Sunday, October 14, 2012

1981 - Wilton Franco e O Povo na TV

Jornal do Brasil
8/9/1981
O POVO NA TV
O drama de cada um transformando num 'show' (ao vivo) de risos e lágrimas

Como um autor de novelas - assim ele se autodefine - que desenvolve seu script conforme o programa vai ao ar, Wilton Franco, astro principal de O Povo na TV, não trata dos problemas de filhos ilegítimos, de ascensão social, de encontros e desencontros amorosos com a cor e o brilho da ficção. Ao vivo, fala de dramas familiares, de mal-atendimento em órgãos públicos, de moças estupradas, de filhos roubados, de falta de água ou de policiamento. É o tom da realidade de uma parcela da população que encontra num programa de televisão a porta para suas denúncias, queixas e apelos, exibidos diariamente, de segunda a sexta-feira, entre duas e seis e meia da tarde, no vídeo da TVS, canal 11.

No grande elenco de entrevistadores do programa, cada um tem seu papel. Para isso, foram escolhidos cuidadosamente pelo diretor Wilton Franco. Cada um deve representar a opinião de urna parcela da população. Mas todos, sem exceção, ouvem e repetem o que o diretor lhes dita pelos pontos eletrônicos que mantêm escondidos em uma das orelhas. Da suite envidraçada que se ergue sobre o estúdio e o auditório, o diretor a tudo controla, das opiniões à música.

Assim, o entrevistador e advogado Wagner Monte deve representar uma parte da opinião pública que acredita no combate da violência pela violência. Com a mesma convicção com que defende o Esquadrão da Morte, bate-se também pelo linchamento, pelo olho por olho, dente por dente.

O também advogado e entrevistador Roberto Jeferson espelha a opinião oposta. Confia na lei e nos direitos humanos. Junto com Wagner Monte, é responsável pelos momentos de controvérsias e discussões acirradas às quais o auditório não poupa seus aplausos. Já a loura e bem-vestida Cristina Rocha é a feminista do programa. Como tal se bate pela emancipação da mulher e se choca com as idéias conservadoras de seu colega José Cunha, que defende para as mulheres o papel de donas-de-casa, mães dos filhos e rainhas do lar.

E se o entrevistador Ney Maia, de aspecto senhorial como diz o diretor Wilton Franco, é considerado o velho, o desatual de O Povo na TV, Sérgio Mallandro é a própria imagem da juventude. Sorri muito, fala uma linguagem moderna. Com papéis não tão definidos participam ainda do programa à novata Lucy Helen e a jornalista Ana Davis, que acaba de voltar de licença por maternidade.

Mas a grande maioria do elenco, aqueles que alimentam o programa com suas queixas denúncias e apelos, está espalhada pelas cadeiras do auditório que recebem uma média de 300 visitantes por dia. Está nos bancos instalados no pátio do estacionamento, ao lado do estúdio; atrás dos muros da emissora, formando filas enquanto aguardam as assistentes de produção que irão ouvir o seu caso e lhes dar uma senha datada.

- A preocupação de muitos, em dizer que este é um programa para gente pobre, só pode ser brincadeira - fala Wilton Franco, 51 anos, três filhos e um salário não revelado (alguns afirmam estar em tomo dos Cr$ 800 mil mensais) mas, segundo ele mesmo, suficiente para viver sem aceitar suborno ou corrupção.

De camisa e calça azul-marinho, combinando com as botas de camurça da mesma cor blazer claro e uma enorme corrente de prata, de onde pende uma estrela com uma pedra vermelha no centro, sentado no seu escritório, cercado de toda segurança, explica por que seu programa não é visto apenas por pobres. E não são poucas as vezes que é interrompido para orientar um repórter do programa ou atender o telefonema de um major ou do próprio Secretário de Obras do Estado.

- Numa tarde dessas recebemos a denúncia de que um orfanato no Méier ia ser despejado por falta de pagamento. Estava devendo mais de Cr$ 800 mil. Em nome do que chamo de "a legião de amigos" resolvi assumir a divida.

Três horas depois o programa já havia recebido mais de Cr$ 1 milhão. Eram cheques de Cr$ 30, Cr$ 50 mil, que só pararam de chegar quando pedi que suspendessem. Pobre pode fazer isso?

Mas as muitas centenas de pessoas que se dividem nas três filas que formam no lado de fora da emissora precisam do programa como uma das poucas chances que têm para resolverem seus "casos". Uma fila reúne os que têm questões na Justiça, que procuram advogados. Para atendé-los há seis advogados voluntários que recebem uma ajuda de custos do programa.

- Já estou até cansada. Tem cinco anos que venho lidando com um processo na Justiça sem conseguir nada. Vim aqui ao programa para pedir ajuda a um advogado - diz Alzira Fabiano, na fila desde o meio dia.

Há outra fila que espera o atendimento das assistentes sociais do Posto da LBA, instalado em frente à emissora. Ali tratam de arrumar documentos para quem precisa. Cuidam de internações. Doam cadeiras de rodas, apare lhos ortopédicos. Numa terceira fila as pessoas aguardam as fichas para fazerem seus apelos denúncias e queixas. Os casos selecionados são levados ao ar.

- Só quero saber de meu marido, que foi preso no trabalho. Preciso saber se está vivo onde está e se é culpado. Se for, terá de pagar mesmo - conta Judite Maria de Araújo, enquanto segura nos braços o seu bebé de três meses, Genival.

Sentados nos bancos, já com as fichas nas mãos, estão Maria Gomes de Souza, 58, que tem uma reclamação contra a Singer; José Alves Nascimento, 55 anos, vigia, que espera sem sucesso uma indenização por acidente de trabalho. Nesses mesmos bancos, Benedita Go mês Alves, que mora na Abolição, sofre como toda mãe que tem um filho com problemas mentais perdido na cidade. O bombeiro hidráulico Pedro Ham, 60 anos, tem esperanças de conseguir de volta o dinheiro que deu para comprar uma casa que não estava à venda.

Mas os problemas e casos ‘ multiplicam às segundas-feiras. É nesse dia que o programa recebe a visita do parapsicólogo Lengruber.

Para tentar chegar até ele, a maioria vai para as filas da emissora no domingo à noite. Lenguber geralmente apresenta três casos no Povo na TV e atende até 300 pessoas, num só dia, no estúdio pequeno da TV-S. A procura por ele é tão grande que um cartaz na porta da emissora avisa que só haverá fichas para consulta a partir de setembro.

- As segundas-feiras é preciso ver o movimento para acreditar - conta um funcionário da produção.

Enquanto os do lado de fora não perdem a esperança, no estúdio grande da emissora o diretor Wilton Franco abre mais um programa. Como faz todos os dias, começa o Povo na TV, pessoalmente, de frente para o auditório, na mira das duas câmeras que trabalham por quatro. O tema da abertura, na sexta-feira passada, eram os pais.

Wilton recebe um presente e as homenagens dos "filhos" da produção e continua dirigindo a cena. Cada entrevistador fala de seu pai, do que morreu, do que está vivo. Começa a se instalar um clima de emoção geral. Do alto da suíte, Joel José, diretor-substituto, pede a música Pai-Herói e providencia também A Olimpíada da Vida, solicitada por Wilton, ainda no palco.

Fala-se do falecido pai de Serginho Mallandro, do maravilhoso pai de Wagner Monte. Exibe-se para as câmeras uma foto antiga do pai do diretor do programa A equipe chora. A platéia chora. As câmeras não perdem um só close de lágrimas escorrendo nos rostos.

So então o programa é "entregue ao povo" e Wilton sobe para a suíte para comandar o programa que só diz o que ele próprio pensa.

- Não adianta conquistar apenas os olhos com uma imagem bonita. E preciso também conquistar o coração. A fórmula de O Povo na TV é justamente coração e talento juntos. Fazemos um trabalho de vigilância, de fiscalização. E o mínimo que fazemos pelas pessoas é ouvidas para saber se estão erradas ou não. Essa atenção, esse esclarecimento, elas não encontram lá fora.

O Povo na TV consome uma verba que ninguém revela, apenas sugere:

- Custa no máximo um terço de um programa que está perdendo para a gente na TV Globo - orgulha-se Wilton.

Com a inauguração do canal paulista, a TV-S passará a transmitir o Povo na TV, sempre ao vivo, em cadeia. Segundo a direção da emissora, será o primeiro programa na televisão brasileira, com quatro horas e meia de duração, a ocupar uma rede, ao vivo.

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