Saturday, September 29, 2012

1984 - Hebe Maravilha

Folha de S. Paulo
Data de Publicação: 4/5/1984
Autor/Repórter: Lígia Sanches
HEBE, 40 ANOS NO AR SEM TEMER CAFONÁLIA
Acreditem se quiser. Hebe Camargo, 55 anos de idade, 40 de carreira, dois casamentos, um filho Marcelo, de 18 anos - abre seu programa desta noite (21h15, TV Bandeirantes), empertigada num longo e fofo vestido branco de cauda longa, arranjo de flores pequenas na cabeça, buquê nas mãos. Isso mesmo, vestida de noiva! "Gente... estou me sentindo diferente... Acho que é assim que as moças se sentem", diz ela. Parece brincadeira, e é. Hebe, curtindo até as últimas consequências suas invenções, cismou: que haveria de mais gozado senão ela mesma participar de um desfile (de noivas), organizado para homenagear o mês das próprias? Isto posto, embarcou na produção e, risada de orelha a orelha, entrou na loja sofisticada da avenida Rebouças, onde um pianinho suave costuma fortalecer o sonho das moçoilas que sobrevivem nesta cidade. Afirma Hebe: "Tô crente que vou casar, que estou virgem. Vou falar pro Lélio (seu marido) que agora eu quero, inclusive uma lua de mel."

Nenhuma novidade nesse comportamento. Ela é a chamada cafona, a mulher das muitas gafes, a empetecada que adora uma joinha no pescoço e nas orelhas e uns vestidos brilhosos. Feliz da vida, não contesta as críticas, no geral, mas faz questão de esclarecer: gosta de penduricalho, sim, e não é de hoje: ''Quer dizer, não precisa ser jóia de verdade. Olha, uma das coisas mais sérias de minha vida foi fazer uma promessa, quando meu pai adoeceu, que não usaria nada por um ano. Aí valia até bijuteria, porque a dificuldade seria maior. E ele sarou."

De Rosalinda a grevista - Faz um bom tempo que o público conhece esta figura. Há décadas, foi a "Moreninha do Samba", metade da dupla caipira Rosalinda e Florisbela (com a irmã, Stella): "Não sei se eu era Rosalinda ou a outra, porque anunciavam e a gente ia entrando, para cantar. Não sobrava tempo." Foi também vice-presidente da Associação dos Radialistas e, cantora já popular, encabeçou passeata por pagamentos em dia e melhores salários, pela categoria do rádio; "Nunca pedi nada pro governo, sempre batalhei as causas populares. Naquela ocasião paramos todas as emissoras, só faltava a Eldorado. Chegamos lá, falamos com Julinho Mesquita, ele resistia. Explicou que ali os pagamentos estavam em dia. Aí eu chorei (e descobri essa arma feminina), ele foi lá dentro, voltou e disse: decidimos ser solidários. Nossa, foi uma festa."

A cronologia de Hebe (Maria) Camargo é confusa, nem ela consegue montá-la. Tem envelopes cheios de fotografias sem data, álbuns recheados de recortes e textos. Mas, agitada e sem concentração, não consegue lembrar sequências. Sabe que passou por várias rádios (a Tupi foi a primeira, em 44) e todas as televisões, menos a Globo: "Não tenho padrão global. Imagine, nem consigo aceitar ponto eletrônico. Meu negócio é público, é ver o olho das pessoas; o brilho delas me alimenta, preciso disso. Então, só apareci na Globo entrevistada pela Marília Gabriela. E por isso também não aceitei uma proposta, na época dessa última volta à Bandeirantes (1982), mesmo com a garantia de um programa ao vivo".

Melhor ao vivo - Depois desse tempo todo de profissão, tem ao menos duas certezas: jamais foi tão infeliz como na época do "Hebe" gravado, na TV Record, em 1973. Aquela história de ficar presa um dia inteiro nos estúdios a deixava desesperada, literalmente. E depois, lembra, a produção era tão improvisada que, pelo menos metade dos "foras" divulgados pela imprensa não eram de sua autoria, e sim dos produtores. No mais, sabe que sua missão, enquanto apresentadora de um programa de variedades e entretenimento, é batalhar pela população, ir atrás de fatos curiosos e entrevistar "gente que, unida, luta e consegue o que quer". Por isso mesmo, anda entusiasmada com a fibra dos índios: "Eles conseguiram tirar o presidente da Funai. Disseram: nóis qué nossa terra, e fim. Olha, preciso trazer o Juruna, esse pessoal. O Juruna eu entrevistei quando ainda nem era deputado."

Dos índios, tira a receita para a solução, dos problemas nacionais: "Achei comovente a campanha pelas eleições diretas para a Presidência da República, mas acho que o povo ainda não sabe a força que tem, onde pode chegar. Acredito em diretas, brigo por elas, mas vejo que o poder tira do caminho as pedras que considera obstáculos. Para se conseguir mudar algo, só mesmo união, como mostraram os líderes indígenas."

Mexendo nos guardados, tira o recorte do início da década de 60, quando comprou a casa do Sumaré, financiada pela Caixa: "Eu comprei, paguei Cr$ 9.200,00 por mês e acabei. Agora as pessoas compram e não acaba... Eu sou burra mesmo, não consigo entender essa dívida que só aumenta." Daí sua tristeza em ver o brasileiro massacrado, sem ter um governo que se preocupe com ele, sem saídas imediatas. "Olha, eu sou um exemplo ótimo. Sempre trabalhei, fui chefe de família, e consegui fazer alguma coisa. Agora as pessoas batalham e ficam na mesma."

Cantando de boca cheia - Trata-se de uma mulher independente "por força da profissão", sem vícios. Nem fumar ela fuma, em respeito ao pai "que odiava mulher fumando". No mais, sabe que é, hoje, exatamente o que foi na infância, na juventude: "bem humorada, brejeira, cheia de vontade de viver para fora". E, entre risadas, lembra como começou a cantar, sem professor: "Na hora do café eu punha o bico do pão no café com leite; quando ficava encharcado, enfiava na boca, fechava, treinava: hum, hum... Mamãe dizia que era falta de modos."

Assim, contando com o talento e a vontade, meteu-se no rádio. Gravou pela Odeon um bom tempo, viajou o Brasil todo, e em 54, quando Roberto Corte Real adoeceu, foi substitui-lo na extinta TV Paulista em "Encontro Musical", ao lado de Rago e Mário Genari Filho: "Olhei para a luzinha vermelha e descobri como falar direto com as pessoas. Sugeri às pessoas que telefonassem para dar opinião, aí não parou mais." Nasceu ali a apresentadora que, estreou no ramo com "O Mundo é das Mulheres", ao lado de mais cinco entrevistadoras : "Cacilda Lanuza, Wilma Bentivegna, Yara Lins, Lourdes Rocha e outra que não recordo agora..."

Na base do improviso - Viriam o "Hebe" ou "Programa Hebe Camargo", nas tevês Record, Tupi, Bandeirantes, seguindo a mesma fórmula: entrevistas, cantores, algum debate, tudo calcado na simpatia da moça que deixou de cantar quando ouviu, "por acaso", Hilton Franco dizer num fone de ouvido, ao maestro, na antiga Tupi: "Vai ensinar essa mulher a cantar." Veio a insegurança, o medo, só encarado há pouco tempo, e já na Bandeirantes. Mas, não fossem tais investidas, estaria totalmente feliz com o meio televisivo. Afinal, nesses anos todos esteve ao lado de gente como Adhemar de Barros, Christiaan Barnard, Juscelino Kubitschek, Tenório Cavalcanti, Joan Crawford ("minha ídola"), Neil Armstrong, Eurípedes de Jesus Zerbini, mais uma penca de nomes famosos.

Além de memória e dos bons momentos, guardou os troféus. Doze Roquettes Pintos, três Troféus Imprensa, um Tupiniquim, um Helena Silveira. Hoje de meia idade, sente-se exatamente como antes - "no palco tenho 18 anos" e nem pensa em parar de trabalhar, embora não o faça por dinheiro: "As pessoas falam, mas jamais pedi salários astronômicos; para mim, é mais importante fazer." Parece convincente. Tanto que seu atual coordenador de produção e diretor, José Roberto Viegas Lobo, entrou "na dela", como o restante da equipe. Eles fazem o roteiro, escolhem os convidados, escrevem o que chamam de editorial... e deixam Hebe agir como quiser. Então que ela subverta a ordem das coisas e se divirta.

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