Tuesday, November 6, 2012

1979 - Márcia Mendes por Artur da Távola

O Globo
Data de Publicação: 1/7/1979
Autor: Artur da Távola
AS VIDAS QUE CABEM NA VIDA DA GENTE!



Há funções que são aparentemente impessoais. Uma delas é a de repórter, editor ou apresentador de televisão. Tecnicamente elas são exercidas por agentes da informação, intermediários entre o fato e o público. Nesse sentido, quanto mais o intermediário seja apenas médium, mais ele realiza o ideal de sua atividade: interferir o mínimo possível. Ser, apenas, ponte.

Esta semana foi seguida com uma certa depressão por parte do público de televisão, por causa do estado grave de Márcia Mendes, de novo enferma, desta vez com lesão cerebral provocada por uma parada cardíaca após injeção de analgésico.

Público e imprensa acompanhando a menina a quem eu chamo de "estrela do telejornalismo" de "louçã" e "taful", para significar aqueles traços diferenciais que saltam dela, a despeito de sua missão impessoal de relatar, editar e apresentar fatos noticiosos. Numa dessas vezes, a revisão, muito naturalmente acostumada a enfrentar os rabiscos e emendas dos meus textos e cheia de trabalho, não vacilou: na pressa "corrigiu" o meu "louçã" por louca e lá saiu no meu texto, sobre Márcia, que ela era "louca" e taful. Foi divertido depois da retificação e Márcia Mendes ao me telefonar para agradecer as referências (das raras e dos raros que o fazem - e com que carinho) disse: "Foi bom! Passei um dia me examinando para ver por que você me chamava de louca. Como é que esse cara descobriu?", disse, rindo. "E no dia seguinte, quando saiu a retificação, aprendi mais uma: o que era louçã, palavra até então desconhecida pra mim." "Aproveitei e ainda fui ver o que era taful." - acrescentou brincando - "fiquei com medo que tinha a ver com futilidade. Ainda bem que não tinha..."

Assim é Márcia, simples e alegre no meio de tanta complexidade existencial e talvez por isso dela saia aquela chispa de infância, medo, beleza e descobertas que fazem inúmeros discursos paralelos ao texto que ela lê em seu trabalho noticioso e editorial. Sim, Márcia Mendes irradia uma forma de luz própria, independente do que leia ou apresente. Esta é a luz das estrelas. Por isso, sem nada fazer de autopromocional, apenas sendo o que luzia (e ainda luzirá. É preciso confiar na hipótese do milagre), ela desperta no público esse tipo de emoção diversificada que ele guarda para os artistas, por serem representantes das suas mais altas aspirações, fantasias, esperanças e desencantos. Sendo jornalista Márcia consegue a comunicação dos artistas, este o seu milagre.

Um dos grandes dramas do ser humano é o seguinte:

TODAS AS VIDAS QUE A GENTE TEM NÃO CABEM EM TODA A NOSSA VIDA.

Sempre tive de pessoas como Márcia esta idéia: a de que quanto mais complexo o ser humano, maior a impossibilidade de conciliar internamente, e/ou de viver as várias vidas existentes dentro.

Pessoa há que, para dar vazão às vidas que estuam dentro, partem para a arte. Nesse sentido a arte é puro processo de criação porque permite a existência das várias vidas que - paralelas - vivemos internamente. Escrever, pintar, representar, poetar, musicar, cantar, tocar, artesanar, cozer, educar, fabular são a vazão que o artista dá a todas as vidas que temos e não cabem em toda a nossa vida, porque toda a nossa vida vai sendo ocupada desde cedo com deveres e idéias que adotamos (ou nos fizeram adotar) e com os quais, de alguma forma, cimentamos compromissos, deveres, responsabilidades.

Outras pessoas, porém, em vez da forma projetiva, exorcista, econômica, simbólica ou representativa, a forma artística citada, partem para viver todas as vidas que têm. Nada de representações das várias vidas, afirmam elas: ainda que impossível vivê-las todas, é preciso tentar! Faremos o possível para viver o máximo de vidas possível.

Assim é Márcia Mendes e talvez esta seja uma das razões pelas quais o público nela adivinha instâncias que, embora desejadas, são afastadas por sabidamente dolorosas. Sim, o público sempre adivinhou sem ela falar (pois as transmissões desse tipo se dão ou ao nível do "self" quando mais profundas, ou ao nível do inconsciente) que ali está alguém tratando de viver todas as vidas que a gente tem e não cabem em toda a nossa vida. Por isso o público mantinha uma relação afetiva com ela.

Essas pessoas que tentam viver todas as vidas que têm, pela coragem, pelo desprendimento, pelo impulso de enfrentar o impossível, mesmo quando não merecem a adesão ou imitação do público, ganham-lhe o respeito, ora invejoso ora admirado. É que elas são capazes de sofrer para se expor a tudo aquilo que embora seduzindo provoca natural temor no homem médio. Há uma forma de admiração pela coragem delas de ser cobaias do próprio sonho, pela disposição delas de dar luz a todas as vidas que tinham, se não a todas, pelo menos a todas as que puderam liberar. Autodestrutivas, embora, tais pessoas como Márcia comovem e simbolizam porque revelam uma forma de superioridade sobre o convencional, o sobrevivente, o duradouro, o timorato.

E o que é ter muitas vidas, as tantas que não cabem em toda a nossa vida?

E saber-se pouco diante do muito que é capaz de sentir. E conseguir sair da trincheira existencial e tornar-se parte de outros mundos humanos aos quais, percorre com a emoção de criança em viagem. É ser capaz de pular a cerca da própria individualidade ainda quando, equivocadamente, suponha que a identidade estará do lado de lá, com os outros. É ser dotado de uma estação receptora de alta sensibilidade, capaz de encontrar traços e sons próprios em emissões alheias oriundas do mesmo cristal de sentimento e lágrima de que são feitas as próprias emoções. E ser múltiplo na unidade e desesperadamente procurar a unidade na multiplicidade sedutora e fugidia do mundo.

E é porque dói muito saber que todas as vidas que a gente tem não cabem em toda a vida da gente, que certos seres de eleição como Márcia Mendes são tão afoitos na ânsia de a todas viver.

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