Sunday, November 11, 2012

1977 - Walter Clark International...

Diário Com. & Ind.
Data de Publicação: 16/11/1977
Autor: Elói Calage
MERCADO EXTERNO PARA A TV DO BRASIL (SEGUNDO WALTER CLARK)
''Qualidade não é problema. Mas os custos, principalmente por causa da dublagem, são um obstáculo mesmo para os países da América Latina.





O intercâmbio telejornalístico pode ser um instrumento extremamente fértil para a integração latino-americana, abrindo caminho até mesmo para a troca de outro tipo de programas que atualmente esbarram num sólido obstáculo: a invejável posição do México, pioneiro e dono do mercado exportador de televisão no continente''.

A observação é de Walter Clark que, segundo se afirma, está de malas prontas rumo a Buenos Aires, onde deverá assumir a direção do Canal 11 de televisão. Clark - ex-diretor-geral da Rede Globo - diz que não no momento não há nada de concreto, embora muitos amigos confirmem seu interesse na aquisição de um canal, caso haja um remanejamento na televisão argentina, por enquanto estatizada.

Esse remanejamento vem sendo discutido há algum tempo. Enquanto isso, Walter Clark está negociando a compra de algumas estações no interior do Brasil para formar sua própria rede que, segundo ele, não pretende concorrer com a Globo. Ao contrário, já discutiu, inclusive, com Roberto Marinho, a possibilidade de acordos para a retransmissão de programas da rede em suas estações.

COM EQUILÍBRIO - Sem negar o valor do trabalho que fez na Globo, nem negar a esta a qualidade que lhe atribui de ter uma fortíssima participação em termos de integração brasileira com a televisão latino-americana, ele mostra preocupações com possíveis distorções culturais conseqüentes de um "boom" exportador de países mais fortes, o Brasil, por exemplo, dentro do mercado.

Uma dessas preocupações está relacionada com a necessidade de preservar as expressões culturais regionais. Clark lembra uma conversa antiga que teve com o então bispo de Bauru, Cândido Badin. A conversa ocorreu numa solenidade de inauguração de mais uma estação da Rede Globo, quando o bispo, chamando-o de lado, elogiou o poder de integração da televisão, mas alertando-o, ao mesmo tempo, para o perigo da despersonalização, de valores culturais regionais.

"Para que isso seja evitado", diz Clark, "as televisões do interior deverão ter uma participação na programação, de maneira a fecundar esses valores. O processo não pode ser feito na contra-mão, com o achatamento das expressões locais. Evidentemente, quando se tratar de temas muito próprios, tais programas deverão restringir-se ao mercado local. Mas há, inclusive, uma ampla margem de transmissão desses programas em rede nacional, desde que se atenda aos interesses do telespectador".

Mas como assegurar às televisões locais essa participação na programação? Clark acredita que a melhor solução seria aquela que não implicasse obrigatoriedade. Considero o obrigatório, em princípio, negativo. Mas os dirigentes das televisões devem ser estimulados a fazer um esforço no sentido de se alcançar um equilíbrio entre o geral e o particular."

NOVELAS: É CEDO - A venda de programas, principalmente novelas, da Rede Globo para Portugal e Espanha pode significar que a televisão brasileira entra na pauta de exportações?

Clark considera a afirmativa prematura em relação ao mercado latino-americano e ao mercado norte-americano de fala espanhola, considerados excelente filão comercial.

Los Angeles, Nova Iorque, Chicago, cidades norte-americanas de maior concentração de imigrantes de fala espanhola, constituem um mercado poderosíssimo a ser explorado. Embora os dados oficiais informem sobre 14 milhões de pessoas, o próprio Governo americano admite um número não inferior a quatro milhões de clandestinos, o que, no total, significa 7% da população do país. Mas para quem quer entrar agora, há o México no meio do caminho.

PROBLEMA DE CUSTOS - E quais são suas vantagens em relação à TV brasileira?

A qualidade não é, afirma Clark, porque, nesse setor, a televisão brasileira teria muito mais a oferecer. A dificuldade para o Brasil são os custos mais baixos do produto mexicano. O mercado externo (América Latina, EUA) para o México é apenas um subproduto, uma vez que não existe a barreira da língua e a dublagem ainda é uma atividade muito cara para quem não tem mercado assegurado: meia hora de dublagem custa aproximadamente Cr$ 1,5 milhão.

Embora privada, a televísão mexicana constitui um monopólio: os quatro canais existentes no país pertencem a um só grupo, o que a torna muito poderosa como concorrente.

SITUAÇÃO NA AL - O mercado latino-americano de televisão tem aspectos curiosos, lembra Walter Clark. Na Colômbia, ela é estatal, mas gerida por duas agências de publicidade, donas absolutas de todos os espaços. No Chile, é estatal, gerida pelo Governo e universidades. A Venezuela e o Peru também estatizaram suas emissoras. O Paraguai, a Bolívia e o Equador são mercados de televisão comercial, mas ainda muito incipientes, equivalentes ao da televisão brasileira de 1950.

A Argentina é, no continente, um ''senhor mercado'', na opinião de Walter Clark, Somente Buenos Aires possui 2,5 milhões de aparelhos. Além disso, em termos comerciais, o país tem a vantagem de uma renda ''per capita'' elevada. A Argentina vai iniciar-se na televisão em cores com a Copa Mundial de Futebol: Um riquíssimo centro de produção possibilitará a atuação simultânea de 27 câmeras em cores, coisa que, diz Clark ''nem nos Estados Unidos há''.

Mas, justamente por ser um país forte culturalmente, ele considera que o mercado argentino não toleraria a introdução dos padrões brasileiros de televisão.

JORNALISMO SIM - Diante disso e pensando em termos de continente, Walter Clark acredita que o telejornalismo seria a primeira e melhor saída para a integração do mercado, com grandes vantagens políticas e culturais na medida em que esse fato possibilitaria a criação de uma profunda identidade continental. Para os programas noticiosos, não há necessidade de dublagem, podendo utilizar-se outro tipo de recursos e, quem sabe, numa abertura do mercado para si próprio, nem se precisaria traduzir português/espanhol. Caso se inicie já o processo, Clark acredita que em menos de 15 anos estaria formado um autêntico diálogo continental, com grandes oportunidades de exploração comercial.

TRANSIÇÃO - A televisão brasileira vive um importante momento de transição, um momento especialmente de quebras de condicionamentos, que vai abrir o mercado para outros canais, assegura Clark. E, com "outros canais", ele não quer referir-se especificamente as estações da Rede Tupi, embora para ele, ia entrada de Mauro Salles nos Associados dá a entender que o mercado vai sofrer uma grande melhora em conseqüência do aumento da competição.

Thursday, November 8, 2012

1992 - Quando João Kléber era global

O Globo
Data de Publicação: 1/1/1992
Autor: Orlando Zaconne
QUEM SOBREVIVEU RIRÁ
João Kleber faz sua 'Ri-retrospectiva'


O ano não foi fácil, mas quem sobreviveu pode morrer de rir dos acontecimentos de 1991. Hoje Rede Globo vai exibir o especial do humorista João Kleber, "Ri-retrospectiva", que irá ao ar às 22h30m. O programa reúne mais de 40 quadros, com piadas satirizando os fatos mais marcantes na política, nos esportes, no mundo artístico e em outros . assuntos que tiveram destaque na imprensa.

- Imagine se toda secretária no Brasil fosse processar o patrão que lhe deu uma cantada? - ironiza João Kleber, que considera o ano de 1991 um dos mais produtivos, pelo menos para os humoristas.

Através de recursos eletrônicos e computação gráfica, a linguagem do especial explora ao máximo a montagem de imagens, selecionadas no arquivo de jornalismo da emissora. "Ri-retrospectiva" começa satirizando o episódio das balas com cocaína. João Kleber é um baleiro em pleno Rock in Rio, depois de ter sua cena reeditada sobre imagens do festival de rock, tudo a cargo da direção de Jodele Larcher.

Para as cenas de "ficção", como o casamento do presidente Fernando Collor com o governador Leonel Brizola, foram utilizados sósias dos personagens políticos. Segundo o humorista, são "a cara deles". O matrimônio, no entanto, não acontece em nenhum palácio de governo, mas numa igreja, com direito a convidados e padrinhos.

Utilizando o mesmo cenário das "Olimpíadas do Faustão", o humorista transforma "A ponte do rio que cai" na competição "A ponte do Brasil que cai", onde o ele encarna o presidente Collor, no papel de canhoeiro, derrubando vários ministros. Para este quadro o apresentador Fausto Silva aparece como convidado especial.

- Por enquanto só o Magri passa. Mas quem sabe até o dia 31 o Alceni também consiga completar a prova - antecipa João Kleber.

Para o programa deste ano, o humorista está lançando diversos personagens, apostando mais no seu lado de ator humorístico, do que no de imitador. No esquete referente ao ciclone ocorrido na cidade de Itu, por exemplo, ele é Tetê, um cabeleireiro homossexual que quase destrói a cidade paulista com seu potente secador de cabelos.

Mas não poderia faltar a imitação do humorista Sílvio Santos, no quadro "Tudo por dinheiro", patrocinado pelo Baú e carnês da LBA. O grande número de esquetes, no entanto, não sugere monotonia ao programa. Segundo João Kleber, os quadros são rápidos, a maioria com menos de 30 segundos de duração.

Tuesday, November 6, 2012

1985 - Manchete Apostando na Teledramaturgia

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 1/7/1985
Autora: Míriam Lage
NOVELA É TRUNFO NA LUTA POR IBOPE
A TV Manchete começa a jogar, a partir de hoje, uma rodada importante, decisiva para sua imagem. Estréia Antônio Maria, co-produzida pela Rádio e Televisão Portuguesa, primeira novela de sua carreira, escolha de programação jamais imaginada há dois anos, quando colocou seu sinal no ar. Lança-se, ao mesmo tempo, em outra empreitada de fôlego: Tamanho Família, seriado diário.


Duas produções em que a Manchete está apostando tudo, prestígio e dinheiro. Muito dinheiro: uma primeira estimativa diz que para produzir os 150 capítulos de sua novela a emissora terá que desembolsar pelo menos Cr$ 5 bilhões. E cada episódio de Tamanho Família custa, hoje, a bagatela de Cr$ 40 milhões. E um cacife alto, mas, ao que parece, pago com gosto. A Manchete não mais se contenta apenas com o perfil de uma emissora "classe A". Quer mais audiência a qualquer custo.

Antônio Maria será exibida de segunda a sábado, às 18h35min. E traz de volta a história de um português de passado misterioso que arrebatou o público brasileiro no final de 1968, na tela da antiga TV Tupi. Foi fortíssima a empatia despertada pelo personagem, interpretado por Sérgio Cardoso. A tal ponto que a Associação Comercial de Salvador fez um apelo à direção da Tupi para que retardasse sua entrada no ar: o horário prejudicava o movimento das lojas. É exatamente esse personagem que a Manchete quer reviver. Um herói delicado, romântico à antiga, com sutilezas desaparecidas no corre-corre de hoje. A história é leve e apaixonada, criada por Geraldo Vietri 16 anos atrás e por ele adaptada para essa reexibição.

Os heróis são os mesmos, apenas as situações foram atualizadas. Vietri não gosta do apelido "novelão" para sua obra. A história traz de volta a preocupação com a coisa mais importante desse mundo: o homem. "Trata-se de uma história romântica, muito leve, e engraçada". Vai colocar à prova um estilo de direção incomum nas novelas da última década, descartando o recurso dramático do close. "Ângulos ampla, coloridos, num clima bem de cinema", diz -ele.

Na nova versão o papel de Antônio Maria foi entregue ao ator português Sind Felipe, 48 anos, com uma farta e bem-sucedida experiência em teatro e cinema, mas novato na televisão. Eugênia Mello e Castro, também portuguesa, é interpreta Amália, cantora de fados que faz parte do passado de Antônio Maria. Em seu presente, vivida por Elaine Cristina.

No elenco estão, ainda, Renato Borgui, Myriam Pérsia, Jorge Cherques e Tarcísio Filho, um dos muitos jovens talentos escolhidos por Vietri.

Tamanho Família não tem ponto em comum com a novela, mas faz parte da mesma estratégia de conquista de audiência. O projeto foi concebido por Bráulio Pedroso que imaginou uma família bem brasileira, açoitada pela crise econômica, assustada pelo desemprego e pelo desconforto do bolso sempre magro. A farsa é o tom das relações familiares, um grupo de livre-atiradores em busca da sobrevivência. O seriado estará no ar de segunda a sábado, às 19h35rnin. E será escrito por Geraldo Carneiro, Mauro Rasi, Vicente Pereira e Leopoldo Serran, supervisionados por Pedroso. "Isso é novidade na televisão. Não teremos um único estilo, mas abrimos o caminho para uma espécie de brincadeira de criação que deve manter o vigor da história, com marca do humor". É brinca: "Nesses 20 anos a televisão foi bonitinha e ordinária. Agora ela deveria ter mau gosto e ser inteligente".

O capítulo de estréia foi escrito por Mauro Rasi e chama-se Os Yankees Estão Chegando. Apresenta o núcleo da série: Onestaldo de Oliveira (Ivan Cândido) é o pai, sem um tostão no bolso, à espera da aposentadoria do INAMPS. Dono de uma cabeça pequeno-burguesa, cultivada em anos de burocracia. Casou-se com Carmem que o abandonou, deixando dois filhos, Duda (Zezé Polessa) e Janjão (Diogo Vilella) e a empregada Irinéia (Stela Freitas). Enredou-se num segundo casamento, com Zuzu (Suely Franco), a única do grupo com uma renda estável, sempre em conflito com todos dentro de casa. Duda é aquele tipo que embarcou no desbunde e ainda não chegou ao ponto final. Entra em todos os modismos da alimentação natural à mãe solteira. Apinajé (Caio Junqueira) é o filho que ela curte mas não consegue criar. Sua educação é fruto de um mutirão familiar. Mas ele a adora.

Janjão é o preferido do pai, rapaz meio debilóide, sempre atrás da grande jogada para enriquecer. Apesar dos insucessos comerciais e amorosos, considera-se o tal, alimentando um caráter meio amoral que desculpa pequenas ''descolagens'' para quem está a perigo. Tamanho Família, dirigido por Ary Coslov, pretende ser uma crítica social, mais para a gargalhada do que para uma tese do comportamento brasileiro. Coslov define seu trabalhe de direção: "Um pouco do clima de programas ao vivo com pitadas das chanchadas da Atlântida. Divertimento bem-feito. "

Para a Manchete, o jogo está feito. Resta esperar para ver se o público topa a parada, dando o troco em audiência. E, evidentemente, alargando sua lista de anunciantes que garantam o retomo do investimento.

1979 - Márcia Mendes por Artur da Távola

O Globo
Data de Publicação: 1/7/1979
Autor: Artur da Távola
AS VIDAS QUE CABEM NA VIDA DA GENTE!



Há funções que são aparentemente impessoais. Uma delas é a de repórter, editor ou apresentador de televisão. Tecnicamente elas são exercidas por agentes da informação, intermediários entre o fato e o público. Nesse sentido, quanto mais o intermediário seja apenas médium, mais ele realiza o ideal de sua atividade: interferir o mínimo possível. Ser, apenas, ponte.

Esta semana foi seguida com uma certa depressão por parte do público de televisão, por causa do estado grave de Márcia Mendes, de novo enferma, desta vez com lesão cerebral provocada por uma parada cardíaca após injeção de analgésico.

Público e imprensa acompanhando a menina a quem eu chamo de "estrela do telejornalismo" de "louçã" e "taful", para significar aqueles traços diferenciais que saltam dela, a despeito de sua missão impessoal de relatar, editar e apresentar fatos noticiosos. Numa dessas vezes, a revisão, muito naturalmente acostumada a enfrentar os rabiscos e emendas dos meus textos e cheia de trabalho, não vacilou: na pressa "corrigiu" o meu "louçã" por louca e lá saiu no meu texto, sobre Márcia, que ela era "louca" e taful. Foi divertido depois da retificação e Márcia Mendes ao me telefonar para agradecer as referências (das raras e dos raros que o fazem - e com que carinho) disse: "Foi bom! Passei um dia me examinando para ver por que você me chamava de louca. Como é que esse cara descobriu?", disse, rindo. "E no dia seguinte, quando saiu a retificação, aprendi mais uma: o que era louçã, palavra até então desconhecida pra mim." "Aproveitei e ainda fui ver o que era taful." - acrescentou brincando - "fiquei com medo que tinha a ver com futilidade. Ainda bem que não tinha..."

Assim é Márcia, simples e alegre no meio de tanta complexidade existencial e talvez por isso dela saia aquela chispa de infância, medo, beleza e descobertas que fazem inúmeros discursos paralelos ao texto que ela lê em seu trabalho noticioso e editorial. Sim, Márcia Mendes irradia uma forma de luz própria, independente do que leia ou apresente. Esta é a luz das estrelas. Por isso, sem nada fazer de autopromocional, apenas sendo o que luzia (e ainda luzirá. É preciso confiar na hipótese do milagre), ela desperta no público esse tipo de emoção diversificada que ele guarda para os artistas, por serem representantes das suas mais altas aspirações, fantasias, esperanças e desencantos. Sendo jornalista Márcia consegue a comunicação dos artistas, este o seu milagre.

Um dos grandes dramas do ser humano é o seguinte:

TODAS AS VIDAS QUE A GENTE TEM NÃO CABEM EM TODA A NOSSA VIDA.

Sempre tive de pessoas como Márcia esta idéia: a de que quanto mais complexo o ser humano, maior a impossibilidade de conciliar internamente, e/ou de viver as várias vidas existentes dentro.

Pessoa há que, para dar vazão às vidas que estuam dentro, partem para a arte. Nesse sentido a arte é puro processo de criação porque permite a existência das várias vidas que - paralelas - vivemos internamente. Escrever, pintar, representar, poetar, musicar, cantar, tocar, artesanar, cozer, educar, fabular são a vazão que o artista dá a todas as vidas que temos e não cabem em toda a nossa vida, porque toda a nossa vida vai sendo ocupada desde cedo com deveres e idéias que adotamos (ou nos fizeram adotar) e com os quais, de alguma forma, cimentamos compromissos, deveres, responsabilidades.

Outras pessoas, porém, em vez da forma projetiva, exorcista, econômica, simbólica ou representativa, a forma artística citada, partem para viver todas as vidas que têm. Nada de representações das várias vidas, afirmam elas: ainda que impossível vivê-las todas, é preciso tentar! Faremos o possível para viver o máximo de vidas possível.

Assim é Márcia Mendes e talvez esta seja uma das razões pelas quais o público nela adivinha instâncias que, embora desejadas, são afastadas por sabidamente dolorosas. Sim, o público sempre adivinhou sem ela falar (pois as transmissões desse tipo se dão ou ao nível do "self" quando mais profundas, ou ao nível do inconsciente) que ali está alguém tratando de viver todas as vidas que a gente tem e não cabem em toda a nossa vida. Por isso o público mantinha uma relação afetiva com ela.

Essas pessoas que tentam viver todas as vidas que têm, pela coragem, pelo desprendimento, pelo impulso de enfrentar o impossível, mesmo quando não merecem a adesão ou imitação do público, ganham-lhe o respeito, ora invejoso ora admirado. É que elas são capazes de sofrer para se expor a tudo aquilo que embora seduzindo provoca natural temor no homem médio. Há uma forma de admiração pela coragem delas de ser cobaias do próprio sonho, pela disposição delas de dar luz a todas as vidas que tinham, se não a todas, pelo menos a todas as que puderam liberar. Autodestrutivas, embora, tais pessoas como Márcia comovem e simbolizam porque revelam uma forma de superioridade sobre o convencional, o sobrevivente, o duradouro, o timorato.

E o que é ter muitas vidas, as tantas que não cabem em toda a nossa vida?

E saber-se pouco diante do muito que é capaz de sentir. E conseguir sair da trincheira existencial e tornar-se parte de outros mundos humanos aos quais, percorre com a emoção de criança em viagem. É ser capaz de pular a cerca da própria individualidade ainda quando, equivocadamente, suponha que a identidade estará do lado de lá, com os outros. É ser dotado de uma estação receptora de alta sensibilidade, capaz de encontrar traços e sons próprios em emissões alheias oriundas do mesmo cristal de sentimento e lágrima de que são feitas as próprias emoções. E ser múltiplo na unidade e desesperadamente procurar a unidade na multiplicidade sedutora e fugidia do mundo.

E é porque dói muito saber que todas as vidas que a gente tem não cabem em toda a vida da gente, que certos seres de eleição como Márcia Mendes são tão afoitos na ânsia de a todas viver.

1968 - Festival da Record

VEJA
Data de Publicação: 11/9/1968

FIGAS X VAIAS
Cantores invocam todos os santos quando o público é de festival

Num canto escuro do palco, parado numa perna só, Caetano Veloso observa o movimento. Tuca chora e treme, apertando a mão de todo mundo. Márcia acendeu uma vela no camarim, mas por segurança telefona para casa: "Mamãe, acenda uma vela para mim". Nos bastidores dos teatros e estúdios de televisão há sempre um desfile de manias, amuletos e superstições. Cynara e Cybele estão sempre remexendo na bôlsa em busca de um patuá, amuleto de couro costurado, que trouxeram da Bahia. E seguindo recomendação do seu pai-de-santo elas só vestem verde em suas apresentações de festival. Elis Regina também tem uma fôrmula parecida: "Repito na final o mesmo vestido com que ganhei a semifinal. Acaso ou não, dei sorte em dois festivais". Jair Rodrigues nunca sobe no palco sem antes plantar uma das famosas "bananeiras".

Coragem em doses - "Para enfrentar a platéia da TV Record tive que tomar três doses de conhaque", revela Nana Caymmi. Chico Buarque de Holanda bebe seu uísque em silêncio, praguejando contra o traje: detesta o "smoking". Maysa prefere vodca, Simonal uísque estrangeiro sem gêlo. Clementina de Jesus vermute. Caymmi e Vinícius de Morais continuam bebendo no próprio palco. Quem não acredita em amuletos e coisas do gênero é um pai-de-santo profissional: João da Baiana, sambista da velha guarda, não usa fórmulas mágicas: "Prefiro um bonito cravo vermelho na lapela".

Vaias famosas - Na opinião de muitos cantores, as vaias estimulam as superstições e as doses alcoólicas. Essas vaias são assunto mesmo fora do Brasil. O compositor amerciano Johnny Mandel (autor de "The Shadow of Your Smile") fêz parte do júri no último Festival Internacional da Canção no Maracanãnzinho e agora, evocando sua experiência carioca, grava nos Estados Unidos "As Vaias do Rio". A cantora negra Ella Fitzgerald, convidada para o próximo Festival, escreveu a Augusto Marzagão: "Preocupam-me as notícias que recebi sôbre artistas vaiados no Brasil".

1988 - O Céu é o Limite

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 1/1/1988
Autor/Repórter: Vania Mezzonato


UM CONTO DE FADAS SEM FINAL FELIZ

No final da década de 60, uma mocinha franzina de cabelos longos e jeito tímido foi protagonista de um verdadeiro conto de fadas. De origem humilde e moradora do subúrbio carioca da Pavuna, Leni Orcida Varela, na época com 23 anos, ficou nacionalmente conhecida ao responder sobre a vida do poeta português Guerra Junqueiro, no programa "Show sem limite", da extinta TV Tupi. A participação lhe valheu vários prêmios - uma viagem à Europa, duas casas, alimentação grátis por um ano e três enxovais de casamento - e um apelido que até hoje a acompanha: A Noivinha da Pavuna.

Mas, após o casamento realizado em frente às câmeras da TV no dia 15 de setembro de 1969 e a lua-de-mel pelos países da Europa, a vida de Leni teve períodos que em nada se assemelham aos momentos mágicos que o programa lhe proporcionara. Ao voltar da viagem, seu marido, Silvério Pinheiro, ficou doente, perdeu o emprego e as dificuldades do passado voltaram. A Noivinha da Pavuna se transformou numa operária de torno mecânico e, durante três anos, estagiou como técnica de raios-X no Hospital Salgado Filho -onde hoje chefia a recepção, respondendo por 98 funcionários -, recebendo um prato de comida como.pagamento. Em nenhum momento, garante, usou a fama que conquistara para conseguir qualquer tipo de ajuda.

- Eu não podia viver pendurada no título de Noivinha da Pavuna -justifica.

Os tributos da fama foram muitos. Além das pessoas que constantemente invadiam a varanda de sua casa, na Ladeira dos Beija-Flores, para pedir ajuda em dinheiro, Leni foi vítima até mesmo de uma tentativa de seqüestro. Durante uma madrugada, foi ameaçada por um homem negro e forte que pretendia levá-la para Barra Mansa e depois pedir um resgate à TV .Tupi. Os problemas se sucediam, segundo ela, porque ninguém acreditava que passava por dificuldades financeiras.

- Foi um período difícil, não pensei que pudesse ter tantos problemas em função da fama. O homem que tentou me seqüestrar passou dias vigiando minha vida e já havia conquistado a confiança de meu filho, que era pequeno na época. Ele dizia que não me faria mal algum, porque era meu fã, mas que eu era obrigada a acompanhá-lo. As pessoas achavam que eu tinha dinheiro e fui obrigada, inclusive, a vender a outra casa que ganhei, porque os inquilinos se recusavam a pagar aluguel - comentou.

Sem à assessoria de um empresário, Leni foi vítima de comerciantes inescrupulosos que usaram sua imagem para "engordar" o lucro no final do mês. Recorda que certa vez, quando fazia compras, deparou com sua foto estampada num cartaz promocional, onde A Noivinha da Pavuna oferecia um enxoval grátis para quem comprasse os móveis ali. Nunca foi indenizada pela promoção.

Mas, valendo-se da filosofia do poeta Guerra Junqueiro, que comparava o poder do pensamento à força das águas sobre as rochas, Leni garante que sempre encontrou forças para continuar lutando. Fez faculdade de Reabilitação com especialidade em Fisioterapia e pretende agora formar-se em Psicologia. Para o futuro, ainda acalenta um sonho: ter sua própria clínica de reabilitação.

Os tempos da Noivinha da Pavuna estão perpetuados nas inúmeras reportagens de jornais e revistas que faz questão de guardar. A mocinha franzina de 1,58m e 38 quilos faz parte do passado, mas Leni se mantém vaidosa a ponto de preferir não confessar a idade. "Estou na casa dos 40", limita-se a dizer.

- O preço foi alto, mas não guardo mágoas. O título de Noivinha da Pavuna já foi muito útil para algumas conquistas do meu bairro. Quando posso, uso a influência dele para ajudar as pessoas da comunidade - acrescenta.

Leni ainda vive na pequena casa da Ladeira dos Beija-Flores, que atualmente está ampliando, e continua casada com Silvério, que voltou a exercer a profissão de enrolador de bobinas. O filho Moisés, de 17 anos, faz curso de informática e se prepara para ingressar na Marinha, onde pretende seguir carreira.

De J. Silvestre, apresentador do programa "Show sem limite" e seu padrinho de casamento, Leni nunca mais teve notícias. Mas, depois de tanto tempo no anonimato, ela poderá voltar às telas da TV, surpreendendo os fás que durante meses acompanharam a bateria de perguntas, sempre encerrada com um "absolutamente certo": A Noivinha da Pavuna foi convidada a participar de um programa na TV Corcovado. O contrato ainda não foi acertado, mas vale a pena esperar e conferir.

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