Saturday, September 29, 2012

1980 - Hebe

Folha de S. Paulo
28/9/1980
Autora: Vera Artaxo
AH, AS BONS TEMPOS...
Quando a televisão foi inaugurada, o Brasil tinha cinco aparelhos de tevê. Foi um tempo de histórias hilariantes, como conta, em entrevista à repórter Vera Artaxo, Hebe Camargo, uma artista há trinta anos no ar

Hebe Camargo começou na televisão antes mesmo que o veiculo existisse. Explico: ela era contratada da rádio Difusora e se apresentava como cantora em programas de auditório improvisado no prédio da rua 7 de Abril. Quando chegou a noticia de que Assis Chateaubriand ia fundar a televisão no Brasil, conta Hebe, "ninguém acreditava, parecia loucura, coisa do futuro, ninguém podia nem imaginar o que seria televisão".

Mas era verdade, a televisão estava vindo graças ao que Hebe chama de "espirito aventureiro" de Chateaubriand. A animação era tanta que o cast das antigas Associadas se reuniu numa animação nunca vista antes para inaugurar a televisão, em 1948. "Formamos uma caravana de artistas, entre eles estavam minha irmã Estela, Walter Forster, Lia de Aguiar, Sarita Campos, Dermeval Costa Lima. Uma caravana composta de muitos carros e caminhões com faixas saudando a primeira televisão da América Latina." Lá foram os artistas para o cais do porto de Santos. Iam inaugurar a televisão, estavam todos prontos, já se imaginando no vídeo.

Quando chegaram lá encontraram os caixotes de equipamento fechados no cais com o nome da TV Tupi. Hebe diz que ficou "tão alucinada com a televisão que apesar de não ser inauguração nenhuma, apesar da decepção, a televisão estava ali dentro dos caixotes e eu fiquei alisando a madeira, emocionada". Ela, literalmente, abraçou a televisão. Houve estouro de muitas champagnes, que eram despejadas nos tais caixotes. Conta-se que a euforia de Chateaubriand foi tanta que ele chegou a quebrar com força demais uma das garrafas no caixote. Conclusão: das quatro câmeras, ficaram apenas três. Além disso, os caixotes ficaram retidos durante quatro meses na alfandega, não se sabe se por problemas burocráticos ou falta de verba para pagamento do frete...

TELEVISÃO SÓ NA PRAÇA DA REPUBLICA

Na verdade, a televisão brasileira foi inaugurada quase três anos depois desse episodio. Como só existiam no pais cinco aparelhos de televisão que eram para uso próprio — a televisão precisava deles como monitores — Chateaubriand mandou buscar 50 aparelhos que vieram de avião dos Estados Unidos e os distribuiu em pontos, estratégicos da cidade, como na Praça da República. Se não fosse isso, ninguém ia saber que a televisão brasileira tinha sido inaugurada com um show da Grande Orquestra Tupi e frei José Mojica. Ou ninguém ia acreditar quando lesse a noticia nos jornais da empresa.

Hebe não participou dessa festa. "Eu ia cantar o hino com letra de Guilherme de Almeida, mas fiquei doente e a Lolita Rodrigues me substituiu. Ela sabe aquela letra até hoje", conta Hebe, que não teve nem oportunidade de ver a inauguração, já que não tinha televisão. Quando começaram os testes para formação do elenco de artistas da tevê, os primeiros foram os sucessos do rádio. Sarita Campos, da cúpula, dizia a Hebe: "Minha filha, você não dá pra coisa, desista porque sai horrenda no vídeo." De fato, ela foi barrada no teste: "Minhas sobrancelhas muito grossas e escuras pareciam um borrão, tentaram até passar um pó para ver se melhorava. mas não deu. Sai convencida que minha imagem não era para a televisão." Assim, Hebe acabou não pertencendo à TV Tupi. Aliás, ficou um ano lá, já na década de 70: "Foi a pior coisa que fiz, ter ido pra Tupi."

O programa na Tupi não deu certo, mas como artista da rádio Tupi fez o primeiro filme para televisão antes mesmo de ela ser inaugurada. O filme era apenas um teste, onde ela cantava com Ivon Curi. Em 1952, Hebe passou para a rádio Excelsior e logo depois Victor Costa inaugurava a TV Paulista Canal 5. Lá ela cantava no "Encontro Musical Manon", apresentado por Roberto Corte Real, mas eram apenas participações esporádicas. No entanto, serviram para a estréia de Hebe na tevê:

— Como sempre na televisão alguém tem que entrar substituindo outras pessoas e como eu sempre dizia uma palavrinha no fim da canção, já tinha mania de falar, eu apresentei o programa quando o Roberto ficou doente e deu certo. Quando ele sarou passou o programa para as minhas mãos e tive assim o primeiro musical a meu comando. Fiquei lá até 64, quando larguei a televisão para casar".

Nesses anos todos na OVC, Hebe chegou a ter cinco programas semanais durante um período: fazia três em São Paulo e dois em outros Estados, como aconteceu em Porto Alegre, Belo Horizonte, Recife. Por isso, Hebe diz que "não acredita que a imagem se desgasta, porque quando o público gosta, ele quer ver seu ídolo até diariamente".

COM A MÃO NA MASSA

Um dos programas que fazia em São Paulo era "um comercial do começo ao fim". Chamava-se "Maiôs à Beira-Mar" e era realizado no estúdio da rua das Palmeiras, que tinha uma piscina onde as manequins desfilavam e Hebe cantava e apresentava convidados, mas ainda não fazia entrevistas. O outro era um show-sorteio, "Com a Mão na Massa", no auditório da rua Sebastião Pereira. Aos domingos, Hebe apresentava "Calouros Toddy" herança de Ari Barroso, que não podia mais ficar vindo do Rio para fazer o programa.

O sucesso foi tanto que logo inventaram outra coisa para Hebe. E como ela nunca deixou de fazer seus comentários, foi lançada como entrevistadora. Nasceu "O Mundo é das Mulheres" sucesso de 55 a 64, a maior audiência registrada na época. Tanto que semanalmente ela passou a fazer um programa idêntico na TV Continental do Rio:

"Eu acho muita graça quando se fala hoje de fazer programa de mulheres, porque nós crivávamos o convidado, sempre homem, de perguntas, e ele acabava reconhecendo que o mundo é das mulheres, diz Hebe, orgulhosa do programa que comandava, dividindo as entrevistas com Branca Ribeiro, Wilma Bentivegna, "a que fazia as perguntas mais ardidinhas", Cacilda Lanuza e Yara Lins.

E tudo que se fazia na Victor Costa, Hebe estava incluída. Os trágicos teleteatros, onde a Hebe entrava., viravam cômicos. Hebe se lembra de um papel que viveu como odalisca, apaixonadíssima por um cheique. Ela tinha que jogar uma maçã na piscina da TV Paulista e chorar no ombro do cheique, mas a maçã era de plástico e bolava: "Eu não conseguia parar de rir, o Osni Silva fazendo o cheique me pedia pelo amor de Deus para parar de rir, mas eu não conseguia". E tudo isso no ar, direto.

Mesmo grávida Hebe voltou ao rádio só que ao invés de ficar no estúdio da Excelsior, passou a fazer seu programa em casa como aconteceria depois na Jovem Pan e hoje na Rádio Mulher. E em cima do sucesso do programa de rádio, participou do Corte Rayol Show apresentando seu filho Marcelo, bebezinho, ao público. Acabou voltando à televisão em 66, desta vez na Record, onde manteve cinco anos de sucesso e acabou saindo em 73 porque o cast da Record foi acabando em virtude dos incêndios e dificuldades da emissora e, como diz Hebe, "uma só andorinha não faz verão".

Na Record, além dos shows do Roquete Pinto, Hebe participava dos espetáculos mensais, os shows do dia 7. Aí, ela foi Julieta. com Ronald Golias como Romeu e Nair Belo como camareira, mas já era intencionalmente comédia. "A Dama das Camélias" foi antológico. Já imaginaram Hebe como Cleópatra? Dessa época, muita gente se lembra da cena do balcão de Romeu e Julieta: as tranças dela caiam lá embaixo e ela ria sem parar enquanto Romeu-Golias fazia declarações de amor. O auditório gargalhava com ela, parece que nunca se viu risada tão unânime.

Em festivais Hebe não teve a mesma sorte. Num deles foi vaiada do começo ao fim, mas conseguiu cantar sem sair do tom. Só que furou o manto da Nossa Senhora da Aparecida que segurava na mão direita e fez suco da rosa que segurava na mão esquerda: "Foi um teste para mim mesma, consegui ir até o fim debaixo da maior vaia. Foi uma derrota como intérprete mas uma vitória pessoal, por ter conseguido cantar e pela manifestação dos amigos depois."

Até então Hebe sempre tinha sido muito bem recebida, e aí já existiam as redes, foi um acontecimento de repercussão nacional. Ela nunca mais participou de festival e agora alega sempre uma rouquidão quando lhe pedem para cantar... Hoje, em seu programa dominical na TV Bandeirantes, ela ensaia uns acordes, mas como a apresentadora cantando sem compromissos. De qualquer maneira, Hebe foi buscar o primeiro equipamento da TV brasileira e está comemorando os 30 anos em plena atividade. Teve muitos problemas nesse programa, mas garante que "apesar de todos os contratempos, mal-entendidos, desencontros, não me arrependo de ter voltado à televisão".

Hebe adora lembrar as histórias da tevê antes do vídeo-tape, como o Hit Parade: ela ficava sobre o braço da agulha de uma vitrola. Um disco gigante girava enquanto os bailarinos dançavam ao som da orquestra. Hebe ria tanto com o medo dos bailarinos serem atingidos pelo braço do toca-disco se não pulassem que o diretor de tevê tirava o som do ar e, tirando a risada, tirava também o som da orquestra...

Antológica também é a história da atriz Maria Fernanda vivendo Joana D'Arc. Ela ficaria bem atrás da fogueira, mas a câmara de frente daria a idéia de que estava dentro do fogo. Muito bem, foi tudo montado, a fogueira crepitaria para Joana D'Arc. Mas com o vento a fogueira não pegava, cortaram para o comercial. Mas o pessoal do comercial estava batendo papo esperando a vez. Saíram correndo e saíram os maiores disparates também no intervalo. A fogueira começou a pegar, cortaram rápido o comercial, mas o fogo murchou. Comercial de novo, correria de novo. O que se conta é que na quarta vez o apresentador explicou aos telespectadores que "em virtude do mau tempo...". Outra versão diz que o "carrasco" não teve dúvida: no ar, mandou enforcar Joana D'Arc.

Além disso, técnicos antigos dizem que "os eventos paralelos também eram engracadíssimos". O aparecimento do comercial, por exemplo, trouxe histórias hilariantes "porque pegavam moças muito bonitas mas de miolos ocos. Havia grandes, como Branca Ribeiro, Idalina de Oliveira, Clarice Amaral. Mas a maioria fazia gestos que não tinham nada a ver com a fala e os assopros que se ouvia no estúdio... alumínio anodizado saia alumiado e dai por diante... "

Hebe Camargo é uma das poucas personagens, entre os pioneiros, que ainda estão no vídeo com sucesso. Foi muitas vezes massacrada pela critica, pela intelectualidade. Uma dessas vezes foi há uns cinco anos atrás, logo depois do seu fracasso na Tupi. Uma agência de publicidade publicou um anúncio com as fotos distorcidas de Hebe com Flávio Cavalcanti, Sílvio Santos e Chacrinha sob uma legenda que dizia que "a televisão não foi feita para isso". Os outros três estavam atuando com sucesso, mas Hebe não. Márcia de Windsor não teve dúvidas: usou um espaço livre como jurada do programa do Flávio e fez uma analogia com a fábula do La Fontaineo general, "A Cigarra e a Formiga", defendendo a colega, hoje grande amiga, lembrando que os invernos existem mas depois deles vem o verão e, com ele, as cigarras novamente alegrando a vida. No final de seu discurso, Márcia lembrou o general Montgomery desembarcando na praia da Normandia e seu diálogo com o soldado que enaltecia o feito da chegada mas observava que o general já não podia fazer mais nada. Ele respondeu: "Os heróis são os que fazem o que podem; os outros não fazem nada."


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