Friday, October 26, 2012

1983 - Nova Programação

Jornal do Brasil
18/9/1983
Autora: Maria Helena Dutra
SETEMBRO LOUCO?
Ensandecida primavera. Pela primeira vez em 33 anos de vida, estações de televisão mudam inteiramente suas programações em setembro. Normalmente estas são lançadas em março, e algumas mudanças de curso, no passado, só eram abruptas em estações desgovernadas por crises, aconteciam durante o ano. Mas o estranho 83 inova até neste particular e a terceira semana do mês está repleta de novidades e alterações. Vai ver que é a maneira encontrada para comemorar o primeiro aniversário da falência do país.

A Globo sopra, amanhã, a primeira velinha, informando alterações em sua TV Mulher. O boletim da estação as enumera, só que todas já estão no ar este ano. Tudo bem, deve ter mudado, mesmo não parecendo. Coisas femininas. A primeira, palminha da Bandeirantes é mais autêntica. As 17h30min, para ela volta a Turma do Lambe-Lambe. Já deve estar meio seca. As 18h45min, diariamente também, a estranha estação lança o nacional seriado A Casa de Irene. Esperamos que nada tenha com a letra original da canção italiana. Escrita por Geraldo Vietri, é sua segunda tentativa na estação; tem Nair Bello, Gianfrancesco Guarnieri, Françoise Forton e outros no elenco.

Às 19h30min entra no coro a TVS, fazendo estrear O Direito de Nascer. Parece pândega de pessoa pouco sóbria. A novela, que já esteve no rádio e foi um dos grandes sucessos do gênero com elenco nacional, em 1964, voltou à televisão na superimitada Tupi em 75, com muita criatividade nacional na história, e foi total fracasso. Agora a Studios simplesmente a importa do México com uma leve dublagem para durar vários anos. A solução para este canal é, portanto, bem diferente da oficial. Às 20h, a inconstante Bandeirantes manda Clodovil para este horário. E às 20h55min ela se aprimora e tasca Boa Noite, Amiguinhos. Dois coelhinhos, ainda em botão, Escovão e Fofura, mandam as crianças dormirem. Caso alguma esteja vendo esta bobagem. Às 21h, mesma estação, Segunda sem Lei. Deve ser a da oferta e procura que estréia, ou melhor, volta, com a Lenda do Príncipe Shaolin. Será presidenciável?

Contra-atacando, a Globo reformula todo o seu horário nobre pós-novelas. Como o dólar, para os grandes filmes, deve ter acabado, devastado pelas extravagâncias da semana passada, às 21h20min de segunda faz retornar para sua antiga noite o Viva o Gordo. E na terça este espaço será ocupado por Chico Anysio. A festa é deles. Às 21h30min a Manchete, durante toda a semana entra na desocupada liça o e despeja mísseis de altos câmbios. Tipo Terremoto, Alta Ansiedade, Damien - A Profecia II, Uma Mulher Descasada, Os aventureiros de Lucky Lady, A Noviça Rebelde, Kismet. Tudo filme. Em lugar de concorrer com as outras estações convencionais, quer ameaçar clubes de vídeos. Às 22h15min a novel nacionalista Rede Globo retorna o horário das 10 com Eu Prometo de Janete Clair, Parece hino mas é história sentimental sobre "um popular deputado". Tem direção de Denis Carvalho, Luis Antônio Piá e Paulo Ubiratan. No elenco Francisco Cuoco, Renée de Vielmond, Joana Fomm e muitos outros. A mais popular de nossas autoras, num horário mais liberal, deve dar sucesso. Às 23h de segunda a quarta a TVS entra de seriado, daqueles que só ela tem em cores apenas, verdes e com histórias estranhíssimas. Às 23h20min a Globo lança uma terceira edição do RJTV. Parece placa de automóvel mas é apenas uma edição local de seu noticiário. E às 23h30min volta ao seu cosmopolitismo americano e desova com seriados. Tipo Magnum na segunda, Chumbo Grosso na terça, Caixa Alta, quarta, Casa do Terror, quinta, e a teimosia com Dallas na sexta. Todos não valem uma piscada de seus olhos.

Como o elenco de humoristas da TVS foi despedido, a Bandeirantes deve aproveitá-lo em Deu a Louca no Mundo, às 20h da terça-feira. Já nem mais imita a Tupi, parece a TV Rio. A única contribuição da Educativa para esta farândola estreatícia é Teatro na TVE. Às 22h de terça, que estréia com homenagem a Cacilda Becker - Revivendo a Imortal. A primeira lembrança é com a íntegra de Casa de Bonecas, Ibsen, que a excepcional atriz levou na TV Bandeirantes há cerca de 20 anos. E às 23h, a mimosa Bandeirantes inicia a transmissão de minisséries sob o orgulhoso título Super Produções. A primeira, em oito capítulos, intitula-se Sob os Olhos de Deus. Vê outro canal.

Na quarta às 20h a Bandeirantes estréia o seriado Logan's Run. Uma viagem em busca da vida. É ambientado no século 24. Quem resistir, verá. E a Quarta Nobre global encolheu. Começa às 21h10min e tem apenas 60 minutos para contar qualquer coisa. A primeira no novo formato - é Quando o Outono Chegar (toda esta programação mudará). O autor é Aguinaldo Silva, direção de Paulo José. Os rápidos do elenco serão Eloisa Mafalda, Lima Duarte, Ivan Setta e outros.

Na quinta-feira, 20h, a Bandeirantes insiste com As Mais Mais. Que há anos são menos, menos. Às 21h passa cinema. Pobre. Às 21h30min a Studios estréia, retorna, dá abrigo, sei lá mais, ao Programa Flávio Cavalcanti. Em tudo deve voltar igualzinho.

Sexta o canal 7 tem a subida honra de colocar programa sertanejo em horário nobre. Em todos os outros veículos de comunicação é de manhã. Esta originalidade bandeirantícia vai se chamar Na Beira de Tuia. É com Tonico e Tinoco. As 21h continua o Desafio à Produção. Perde o espectador. E às 21h30min o longevo Clube dos Artistas volta ao horário nobre na TVS. Pelo menos cultivam a tradição.

Calma, no sábado ainda tem mais. Tudo craneado pelo canal 7. Às oito da noite, TV Tutti Frutti, com "bonecos representando frutas. Legumes e bichos ganham vida e habitam uma cidade encantada, a Hortolândia". Onde chegamos! Pensam que acabou? Tem pior. Às 21h, Sangue em Família. Nada menos que um seriado sobre vampiros nacionais. Uma Família Adams nada original, reunindo os pobres Eva Todor, José Vasconcelos, Sandra Bréa e outros. História de Marcos Caruso. Logo seguida, em devastadora acumulada, às 22h, chega Culpado ou Inocente? Já viram, outro arremedo de julgamento. Nas reportagens Saulo Gomes e Ana Davis. E Dinastia sobrou para domingo às 22h.

Enfim mais uma mexida que propicia muito mais estudos sociológicos do que artísticos e culturais sobre a televisão. E esperemos que também não passe a história com o já famoso e abrangente título de setembro negro.

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