Tuesday, November 6, 2012

1985 - Manchete Apostando na Teledramaturgia

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 1/7/1985
Autora: Míriam Lage
NOVELA É TRUNFO NA LUTA POR IBOPE
A TV Manchete começa a jogar, a partir de hoje, uma rodada importante, decisiva para sua imagem. Estréia Antônio Maria, co-produzida pela Rádio e Televisão Portuguesa, primeira novela de sua carreira, escolha de programação jamais imaginada há dois anos, quando colocou seu sinal no ar. Lança-se, ao mesmo tempo, em outra empreitada de fôlego: Tamanho Família, seriado diário.


Duas produções em que a Manchete está apostando tudo, prestígio e dinheiro. Muito dinheiro: uma primeira estimativa diz que para produzir os 150 capítulos de sua novela a emissora terá que desembolsar pelo menos Cr$ 5 bilhões. E cada episódio de Tamanho Família custa, hoje, a bagatela de Cr$ 40 milhões. E um cacife alto, mas, ao que parece, pago com gosto. A Manchete não mais se contenta apenas com o perfil de uma emissora "classe A". Quer mais audiência a qualquer custo.

Antônio Maria será exibida de segunda a sábado, às 18h35min. E traz de volta a história de um português de passado misterioso que arrebatou o público brasileiro no final de 1968, na tela da antiga TV Tupi. Foi fortíssima a empatia despertada pelo personagem, interpretado por Sérgio Cardoso. A tal ponto que a Associação Comercial de Salvador fez um apelo à direção da Tupi para que retardasse sua entrada no ar: o horário prejudicava o movimento das lojas. É exatamente esse personagem que a Manchete quer reviver. Um herói delicado, romântico à antiga, com sutilezas desaparecidas no corre-corre de hoje. A história é leve e apaixonada, criada por Geraldo Vietri 16 anos atrás e por ele adaptada para essa reexibição.

Os heróis são os mesmos, apenas as situações foram atualizadas. Vietri não gosta do apelido "novelão" para sua obra. A história traz de volta a preocupação com a coisa mais importante desse mundo: o homem. "Trata-se de uma história romântica, muito leve, e engraçada". Vai colocar à prova um estilo de direção incomum nas novelas da última década, descartando o recurso dramático do close. "Ângulos ampla, coloridos, num clima bem de cinema", diz -ele.

Na nova versão o papel de Antônio Maria foi entregue ao ator português Sind Felipe, 48 anos, com uma farta e bem-sucedida experiência em teatro e cinema, mas novato na televisão. Eugênia Mello e Castro, também portuguesa, é interpreta Amália, cantora de fados que faz parte do passado de Antônio Maria. Em seu presente, vivida por Elaine Cristina.

No elenco estão, ainda, Renato Borgui, Myriam Pérsia, Jorge Cherques e Tarcísio Filho, um dos muitos jovens talentos escolhidos por Vietri.

Tamanho Família não tem ponto em comum com a novela, mas faz parte da mesma estratégia de conquista de audiência. O projeto foi concebido por Bráulio Pedroso que imaginou uma família bem brasileira, açoitada pela crise econômica, assustada pelo desemprego e pelo desconforto do bolso sempre magro. A farsa é o tom das relações familiares, um grupo de livre-atiradores em busca da sobrevivência. O seriado estará no ar de segunda a sábado, às 19h35rnin. E será escrito por Geraldo Carneiro, Mauro Rasi, Vicente Pereira e Leopoldo Serran, supervisionados por Pedroso. "Isso é novidade na televisão. Não teremos um único estilo, mas abrimos o caminho para uma espécie de brincadeira de criação que deve manter o vigor da história, com marca do humor". É brinca: "Nesses 20 anos a televisão foi bonitinha e ordinária. Agora ela deveria ter mau gosto e ser inteligente".

O capítulo de estréia foi escrito por Mauro Rasi e chama-se Os Yankees Estão Chegando. Apresenta o núcleo da série: Onestaldo de Oliveira (Ivan Cândido) é o pai, sem um tostão no bolso, à espera da aposentadoria do INAMPS. Dono de uma cabeça pequeno-burguesa, cultivada em anos de burocracia. Casou-se com Carmem que o abandonou, deixando dois filhos, Duda (Zezé Polessa) e Janjão (Diogo Vilella) e a empregada Irinéia (Stela Freitas). Enredou-se num segundo casamento, com Zuzu (Suely Franco), a única do grupo com uma renda estável, sempre em conflito com todos dentro de casa. Duda é aquele tipo que embarcou no desbunde e ainda não chegou ao ponto final. Entra em todos os modismos da alimentação natural à mãe solteira. Apinajé (Caio Junqueira) é o filho que ela curte mas não consegue criar. Sua educação é fruto de um mutirão familiar. Mas ele a adora.

Janjão é o preferido do pai, rapaz meio debilóide, sempre atrás da grande jogada para enriquecer. Apesar dos insucessos comerciais e amorosos, considera-se o tal, alimentando um caráter meio amoral que desculpa pequenas ''descolagens'' para quem está a perigo. Tamanho Família, dirigido por Ary Coslov, pretende ser uma crítica social, mais para a gargalhada do que para uma tese do comportamento brasileiro. Coslov define seu trabalhe de direção: "Um pouco do clima de programas ao vivo com pitadas das chanchadas da Atlântida. Divertimento bem-feito. "

Para a Manchete, o jogo está feito. Resta esperar para ver se o público topa a parada, dando o troco em audiência. E, evidentemente, alargando sua lista de anunciantes que garantam o retomo do investimento.

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