Monday, October 29, 2012

1967 - Censura

Realidade
Data de Publicação: 1/6/1967
Autor/Repórter: José Carlos Marão e Afonso de Souza
ISTO É PROIBIDO
Em Brasília, 17 funcionários públicos decidem que filmes crianças podem ver, o que os adultos podem ver e o que ninguém pode ver. Com esses 17 homens está o poder de decretar

Ele aparece todos os dias, em todos os filmes - desde um desenho animado até uma tragédia mexicana.

Ele trabalha atrás de uma mesa de aço, no quarto andar de um edifício de paredes de vidro, em Brasília.

Mais criticado que elogiado, é ele quem determina o que o brasileiro pode e o que não pode ver no cinema.

Ele é o censor, e nas telas seu nome e assinatura nunca falham: "A. Romero do Lago, chefe do Serviço de Censura de Diversões Públicas".

- Trabalho de censor desperta curiosidade muito grande - comenta um pouco vaidoso.

Romero do Lago chefia uma equipe de 16 homens, encarregada de cortar, dos filmes, cenas que - segundo eles - chocam, despertam violência, ofendem o decoro público ou subvertem. Com nível de cultura de média para baixo, esses 16 cidadãos têm o poder de proibir filmes para menores, cortar cenas e até interditar uma fita inteira.

Já houve tempo que se limitava um filme "impróprio para menores até..." só pelo título. Hoje não. Todas as fitas, nacionais ou estrangeiras são vistas.

O chefe Romero do Lago, porém, não gosta de cinema. Quase nunca entra na sala de projeções do departamento. Sem confessar sua indiferença, explica que não assiste aos filmes para poder opinar posteriormente, em grau de recurso, sobre qualquer dúvida surgida entre os censores.

A equipe agüenta ver quatro filmes de longa metragem por dia, mais um tanto de documentários e jornais cinematográficos. A ordem de exibição é a de chegada, mas os nacionais têm preferência. Os censores trabalham em grupos de dois, três ou quatro. No subsolo do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico (onde a Censura ocupa metade do quarto andar), eles têm uma sala de projeção: 300 lugares, luz e som perfeitos.

Depois de visto o filme, cada censor dá seu parecer por escrito. Se houver empate, Romero do Lago, ou um segundo grupo de censores, desempata. Se não houver, Augusto da Costa, que já teve seu nome conhecido no Brasil inteiro, pois foi o beque da Seleção Brasileira na Copa de 1950 - recebe os pareceres, prepara os certificados, passa ao chefe para assinar e despacha aos distribuidores.

Funcionários federais (dos níveis 17 e 18), os censores ganham no máximo NCrS 356,50 por mês e só podem ter outro emprego se forem jornalistas.

O CENSOR NASCEU DE UM BEIJO

A censura do cinema começou um pouco antes do cinema. Em 1896, no filme A Viúva Jones (do tempo da lanterna mágica), Mary Irvin e John C. Rice assustaram o público americano com um beijo mais ou menos longo. Membros do clero, escandalizados, denunciaram a fita como a lyric of the stockyards (um lirismo de matadouro).

Estava criada a censura. O censor oficial foi a conseqüência.

No Brasil, 71 anos depois, o censor é um funcionário público que ainda faz restrições aos beijos:

- O beijo passa, é claro, mas se o galã começa a dar mordidinhas nos lábios da mocinha, aí vamos estudar o caso.

No estudo do caso, há pelo menos 16 critérios para julgar o que o povo não pode ver: um para cada censor. Além da orientação geral de Romero do Lago, através das portarias que vai baixando.

Serviço de Censura de Diversões Públicas foi criado em 1946, dentro do Departamento Federal de Segurança Pública (hoje Departamento de Polícia Federal). Na mesma ocasião foi feito um regulamento de 136 artigos, onde só um - o "41" - fala dessas coisas que são proibidas: "Será negada a autorização sempre que a representação" exibição ou transmissão: a) contiver qualquer ofensa ao decoro público; b) contiver cenas de ferocidade ou for capaz de sugerir a prática de crimes; c) divulgar ou induzir aos maus costumes; d) for ofensiva à coletividade ou às religiões; e) puder prejudicar a cordialidade com outros povos; f) for capaz de provocar o incitamento contra o regime vigente, à ordem pública, às autoridades e seus agentes; g) ferir, por qualquer forma, a dignidade e o interesse nacional; h) induzir ao desprestigio das forças armadas."

São proibidas por lei, portanto, entre outras, cenas que ofendem o decoro público. Mas como até hoje ninguém definiu nem indicou quando o decoro público é ofendido, os censores usam, para julgar, a intuição e o bom senso pessoal.

BAIANO NÃO ENTENDE "O SILÊNCIO"?

Todo censor é a favor da censura: -Como é que aquela gente do interior da Bahia vai entender ou suportar um filme como O Silêncio, se não for cortado?

A frase é de Pedro José Chediak, que antecedeu Romero do Lago na chefia do departamento. O Silêncio, filme de Ingmar Bergman, premiado no mundo inteiro, saiu da censura brasileira com quatro cortes de cenas consideradas imorais: duas de relações sexuais, uma de masturbação e outra em que aparece um seio de mulher. Apesar de alguns dos censores admitirem que foram filmadas tão sutilmente que não chegavam a ferir o decoro público, Chediak foi categórico:

- O Silêncio não tem mensagem nenhuma, é vazio. O Ingmar Bergman fez fama e deitou na cama.

A VEZ DA SUBVERSÃO

Recentemente, o filme nacional Terra em Transe, de Glauber Rocha, foi submetido à censura, sendo inicialmente interditado por cinco votos contra um. Romero do Lago nem precisou ver o filme; examinou os pareceres e deu o veredicto:

- Realmente esse filme leva uma mensagem marxista de subversão da ordem.

José Vieira Madeira, o único censor que opinou por sua liberação, pensa diferente:

- O filme é pura ficção, que pode ter semelhança com o Brasil de hoje, mas pode ter também com outros países latino-americanos. É exagero dizer que o tirano do filme seja Castelo Branco e o Governador do Estado do Alecrim seja João Goulart.

Enquanto isso Terra em Transe era inscrito no Festival de Cannes, na França.

O recorde de cortes na censura é de um filme também nacional: Noite Vazia; de Walther Hugo Khouri. Cinco cenas foram cortadas - a considerada mais forte era aquela em que Norma Benguel e Odete Lara apareciam numa cama. Essa cena teve que ser exibida só com o começo e o fim, sem o meio.

Outro filme brasileiro, Canalha em Crise, só foi liberado dois anos e meio depois de sua entrada no departamento. Nesse período houve trocas na chefia e, quando a fita ia sendo liberada por uma equipe, Miguel Borges, o diretor, não concordava com os cortes e entrava com o recurso. De mudança em mudança, afinal, Canalha em Crise saiu de Brasília - depois de dois anos e meio - com duas cenas de sexo a menos, e ainda deixando os censores preocupados, porque é o bandido quem ganha no fim.

Mas acontecem coisas ainda mais estranhas: Katu no Mundo do Nudismo, liberado com alguns cortes, encontra-se em exibição. Enquanto isso, seu trailler_ está há vários meses aguardando liberação, pois chegou a Brasília atrasado.

Viva Maria, francês, foi liberado por acaso: tinha sido interditado pelos censores por ser considerado subversivo. Acontece que ao mesmo tempo o general Riograndino Kruel - então diretor do Departamento de Polícia Federal - via o filme em exibição especial e dava boas gargalhadas com as ''guerrilheiras'' Brigitte Bardot e Jeanne Moreau.

Quando soube da interdição, não achou graça nenhuma. Chefe do chefe da censura, mandou que Viva Maria fosse liberado.

Pode acontecer também que o público nem fique sabendo que certos filmes entram no Brasil. Delírio Noturno, japonês, foi devolvido pela censura para reexportação, por "imoral e antiestético''. Outros começam a passar e depois são apreendidos: Tentação Morena, mexicano, teve sua exibição interrompida em Belo Horizonte. Os distribuidores tinham esquecido de tirar daquela cópia uma cena cortada pela censura, em que a atriz Izabel Sarli toma banho num rio, completamente nua.

MAS NEM SÓ SEXO E SUBVERSÃO DÃO TRABALHO AOS CENSORES

- Crime com arma branca que tem sangue, eu corto - diz um dos homens do serviço.

005 contra o "strip-tease"

O ex-chefe Chediak baixou uma portaria - de número 005 - proibindo o strip-tease para todo o território nacional. Romero do Lago derrubou essa portaria. Agora o strip-tease não é mais proibido, desde que as câmaras estejam a mais de cinco metros do objetivo. Isso é o que diz a nova portaria, que assim exige um requisito a mais dos censores: golpe de vista.

Além dessa liberalidade, Romero do Lago juntou uma importante inovação ao Serviço de Censura de Diversões Públicas:

- O SCDP -diz ele - concederá certificados especiais de censura cinematográfica a filmes considerados de valor educativo, para exibição em entidades culturais, onde entidade cultural é definida como universidade, cinemateca, fundação cultural ou cineclube filiado à Associação Brasileira de Cinema de Arte.

Veridiana, de Luiz Bunel, foi o primeiro a obter essa categoria de filme de valor educativo" tendo sido liberado integralmente" com a condição de não ser exibido comercialmente. Antes da portaria, o filme fora censurado e cortada uma cena em que um grupo de mendigos se banqueteia numa mesa com talheres finíssimos, num salão medieval, durante a ausência dos donos da casa. A cena é uma paródia da passagem bíblica pintada por Leonardo Da Vinci.

Augusto da Costa, o ex-beque da seleção, afirma:

- É uma tentativa de ridicularizar a Santa Ceia, e o filme é anticlerical.

Antônio Fernandes de Sylos, um dos censores, está com o beque:

- E quem é que garante que não é mesmo a Santa Ceia?

PROIBIDO PARA CENSORES

Extraconjugal, filme italiano com quatro histórias, entrou na censura normalmente. A última das histórias deu um susto nos censores: era forte demais. Resolveram interditar a fita a não ser que aquele episódio fosse eliminado.

Os distribuidores entraram com recurso, pedindo reexame. Extraconjugal foi revisto e a censura acabou autorizando a emissão do certificado, mas proibindo o filme para menores até 21 anos. Assim, um brasileiro de 18 anos, pode ser eleitor, funcionário público (e até censor), mas está proibido de ver a fita.

Não existe nenhuma lei, decreto ou portaria que permita proibir filmes em estágios fora dos níveis de 10, 14 e 18 anos. Uma vez ou outra, porém, há essas exceções: Dr. Jivago, de custo caríssimo, tinha sido proibido para menores até 18 anos. Os distribuidores, desesperados, apresentaram recurso. Resultado - foi proibido para menores até 16 anos. Afinal, o filme mostrava muita guerra, um herói que vivia feliz com a amante e.. o romance fora proibido em seu pais de origem, a Rússia.

Mas não são apenas essas as fórmulas de censura vigentes no Brasil. Cinemas de propriedade de padres e igrejas, principalmente nas cidades do interior, de vez em quando suspendem a exibição de algum filme, quando os gerentes foram enganados pelo titulo, na escolha do programa mensal.

Há pouco tempo, em Niterói, o governador do Estado do Rio, Jeremias Fontes, que é protestante, censurou a própria censura. Rasgou e jogou no lixo uma foto de mulher nua que encontrou emoldurada, carimbada censurado, enfeitando a mesa do chefe da censura estadual.

QUEM ESTÁ CONTRA A CENSURA

Nem todos, porém, pensam como o governador Jeremias Fontes. Entre os intelectuais brasileiros, por exemplo, será difícil encontrar-se alguém favorável à censura. Para Carlos Diegues, cineasta, diretor de Ganga Zumba e A Grande Cidade, "não deveria existir censura nenhuma". Esta é a sua opinião:

-- Sou contra qualquer tentativa de impedir a expressão livre de quem quer que seja.

Por outro lado compreendo os motivos pelos quais o Estado se protege através de instrumentos odiosos como o da censura: ele precisa se precaver contra as "doenças sociais", animadas, quase sempre, pelo livre pensamento condutor da opinião pública e da crítica. A censura moral encobre, no final das contas, a censura política. E é em nome desta que se faz a primeira. Para quem faz cinema (ou qualquer outra coisa) a presença da censura é asfixiante, estamos sempre medindo nossa possibilidade de enfrentá-la. A única maneira de conviver com ela, já que é impossível evitá-la, é lutar pela sua liberalização, tentar fazé-la progredir, para que possa se transformar num instrumento menos obscuro, como já é em tantos países do mundo. O melhor modo para se chegar a isso é estabelecer uma discussão da qual ela sairá, quase que fatalmente, mais moderna.

"SOU CONTRA QUALQUER TIPO DE CENSURA"

O jornalista, ensaísta e crítico literário Paulo Francis faz comparações entre o Brasil e os Estados Unidos:

- Sou contrário a qualquer tipo de censura: política, moral etc. É evidente que o excesso de liberdade pode acarretar alguns excessos anárquicos. Mas está provado, pela experiência de países como os Estados Unidos, que qualquer sociedade civilizada é perfeitamente capaz de absorver esses excessos sem nenhum prejuízo para a sua estrutura. Um bom exemplo é a peca Mac Bird, onde o presidente Johnson é explicitamente acusado de haver assassinado o presidente Kennedy. A peça não foi censurada, e o govêrno Johnson não caiu.

Isto é válido também para a censura dos livros ditos obscenos. No Brasil, em particular, a censura tem sido um fator de obscurantismo político e sexual. Um bom exemplo do primeiro caso foram as apreensões de livros no governo Castelo Branco; e, no segundo, as apreensões de livros como O Casamento e Fanny Hill. Uma sociedade que não pode ler a respeito de um ato fisiológico normal, como é o sexual, não está preparada para o desenvolvimento industrial e para a era da tecnologia.

"CRÍTICA SIM, CENSURA NÃO"

Josué Montelo, escritor e membro do Conselho Nacional de Cultura, também condena a censura:

- Só aceito como válida à obra de arte a censura feita em nome de princípios de ordem estética. E esta é exercida ou pelo artista - no momento da criação - ou pelo espectador, diante da obra realizada. Esta censura chama-se crítica e só interfere na criação por iniciativa de seu criador. Fora dai, a censura aparece numa faixa de ordem ética. Fala a moral onde deveria falar a estética. Ora, a obra de arte deve ser permanente, como mensagem humana, enquanto os princípios de ordem ética - onde a censura se baseia - variam com o tempo e as latitudes.

"O CENSOR VIVE ASSUSTADO"

O JURISTA EVARISTO DE MORAIS VÊ O PROBLEMA ASSIM:

- A censura, do ponto de vista jurídico, pouco se diferencia da censura do ponto de vista sociológico. Pois ela representa nada mais do que aquele controle social, difuso e inorganizado, mas formal e institucionalizado através de códigos, leis e tribunais e policias. Em qualquer país do mundo, a censura é sempre a defesa da ordem social e econômica constituída. Por isso mesmo, o govêrno - apesar de todas as criticas - prefere sempre a censura prévia, em lugar da exercida depois do fato consumado, com plena responsabilidade de seu autor. Com a censura prévia o que se procura é evitar que o público tenha conhecimento daquilo que poderá causar dano aos valores, interesses e crenças dos poderes constituídos. Infelizmente, salvo raras exceções, os censores vivem assustados e vêem atentados contra a ordem dominante por toda parte, mutilando as livres criações do espírito humano.

"ELA CRIA HIPÓCRITAS"

Napoleão Moniz Freire autor e atualmente do Departamento de Teatro da Guanabara, encerra a série de críticas:

- Há um perpétuo conflito, na marcha do mundo, entre o bem e o mal. Existe a idéia. Existe a liberdade de pensamento. Existe a liberdade de opinião, de exame e deliberação. A liberdade de expressão sofre, às vezes, censura. Acontece que, existindo a liberdade de pensamento e a de opinião, não será a censura que irá eliminar a idéia. Uma idéia só poderá ser eliminada quando voar e sofrer o embate da dignidade. Nunca será eliminada pela censura, que somente cria hipócritas.

Friday, October 26, 2012

1983 - Nova Programação

Jornal do Brasil
18/9/1983
Autora: Maria Helena Dutra
SETEMBRO LOUCO?
Ensandecida primavera. Pela primeira vez em 33 anos de vida, estações de televisão mudam inteiramente suas programações em setembro. Normalmente estas são lançadas em março, e algumas mudanças de curso, no passado, só eram abruptas em estações desgovernadas por crises, aconteciam durante o ano. Mas o estranho 83 inova até neste particular e a terceira semana do mês está repleta de novidades e alterações. Vai ver que é a maneira encontrada para comemorar o primeiro aniversário da falência do país.

A Globo sopra, amanhã, a primeira velinha, informando alterações em sua TV Mulher. O boletim da estação as enumera, só que todas já estão no ar este ano. Tudo bem, deve ter mudado, mesmo não parecendo. Coisas femininas. A primeira, palminha da Bandeirantes é mais autêntica. As 17h30min, para ela volta a Turma do Lambe-Lambe. Já deve estar meio seca. As 18h45min, diariamente também, a estranha estação lança o nacional seriado A Casa de Irene. Esperamos que nada tenha com a letra original da canção italiana. Escrita por Geraldo Vietri, é sua segunda tentativa na estação; tem Nair Bello, Gianfrancesco Guarnieri, Françoise Forton e outros no elenco.

Às 19h30min entra no coro a TVS, fazendo estrear O Direito de Nascer. Parece pândega de pessoa pouco sóbria. A novela, que já esteve no rádio e foi um dos grandes sucessos do gênero com elenco nacional, em 1964, voltou à televisão na superimitada Tupi em 75, com muita criatividade nacional na história, e foi total fracasso. Agora a Studios simplesmente a importa do México com uma leve dublagem para durar vários anos. A solução para este canal é, portanto, bem diferente da oficial. Às 20h, a inconstante Bandeirantes manda Clodovil para este horário. E às 20h55min ela se aprimora e tasca Boa Noite, Amiguinhos. Dois coelhinhos, ainda em botão, Escovão e Fofura, mandam as crianças dormirem. Caso alguma esteja vendo esta bobagem. Às 21h, mesma estação, Segunda sem Lei. Deve ser a da oferta e procura que estréia, ou melhor, volta, com a Lenda do Príncipe Shaolin. Será presidenciável?

Contra-atacando, a Globo reformula todo o seu horário nobre pós-novelas. Como o dólar, para os grandes filmes, deve ter acabado, devastado pelas extravagâncias da semana passada, às 21h20min de segunda faz retornar para sua antiga noite o Viva o Gordo. E na terça este espaço será ocupado por Chico Anysio. A festa é deles. Às 21h30min a Manchete, durante toda a semana entra na desocupada liça o e despeja mísseis de altos câmbios. Tipo Terremoto, Alta Ansiedade, Damien - A Profecia II, Uma Mulher Descasada, Os aventureiros de Lucky Lady, A Noviça Rebelde, Kismet. Tudo filme. Em lugar de concorrer com as outras estações convencionais, quer ameaçar clubes de vídeos. Às 22h15min a novel nacionalista Rede Globo retorna o horário das 10 com Eu Prometo de Janete Clair, Parece hino mas é história sentimental sobre "um popular deputado". Tem direção de Denis Carvalho, Luis Antônio Piá e Paulo Ubiratan. No elenco Francisco Cuoco, Renée de Vielmond, Joana Fomm e muitos outros. A mais popular de nossas autoras, num horário mais liberal, deve dar sucesso. Às 23h de segunda a quarta a TVS entra de seriado, daqueles que só ela tem em cores apenas, verdes e com histórias estranhíssimas. Às 23h20min a Globo lança uma terceira edição do RJTV. Parece placa de automóvel mas é apenas uma edição local de seu noticiário. E às 23h30min volta ao seu cosmopolitismo americano e desova com seriados. Tipo Magnum na segunda, Chumbo Grosso na terça, Caixa Alta, quarta, Casa do Terror, quinta, e a teimosia com Dallas na sexta. Todos não valem uma piscada de seus olhos.

Como o elenco de humoristas da TVS foi despedido, a Bandeirantes deve aproveitá-lo em Deu a Louca no Mundo, às 20h da terça-feira. Já nem mais imita a Tupi, parece a TV Rio. A única contribuição da Educativa para esta farândola estreatícia é Teatro na TVE. Às 22h de terça, que estréia com homenagem a Cacilda Becker - Revivendo a Imortal. A primeira lembrança é com a íntegra de Casa de Bonecas, Ibsen, que a excepcional atriz levou na TV Bandeirantes há cerca de 20 anos. E às 23h, a mimosa Bandeirantes inicia a transmissão de minisséries sob o orgulhoso título Super Produções. A primeira, em oito capítulos, intitula-se Sob os Olhos de Deus. Vê outro canal.

Na quarta às 20h a Bandeirantes estréia o seriado Logan's Run. Uma viagem em busca da vida. É ambientado no século 24. Quem resistir, verá. E a Quarta Nobre global encolheu. Começa às 21h10min e tem apenas 60 minutos para contar qualquer coisa. A primeira no novo formato - é Quando o Outono Chegar (toda esta programação mudará). O autor é Aguinaldo Silva, direção de Paulo José. Os rápidos do elenco serão Eloisa Mafalda, Lima Duarte, Ivan Setta e outros.

Na quinta-feira, 20h, a Bandeirantes insiste com As Mais Mais. Que há anos são menos, menos. Às 21h passa cinema. Pobre. Às 21h30min a Studios estréia, retorna, dá abrigo, sei lá mais, ao Programa Flávio Cavalcanti. Em tudo deve voltar igualzinho.

Sexta o canal 7 tem a subida honra de colocar programa sertanejo em horário nobre. Em todos os outros veículos de comunicação é de manhã. Esta originalidade bandeirantícia vai se chamar Na Beira de Tuia. É com Tonico e Tinoco. As 21h continua o Desafio à Produção. Perde o espectador. E às 21h30min o longevo Clube dos Artistas volta ao horário nobre na TVS. Pelo menos cultivam a tradição.

Calma, no sábado ainda tem mais. Tudo craneado pelo canal 7. Às oito da noite, TV Tutti Frutti, com "bonecos representando frutas. Legumes e bichos ganham vida e habitam uma cidade encantada, a Hortolândia". Onde chegamos! Pensam que acabou? Tem pior. Às 21h, Sangue em Família. Nada menos que um seriado sobre vampiros nacionais. Uma Família Adams nada original, reunindo os pobres Eva Todor, José Vasconcelos, Sandra Bréa e outros. História de Marcos Caruso. Logo seguida, em devastadora acumulada, às 22h, chega Culpado ou Inocente? Já viram, outro arremedo de julgamento. Nas reportagens Saulo Gomes e Ana Davis. E Dinastia sobrou para domingo às 22h.

Enfim mais uma mexida que propicia muito mais estudos sociológicos do que artísticos e culturais sobre a televisão. E esperemos que também não passe a história com o já famoso e abrangente título de setembro negro.

1970 - Quem Tem Medo da Verdade

Correio do Estado (MT)
14/4/1970
Autor: João Rodolfo do Prado
O LADO DE LÁ DA VERDADE
Toda segunda-feira, vários colegas (em geral os mesmos) me perguntam: "Viu o Que Tem Medo da Verdade? de ontem? Não é um absurdo o que fizeram com fulano? Como podem dizer tanta besteira? Fulano enrolou o juri? e a bronca segue por ai afora. Geralmente respondo que não toquei ainda no assunto porque o programa é muito ruim e, como quase não tem audiência na Guanabara, prefiro não fazer propaganda; afinal, o programa começou a ser notado depois do "julgamento"' de Leila Diniz, quando todo mundo protestou.

Esta posição pode parecer um tanto esquisita. mas en considero-a bastante válida; no entanto, o dito é líder em audiência em São Paulo, segundo dados dos IBOPE publicados em uma revista especializada. Se tanta gente assiste ao programa, algo deve acontecer de importante. Portanto, vemos a ele, mesmo com o risco de aumentar a badalação.

Antes de mais nada, minha posição em relação ao programa: considero-o péssimo em termos de televisão pernicioso sob os aspectos ideológicos, morais e éticos Dito isto, passemos à autópsia.

Quem Tem Medo da Verdade é a mistura de dois gêneros bastante conhecidos na televisão: as entrevistas agressivas e o tribunal. Formalmente o programa é composto de um juiz, uma banca de jurados, a promotoria, o advogado de defesa e, razão de ser disto tudo, o réu, uma figura de destaque em nosso aborígine star-system. No início do programa, lê-se as ''acusações" que pesam sobre o réu (sic); em seguida, os jurados (!) começam a desenvolvé-las, travando "violento" debate com o acusado.Após de mais de duas horas de programa, vem a "defesa", e o "julgamento". Até ontem, a maioria dos réus acabou chorando em alguma parte do programa, geralmente apos uma pergunta feita em voz doce e com uma melosodia de fundo (esta pergunta é o ponto máximo do mundo-canismo).

Como em qualquer programa de televisão, o esquema de Quem Tem Medo da Verdade, é totalmente craniado O mediador é austero e imparcial (!), procurando dar um tom de dignidade e moral ao programa (acredito que esta seja a razão da noticia comentada na abertura do programa, na base do "este-mundo-é-mesmo-uma-perversao''. Os jurados representam diversos tipos: o intelectual aristocrático, o sofisticado fumador de cachimbo, o padre moralista histórico (este senhor é padre mesmo. Como é que a Igreja o deixa vender tal imagem.?), o pesquisador que se apóia em recortes de jornais, os jovens, a mulher. Completando o esquema, os réus que recebem cachê (pelo menos é o que se divulga...) e sabem, de antemão, o que poderá acontecer. Toda a engrenagem da televisão está presente, pronta para ludibriar o respeitável público que vai (ou deveria) viver o espetáculo.

Programa no ar, música de suspense, então começam surgir os furos. Primeiramente, os boladores do programa erraram de veículo, vamos ver por que. Enquanto todo mundo discute, berra, usa-se a câmara de eco a torto e a direito, a imagem permanece tranqüila em plano médio, olhando estaticamente para que acontece: em suma, um programa de rádio acidentalmente feito numa TV. Aí' aparece a segunda do programa: os apresentadores, assim como a sustentação jornalística, demonstram-se terrivelmente pobres. As acusações são idiotas e é feito um estardalhaço por pequenos detalhes. Se o réu já possui as simpatias do público por sua própria condição, a pobreza dos argumentos tornam o júri ridículo e ainda mais exposto. O negócio é tão grotesco que não dá pé nem de se tentar levar a discussão a sério. E fica muito fácil para o reu debater com os jurados (onde já se viu isto?), argumentar com força. Conclusão: o réu fica tão simpático, e tão promovido, que não deveria receber para ir ao Quem Tem Medo da Verdade? Devia pagar.

Sunday, October 14, 2012

1981 - Wilton Franco e O Povo na TV

Jornal do Brasil
8/9/1981
O POVO NA TV
O drama de cada um transformando num 'show' (ao vivo) de risos e lágrimas

Como um autor de novelas - assim ele se autodefine - que desenvolve seu script conforme o programa vai ao ar, Wilton Franco, astro principal de O Povo na TV, não trata dos problemas de filhos ilegítimos, de ascensão social, de encontros e desencontros amorosos com a cor e o brilho da ficção. Ao vivo, fala de dramas familiares, de mal-atendimento em órgãos públicos, de moças estupradas, de filhos roubados, de falta de água ou de policiamento. É o tom da realidade de uma parcela da população que encontra num programa de televisão a porta para suas denúncias, queixas e apelos, exibidos diariamente, de segunda a sexta-feira, entre duas e seis e meia da tarde, no vídeo da TVS, canal 11.

No grande elenco de entrevistadores do programa, cada um tem seu papel. Para isso, foram escolhidos cuidadosamente pelo diretor Wilton Franco. Cada um deve representar a opinião de urna parcela da população. Mas todos, sem exceção, ouvem e repetem o que o diretor lhes dita pelos pontos eletrônicos que mantêm escondidos em uma das orelhas. Da suite envidraçada que se ergue sobre o estúdio e o auditório, o diretor a tudo controla, das opiniões à música.

Assim, o entrevistador e advogado Wagner Monte deve representar uma parte da opinião pública que acredita no combate da violência pela violência. Com a mesma convicção com que defende o Esquadrão da Morte, bate-se também pelo linchamento, pelo olho por olho, dente por dente.

O também advogado e entrevistador Roberto Jeferson espelha a opinião oposta. Confia na lei e nos direitos humanos. Junto com Wagner Monte, é responsável pelos momentos de controvérsias e discussões acirradas às quais o auditório não poupa seus aplausos. Já a loura e bem-vestida Cristina Rocha é a feminista do programa. Como tal se bate pela emancipação da mulher e se choca com as idéias conservadoras de seu colega José Cunha, que defende para as mulheres o papel de donas-de-casa, mães dos filhos e rainhas do lar.

E se o entrevistador Ney Maia, de aspecto senhorial como diz o diretor Wilton Franco, é considerado o velho, o desatual de O Povo na TV, Sérgio Mallandro é a própria imagem da juventude. Sorri muito, fala uma linguagem moderna. Com papéis não tão definidos participam ainda do programa à novata Lucy Helen e a jornalista Ana Davis, que acaba de voltar de licença por maternidade.

Mas a grande maioria do elenco, aqueles que alimentam o programa com suas queixas denúncias e apelos, está espalhada pelas cadeiras do auditório que recebem uma média de 300 visitantes por dia. Está nos bancos instalados no pátio do estacionamento, ao lado do estúdio; atrás dos muros da emissora, formando filas enquanto aguardam as assistentes de produção que irão ouvir o seu caso e lhes dar uma senha datada.

- A preocupação de muitos, em dizer que este é um programa para gente pobre, só pode ser brincadeira - fala Wilton Franco, 51 anos, três filhos e um salário não revelado (alguns afirmam estar em tomo dos Cr$ 800 mil mensais) mas, segundo ele mesmo, suficiente para viver sem aceitar suborno ou corrupção.

De camisa e calça azul-marinho, combinando com as botas de camurça da mesma cor blazer claro e uma enorme corrente de prata, de onde pende uma estrela com uma pedra vermelha no centro, sentado no seu escritório, cercado de toda segurança, explica por que seu programa não é visto apenas por pobres. E não são poucas as vezes que é interrompido para orientar um repórter do programa ou atender o telefonema de um major ou do próprio Secretário de Obras do Estado.

- Numa tarde dessas recebemos a denúncia de que um orfanato no Méier ia ser despejado por falta de pagamento. Estava devendo mais de Cr$ 800 mil. Em nome do que chamo de "a legião de amigos" resolvi assumir a divida.

Três horas depois o programa já havia recebido mais de Cr$ 1 milhão. Eram cheques de Cr$ 30, Cr$ 50 mil, que só pararam de chegar quando pedi que suspendessem. Pobre pode fazer isso?

Mas as muitas centenas de pessoas que se dividem nas três filas que formam no lado de fora da emissora precisam do programa como uma das poucas chances que têm para resolverem seus "casos". Uma fila reúne os que têm questões na Justiça, que procuram advogados. Para atendé-los há seis advogados voluntários que recebem uma ajuda de custos do programa.

- Já estou até cansada. Tem cinco anos que venho lidando com um processo na Justiça sem conseguir nada. Vim aqui ao programa para pedir ajuda a um advogado - diz Alzira Fabiano, na fila desde o meio dia.

Há outra fila que espera o atendimento das assistentes sociais do Posto da LBA, instalado em frente à emissora. Ali tratam de arrumar documentos para quem precisa. Cuidam de internações. Doam cadeiras de rodas, apare lhos ortopédicos. Numa terceira fila as pessoas aguardam as fichas para fazerem seus apelos denúncias e queixas. Os casos selecionados são levados ao ar.

- Só quero saber de meu marido, que foi preso no trabalho. Preciso saber se está vivo onde está e se é culpado. Se for, terá de pagar mesmo - conta Judite Maria de Araújo, enquanto segura nos braços o seu bebé de três meses, Genival.

Sentados nos bancos, já com as fichas nas mãos, estão Maria Gomes de Souza, 58, que tem uma reclamação contra a Singer; José Alves Nascimento, 55 anos, vigia, que espera sem sucesso uma indenização por acidente de trabalho. Nesses mesmos bancos, Benedita Go mês Alves, que mora na Abolição, sofre como toda mãe que tem um filho com problemas mentais perdido na cidade. O bombeiro hidráulico Pedro Ham, 60 anos, tem esperanças de conseguir de volta o dinheiro que deu para comprar uma casa que não estava à venda.

Mas os problemas e casos ‘ multiplicam às segundas-feiras. É nesse dia que o programa recebe a visita do parapsicólogo Lengruber.

Para tentar chegar até ele, a maioria vai para as filas da emissora no domingo à noite. Lenguber geralmente apresenta três casos no Povo na TV e atende até 300 pessoas, num só dia, no estúdio pequeno da TV-S. A procura por ele é tão grande que um cartaz na porta da emissora avisa que só haverá fichas para consulta a partir de setembro.

- As segundas-feiras é preciso ver o movimento para acreditar - conta um funcionário da produção.

Enquanto os do lado de fora não perdem a esperança, no estúdio grande da emissora o diretor Wilton Franco abre mais um programa. Como faz todos os dias, começa o Povo na TV, pessoalmente, de frente para o auditório, na mira das duas câmeras que trabalham por quatro. O tema da abertura, na sexta-feira passada, eram os pais.

Wilton recebe um presente e as homenagens dos "filhos" da produção e continua dirigindo a cena. Cada entrevistador fala de seu pai, do que morreu, do que está vivo. Começa a se instalar um clima de emoção geral. Do alto da suíte, Joel José, diretor-substituto, pede a música Pai-Herói e providencia também A Olimpíada da Vida, solicitada por Wilton, ainda no palco.

Fala-se do falecido pai de Serginho Mallandro, do maravilhoso pai de Wagner Monte. Exibe-se para as câmeras uma foto antiga do pai do diretor do programa A equipe chora. A platéia chora. As câmeras não perdem um só close de lágrimas escorrendo nos rostos.

So então o programa é "entregue ao povo" e Wilton sobe para a suíte para comandar o programa que só diz o que ele próprio pensa.

- Não adianta conquistar apenas os olhos com uma imagem bonita. E preciso também conquistar o coração. A fórmula de O Povo na TV é justamente coração e talento juntos. Fazemos um trabalho de vigilância, de fiscalização. E o mínimo que fazemos pelas pessoas é ouvidas para saber se estão erradas ou não. Essa atenção, esse esclarecimento, elas não encontram lá fora.

O Povo na TV consome uma verba que ninguém revela, apenas sugere:

- Custa no máximo um terço de um programa que está perdendo para a gente na TV Globo - orgulha-se Wilton.

Com a inauguração do canal paulista, a TV-S passará a transmitir o Povo na TV, sempre ao vivo, em cadeia. Segundo a direção da emissora, será o primeiro programa na televisão brasileira, com quatro horas e meia de duração, a ocupar uma rede, ao vivo.

1981 - Guaíba Ao Vivo

Folha da Tarde
 31/10/1981

''A PRODUÇÃO É A ESPINHA DORSAL DE UM PROGRAMA''
Maria Helena é produtora do quadro de Fernando Vieira no Guaíba ao Vivo, que a TV2 apresenta de segunda a sábado, a partir das 19h30min.

Maria Helena trabalha há dois anos e meio em rádio, onde vem acumulando experiência em vários setores: começou com reportagem geral, passou pela economia, aeroporto e politica.

Atualmente, para poder conciliar rádio e televisão fazer reportagem geral. Para ela, é importante trabalhar tanto em rádio quanto em televisão mas "a tv oferece mais condições de futuro - já que o rádio está um pouco estático - a tv é mais envolvente e é onde o mercado de trabalho também é maior, inclusive por exigir um número maior de tarefas."

Com relação ao quadro de Fernando Vieira, Maria Helena o considera gostoso de produzir, "é movimentado, exige bastante criatividade e é uma coisa que tem muito a ver comigo''.

Além de fazer a produção do quadro, Maria Helena faz as externas e todo o trabalho de edição, acompanhando o desenrolar do programa. Talvez por todo esse acompanhamento é que Maria Helena considere mais que o rádio, embora pense que este crie que a TV acrescenta um embasamento essencial para a profissão de jornalista.

Atualmente, Fernando está realizando um concurso que vai sortear dez cartas para receberem uma viagem ao Rio de Janeiro (fim-de-semana com direito a ingressos aos shows de Roberto Carlos, no Canecão e Simone).

Também está em andamento - e as inscrições encerram no próximo dia 15 - um concurso para modelo fotográfico, em que as vencedoras irão apresentar o programa durante uma semana com Fernando Vieira, vão receber um guarda-roupa completo da marca LEE, e mais outros prêmios, que serão conhecidos posteriormente.

TRABALHO ANÔNIMO - Na opinião de Maria Helena, "o trabalho de produtor é um trabalho anônimo, que serve para embalar não só e apresentador, mas todo o programa. Para mim a produção é a espinha dorsal de um programa embora muitas vezes ela seja ignorada pelo telespectador. Tem muita gente que não sabe que dentro de uma emissora de televisão é necessário produzir, montar editar, etc, etc, etc. É muito fácil ver o programa todo prontinho como chega ao telespectador, mas para nós é o resultado extremamente gratificante de um trabalho de horas e horas"

1981 - Balanço da TV

Jornal do Brasil
19/10/1981
Maria Helena Dutra
MUITA VARIEDADE E ALGUM BRILHO
Três dígitos. Também disparou a programação nacional da televisão carioca. Meio atônito, o espectador médio é agora bombardeado com variedade na ficção e um quase desconhecido veículo inquisidor que nunca tanto perguntou como agora. Tudo isto é muito bom. Pena somente que o nível de realização ainda seja meio precário na maioria das atrações e os temas discutidos continuem mais engraçadinhos do que importantes.

Mesmo assim, algum brilho é sempre melhor do que a antiga opacidade. Da qual a televisão vem saindo muito lentamente, tartaruga perde, desde 1979, quando a "abertura" foi lançada. Dois anos depois, está mais nítida, capaz mesmo de algumas ousadias. No presente, mais acentuadas na Rede Bandeirantes que outra vez mexeu em sua linha de programação à cata de urna audiência que o público persiste em lhe negar. Abreviando a vida de atrações como Mocidade Independente e Cidade Aberta, muito malfeitas e que duraram menos do que a rosa.

Para o novo pacote, é ainda impossível saber a reação do público que é ainda mais lento do que o veículo. O embrulho atual é, porém, bem mais definido apesar de continuar díspar nos seus insumos. Boa atração é o seriado Dona Santa, aos sábados às oito da noite, estrelado por Nair Belo e escrito e dirigido por Geraldo Vietri. É um caso raro de total adequação entre conteúdo e estética. Uma comédia sobre gente pobre, realizada com total simplicidade, sem bobas sofisticações e pretensões de visual americano. Se continuar assim, vai atingir público. Captado pela excelente Nair, a experiência de Vietri nesta linha simpático-populista à italiana que o fez entrar na história da televisão com inesquecíveis novelas na Tupi, como o Cara Suja e A Fábrica, e pelos temas que estão sendo tratados com divertido realismo. A história sobre o cinema nacional com suas divas e indigência foi realmente muito engraçada.

Embora não tivesse esta intenção, a primeira semana de Variety 90 Minutos, mesma estação de segunda a sexta às 20h, foi cômica. Não contentes em imitar o modelo americano de igual título, ainda acrescentaram um nome em inglês para ficar fino. Acabou apenas ridículo com o público nacional achando que seja patrocínio de marca de cigarro. E estreou com uma festa provinciana que nem entrevista com Fidel Castro conseguiu salvar da catástrofe. Continuou neste ritmo mostrando, nos programas seguintes, inaugurações de bibocas paulistanas e discutindo Jânio Quadros à saciedade. Como disse um observador; "fazer um Fantástico por dia não é fácil ", principalmente quando a hercúlea tarefa é realizada por equipe inexperiente e quase amadora no veículo. O resultado foi confusão, assuntos bobos, desentrosamento geral, muitos convidados e comentaristas anunciados sem aparecer e os apresentadores Paulo César Pereio e Ana Maria Nascimento Silva fazendo exclusivamente gênero.

Apesar de quase todos os erros ainda persistirem, nesta última semana o programa ficou mais ágil e jornalístico. Se a estação teimar, pode ter futuro, pois tem o evidente mérito de ser a única opção possível e certa para concorrer com a famosa novela das oito da Globo. Oferece o oposto.

Igualmente certa está a Bandeirantes em escalar Os Adolescentes para 21h30m. Mesmo assim, perde muito na comparação. Em Os Imigrantes, sua outra produção no gênero, o amadorismo da realização é compensado pela pesquisa de nossa recente História. Mas as agruras da juventude classe média paulistana não superam os desconjuntados cenários, a interpretação canhestra ou teatral e os diálogos artificiais, sem nada de coloquial, da autora Ivani Ribeiro. Neste contexto, há temas como drogas e homossexualismo, mas parecem dissertações teóricas do que coisas da vida. Tudo muito malajambrado, o que mais ainda agrava o contraste com sua abertura musical que nada menos é do que o último movimento da Nona Sinfonia, Beethoven.

Não foi preciso esta grandeza para transformar a estréia de ETC, segunda-feira às 23h15m, ainda na mesma estação, em um dos melhores programas de 81. Com total sabedoria, seu produtor e apresentador Ziraldo deixou todo o palco para Dom Hélder Câmara que realmente é um prodígio de comunicação. Com muita clareza, mas falando como se fosse para crianças, fez o mais adulto acontecimento do ano na televisão. Pena que as edições subseqüentes não repetiram, nem ficaram perto, esse feito. Mesmo sendo humorista, não está nada engraçado nas anedotas e na boba brincadeira de salvar o Brasil. Invertendo o esquema do Canal Livre, aqui é Ziraldo que sozinho entrevista muita gente ao mesmo tempo. Todas sentadas numa espécie de poleiro que parece constranger os convidados. Pois todos se mostram apenas engraçadinhos e íntimos esquecendo ser a televisão veículo abrangente que atinge bairros além da Zona Sul carioca. O mesmo erro fatal que esvaziou a entrevista da brilhante Dina Sfat.

Com alcance bem menor - sua audiência só aumenta mesmo no esporte - a reformulada e de autonomia perdida Educativa também muito entrevista agora. No ramo, seus melhores programas são Sábado Forte, Um Nome na História e Os Astros. Têm bobagens, mas podem ser assistidos com interesse, pois realmente fornecem informações e idéias. Ao contrário do que sucede com a tal da Primeira Página, transmitida às 14h30m de segunda a sexta e reprisada às 23h30m que não passa de uma última linha. Apresentado por Teresa Fernandes, que já foi do Aqui e Agora e nunca parece ter lido qualquer jornal, que discute os fatos do dia com funcionários da casa e alguns convidados. Debatem todo e qualquer assunto e sempre acham alguma coisa sobre eles. Perde é quem agüenta tanta sandice e lugar comum.

Bem melhor, por ser jornalístico apenas e não moralizante, é o programa de Ferreira Neto na TVS. O simples fato de a estação ter um programa de entrevista já é uma noticia, pois sua linha é virtualmente contrária a qualquer tipo de reflexão. Mas permite que depois da meia-noite, sem horário certo, mas com patrocínio fixo de uma empresa fora do baú, aconteça então a exceção. Bem feita, bastante objetiva, com convidados importantes. O defeito maior é ser por demais paulistano nos assuntos.

Mas os cariocas tem que se conformar, porque a única estação aqui sediada, Rede Globo, continua com total horror a noticia e entrevistas. Tanto, que já decretou o falecimento do Globo Revista no final deste ano e seu jornalismo permanece preferindo matérias de ciência e tecnologia, não dão galho a qualquer outro assunto. De resto, faz mesmo humor repetitivo, musicais bonitinhos, tipo Fagner e Arca de Noé II, e uma TV Mulher surpreendentemente esvaziada com a afetada Marília Gabriela e Xênia Bier falando compulsivamente sobre si mesma.

No mais, faz novelas. Seu prato forte e razão maior de ter criado o hábito de audiência. Mantido até quando produz boi com abóbora. Agora está com dois. O Amor é Nosso, que nenhuma plástica e atores experientes conseguiram salvar, e Brilhante. Existe um tabu no ramo de que história que começa ruim no primeiro capítulo, não há casuísmo que resolva. Se Gilberto Braga não quebrá-lo, a estação está com mais um fracasso nas telas. O autor e Daniel Filho, diretor, quiseram dar urna de Hitchcock, mas até o momento não passaram de uma mistura de Janete Clair com Ivani Ribeiro. Mas sem a garra e a paixão das duas. Que não fariam urna trama tão confusa, monótona, artificial, distante do público e de qualquer realidade. Mas longe também da ficção enlouquecida, típica do gênero, de regras próprias e indestrutíveis. Então não é carne nem peixe. Querendo ser Douglas Sirk, como disse em entrevista ao boletim da estação, Braga se perdeu. Em lugar dos melodramas filmados por esse diretor do cinema americano, está exibindo um dramalhão mexicano da Pelmex que fica evidente e até engraçado mesmo nas externas em Londres, com legendas em português, ou no Salão Assirius entre tapes importados de ópera. Dentro dessa falsidade geral, Mo há interpretação que resista. Embora o elenco seja também de primeiro nível, até agora ninguém brilhou, pois todos se limitam a fazer caretas e esgares. Que o inegável talento de todos altere o quilate da obra na avaliação geral.

Apesar desses percalços, a estação cada vez mais investe e se especializa em novelas. Pela primeira vez desde sua ascensão em 1968, sua pesquisada estratégia causa dúvidas, pois em tempos de diálogos permanece pesadamente monocórdia. Mas bilíngüe, pois não satisfeita com os feitos nacionais, está anunciando para novembro a estréia da produção americana no gênero Dallas, de grande sucesso mundial, mas de reconhecido baixo nível em realização e história sensacionalista. Com seu advento, as séries brasileiras acabam e em 82 volta a novela das 10. Informação tristinha, pois a tentativa foi boa, mas em seu terceiro ano de existência teve mais erros do que acertos. A maioria destes por conta do Bem Amado, que deverá entrar em novo horário no próximo ano, o que prova que um juramentado demagogista a tudo escapa. Seus companheiros, porém, vão fazer companhia a Edu, que viveu só 11 programas e não conseguiu amizade colorida com as senhoras paulistas e com seus autores que nunca souberam o que fazer dele. Para a mesma vala vai o Dr Rodrigo, que sobreviveu pouco mais, com eutanásia pronta pela incompetência da estação em tratar pobreza sem folclore. Devia tomar lições com Geraldo Vietri, José Duba e outros doutores em modéstia. E morre também o mais longevo Waldomiro Pena, que foi jornalista empregado, autônomo e agora deverá abrir restaurante em Botafogo ou comercializar produtos naturais, já que plantão de policia é arriscado demais para emissora tão prudente.

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