Sunday, October 14, 2012

1981 - Balanço da TV

Jornal do Brasil
19/10/1981
Maria Helena Dutra
MUITA VARIEDADE E ALGUM BRILHO
Três dígitos. Também disparou a programação nacional da televisão carioca. Meio atônito, o espectador médio é agora bombardeado com variedade na ficção e um quase desconhecido veículo inquisidor que nunca tanto perguntou como agora. Tudo isto é muito bom. Pena somente que o nível de realização ainda seja meio precário na maioria das atrações e os temas discutidos continuem mais engraçadinhos do que importantes.

Mesmo assim, algum brilho é sempre melhor do que a antiga opacidade. Da qual a televisão vem saindo muito lentamente, tartaruga perde, desde 1979, quando a "abertura" foi lançada. Dois anos depois, está mais nítida, capaz mesmo de algumas ousadias. No presente, mais acentuadas na Rede Bandeirantes que outra vez mexeu em sua linha de programação à cata de urna audiência que o público persiste em lhe negar. Abreviando a vida de atrações como Mocidade Independente e Cidade Aberta, muito malfeitas e que duraram menos do que a rosa.

Para o novo pacote, é ainda impossível saber a reação do público que é ainda mais lento do que o veículo. O embrulho atual é, porém, bem mais definido apesar de continuar díspar nos seus insumos. Boa atração é o seriado Dona Santa, aos sábados às oito da noite, estrelado por Nair Belo e escrito e dirigido por Geraldo Vietri. É um caso raro de total adequação entre conteúdo e estética. Uma comédia sobre gente pobre, realizada com total simplicidade, sem bobas sofisticações e pretensões de visual americano. Se continuar assim, vai atingir público. Captado pela excelente Nair, a experiência de Vietri nesta linha simpático-populista à italiana que o fez entrar na história da televisão com inesquecíveis novelas na Tupi, como o Cara Suja e A Fábrica, e pelos temas que estão sendo tratados com divertido realismo. A história sobre o cinema nacional com suas divas e indigência foi realmente muito engraçada.

Embora não tivesse esta intenção, a primeira semana de Variety 90 Minutos, mesma estação de segunda a sexta às 20h, foi cômica. Não contentes em imitar o modelo americano de igual título, ainda acrescentaram um nome em inglês para ficar fino. Acabou apenas ridículo com o público nacional achando que seja patrocínio de marca de cigarro. E estreou com uma festa provinciana que nem entrevista com Fidel Castro conseguiu salvar da catástrofe. Continuou neste ritmo mostrando, nos programas seguintes, inaugurações de bibocas paulistanas e discutindo Jânio Quadros à saciedade. Como disse um observador; "fazer um Fantástico por dia não é fácil ", principalmente quando a hercúlea tarefa é realizada por equipe inexperiente e quase amadora no veículo. O resultado foi confusão, assuntos bobos, desentrosamento geral, muitos convidados e comentaristas anunciados sem aparecer e os apresentadores Paulo César Pereio e Ana Maria Nascimento Silva fazendo exclusivamente gênero.

Apesar de quase todos os erros ainda persistirem, nesta última semana o programa ficou mais ágil e jornalístico. Se a estação teimar, pode ter futuro, pois tem o evidente mérito de ser a única opção possível e certa para concorrer com a famosa novela das oito da Globo. Oferece o oposto.

Igualmente certa está a Bandeirantes em escalar Os Adolescentes para 21h30m. Mesmo assim, perde muito na comparação. Em Os Imigrantes, sua outra produção no gênero, o amadorismo da realização é compensado pela pesquisa de nossa recente História. Mas as agruras da juventude classe média paulistana não superam os desconjuntados cenários, a interpretação canhestra ou teatral e os diálogos artificiais, sem nada de coloquial, da autora Ivani Ribeiro. Neste contexto, há temas como drogas e homossexualismo, mas parecem dissertações teóricas do que coisas da vida. Tudo muito malajambrado, o que mais ainda agrava o contraste com sua abertura musical que nada menos é do que o último movimento da Nona Sinfonia, Beethoven.

Não foi preciso esta grandeza para transformar a estréia de ETC, segunda-feira às 23h15m, ainda na mesma estação, em um dos melhores programas de 81. Com total sabedoria, seu produtor e apresentador Ziraldo deixou todo o palco para Dom Hélder Câmara que realmente é um prodígio de comunicação. Com muita clareza, mas falando como se fosse para crianças, fez o mais adulto acontecimento do ano na televisão. Pena que as edições subseqüentes não repetiram, nem ficaram perto, esse feito. Mesmo sendo humorista, não está nada engraçado nas anedotas e na boba brincadeira de salvar o Brasil. Invertendo o esquema do Canal Livre, aqui é Ziraldo que sozinho entrevista muita gente ao mesmo tempo. Todas sentadas numa espécie de poleiro que parece constranger os convidados. Pois todos se mostram apenas engraçadinhos e íntimos esquecendo ser a televisão veículo abrangente que atinge bairros além da Zona Sul carioca. O mesmo erro fatal que esvaziou a entrevista da brilhante Dina Sfat.

Com alcance bem menor - sua audiência só aumenta mesmo no esporte - a reformulada e de autonomia perdida Educativa também muito entrevista agora. No ramo, seus melhores programas são Sábado Forte, Um Nome na História e Os Astros. Têm bobagens, mas podem ser assistidos com interesse, pois realmente fornecem informações e idéias. Ao contrário do que sucede com a tal da Primeira Página, transmitida às 14h30m de segunda a sexta e reprisada às 23h30m que não passa de uma última linha. Apresentado por Teresa Fernandes, que já foi do Aqui e Agora e nunca parece ter lido qualquer jornal, que discute os fatos do dia com funcionários da casa e alguns convidados. Debatem todo e qualquer assunto e sempre acham alguma coisa sobre eles. Perde é quem agüenta tanta sandice e lugar comum.

Bem melhor, por ser jornalístico apenas e não moralizante, é o programa de Ferreira Neto na TVS. O simples fato de a estação ter um programa de entrevista já é uma noticia, pois sua linha é virtualmente contrária a qualquer tipo de reflexão. Mas permite que depois da meia-noite, sem horário certo, mas com patrocínio fixo de uma empresa fora do baú, aconteça então a exceção. Bem feita, bastante objetiva, com convidados importantes. O defeito maior é ser por demais paulistano nos assuntos.

Mas os cariocas tem que se conformar, porque a única estação aqui sediada, Rede Globo, continua com total horror a noticia e entrevistas. Tanto, que já decretou o falecimento do Globo Revista no final deste ano e seu jornalismo permanece preferindo matérias de ciência e tecnologia, não dão galho a qualquer outro assunto. De resto, faz mesmo humor repetitivo, musicais bonitinhos, tipo Fagner e Arca de Noé II, e uma TV Mulher surpreendentemente esvaziada com a afetada Marília Gabriela e Xênia Bier falando compulsivamente sobre si mesma.

No mais, faz novelas. Seu prato forte e razão maior de ter criado o hábito de audiência. Mantido até quando produz boi com abóbora. Agora está com dois. O Amor é Nosso, que nenhuma plástica e atores experientes conseguiram salvar, e Brilhante. Existe um tabu no ramo de que história que começa ruim no primeiro capítulo, não há casuísmo que resolva. Se Gilberto Braga não quebrá-lo, a estação está com mais um fracasso nas telas. O autor e Daniel Filho, diretor, quiseram dar urna de Hitchcock, mas até o momento não passaram de uma mistura de Janete Clair com Ivani Ribeiro. Mas sem a garra e a paixão das duas. Que não fariam urna trama tão confusa, monótona, artificial, distante do público e de qualquer realidade. Mas longe também da ficção enlouquecida, típica do gênero, de regras próprias e indestrutíveis. Então não é carne nem peixe. Querendo ser Douglas Sirk, como disse em entrevista ao boletim da estação, Braga se perdeu. Em lugar dos melodramas filmados por esse diretor do cinema americano, está exibindo um dramalhão mexicano da Pelmex que fica evidente e até engraçado mesmo nas externas em Londres, com legendas em português, ou no Salão Assirius entre tapes importados de ópera. Dentro dessa falsidade geral, Mo há interpretação que resista. Embora o elenco seja também de primeiro nível, até agora ninguém brilhou, pois todos se limitam a fazer caretas e esgares. Que o inegável talento de todos altere o quilate da obra na avaliação geral.

Apesar desses percalços, a estação cada vez mais investe e se especializa em novelas. Pela primeira vez desde sua ascensão em 1968, sua pesquisada estratégia causa dúvidas, pois em tempos de diálogos permanece pesadamente monocórdia. Mas bilíngüe, pois não satisfeita com os feitos nacionais, está anunciando para novembro a estréia da produção americana no gênero Dallas, de grande sucesso mundial, mas de reconhecido baixo nível em realização e história sensacionalista. Com seu advento, as séries brasileiras acabam e em 82 volta a novela das 10. Informação tristinha, pois a tentativa foi boa, mas em seu terceiro ano de existência teve mais erros do que acertos. A maioria destes por conta do Bem Amado, que deverá entrar em novo horário no próximo ano, o que prova que um juramentado demagogista a tudo escapa. Seus companheiros, porém, vão fazer companhia a Edu, que viveu só 11 programas e não conseguiu amizade colorida com as senhoras paulistas e com seus autores que nunca souberam o que fazer dele. Para a mesma vala vai o Dr Rodrigo, que sobreviveu pouco mais, com eutanásia pronta pela incompetência da estação em tratar pobreza sem folclore. Devia tomar lições com Geraldo Vietri, José Duba e outros doutores em modéstia. E morre também o mais longevo Waldomiro Pena, que foi jornalista empregado, autônomo e agora deverá abrir restaurante em Botafogo ou comercializar produtos naturais, já que plantão de policia é arriscado demais para emissora tão prudente.

No comments:

Post a Comment

Followers