Friday, October 26, 2012

1970 - Quem Tem Medo da Verdade

Correio do Estado (MT)
14/4/1970
Autor: João Rodolfo do Prado
O LADO DE LÁ DA VERDADE
Toda segunda-feira, vários colegas (em geral os mesmos) me perguntam: "Viu o Que Tem Medo da Verdade? de ontem? Não é um absurdo o que fizeram com fulano? Como podem dizer tanta besteira? Fulano enrolou o juri? e a bronca segue por ai afora. Geralmente respondo que não toquei ainda no assunto porque o programa é muito ruim e, como quase não tem audiência na Guanabara, prefiro não fazer propaganda; afinal, o programa começou a ser notado depois do "julgamento"' de Leila Diniz, quando todo mundo protestou.

Esta posição pode parecer um tanto esquisita. mas en considero-a bastante válida; no entanto, o dito é líder em audiência em São Paulo, segundo dados dos IBOPE publicados em uma revista especializada. Se tanta gente assiste ao programa, algo deve acontecer de importante. Portanto, vemos a ele, mesmo com o risco de aumentar a badalação.

Antes de mais nada, minha posição em relação ao programa: considero-o péssimo em termos de televisão pernicioso sob os aspectos ideológicos, morais e éticos Dito isto, passemos à autópsia.

Quem Tem Medo da Verdade é a mistura de dois gêneros bastante conhecidos na televisão: as entrevistas agressivas e o tribunal. Formalmente o programa é composto de um juiz, uma banca de jurados, a promotoria, o advogado de defesa e, razão de ser disto tudo, o réu, uma figura de destaque em nosso aborígine star-system. No início do programa, lê-se as ''acusações" que pesam sobre o réu (sic); em seguida, os jurados (!) começam a desenvolvé-las, travando "violento" debate com o acusado.Após de mais de duas horas de programa, vem a "defesa", e o "julgamento". Até ontem, a maioria dos réus acabou chorando em alguma parte do programa, geralmente apos uma pergunta feita em voz doce e com uma melosodia de fundo (esta pergunta é o ponto máximo do mundo-canismo).

Como em qualquer programa de televisão, o esquema de Quem Tem Medo da Verdade, é totalmente craniado O mediador é austero e imparcial (!), procurando dar um tom de dignidade e moral ao programa (acredito que esta seja a razão da noticia comentada na abertura do programa, na base do "este-mundo-é-mesmo-uma-perversao''. Os jurados representam diversos tipos: o intelectual aristocrático, o sofisticado fumador de cachimbo, o padre moralista histórico (este senhor é padre mesmo. Como é que a Igreja o deixa vender tal imagem.?), o pesquisador que se apóia em recortes de jornais, os jovens, a mulher. Completando o esquema, os réus que recebem cachê (pelo menos é o que se divulga...) e sabem, de antemão, o que poderá acontecer. Toda a engrenagem da televisão está presente, pronta para ludibriar o respeitável público que vai (ou deveria) viver o espetáculo.

Programa no ar, música de suspense, então começam surgir os furos. Primeiramente, os boladores do programa erraram de veículo, vamos ver por que. Enquanto todo mundo discute, berra, usa-se a câmara de eco a torto e a direito, a imagem permanece tranqüila em plano médio, olhando estaticamente para que acontece: em suma, um programa de rádio acidentalmente feito numa TV. Aí' aparece a segunda do programa: os apresentadores, assim como a sustentação jornalística, demonstram-se terrivelmente pobres. As acusações são idiotas e é feito um estardalhaço por pequenos detalhes. Se o réu já possui as simpatias do público por sua própria condição, a pobreza dos argumentos tornam o júri ridículo e ainda mais exposto. O negócio é tão grotesco que não dá pé nem de se tentar levar a discussão a sério. E fica muito fácil para o reu debater com os jurados (onde já se viu isto?), argumentar com força. Conclusão: o réu fica tão simpático, e tão promovido, que não deveria receber para ir ao Quem Tem Medo da Verdade? Devia pagar.

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