual Pedrinho do Sitio do Pica-Pau Amarelo não dá entrevistas durante o almoço, não diz quanto ganha e não erra suas falas:



- Não me considero muito adulto para minha idade. O que interessa é que estou trabalhando. Todos dizem que sou minigênio, mas o que eles não sabem é que vou me aposentar muito mais cedo do que pensam.



Nas gravações do Sítio, Narizinho pergunta:



Você não acha que a gente devia continuar brincando de faz-dei conta?



Ao que Pedrinho responde:



- Acho que fiz de conta errado!



Narizinho deixa a cena. Desta vez para retocar a maquilagem, um problema de fácil solução. Nenhum deles sente o drama de Ferrugem, condenado a ser criança, mas com todas as responsabilidades de um adulto, sem poder crescer o bastante para se defender de gente, quase sempre, muito pouco inocente.



UM SACI PERERÊ DE VERDADE - Da Vila América, em Salvador, para o Sitio do Pica Pau Amarelo, em Guaratiba, a vida de Genivaldo dos Santos transformou-se radicalmente. Aos 13 anos ele representa o Saci Pererê, um papel fácil para quem, com uma perna só, caminha, corre e joga bola sem qualquer ajuda.



A encarnação do mitológico personagem do folclore do Norte brasileiro foi muito natural para Genivaldo, que fuma tranqüilo seu pito e enverga o capuz vermelho com ar maroto.



"Não sei decorar o texto, mas acho que ainda vou aprender como é."



Seus espertos olhos pretos mexem-se rapidamente e Genivaldo prepara-se para atirar uma pedra em seu doublé, Romeu Evaristo, ou no Tio Barnabé, também personagem do Sítio, com quem ele vive no camping da Barra da Tijuca.



"Quando é sábado pra domingo, os meninos vão ao camping e aí eu jogo bola. Não, caio não. Agora a praia que mais gosto de ir é a de Botafogo, porque lá o mar é mais calmo."



Enquanto alguém da produção interrompe para dizer que ele nunca esteve na praia de Botafogo, ele continua: "Só estive até agora no parque de diversões e outros lugares. Falta ainda o Pão de Açúcar, o Cristo, muita coisa.



Com a responsabilidade de comparecer às gravações da novela, Genivaldo sabe bem o que veio fazer no Rio: "Vim trabalhar. Mas vou começar a estudar também. Lá em Salvador, fazia o 3° primário. Era muito melhor, porque tinha amigos para brincar. E depois eu volto para Salvador, já estou com saudades!"



Romeu Evaristo diz as falas de Genivaldo, que segundo ele, "não tem expressão como ator, por isso me chamaram". Tendo participado da novela João da Silva, ele é operador de telecine na TVE à noite e estuda Comunicação de manhã. A tarde está gravando o Sítio: "Em termos de ator, estou realizado". E relembra alto as falas da gravação: "Pensei que isso fosse coisa do meu primo Curupira, que é tinhoso feito eu, mas que tem dois pés, só que virado para trás". E dá uma risada.



Como Curupira, Romeu tem duas pernas e pés, só que na posição normal, e ganha Cr$ 4 mil 800. Genivaldo não diz quanto ganha. Está mais preocupado em brincar, arrancando galhos das árvores em que sobe com a maior rapidez. Soltando fumaça, ele ri: "Vocês tão me abusando. Não vou falar mais nada."



1975 - Diretor de Gabriela e o Perigo da TV

Amiga TV


Data de Publicação: 7/5/1975

Autora: Daisy Prétola


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AVANCINI: ''A TV ESTÁ FORA DA REALIDADE''



O diretor de Gabriela acha que ''é realmente perigoso o que os homens da televisão estão fazendo, seguindo definições que só vêem a realidade em nível urbano''



Como diretor de Gabriela, ele está entusiasmado, pois está trabalhando com uma novela inteiramente brasileira, ''inclusive a trilha sonora''. Mas Valter Avancini acha que o que a Globo está fazendo com Gabriela é apenas um primeiro passo, ''pois é necessário mudar toda a programação de TV, que está se deixando influenciar por conceitos sofisticados e apresentando uma realidade que não é nossa".



''É realmente perigoso o que os homens de TV estão fazendo. Eles estão seguindo definições que só vêem a realidade no nível urbano, Ora, a cultura urbana já é descaracterizada, porque não é nossa. É resultante de várias influências estrangeiras através da música, do cinema, do teatro e até mesmo da imprensa, Está se disseminando por todo o Brasil uma cultura importada. Adotamos uma linguagem que não é nossa. Podemos constatar isto em todas as formas de expressão artística. O público sente mais empatia por uma peça estrangeira do que por uma do Ariano Suassuna. Nós já começamos a rejeitar nossa própria imagem. Posso dar um exemplo que me envolve muito de perto: tenho dificuldade para compor uma cena de luta. O ator brasileiro aprende a lutar jiu-jitsu, caraté e kung-fu. Capoeira, que é nossa, ele não sabe. Sou obrigado a fazê-la nos moldes americanos. Isto me irrita!'*



Avancini enumera suas queixas contra os entendidos de televisão.



''Os críticos cobram da televisão um comportamento urbano. Eles estão por demais preocupados com McLuhan e pouco preocupados com a nossa realidade. Cada povo é um fenômeno à parte e isolado. Eles, os críticos, dão a terapêutica, sem o devido estudo do comportamento da grande massa brasileira. Precisamos nos conscientizar de que a nossa realidade é bem outra. Estive recentemente no interior baiano e tive a oportunidade de conviver com aquela gente de lá. Eles representam a grande maioria do público de TV. Vivem numa conjuntura completamente diferente da nossa, recebendo mensagens diárias que não se adaptam em absoluto às suas realidades. Eles são alijados das nossas atenções. E tudo isto por quê? Por que a crítica especializada está, cada dia mais, forçando os homens de TV a transformarem a televisão numa redundância de uma minoria. Informando, divertindo a quem menos precisa dela e que muitas vezes nem a assiste. Chega de modelos importados! A nossa nacionalização é importada. A maioria dos homens que estão ligados aos meios artísticos - rádio, cinema, teatro e TV - têm uma formação arraigada no "That's entertainment''. Foram fortemente influenciados na maneira de contar, apresentar; enfim em tudo."



"Estou lutando para que este estado atual de coisas tome um novo rumo. Expus meu ponto de vista aqui dentro da TV Globo. E um passo está sendo dado na novela Gabriela. Já a escolha do autor, Jorge Amado, nos impõe uma mudança. Não posso dizer que será um passo de gigante. Mudar toda uma estrutura ' assim de repente, é impossível. São setecentos minutos de gravação, por mês. Isto equivale a cinco filmes de longa-metragem. A trilha sonora que está a cargo de Guto Graça. Melo consta de duzentos mil metros de fitas gravadas exclusivamente com músicas brasileiras autênticas e que fazem parte do folclore brasileiro. Quanto a mim, estou procurando imprimir na novela toda a autenticidade que a obra requer.



Finalizando, Valter propõe:



- É necessário que se faça um trabalho lento de recuperação. Lento porque, como já disse, há um processo de rejeição muito violento por parte do público à sua própria imagem. Deverá ser feito um estudo muito profundo das estéticas e linguagens em todos os veículos de comunicação. Se preciso achar a linguagem comum à grande massa para aplicação correta de nossos valores. Chegaria a dizer até que se trata de "um caso de amor". A TV deve produzir programas experimentais. Não devemos rejeitar as inovações. Elas devem ser ministradas aos poucos. Seria um trabalho de laboratório. Posto em prática, restaria o bom-senso para saber se a experiência estava ou não alcançando seus objetívos. Eu daria uma definição para a TV brasileira atualmente: ''Somos pequenos burgueses brincando de fazer arte.''



ELE PODE FALAR - Quando fala da situação da TV brasileira, Válter Avancini se apóia numa experiência de 32 anos de vida artística, que começou em 1943, quando declamava poemas em programas infantis da Rádio Difusora de São Paulo. Ele é paulista, tem sobrenome italiano, mas sua bisavó era índia. E sua infância foi marcada pela influência de sua avó, Sabe, que quase não falava e só vivia cantando as canções indígenas que aprendera de sua mãe.



Essa influência marcou mesmo. ''Não posso me afastar de minhas raízes.'' Hoje Avancini já fez de tudo na TV, ''mas sempre produzindo e dirigindo histórias brasileiras''. Em teatro também: já foi premiado duas vezes como melhor diretor, é autor de algumas peças (que ele mesmo produziu) e foi ainda radio-ator, quando interpretava novelas de Oduvaldo Viana (pai).



1989 - Chega ao Brasil a TV por Assinatura

Gazeta Mercantil


Data de Publicação: 29/3/1989
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CANAL +



SÃO PAULO — Com o nome de Canal +, entrou em operação ontem à tarde a primeira emissora brasileira de televisão por assinatura — aquela que o telespectador só pode sintonizar depois de acoplar um decodificador a seu aparelho. Com programação exclusivamente esportiva, transmitida 24 horas por dia, via satélite, pela rede americana ESPN (Entertainment Sports Programing Network), o Canal + poderá ser captado nos 38 municípios da Grande São Paulo, onde se acredita haver 3,5 milhões de casas com televisores, o que significa perto de 14 milhões de telespectadores.



Durante um período de testes que se estenderá por cerca de 45 dias, qualquer aparelho com UHF, além daqueles servidos por antenas parabólicas, poderá mostrar os programas da nova emissora, bastando sintonizar o canal 29. Depois desse mês e meio, porém, o sinal será codificado — só os assinantes, então, poderão recebê-lo. Para isso, será preciso comprar, na emissora, um decodificador, que vai custar NCz$ 150 para residências e NCz$ 1 mil para edifícios, e instalar uma antena de UHF, cujo preço ainda não está fixado.



Pela assinatura propriamente dita se vai pagar NCzS 15 mensais. Graças ao decodificador, que vem acompanhado de controle remoto, qualquer aparelho — mesmo os que não têm UHF — poderá captar as imagens do Canal +. O áudio virá dos Estados Unidos em português, em tradução simultânea, mas quem possuir televisor estéreo terá também a opção do original em inglês.



O empresário André Dreyfuss, presidente da Super Canal — a empresa que durante cinco anos vai representar com exclusividade a ESPN no Brasil —, explica que a codificação do sinal da emissora será feita gradativamente, "de forma que o Canal" permanecerá no ar, diariamente, em aberto, por algumas horas, para que todos os telespectadores da Grande São Paulo possam conhecer o novo serviço". Dreyfuss, de 34 anos, é um novato no ramo das comunicações. As empresas com que trabalhou até agora estavam ligadas, fundamentalmente, ao mercado financeiro.



Inicialmente, sô os moradores do quadrilátero compreendido entre as avenidas Paulista, Rebouças e Brigadeiro Luiz Antônio e pela rua Estados Unidos, na região dos Jardins, poderão fazer assinaturas. Em outros pontos da capital e municípios vizinhos, esclarece Dreyfuss, a chegada do Canal + vai depender da demanda — "as regiões que apresentarem o maior número de pedidos serão as primeiras". Mas será preciso, nesse caso, pagar uma taxa de urgência, de valor ainda não estipulado.



A opção por uma programação exclusivamente esportiva, segundo Dreyfuss, se explica pela tendência, cada vez mais nítida em todo o mundo, de segmentação do mercado. "Nos Estados Unidos, nada menos de 115 milhões de pessoas vêem os programa da ESPN", garante ele, "e no Brasil algumas emissoras já têm horários segmentados com programação esportiva, seja em dias, seja em horários específicos". O público visado pelo Canal +, diz Dreyfuss, é, explicavelmente, composto por uma maioria de homens: 75%. Mas o cardápio da ESPN inclui itens capazes de seduzir também as mulheres, como aulas de ginástica.



Ambos os sexos poderão se regalar, nos próximos dias, com automobilismo, golfe, luta livre, musculação, boxe, surfe, turfe, pesca, basebol, boliche e até mesmo uma corrida de caminhões e tratores em Kansas City. O diretor comercial da Super Canal, Laurindo Chinelatto, informa que a empresa brasileira não se limitará a comprar material da ESPN. "Tentaremos vender para ela bons produtos esportivos da televisão brasileira", promete ele. Chinelatto admitia, ontem à tarde,que o Canal + ainda não havia fechado contratos com anunciantes. "Mas quanto a isto estamos tranqüilos", dizia, "pois não faltará quem queira embarcar no nosso veiculo".



O Canal + da França — que tem mantido contatos no Brasil com a Editora Abril —, no qual a nova emissora se inspirou para tirar não sô seu nome como seu logotipo (são igualzinhos), é uma TV a cabo com programação totalmente diferente. Ela se dedica a filmes de longa-metragem, que exibe quase ao mesmo tempo em que eles estão sendo lançados no cinema. Roger Karmann, vice-presidente corporativo da Abril e responsável por seu setor audiovisual, explicou que a empresa, que também pretende entrar no mercado com uma TV para assinantes, não tem qualquer representação do Canal + francês no Brasil e que os contatos que tiveram visavam fundamentalmente à obtenção do know-how de uma experiência bem sucedida.



Sunday, December 23, 2012

1974 - Marcos Paulo Fora de Novela

Amiga TV


Data de Publicação: 23/10/1974

Autora: Alice Sampaio


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MARCOS PAULO CAI DA MOTO E NÃO SABE O QUE SERÁ DE ANDRÉ



Enquanto Gessi Fonseca é só alegria com seu trabalho em Fogo Sobre Terra, Marcos Paulo, o André, não começou muito bem o mês de outubro. No último dia 1°, quando estava livre das gravações da novela, ele sofreu um acidente com sua moto que quase lhe quebrou o braço. Marcos saiu para fazer compras - depois da aula de balé e expressão corporal - e, na volta ao Leblon, a moto derrapou numa poça de água, virou e caiu sobre seu braço. "Na hora pensei que tivesse me arrebentado, com a derrapagem e a violência do choque. Mesmo depois de fazer um curativo improvisado em casa, achei melhor dar um pulo ao hospital para ver direitinho do que se tratava. Felizmente disseram que foi uma ligeira torção, sem maiores conseqüências." Marcos Paulo não sabe se com André vai acontecer alguma complicação parecida, para justificar o braço enfaixado, mas acha que a direção da novela deverá selecionar ângulos de imagem durante as gravações, que não denunciem a gaze no braço.



1970 - O "Primo" de Topo Gigio

Correio do Estado (MT)


Data de Publicação: 20/9/1970

Autor: João Rodolfo do Prado


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UMA ESTRÉIA DEVAGAR



Apos uma badalação de mês e meio a Tupi estreou, na quarta-feira passada, o show (de) Pisulino. Quem deu o nome ao programa foi um boneco daqueles que ficam no colo dum ventríloquo que lhe dá os movimentos. Pisulino é oriundo da Itália e deve ser primo em segundo grau do Topo Gigio, mas não possui os atrativos técnicos do rato.



Quando soube que o Canal 6 iria produzir um programa especialmente para sustentá-lo fiquei meio cabreiro. Afinal, dois bonecos a dizer gracinhas é dose um tanto forte. Além do mais, Pisulino é um nome horrível, soa mal e favorece a imaginação de mil e um piadistas inoportunos.



Deu para ficar um pouco mais animado quando a Tupi anunciou a reforma do palco (que agora é "mecanizado"), corpo de baile de primeira e a participação do "grande elenco de humoristas" da emissora. Se a realização do programa era pra cabeça, bem que as terríveis perspectivas de mais um boneco ficavam atenuadas. Seria-se um bom show e aproveitava as manifestações pisulinescas para um cafezinho ou algo semelhante.



E restava a esperança de que o boneco fosse pelo menos divertido.



Visto o programa, fico naquela dúvida: é tão bom que a gente nem percebeu, é muito ruim ou não existe? Resolvi caminhar por etapas. Pisulino é melhor que Meus Amigos e Eu, mas isto não lhe dá muitos méritos (difícil era ser pior...). Foi atingido o objetivo de ser um show luxuoso? Bem, a produção caprichou, é preciso reconhecer que houve até uma certa ostentação: uns vinte bailarinos, cenários que existiam (a Tupi tem caprichado em matéria de não-cenário ou descenário - escolham), vários comediantes, guarda roupa imponente, etc. e etc.



Observando-se as diversas partes que compõem o programa, vê-se que elas possuem vários pontos positivos.Mas reunindo-as num espetáculo não se pode dizer o mesmo. Faltou garra ao programa, não deu para sacudir. O ritmo foi lento e Pisulino arrastava-se entre um e outro comercial. A parte humorística esteve fraca, descambando com muita facilidade para o grosseiro; um pouco mais original estava Costinha e a história do telefone, o que garantiu o purgatório.



O ballet não foi mal. Estava corretamente mareado, todo mundo os mesmos movimentos, ao mesmo tempo e constitui-se na melhor parte do espetáculo. A direção de tevê foi correta e soube explorar as possibilidades de imagem que foram oferecidas. A direção geral escorregou, não conseguindo soluções dinâmicas que permitissem um ritmo eficiente. Vale notar que os quadros duravam um tempo enorme, mas isto parece ser marca registrada do humor feito no Canal 6.



As duas grandes atracões de Pisulino, o próprio e Rosemary, mantiveram-se num nível abaixo do necessário. O boneco é realmente sem graça, o texto que fizeram para o ventríloquo (é mesmo?) não merece mais do que a classificação de boboca. Ao contrário de Pisulino, Rosemary deverá crescer com o programa. A cantora ainda não se adaptou ao novo papel de show-woman, parecendo apática e vazia. Como era a estréia, isto tudo torna-se compreensível e desculpável.



Este é um primeiro comentário sobre Pisulino, um espetáculo que não satisfez. É preciso mais força, um timming vibrante e aquele charme que se espera de um show musical. Em termos de producão a Tupi deu um pulo, o mesmo valendo para a imagem transmitida. Mas, infelizmente, Pisulino não foi mais que um Café Sem Concerto recauchutado.







1988 - Regina Duarte se prepara para Vale Tudo

O Globo


Data de Publicação: 17/4/1988

Autora: Mara Bernardes

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COMEÇANDO A VIVER OS PROBLEMAS DE RAQUEL
Depois de viver a exuberante e rica viúva Porcina de "Roque Santeiro" Regina Duarte vai voltar às novelas das oito da Globo, agora como Raquel, uma mulher pobre, que enfrenta graves problemas, especialmente com a filha corrupta e ambiciosa.


Quando a próxima novela das oito estrear, em 16 de maio, deverá ter 10 capítulos prontos, segundo a determinação do diretor Denis Carvalho. Serão cenas com muita ação e para acontecer em vários cenários, no Rio, em São Paulo e Foz do Iguaçu, para onde parte do elenco e uma equipe numerosa de técnicos segue hoje, prevendo cinco dias de trabalho. Em Foz começará a trajetória de Raquel, guia de turismo que depois se mudará para o Rio. Raquel é a personagem principal da trama de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères e já está sendo vivida por Regina Duarte, que aos poucos ingressa "no universo de uma mulher pobre mas muito humana e simpática", como dizia a atriz na terça-feira, durante gravação numa churrascaria, com Antônio Fagundes.

Ali, Raquel e Ivan se conheciam melhor, horas depois de ela ter chegado ao Rio e ser assaltada por um pivete. "E o início da simpatia, da sedução entre eles", segundo Regina, que contracenou com Fagundes pela última vez em "Nina", há dez anos:


- Acho que a novela vai agradar porque seu conteúdo é bem atual, é bem o retrato da nossa gente, do nosso País de hoje. E eu estou apaixonada pela Raquel, uma pessoa espontânea, transparente e sincera. Acho ela muito parecida com a grande maioria dos humilhados brasileiros. Raquel será meio tragicômica. Terá momentos de humor, mas em outros despertará o lado sentimental do público.


Regina disse estar feliz com a família que ganhou na trama: a filha vivida por Glória Pires, que vai lhe dar muitas dores de cabeça, o pai interpretado por Sebastião Vasconcelos, que morre logo, e o ex-marido que Daniel Filho fará nos 20 primeiros capítulos da novela - "são todos ótimos."


E enquanto Raquel vai enfrentar a corrupção, Ivan se verá às voltas com o desemprego, como contava Fagundes, cujo último trabalho na TV foi em "Corpo a corpo", novela imediatamente anterior a "Roque Santeiro":


- Ivan troca o emprego que tinha em São Paulo por outro no Rio, porque quer ficar mais perto do filho, que vive aqui. Mas logo ele é demitido, como todos na empresa, que é encampada por outra. E isso é só o começo...


VIRADAS NA CARREIRA - Da namoradinha à viúva


Após sua estréia em novelas no extinta TV Excelsior, em "A deusa vencida", levada ao ar em 1965, Regina Duarte logo se transformou na "Namoradinha do Brasil'' sempre solicitada para viver mocinhas que muito sofriam para conseguir o amor e a felicidade, como verdadeiras Cinderelas. Papéis mais ousados em "Nina" e "Sétimo sentido" começaram a mudar essa imagem, que caiu por terra definitivamente com suas participações nos seriados "Malu mulher" e "Joana em que a atriz Interpretou personagens mais maduras e preocupadas com os problemas sociais, econômicos e políticos do País. A virada maior, porém, foi a viúva Porcina de 'Roque Santeiro' uma criação inesquecível e totalmente diferente de tudo que ela já havia feito na televisão.


Wednesday, December 5, 2012

1973 - Flávio Cavalcanti X Tupi

Jornal do Brasil


Data de Publicação: 29/7/1973

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FLÁVIO CAVALCANTI SÓ VOLTA AO PROGRAMA SE PEDIR DESCULPAS POR ENTREVISTA CONTRA TUPI



Flávio Cavalcanti só volta ao programa se pedir desculpas por entrevista contra Tupi



Caso Flávio Cavalcanti apresente hoje à. noite o seu habitual programa de televisão, "o que será difícil", terá que se submeter a uma exigência que é considerada ponto pacífico pela direção da Rede Tupi de Televisão: retratar-se publicamente por ter afirmado que se ganhasse na Loteria Esportiva pagaria os salários atrasados dos artistas.



A decisão foi tomada ontem após cinco horas de reunião da direção-geral da emissora, que inclusive consultou por telefone, no México, o diretor dos Diários Associados, Sr. João Calmon. Hoje à tarde será mantido um contato pessoal com o apresentador sobre o problema, já que até agora os entendimentos foram com o seu filho e um advogado.



REUNIÃO - A reunião, iniciada às 17 horas de ontem, foi liderada pelo superintendente da Rede Tupi de Televisão, Sr. José Arrabal, e teve a participação de outros diretores e ainda Flávio Cavalcanti Júnior e o advogado de seu pai, Sr. João Marcos Avila da Costa.



Durante cinco horas seguidas (acabou às 22 horas) foram discutidos vários aspectos da entrevista dada pelo apresentador Flávio Cavalcanti a um programa da própria emissora, quando afirmou que "se ganhasse na Loteria Esportiva a primeira coisa que iria fazer era pagar os salários atrasados dos artistas da TV Tupi."



Essa atitude foi considerada uma grave indisciplina do apresentador e daí a decisão da direção da emissora em não permitir, a principio, que apresentasse hoje o seu programa. A direção da emissora já estava contrariada com ele desde março, quando da sua suspensão pela Censura e depois, na sua volta, quando prestou no ar uma homenagem ao seu produtor Wilton Franco, também suspenso, e que provocou uma repreensão das autoridades à emissora.



1985 - Uma Nova TVE

Jornal do Brasil


Data de Publicação: 1/7/1985
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TOQUE CARIOCA AJUDA NOVA IMAGEM



Uma nova TVE no ar a partir de hoje. O projeto teve uma gestação rapidíssima, apenas três meses. Mas foi o objetivo proposto por Fernando Barbosa Lima ao assumir a direção geral da emissora na primeira quinzena de abril: cara nova, cabeça arejada. São 30 programas em estréia, tentando colocar a TVE mais bem armada na briga pela audiência.



Não que a emissora alimente sonhos de concorrer com as redes comerciais. Continua a ter a marca de uma televisão educativa, mantendo a educação como meta básica. O que a nova direção da TVE se propõe é mostrar que a linha educativa nada perde com um pouco de charme. E que os outros horários podem ser aproveitados com mais criatividade, abrindo espaço para novos talentos sem oportunidades na televisão comercial.



Jornalismo e entretenimento estão bem dosados na nova TVE. Assim corno o toque carioca, um dos trunfos que Barbosa Lima pretende usar para tornar a emissora mais atraente. As 13h30min, de segunda a sexta-feira, será exibido Sem Censura, programa que vai discutir temas variados, abrindo canal para que a população possa expor suas idéias, fazer reclamações e esclarecer dúvidas. Fantasia é outra atração diária - de segunda a sexta-feira, das 18h às 20h. Dedica-se ao público infanto-juvenil e terá o circo do palhaço Muriçoca como pano de fundo. Brincadeiras, jogos, histórias e a participação de convidados animam o programa que conta com a participação de Carequinha, Daniel Azulay, Arnaud Rodrigues e o Mago Plim Plim.



Para o início da noite, Eu Sou o Show, no ar de segunda a sexta-feira, às 20h. A apresentação fica por conta de Jalusa Barcelos que durante cinco dias conviverá com alguma personalidade do show biz.



Os jornalísticos começam às 20h30min, com a primeira edição de Ao Vivo, que trata de assuntos locais nos primeiros 15 minutos. O segundo segmento cuida de notícias nacionais e intemacionais. A idéia da direção da emissora é passar para o jornalismo o espírito da Nova República, indo além da informação. Partirá para a explicação dos fatos e seus possíveis desdobramentos.



Os Editores - segunda a sexta-feira, às 22h15min - reúne os bons nomes do jornalismo brasileiro e terá o formato de uma revista diária, discutindo os fatos mais importantes do dia-a-dia., O programa já tem formado um cast de mais de 20 jornalistas que se revezarão na tela. Para fechar a noite, 1985, de segunda a sexta-feira, às 23h15min. Entrevistas, notícias curiosas, o humor carioca num bate-papo bem informal dirigido por Carlos Alberto Lofler e apresentado por Perfeito Fortuna, Neila Tavares, Fausto Wolff, Ziraldo o outros.



No horário das 21h15min, a TVE preparou atrações variadas para cada dia da semana. As segundas-feiras, A Era da Incerteza, 12 capítulos produzidos pela BBC de Londres, orientadas por John Kenneth Galbraith. Na terças-feiras é a vez de Os Repórteres, com a participação de Tárik de Souza, Sandra Regina, Sargentelli e a turma da produtora Olhar Eletrônico. É um programa de entrevistas variadas, compondo um painel da vida brasileira. Vai Passar, no ar quarta-feira, traz Chico Buarque de Holanda à TVE pela primeira vez, Abre lugar para a música popular brasileira, dos sucessos às novidades. Tribunal do Povo, às quintas-feiras, vai mostrar a opinião de pessoas famosas sobre determinados assuntos. Para a noite de estréia já foi gravado um debate entre Luís Carlos; Prestes e Roberto Campos, um confronto entre o socialismo e o capitalismo. As produtoras independentes ocupam o horário nas sextas-feiras. Essa semana será apresentado o musical A César, com o músico Cesar Camargo Mariano.



Muitas outras novidades estarão no ar a partir de hoje. São, ao todo, 53 horas de estréias esta semana. Muda, também, a programação visual da emissora, um trabalho do artista Walbercy Ribas, ganhador de mais de 50 prêmios internacionais.



1969 - Telemitos

Jornal do Brasil


Data de Publicação: 20/9/1969

Autora: Maria Alice Barroso


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COMO FUNCIONAM OS MITOS NA TV



"Chacrinha continua balançando a pança



E buzinando a moça massa e comandando a massa



Alo, alô, seu Chacrinha, velho palhaço!



Alô, alô, Teresinha, aquele abraço!" (Gilberto Gil)



Antigamente, antes de se dirigir ar publico, um orador tinha o hábito de pigarrear. Hoje, talvez ele ainda o faça, porém logo em seguida citará Marshall McLuhan, o famoso teórico sobre comunicação de massas . O autor de Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem está desempenhando um curioso papel nessa briga entre o ser pensante versus televisão (pelo menos a televisão comercial, tal como a conhecemos). Ele me faz recordar a sovadíssima anedota do homem que não podia pagar sua divida, e, aceitando a sugestão da esposa, telefonou para o seu credor, avisando que não possuía dinheiro para repor a quantia em apreço - desse momento em diante ele adormeceu e quem passou a noite em claro foi o credor.



É claro que como bom teórico McLuhan é, antes de tudo, um justificador: o meio é a mensagem e com esta frase os produtores da TV brasileira podem dormir tranqüilos. Porém não me posso furtar ao prazer de perturbar o sono desses cavalheiros - transcreverei um trecho do livro de McLuhan, que evidencia ser o mesmo um inocente ou um deslumbrado, no sentido suediano do termo:



''Nas novas roupas e moradias, a nossa sensibilidade unificada se diverte em meio às mais variadas sortes de consciência de materiais e cores, o que faz com que a nossa era seja umas das maiores da Historia - em Música, Poesia, Pintura e Arquitetura.



Quem é suficientemente ingênuo para emitir esse desvanecedor juízo critico á respeito de uma época indefinida como a que vivemos, merece as minhas restrições. Porém recorrerei novamente ao livro de McLuhan, para dele extrair a seguinte historinha:



''No show de (Jack' Paar, de 8-3-53, Richard Nixon foi paarificado e remodelado de acordo com a imagem da TV. Revelou-se que o Sr. Nixon era também pianista e compositor. Com o tato seguro de quem conhece o caráter do meio que usa Jack Paar mostrou o lado pianoforte do Sr. Nixon, com excelentes resultados. Em lugar de um Nixon habilidoso, escorregadio e jurídico, vimos um esforçado executante criativo e modesto. Uns poucos toques oportunos deste tipo teriam alterado o resultado da campanha Kennedy-Nixon. A TV é um meio que rejeita as personalidades muito delineadas e favorece mais a apresentação de processos do que de produtos."



O grifo - acrescente-se - é meu, porque são justamente esses processos que estou tentando sondar agora.



Talvez o mais antigo consagrador de mitos da nossa TV seja o próprio Chacrinha (ele próprio também um mito, por que não?). Sua Discoteca apresenta, semanalmente, uma série de cantores novos, com um repertório tateante, em busca de público: esses cantores antes lembram Copacabana, em pleno verão, quando uma chusma de banhistas aguarda, além da ar rebentação, pelas melhores ondas para seus jacarés. Na crista da vaga, apenas dois ou três conseguem retornar à beira da praia, o resto ficando perdido na metade da trajetória.



O REINADO DA TV



Nos tempos em que apenas pontifica va o rádio, somente o sucesso musical seria capaz de consagrar um cantor. Hoje em dia. em pleno e absoluto reinado da TV, sentimos que como pano de fundo da música que começa a ser sucesso atua, paralelamente, todo o complexo mítico que compõe a figura que determinado cantor projeta para o público. À semelhança daquelas velhas senhoras, que apresentavam em suas casas de tolerância novas atrações, atualmente os empresários bolam desde o corte de cabelo do artista até a criação de tiques que possam marcá-lo para o público. Creio que ninguém esqueceu a guinada de Caetano Veloso, no Festival de São Paulo, quando apresentou Alegria, Alegria. Calhando com a musica (marcada pelos acordes das guitarras elétricas), Caetano se apresentou com uma enorme e revolta cabeleira, camisa larga, de cores berrantes: ele segurava o microfone com uma das mãos, com a outra cocava a cabeça, cruzando displicentemente o pé, com aquele ar desamparado, que tanto sucesso conquistou. Tempos depois, Gilberto Gil apareceu vestindo o djabala africano, barbicha pontuda, a figura fancionando como pano de fundo ao Batmacumha. Sentia-se na inovação das roupagens o dedo autoritário do empresário, que hoje é o fac totum na vida do artista brasileiro.



Porém retorno ao Chacrinha, porque ninguém exemplifica melhor do que ele o que seja o mito da TV: sem a buzina, as roupas extravagantes e as frases feitas (Salve, salve, D. Aurora, acontece que estou chegando agora e etc., etc.) ele talvez chegasse a ser apenas um bom vendedor de geladeiras. Do tipo que, ao abrirmos a portinhola da entrada, começa a falar e acaba nos vendendo o produto porque é o único meio de recuperarmos a paz. Não há inteligência em seu olhar, mas esperteza - o que não dá para assustar ninguém. A grossura intencional de suas atitudes, quando atira sobre o público do auditório latas de banha, restos de cebola e pedaços de bacalhau faz parte desse complexo mítico que o tornou não só famoso como também o profissional mais bem pago da televisão brasileira (dizem que atualmente está ganhando 160 milhões de cruzeiros velhos, com impostos pagos pela emissora e verba de 10 milhões). Seu sucesso é tão intrigante que até mesmo sociólogos estrangeiros já se ocuparam de estudar sua figura, tentando decifrar as causas dessa consagração popular.



Porém nem só desse tipo de animadores vive a TV brasileira: J. Silvestre, o apresentador de Show Sem Limite, encarna o mito oposto ao do Chacrinha. Antes de mais nada, Silvestre parece conseguir emocionar o telespectador bastando que surja na tela: é como se ele tivesse atingido, moço demais, o posto de maior responsabilidade de uma empresa. Figura correta, testa larga, facilidade de expressão, seu maior recurso é sorrir cronometricamente certo. Sem ser um homem sisudo, ele é um apresentador sério, que comanda o publico do auditório como só um professor fascinante é capaz de se impor ao grupo de alunas adolescentes. Tendo surgido na TV através de um programa de exelente nível cultural (Céu é o Limite), ao iniciar O Domingo Alegre da Bondade - cujo objetivo é a assistência social, esse assunto que geralmente degenera numa espécie de Pátio dos Milagres, com o desfile de pobres débeis mentais - houve o perigo de que o mito do homem justo descambasse para a vulgaridade sensacionalista do Homem do Sapato Branco. Porém Silvestre sabe cuidar de sua imagem perante o público melhor do que ninguém: o programa não vai além de distribuir prêmios para entidades de benemerência, sem a exposição de casos individuais que visam menos despertar compaixão do que fazer sensacionalismo.



Recentemente, no episodio da Noivinha da Pavuna, quando a candidata Leni Orsida deixou de responder a uma pergunta sobre o tema Guerra Junqueiro, o mito do homem bom, fraterno e humano que Silvestre representa para o público foi posto à prova. Caso o apresentador tivesse se limitado a obedecer à decisão da Comissão Julgadora, desclassificando a candidata, seus admiradores não o perdoariam. conforme os órgãos de consulta à opinião pública demonstravam.



DO MELODRAMA À AGRESSIVIDADE



Um outro tipo de mito é representado pelo casal que lidera a audiência das telenovelas: Carlos Alberto e Ioná Magalhães. A circunstância de ambas terem-se apaixonado um pelo outro, durante a representação de Eu Compro Essa Mulher, foi importantíssima para a sua consagração; formava-se diante de nossos olhos um par que repetia a proeza de Elizabeth Taylor e Richard Burton. À semelhança do ator galês, que costuma dar entrevistas criticando as atitudes da bela Elizabeth, Carlos Alberto também fez o mesmo, no inicio do romance, declarando a uma revista, com o indefectível tom amoroso. que "Ioná era mal-educada, retraída, chata e etc.'" A partir dai o público entendeu que ele consentia no jogo, como o próprio Burton e Elizabeth haviam feito. Quando eu falo em consentir no jogo quero me referir ao casal de artistas que transfere um pouco da intimidade do seu amor para o cenário de um palco ou para diante das câmeras. Esse é o fugaz momento de glória amorosa para as mocinhas do Encantado, que lêem Capricho ou Sétimo Céu: a sensação de estarem partilhando uma intimidade que não lhes pertence torna essa mesma intimidade ainda mais excitante. E se alguém quiser cronometrar o: tempo que leva um beijo de Carlos Alberto em Ioná, verá que o diretor carrega no gênero, prolongando a melosidade das caricias "porque elas são do agrado dos telespectadores. "



Já o mito agressivo da TV é representado por Flávio Cavalcânticomeçou quebrando, que começou



quebrando os discos que ele considerava maus para o cancioneiro popular brasileiro, no programa Um Instante, Maestro! Talvez inconscientemente, náo sei, mas minha impressão pessoal é a de que Flávio ainda não conseguiu esquecer a mise-en-scŠne de Carlos Lacerda diante de uma câmera de televisão. A semelhança e tão profunda que deixa de ser simples coincidência para tornar-se uma afinidade. Há o mesmo bota-tira-tira-bota dos óculos, nos comunicados sérios ouvimos a familiar empostação cavernosa de voz e valendo tanto para Lacerda quanto para Flávio: ambos tem a mais extraordinária noção de ritmo (timing) que já me foi dada observar na TV. Neles dois também notei um fato estranho: refiro-me ao pudor que ambos têm de sorrir. O apresentador de Grande Chance chega a tapar a boca com a mão, para que o público não lhe veja o riso, talvez num medo inconsciente de que o mito do crítico veemente e violento fique um pouco abalado. E a propósito de A Grande Chance, vemos um desdobramento de mitos, que funcionam a contento, Zé Fernandes e o homem mau das notas baixas; Carlos Renato e o bonzinho, que sempre incentiva os candidatos; Mariozinho Rocha é o jovem prá frente, que defende as composições de vanguarda e etc. etc.



Em Bibi Ferreira a televisão tem o mito da apresentadora de programas mais intelectualizada do naipe feminino; não foi por acaso que a Tupi colocou-a no mesmo dia e hora que Derci Gonçalves, como uma opção para os que abominam o mito de Mãe West de minissaia e botinhas. Poliglota, inteligente e comunicativa, Bibi continua sugerindo ao telespectador a figura da menina prodígio, filha de Procópio.Cada Bibi ao Vivo é como se estivéssemos participando de sua festa de aniversário, inclusive com a nota de inesperado mau humor que, às vezes, acomete a aniversariante. Nesses momentos, o telespectador fica um pouco sem jeito, como se tivesse comparecido à festa sem ser convidado. Porém como Bibi é uma espécie de Mary Pickford da atualidade, ninguém chega a lhe querer mal por esses destemperos.



O BACHAREL E O HERÓI POPULAR



Blota Júnior estourou, no plano nacional, com o programa Esta Noite Se Improvisa, no qual Caetano Veloso, Carlos Imperial, Chico Buarque também aumentaram sua popularidade; com uma figura limpa de chefe-escoteiro, Blota é o entrevistador que não está interessado em revelar o lado sórdido ou meramente sensacionalista de seus entrevistados. Suas perguntas antes procuram desvendar o passado destes últimos, no que ele contém de luta e esforço para atingirem a projeção que justifica sua presença ao lado de Blota. A atuação dele, contrariamente ao tipo de entrevista que vigora na TV, é uma espécie de campo neutro ande os seres humanos valem pelo que têm de melhor - mais explicitamente, Dr. Jekyll é quem brilha, sem que Mr. Hyde tenha a oportunidade de aparecer. Falando um português correto, de bacharel que náo comprou seu diploma, esse paulista longilíneo e simpático fortalece, a cada programa, o mito do entrevistador cavalheiresco e fraterno, que dá ao próximo não elogios baratos, mas o respeito que o ser humano merece.



Finalmente temos o mito que eclipsou o conjunto internacional de Sérgio Mendes, no Maracanãzinho: o cantor Wilson Simonal. Sua extraordinária comunicação com o público repousa no que o carioca chama de um certo 'jeitão folgado', constituído pela gíria personalíssima, um sorriso meio cínico (que, na melhor das hipóteses, é a versão cabocla e atual do charme francês de Maurice Chevalier) e a capacidade de induzir o público a acompanhá-lo em suas músicas, comandando-o com uma alegria marcada pela auto-confiança. Ele poderia encarnar o poder negro, em sua marcha inexorável, caso o Brasil não fosse ''a terra em que, onde preto não entra, branco pobre também não pisa"- segundo definição do próprio Simonal. O curioso é que ele não possui uma faixa de público especificamente sua, no que tange à idade, condição social e sexo: a conquista de audiência tanto pode acontecer na proletária Cidade de Deus quanto na sofisticada Sucata, bastando que ele surja, microfone na mão, roupas de tons berrantes e um balanço no corpo que contagia a quem o rodeia. Por último, Simonal talvez venha a ser, em pleno fastígio da TV, o artista que mais fielmente representa o que se poderia chamar de herói popular brasileiro, após a epopéia do Macunaíma. Ou seja, o produto de sécuios de uma miscigenação racial sem os problemas que ocorrem nos Estados Unidos, por exemplo.



E, possível que, a esta altura, paire alguma dúvida sobre o que seja mito da TV: quis eu dizer que os artistas representam aquilo que eles absolutamente não são?



O que tento frisar é que não interessa ao público de TV aquilo que os artistas possam ser além da imagem (mito) através da qual ficaram conhecidos e admirados. Para os telespectadores não coexiste, no artista, o ser humano, com suas fraquezas, celulites e hálito áspero: no momento em que se acende a luz vermelha na câmera e o contra-regra avisa "Atenção. que o programa está no ar!" - aí paradoxalmente, começa o jogo da verdade para o público. O processo responsável por esse mito foi o que eu procurei analisar aqui, em sua composição externa ou representativa. Se devido a exigências profissionais, algum deles é forcado a representar ou penetrar, numa vida que não é a sua (e este é o trabalho constante do ator, não se esqueçam), somente o próprio artista poderá aquilatar até que ponto o parecer faz o ser .



Porém isto é assunto para psicólogos e psicanalistas e não desta escriba, que apenas desejou fazer alguns reparos sabre a televisão de agora e da hora de nossa morte, améns.



1978 - Bom Tom

Jornal do Brasil


Data de Publicação: 15/6/1978

Autor: Zózimo Barrozo do Amaral

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ETIQUETA NA TV



Em dois dias de observação, um atento telespectador observou que quem escreve para a televisão, quem dirige as novelas e quem as interpreta precisam urgentemente ser informados de que:



- nem todas as senhoras da sociedade fumam de piteira;



- pouquíssimas delas dirigem-se às outras chamando-as de "queridinha";



- ninguém se refere ao médico da família como "médico particular";



- mordomo não deve ser confundido com copeiro, e estes, quando mostrados, não devem nunca aparecer servindo mesa com uniforme riscadinho de faxina.



- Uma assessoria de etiqueta não faria mal a ninguém.



1997 - Entra Olivier Anquier

Folha de S. Paulo


Data de Publicação: 16/2/1997

Autora: Elaine Guerini


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FRANCÊS SIMPLIFICA NA RECORD AS RECEITAS DAS 'BOULANGERIES'



Olivier Anquier, 37, aproveita sua estréia como apresentador de TV para desmitificar a culinária francesa. Desde o último dia 28, o gastrônomo comanda nas tardes de terça-feira o programa "Forno Fogão & Cia", da Record, mostrando como se prepara receitas básicas de seu país.



"Quero deixar a cozinha francesa acessível. Poucos brasileiros sabem que a base desses pratos sofisticados é muito simples e saborosa", afirma Anquier, proprietário de duas "boulangeries" (loja de pães e doces) em São Paulo.



Em seu programa, com exibição às 14h, o apresentador ensina como preparar a massa para diferentes iguarias, incluindo receitas de confeitaria como bomba de chocolate, profiteroles e crepes - entre eles, o crepe suzette.



"Começo com os doces e, mais tarde, vou mostrar como se faz pratos salgados. Um deles será a quiche lorraine" diz. A médio prazo, a idéia de Anquier é fugir dos moldes tradicionais dos programas culinários e imprimir um novo ritmo.



"Gostaria de conduzir um programa moderno, parecido com o que Beth Lago apresenta no canal pago GNT. Só que, ao invés de tratar de moda, minha especialidade sempre será cozinha", conta.



Seu primeiro passo, porém, é se familiarizar com a linguagem de televisão. Anquier já participou da gravação de vários programas como convidado, mas, até hoje, atuou apenas em um episódio da série "A Comédia da Vida Privada", da Globo.



"Estou fazendo tudo. O roteiro, a apresentação, a direção e até edição do programa na Record", diz Anquier, que vive no Brasil há oito anos e é marido da atriz Débora Bloch.



Seu interesse por culinária vem de família. "Estou seguindo o exemplo de minha mãe, que realiza o mesmo trabalho na Austrália. Sempre tivemos uma ligação muito forte com comida. Vários dos meus parentes são padeiros como eu."







1982 - Ibope Feminino

Jornal do Brasil


Data de Publicação: 6/6/1982

Autor: Benevenuto Netto
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MULHER QUASE NÃO VÊ MULHER. PODE?



Curiosíssimo tudo isso. Porque sempre pensei que a televisão brasileira dedicasse pouco tempo de sua programação à telespectadora do sexo feminino. Que a mulher sendo como é, quem passa mais tempo em casa, e, portanto, com maior potencialidade para se colocar em frente à telinha, ela e as crianças mereciam mais atenção de nossas emissoras.


Puro engano. Neste pequeno levantamento de audiência dos novos programas femininos ora no ar, descubro quão pouco o sexo frágil quer ver seus assuntos discutidos na TV ou pretende até alguma exclusividade de programação.


Com que base afirmo isso? Bem, simplesmente com a convicção que os números me dão.

Veja bem. Se o TV Mulher tem 402 mil pessoas assistindo, ali estão masculinos e femininos. Com o Nova Mulher, a mesma coisa, ou seja, 120 mil entre homens e mu lheres. Sei que, do primeiro, apenas 64% são mulheres. Do segundo, 24%. Ao todo, sabe quanto dá? São 257 mil 280 mulheres vendo o TV Mulher e 28 mil 800 curtindo o Nova Mulher. Ora, se há, no momento, segundo o IBOPE, 3 milhões 124 mil 748 mulheres com mais de 13 anos, moradoras em residências com aparelhos de TV no Rio, e se, dessas apenas 286 mil 80 compõem o público dos dois programas femininos mais vistos, fica fácil, pois, confirmar que as mulheres não estão prestigiando os programas a elas dedicados.


Por quê? Por que mais mulheres não vêem mulheres? Tal uma conclusão difícil, que deixo aos entendidos em artimanhas e dengos da ainda misteriosa audiência de televisão.



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