Sunday, November 11, 2012

1977 - Walter Clark International...

Diário Com. & Ind.
Data de Publicação: 16/11/1977
Autor: Elói Calage
MERCADO EXTERNO PARA A TV DO BRASIL (SEGUNDO WALTER CLARK)
''Qualidade não é problema. Mas os custos, principalmente por causa da dublagem, são um obstáculo mesmo para os países da América Latina.





O intercâmbio telejornalístico pode ser um instrumento extremamente fértil para a integração latino-americana, abrindo caminho até mesmo para a troca de outro tipo de programas que atualmente esbarram num sólido obstáculo: a invejável posição do México, pioneiro e dono do mercado exportador de televisão no continente''.

A observação é de Walter Clark que, segundo se afirma, está de malas prontas rumo a Buenos Aires, onde deverá assumir a direção do Canal 11 de televisão. Clark - ex-diretor-geral da Rede Globo - diz que não no momento não há nada de concreto, embora muitos amigos confirmem seu interesse na aquisição de um canal, caso haja um remanejamento na televisão argentina, por enquanto estatizada.

Esse remanejamento vem sendo discutido há algum tempo. Enquanto isso, Walter Clark está negociando a compra de algumas estações no interior do Brasil para formar sua própria rede que, segundo ele, não pretende concorrer com a Globo. Ao contrário, já discutiu, inclusive, com Roberto Marinho, a possibilidade de acordos para a retransmissão de programas da rede em suas estações.

COM EQUILÍBRIO - Sem negar o valor do trabalho que fez na Globo, nem negar a esta a qualidade que lhe atribui de ter uma fortíssima participação em termos de integração brasileira com a televisão latino-americana, ele mostra preocupações com possíveis distorções culturais conseqüentes de um "boom" exportador de países mais fortes, o Brasil, por exemplo, dentro do mercado.

Uma dessas preocupações está relacionada com a necessidade de preservar as expressões culturais regionais. Clark lembra uma conversa antiga que teve com o então bispo de Bauru, Cândido Badin. A conversa ocorreu numa solenidade de inauguração de mais uma estação da Rede Globo, quando o bispo, chamando-o de lado, elogiou o poder de integração da televisão, mas alertando-o, ao mesmo tempo, para o perigo da despersonalização, de valores culturais regionais.

"Para que isso seja evitado", diz Clark, "as televisões do interior deverão ter uma participação na programação, de maneira a fecundar esses valores. O processo não pode ser feito na contra-mão, com o achatamento das expressões locais. Evidentemente, quando se tratar de temas muito próprios, tais programas deverão restringir-se ao mercado local. Mas há, inclusive, uma ampla margem de transmissão desses programas em rede nacional, desde que se atenda aos interesses do telespectador".

Mas como assegurar às televisões locais essa participação na programação? Clark acredita que a melhor solução seria aquela que não implicasse obrigatoriedade. Considero o obrigatório, em princípio, negativo. Mas os dirigentes das televisões devem ser estimulados a fazer um esforço no sentido de se alcançar um equilíbrio entre o geral e o particular."

NOVELAS: É CEDO - A venda de programas, principalmente novelas, da Rede Globo para Portugal e Espanha pode significar que a televisão brasileira entra na pauta de exportações?

Clark considera a afirmativa prematura em relação ao mercado latino-americano e ao mercado norte-americano de fala espanhola, considerados excelente filão comercial.

Los Angeles, Nova Iorque, Chicago, cidades norte-americanas de maior concentração de imigrantes de fala espanhola, constituem um mercado poderosíssimo a ser explorado. Embora os dados oficiais informem sobre 14 milhões de pessoas, o próprio Governo americano admite um número não inferior a quatro milhões de clandestinos, o que, no total, significa 7% da população do país. Mas para quem quer entrar agora, há o México no meio do caminho.

PROBLEMA DE CUSTOS - E quais são suas vantagens em relação à TV brasileira?

A qualidade não é, afirma Clark, porque, nesse setor, a televisão brasileira teria muito mais a oferecer. A dificuldade para o Brasil são os custos mais baixos do produto mexicano. O mercado externo (América Latina, EUA) para o México é apenas um subproduto, uma vez que não existe a barreira da língua e a dublagem ainda é uma atividade muito cara para quem não tem mercado assegurado: meia hora de dublagem custa aproximadamente Cr$ 1,5 milhão.

Embora privada, a televísão mexicana constitui um monopólio: os quatro canais existentes no país pertencem a um só grupo, o que a torna muito poderosa como concorrente.

SITUAÇÃO NA AL - O mercado latino-americano de televisão tem aspectos curiosos, lembra Walter Clark. Na Colômbia, ela é estatal, mas gerida por duas agências de publicidade, donas absolutas de todos os espaços. No Chile, é estatal, gerida pelo Governo e universidades. A Venezuela e o Peru também estatizaram suas emissoras. O Paraguai, a Bolívia e o Equador são mercados de televisão comercial, mas ainda muito incipientes, equivalentes ao da televisão brasileira de 1950.

A Argentina é, no continente, um ''senhor mercado'', na opinião de Walter Clark, Somente Buenos Aires possui 2,5 milhões de aparelhos. Além disso, em termos comerciais, o país tem a vantagem de uma renda ''per capita'' elevada. A Argentina vai iniciar-se na televisão em cores com a Copa Mundial de Futebol: Um riquíssimo centro de produção possibilitará a atuação simultânea de 27 câmeras em cores, coisa que, diz Clark ''nem nos Estados Unidos há''.

Mas, justamente por ser um país forte culturalmente, ele considera que o mercado argentino não toleraria a introdução dos padrões brasileiros de televisão.

JORNALISMO SIM - Diante disso e pensando em termos de continente, Walter Clark acredita que o telejornalismo seria a primeira e melhor saída para a integração do mercado, com grandes vantagens políticas e culturais na medida em que esse fato possibilitaria a criação de uma profunda identidade continental. Para os programas noticiosos, não há necessidade de dublagem, podendo utilizar-se outro tipo de recursos e, quem sabe, numa abertura do mercado para si próprio, nem se precisaria traduzir português/espanhol. Caso se inicie já o processo, Clark acredita que em menos de 15 anos estaria formado um autêntico diálogo continental, com grandes oportunidades de exploração comercial.

TRANSIÇÃO - A televisão brasileira vive um importante momento de transição, um momento especialmente de quebras de condicionamentos, que vai abrir o mercado para outros canais, assegura Clark. E, com "outros canais", ele não quer referir-se especificamente as estações da Rede Tupi, embora para ele, ia entrada de Mauro Salles nos Associados dá a entender que o mercado vai sofrer uma grande melhora em conseqüência do aumento da competição.

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