Saturday, September 29, 2012

1987 - Ulysses versus Hebe

 O Estado de S. Paulo
19/2/1987
ULYSSES PEDE INQUERITO CONTRA HEBE
O 2º vice-presidente da Constituinte, Paulo Mincarone, oficiou ontem ao ministro das Comunicações, Antônio Carlos Magalhães, denunciando que os constituintes foram vitimas de "insultos, doestos e injúrias" no programa Hebe Camargo, da TVS, levado ao ar na noite de anteontem. Os insultos, conforme `disse o presidente da Constituinte, Ulysses Guimarães, ao abrir a sessão do plenário, "mais do que os constituintes, atingiram a própria instituição".

Ulysses Guimarães deu conhecimento ao plenário das providências preliminares que tomou em face dos acontecimentos e foi muito aplaudido pelos constituintes. O presidente da Assembléia Nacional Constituinte conversou, por telefone, com o ministro Antônio Carlos Magalhães, a quem requisitou a fita do programa da TVS. Depois determinou que ela fosse copiada e mandou abrir inquérito.

O pedido de abertura de inquérito foi feito com base nos artigos 52 e 53 do Código Brasileiro de Telecomunicações, que prevêem que a liberdade de expressão do rádio e da televisão não exclui a responsabilidade criminal. O inciso "I" do artigo 53 diz que "caluniar, injuriar ou difamar os Poderes Legislativo, Executivo ou Judiciário ou os seus respectivos membros são crimes puníveis por lei". Se provado o crime, as punições previstas nesse caso são as seguintes: advertência ou multa, aplicadas pelo Dentel, ou suspensão de um a trinta dias, aplicada pelo próprio ministro das Comunicações.

O jornalista Carlos Henrique de Almeida Santos, representante do Sistema Brasileiro de Televisão em Brasília, entregou ofício ao deputado Ulysses Guimarães, no qual informa que a "direção do SBT já diligenciou no sentido de não se repetirem situações como a que é objeto da justa repulsa do Congresso Nacional neste momento".

DENTEL REQUISITA A GRAVAÇÃO - O superintendente do Sistema Brasileiro de Televisão - emissora que transmite ao vivo o programa Hebe Camargo - , Luciano Calegari, confirmou ter recebido ontem de manhã carta do responsável pelo Dentel em São Paulo, Marcelo Aparecido Coutinho da Silva, pedindo a gravação do programa de terça-feira. Enquanto providenciava a cópia - à qual a imprensa não teve acesso -, Calegari encaminhou dois cassetes de vídeo para o Ministério das Comunicações, para provar que "não houve ofensa grave em hipótese alguma, nada que justifique a apreensão".

A própria apresentadora Hebe Camargo ficou surpresa ontem com a informação de que poderia ser processada pelo presidente da Constituinte, Ulysses Guimarães, pelas "ofensas" contra deputados e senadores feitas no programa de sua responsabilidade. O único momento em que surgiram criticas ao governo, pelo que lembrou Hebe, foi durante um debate entre várias pessoas sobre o sistema previdenciário. Uma delas, o jornalista Giba Um, pelo que se lembra, disse ter apenas repetido o que escreve em sua coluna no jornal Folha da Tardo - segundo ele, em defesa de aposentados e pensionistas do INPS. Giba Um lembra-se também de ter falado da intenção dos deputados da legislatura passada de aumentar seus vencimentos, usando estes termos: "E essa corja ainda teve o desplante de arranjar 25% a mais em seus vencimentos para garantir a aposentadoria".

Para o jornalista, a expressão é natural, "se existe o direito ao livre pensamento no Pais; caso contrário temos de volta a censura". Giba Um considera-se respaldado pela Constituição para considerar "a maioria dos parlamentares que encerrou o mandato desprezíveis" e dar-lhes "a nota que quiser".


1987 - Hebe X Políticos

Folha de S. Paulo
Data de Publicação: 19/2/1987
CONSTITUINTE PODE PROCESSAR HEBE CAMARGO E GIBA UM
A Mesa diretora do Congresso constituinte poderá processar a apresentadora Hebe Camargo e o colunista social da Folha da Tarde, Giba Um (Gilberto di Pierro), sob acusação de ofenderem os constituintes durante o programa "Hebe e Você'', do Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), levado ao ar na noite da última terça-feira.

Os constituintes teriam sido chamados de "corja de safados" "ladrões" e "vagabundos", segundo os depoimentos que chegaram ao presidente do Congresso constituinte, Ulysses Guimarães. Ontem mesmo, o ministro das Comunicações, Antônio Carlos Magalhães, determinou ao Departamento Nacional de Telecomunicações (Dentel) que requisite o teipe do programa de Hebe Camargo, respondendo a ofício que recebeu do segundo secretário da Mesa da Câmara, Paulo Mincaroni. Segundo Ulysses Guimarães, a fita deverá ser encaminhada à Procuradoria Geral da República "para as punições cabíveis", já que "o Poder Constituinte se considera ofendido".

"Nota zero" - Procurada ontem pela Folha até às 20h15, Hebe Camargo não foi localizada em sua casa. Um empregado da apresentadora, que se identificou como Paulo, disse que ela havia saído para jantar fora e não poderia localizá-la. Giba Um afirmou que sua interferência no programa dizia respeito não ao Congresso Nacional, mas aos deputados federais não-reeleitos. Segundo ele, a crítica referiu-se ao aumento de 25% sobre a aposentadoria conquistada por esses parlamentares antes de deixarem o cargo. "No Aurélio (Novo Dicionário da Língua Portuguesa), corja é um bando de pessoas desprezíveis, indignas de nota. E a Constituição me permite avaliar e dar a nota que eu bem entenda", disse Giba Um, referindo-se aos deputados que, não-reeleitos, receberam, segundo ele, "nota zero".

1986 - Hebe na Surdina

Jornal do Brasil
2/2/1986
DESAPARECIMENTO
A apresentadora Hebe Camargo combinou com a TV Bandeirantes a realização de um novo programa aos domingos - anunciado em todos os meios de difusão - mas, por baixo do pano, acertava sua ida para a TV Sílvio Santos.

Hebe tinha planejado anunciar sua partida, de surpresa, no programa da Bandeirantes que faria na noite de sexta-feira. No encerramento do programa, em vez de anunciar um novo horário aos domingos, na mesma emissora, ela avisaria ao público que está trocando de camisa.

A direção da Bandeirantes soube da história por uma inconfidência que vazou da TVS e demitiu Hebe no camarim. O programa de sexta-feira não foi ao ar.

Em seu lugar entrou o filme O Desaparecimento de Aimée.

1984 - Hebe Maravilha

Folha de S. Paulo
Data de Publicação: 4/5/1984
Autor/Repórter: Lígia Sanches
HEBE, 40 ANOS NO AR SEM TEMER CAFONÁLIA
Acreditem se quiser. Hebe Camargo, 55 anos de idade, 40 de carreira, dois casamentos, um filho Marcelo, de 18 anos - abre seu programa desta noite (21h15, TV Bandeirantes), empertigada num longo e fofo vestido branco de cauda longa, arranjo de flores pequenas na cabeça, buquê nas mãos. Isso mesmo, vestida de noiva! "Gente... estou me sentindo diferente... Acho que é assim que as moças se sentem", diz ela. Parece brincadeira, e é. Hebe, curtindo até as últimas consequências suas invenções, cismou: que haveria de mais gozado senão ela mesma participar de um desfile (de noivas), organizado para homenagear o mês das próprias? Isto posto, embarcou na produção e, risada de orelha a orelha, entrou na loja sofisticada da avenida Rebouças, onde um pianinho suave costuma fortalecer o sonho das moçoilas que sobrevivem nesta cidade. Afirma Hebe: "Tô crente que vou casar, que estou virgem. Vou falar pro Lélio (seu marido) que agora eu quero, inclusive uma lua de mel."

Nenhuma novidade nesse comportamento. Ela é a chamada cafona, a mulher das muitas gafes, a empetecada que adora uma joinha no pescoço e nas orelhas e uns vestidos brilhosos. Feliz da vida, não contesta as críticas, no geral, mas faz questão de esclarecer: gosta de penduricalho, sim, e não é de hoje: ''Quer dizer, não precisa ser jóia de verdade. Olha, uma das coisas mais sérias de minha vida foi fazer uma promessa, quando meu pai adoeceu, que não usaria nada por um ano. Aí valia até bijuteria, porque a dificuldade seria maior. E ele sarou."

De Rosalinda a grevista - Faz um bom tempo que o público conhece esta figura. Há décadas, foi a "Moreninha do Samba", metade da dupla caipira Rosalinda e Florisbela (com a irmã, Stella): "Não sei se eu era Rosalinda ou a outra, porque anunciavam e a gente ia entrando, para cantar. Não sobrava tempo." Foi também vice-presidente da Associação dos Radialistas e, cantora já popular, encabeçou passeata por pagamentos em dia e melhores salários, pela categoria do rádio; "Nunca pedi nada pro governo, sempre batalhei as causas populares. Naquela ocasião paramos todas as emissoras, só faltava a Eldorado. Chegamos lá, falamos com Julinho Mesquita, ele resistia. Explicou que ali os pagamentos estavam em dia. Aí eu chorei (e descobri essa arma feminina), ele foi lá dentro, voltou e disse: decidimos ser solidários. Nossa, foi uma festa."

A cronologia de Hebe (Maria) Camargo é confusa, nem ela consegue montá-la. Tem envelopes cheios de fotografias sem data, álbuns recheados de recortes e textos. Mas, agitada e sem concentração, não consegue lembrar sequências. Sabe que passou por várias rádios (a Tupi foi a primeira, em 44) e todas as televisões, menos a Globo: "Não tenho padrão global. Imagine, nem consigo aceitar ponto eletrônico. Meu negócio é público, é ver o olho das pessoas; o brilho delas me alimenta, preciso disso. Então, só apareci na Globo entrevistada pela Marília Gabriela. E por isso também não aceitei uma proposta, na época dessa última volta à Bandeirantes (1982), mesmo com a garantia de um programa ao vivo".

Melhor ao vivo - Depois desse tempo todo de profissão, tem ao menos duas certezas: jamais foi tão infeliz como na época do "Hebe" gravado, na TV Record, em 1973. Aquela história de ficar presa um dia inteiro nos estúdios a deixava desesperada, literalmente. E depois, lembra, a produção era tão improvisada que, pelo menos metade dos "foras" divulgados pela imprensa não eram de sua autoria, e sim dos produtores. No mais, sabe que sua missão, enquanto apresentadora de um programa de variedades e entretenimento, é batalhar pela população, ir atrás de fatos curiosos e entrevistar "gente que, unida, luta e consegue o que quer". Por isso mesmo, anda entusiasmada com a fibra dos índios: "Eles conseguiram tirar o presidente da Funai. Disseram: nóis qué nossa terra, e fim. Olha, preciso trazer o Juruna, esse pessoal. O Juruna eu entrevistei quando ainda nem era deputado."

Dos índios, tira a receita para a solução, dos problemas nacionais: "Achei comovente a campanha pelas eleições diretas para a Presidência da República, mas acho que o povo ainda não sabe a força que tem, onde pode chegar. Acredito em diretas, brigo por elas, mas vejo que o poder tira do caminho as pedras que considera obstáculos. Para se conseguir mudar algo, só mesmo união, como mostraram os líderes indígenas."

Mexendo nos guardados, tira o recorte do início da década de 60, quando comprou a casa do Sumaré, financiada pela Caixa: "Eu comprei, paguei Cr$ 9.200,00 por mês e acabei. Agora as pessoas compram e não acaba... Eu sou burra mesmo, não consigo entender essa dívida que só aumenta." Daí sua tristeza em ver o brasileiro massacrado, sem ter um governo que se preocupe com ele, sem saídas imediatas. "Olha, eu sou um exemplo ótimo. Sempre trabalhei, fui chefe de família, e consegui fazer alguma coisa. Agora as pessoas batalham e ficam na mesma."

Cantando de boca cheia - Trata-se de uma mulher independente "por força da profissão", sem vícios. Nem fumar ela fuma, em respeito ao pai "que odiava mulher fumando". No mais, sabe que é, hoje, exatamente o que foi na infância, na juventude: "bem humorada, brejeira, cheia de vontade de viver para fora". E, entre risadas, lembra como começou a cantar, sem professor: "Na hora do café eu punha o bico do pão no café com leite; quando ficava encharcado, enfiava na boca, fechava, treinava: hum, hum... Mamãe dizia que era falta de modos."

Assim, contando com o talento e a vontade, meteu-se no rádio. Gravou pela Odeon um bom tempo, viajou o Brasil todo, e em 54, quando Roberto Corte Real adoeceu, foi substitui-lo na extinta TV Paulista em "Encontro Musical", ao lado de Rago e Mário Genari Filho: "Olhei para a luzinha vermelha e descobri como falar direto com as pessoas. Sugeri às pessoas que telefonassem para dar opinião, aí não parou mais." Nasceu ali a apresentadora que, estreou no ramo com "O Mundo é das Mulheres", ao lado de mais cinco entrevistadoras : "Cacilda Lanuza, Wilma Bentivegna, Yara Lins, Lourdes Rocha e outra que não recordo agora..."

Na base do improviso - Viriam o "Hebe" ou "Programa Hebe Camargo", nas tevês Record, Tupi, Bandeirantes, seguindo a mesma fórmula: entrevistas, cantores, algum debate, tudo calcado na simpatia da moça que deixou de cantar quando ouviu, "por acaso", Hilton Franco dizer num fone de ouvido, ao maestro, na antiga Tupi: "Vai ensinar essa mulher a cantar." Veio a insegurança, o medo, só encarado há pouco tempo, e já na Bandeirantes. Mas, não fossem tais investidas, estaria totalmente feliz com o meio televisivo. Afinal, nesses anos todos esteve ao lado de gente como Adhemar de Barros, Christiaan Barnard, Juscelino Kubitschek, Tenório Cavalcanti, Joan Crawford ("minha ídola"), Neil Armstrong, Eurípedes de Jesus Zerbini, mais uma penca de nomes famosos.

Além de memória e dos bons momentos, guardou os troféus. Doze Roquettes Pintos, três Troféus Imprensa, um Tupiniquim, um Helena Silveira. Hoje de meia idade, sente-se exatamente como antes - "no palco tenho 18 anos" e nem pensa em parar de trabalhar, embora não o faça por dinheiro: "As pessoas falam, mas jamais pedi salários astronômicos; para mim, é mais importante fazer." Parece convincente. Tanto que seu atual coordenador de produção e diretor, José Roberto Viegas Lobo, entrou "na dela", como o restante da equipe. Eles fazem o roteiro, escolhem os convidados, escrevem o que chamam de editorial... e deixam Hebe agir como quiser. Então que ela subverta a ordem das coisas e se divirta.

1982 - Hebe e o FMI

Jornal do Brasil
5/12/1982
Autora: Maria Helena Dutra
HEBE E A NOVELA PROIBIDA AO FMI
Complicou. Hebe Camargo é uma tradição e pessoa das mais importantes da televisão brasileira. Iniciou carreira como cantora, fez seu nome no rádio paulista e chegou ao prestígio nacional na televisão. Com O Mundo É das Mulheres, na periclitante TV Continental do Rio de Janeiro, e depois com seu famoso programa semanal de entrevistas na TV Record. Sucesso total, chegou a ser motivo de pretensioso livro sociológico, grande audiência e auditórios repletos. Muitos não gostavam de seu jeito de só perguntar o supérfluo e demonstrar quase total desconhecimento sobre a obra e o trabalho do entrevistado. Restrições que poderiam ser justas na época, mas que não afetaram um estilo afinal precursor da maioria dos trabalhos similares da televisão de hoje.

Com o esvaziamento da Record, resistiu até quando agüentou, foi parar na Tupi com maltratada produção. Realizou depois pequena temporada na Bandeirantes, bem a seu estilo, e ali foi retirada de maneira muito descortês pelo então diretor-geral Walter Clark, para dar lugar a atração de prestígio. Que nunca apareceu. Agora retornou vitoriosa à mesma estação, no seu habitual horário domingueiro. Mas quis, ou sua produção achou, que tinha que voltar renovada e moderninha. Deu-se mal. De bom mesmo na estréia só teve a entrevista com Clodovil, bem ao seu jeito, e um quadro musical coordenado por Ronnie Von, que neste setor tem feito bons trabalhos. Mas o resto, desculpem o termo mas não tem sinônimo, foi totalmente hilário. Hebe resolveu entrar no palco cantando e dançando tal e qual Liza Minelli. Adivinhem os resultados. A Missão Márcia de Windsor tem boas intenções, mas não é este o caminho da caridade. A falecida atriz realmente muito ajudou o leprosário de Itaboraí, só que em silêncio e com eficiência. Agora a campanha foi lançada bem naquele estilo sensacionalista que há muito em televisão perdeu a credibilidade. Além disso, os contatos entre os diversos estúdios da Bandeirantes em algumas Capitais brasileiras eram feitos através de telefone. Brincadeira, já que a própria estação passou um mês fazendo total propaganda de sua ligação nacional e simultânea por satélite.

Que podia ter sido desligado durante a cena cômica do programa. Pois assim pouparia lágrimas dos espectadores diante de tanta indigência em humor e precariedade de realização. Outra bobagem foi Hebe doar plaquinhas para um bando de ausentes, incluindo no pacote o Presidente da República e Sílvio Santos, seu patrão proprietário da estação. O que poderia ser simples, amenas entrevistas repletas de risos e exclamações sobre as gracinhas gerais, acabou ficando apenas penoso.


1982 - Hebe Camargo Via Satélite

Jornal do Brasil
31/10/1982
Autora: Débora Chaves
A LOURA TRAZ DE VOLTA O ETERNO SORRISO
Louríssima - embora as raízes escuras de seu cabelo a traiam periodicamente - Hebe Camargo, 54 anos e 38 de profissão, volta à televisão com suas lágrimas e seu sorriso aberto, depois de dois anos afastada dos vídeos. E a própria TV Bandeirantes que a acolhe de volta - exatamente na data de aniversário de sua sumária demissão pelo então diretor-geral Walter Clark - com um programa semanal, ao vivo, de duas horas, aos domingos. E o Hebe, Satélite Brasileiro, que estréia no dia 21, às 20h.

Mais magra e de cara nova pela plástica recente, Hebe volta com um pro- grama literalmente igual ao que saiu do ar, a não ser por um quadro chamado Missão Márcia de Windsor que ela prefere manter em segredo, mas garante ser temporário, "como quem paga um compromisso espiritual".

Eu acho que em televisão ninguém inventa nada, tudo se copia e agora eu mesma estou me copiando, com um quadro de mulheres bem no estilo do meu O Mundo é das Mulheres, criado em 1953. No resto, quero aumentar o ritmo, com entrevistas mais curtas, e comentar os fatos da semana.

Relembrando os tempos de comediante de Hebe - quando, ao lado de Golias, ela fazia minicomedinhas do tipo Romeu e Julieta e Cleópatra - Hebe, Satélite Brasileiro traz ainda outra faceta da apresentadora: seu lado de cantora.

Sou até um pouco frustrada por não poder voltar a cantar, mas o público pede tanto que, se eu conseguir consertar minha voz com a Madalena de Paulo, que curou a rouquidão da Elis Regina, eu canto - assegura.

Concorrendo diretamente com o público do Fantástico, da TV Globo, Hebe, Satélite Brasileiro, pretende exatamente isso: criar uma opção para o telespectador das noites de domingo.

O que eu quero é tentar tirar esse vício do público, que tem que deixar de ser preguiçoso. Levanta e troca de canal para ver o que está acontecendo! Quem sabe é melhor, né? A Globo é muito poderosa e já tem seu público cativo, mas, mesmo assim, vou tentar - garante.

Assediada pela TVS, Bandeirantes e Globo desde fevereiro, Hebe custou a se decidir, mas acabou optando pela já conhecida Bandeirantes porque lá existe mais liberdade para o apresentador.

Gosto de ficar à vontade e fugir um pouco do esquema do programa. Quando o Nilton Travesso, da Globo, veio me mostrar o projeto, um programa semanal nas tardes de sábado, além de eu não gostar do horário, fiquei com medo da Globo querer me cercear. Eu sou uma pessoa que vive de emoção. Se a entrevista me comove, eu abro a boca mesmo - afirma.

Mas eu vou poder rir? - perguntou Hebe a Travesso. Sem resposta positiva, a apresentadora preferiu ficar onde já é conhecida e respeitada. E para contra-atacar o programa global, que ela define como "um programa feito para os estrangeiros que moram no Brasil", Hebe vai fazer de seu Hebe, Satélite Brasileiro um programa bem tupiniquim.

Com a ajuda do satélite novo da Bandeirantes, quero aproximar meu programa dos outros Estados, com personalidades famosas de cada região e matérias de reportagem dos fatos mais importantes não só de São Paulo, como de todo o Brasil. Depois que o programa se firmar, pretendo inclusive fazê-lo de vez em quando em diferentes Estados, especialmente no Rio, onde existe uma conhecida antipatia pelas coisas feitas em São Paulo - explica.

Enquanto o programa não estréia, Hebe pensa nas roupas que usará para aparecer no vídeo. "Eu me preocupo muito com a maneira que eu vou entrar na casa das pessoas. Quando vejo um artista se apresentando de camiseta, tenho a impressão de que ele não tomou banho", diz.

Vaidosa - "adoro quando as pessoas vão no Carlucho, meu cabeleireiro, pedir para ele fazer um penteado igual ao meu" - Hebe recusa o rótulo de sofisticada, embora more numa mansão no Morumbi - com o marido, Zélio Ravagnini, bem-sucedido comerciante - ao lado da de Sílvio Santos, e goste de usar jóias em profusão.

- Gosto de estar bem penteada e bem vestida e tenho certeza de que a mulher que me assiste gosta de me ver assim. Mais do que nunca, é hora de voltar para trazer uma mensagem de otimismo. Meu público se projeta em mim justamente porque eu sou uma pessoa de origem humilde que venceu na vida. Eu posso falar porque já passei por momentos muito difíceis - conclui.


1980 - Hebe

Folha de S. Paulo
28/9/1980
Autora: Vera Artaxo
AH, AS BONS TEMPOS...
Quando a televisão foi inaugurada, o Brasil tinha cinco aparelhos de tevê. Foi um tempo de histórias hilariantes, como conta, em entrevista à repórter Vera Artaxo, Hebe Camargo, uma artista há trinta anos no ar

Hebe Camargo começou na televisão antes mesmo que o veiculo existisse. Explico: ela era contratada da rádio Difusora e se apresentava como cantora em programas de auditório improvisado no prédio da rua 7 de Abril. Quando chegou a noticia de que Assis Chateaubriand ia fundar a televisão no Brasil, conta Hebe, "ninguém acreditava, parecia loucura, coisa do futuro, ninguém podia nem imaginar o que seria televisão".

Mas era verdade, a televisão estava vindo graças ao que Hebe chama de "espirito aventureiro" de Chateaubriand. A animação era tanta que o cast das antigas Associadas se reuniu numa animação nunca vista antes para inaugurar a televisão, em 1948. "Formamos uma caravana de artistas, entre eles estavam minha irmã Estela, Walter Forster, Lia de Aguiar, Sarita Campos, Dermeval Costa Lima. Uma caravana composta de muitos carros e caminhões com faixas saudando a primeira televisão da América Latina." Lá foram os artistas para o cais do porto de Santos. Iam inaugurar a televisão, estavam todos prontos, já se imaginando no vídeo.

Quando chegaram lá encontraram os caixotes de equipamento fechados no cais com o nome da TV Tupi. Hebe diz que ficou "tão alucinada com a televisão que apesar de não ser inauguração nenhuma, apesar da decepção, a televisão estava ali dentro dos caixotes e eu fiquei alisando a madeira, emocionada". Ela, literalmente, abraçou a televisão. Houve estouro de muitas champagnes, que eram despejadas nos tais caixotes. Conta-se que a euforia de Chateaubriand foi tanta que ele chegou a quebrar com força demais uma das garrafas no caixote. Conclusão: das quatro câmeras, ficaram apenas três. Além disso, os caixotes ficaram retidos durante quatro meses na alfandega, não se sabe se por problemas burocráticos ou falta de verba para pagamento do frete...

TELEVISÃO SÓ NA PRAÇA DA REPUBLICA

Na verdade, a televisão brasileira foi inaugurada quase três anos depois desse episodio. Como só existiam no pais cinco aparelhos de televisão que eram para uso próprio — a televisão precisava deles como monitores — Chateaubriand mandou buscar 50 aparelhos que vieram de avião dos Estados Unidos e os distribuiu em pontos, estratégicos da cidade, como na Praça da República. Se não fosse isso, ninguém ia saber que a televisão brasileira tinha sido inaugurada com um show da Grande Orquestra Tupi e frei José Mojica. Ou ninguém ia acreditar quando lesse a noticia nos jornais da empresa.

Hebe não participou dessa festa. "Eu ia cantar o hino com letra de Guilherme de Almeida, mas fiquei doente e a Lolita Rodrigues me substituiu. Ela sabe aquela letra até hoje", conta Hebe, que não teve nem oportunidade de ver a inauguração, já que não tinha televisão. Quando começaram os testes para formação do elenco de artistas da tevê, os primeiros foram os sucessos do rádio. Sarita Campos, da cúpula, dizia a Hebe: "Minha filha, você não dá pra coisa, desista porque sai horrenda no vídeo." De fato, ela foi barrada no teste: "Minhas sobrancelhas muito grossas e escuras pareciam um borrão, tentaram até passar um pó para ver se melhorava. mas não deu. Sai convencida que minha imagem não era para a televisão." Assim, Hebe acabou não pertencendo à TV Tupi. Aliás, ficou um ano lá, já na década de 70: "Foi a pior coisa que fiz, ter ido pra Tupi."

O programa na Tupi não deu certo, mas como artista da rádio Tupi fez o primeiro filme para televisão antes mesmo de ela ser inaugurada. O filme era apenas um teste, onde ela cantava com Ivon Curi. Em 1952, Hebe passou para a rádio Excelsior e logo depois Victor Costa inaugurava a TV Paulista Canal 5. Lá ela cantava no "Encontro Musical Manon", apresentado por Roberto Corte Real, mas eram apenas participações esporádicas. No entanto, serviram para a estréia de Hebe na tevê:

— Como sempre na televisão alguém tem que entrar substituindo outras pessoas e como eu sempre dizia uma palavrinha no fim da canção, já tinha mania de falar, eu apresentei o programa quando o Roberto ficou doente e deu certo. Quando ele sarou passou o programa para as minhas mãos e tive assim o primeiro musical a meu comando. Fiquei lá até 64, quando larguei a televisão para casar".

Nesses anos todos na OVC, Hebe chegou a ter cinco programas semanais durante um período: fazia três em São Paulo e dois em outros Estados, como aconteceu em Porto Alegre, Belo Horizonte, Recife. Por isso, Hebe diz que "não acredita que a imagem se desgasta, porque quando o público gosta, ele quer ver seu ídolo até diariamente".

COM A MÃO NA MASSA

Um dos programas que fazia em São Paulo era "um comercial do começo ao fim". Chamava-se "Maiôs à Beira-Mar" e era realizado no estúdio da rua das Palmeiras, que tinha uma piscina onde as manequins desfilavam e Hebe cantava e apresentava convidados, mas ainda não fazia entrevistas. O outro era um show-sorteio, "Com a Mão na Massa", no auditório da rua Sebastião Pereira. Aos domingos, Hebe apresentava "Calouros Toddy" herança de Ari Barroso, que não podia mais ficar vindo do Rio para fazer o programa.

O sucesso foi tanto que logo inventaram outra coisa para Hebe. E como ela nunca deixou de fazer seus comentários, foi lançada como entrevistadora. Nasceu "O Mundo é das Mulheres" sucesso de 55 a 64, a maior audiência registrada na época. Tanto que semanalmente ela passou a fazer um programa idêntico na TV Continental do Rio:

"Eu acho muita graça quando se fala hoje de fazer programa de mulheres, porque nós crivávamos o convidado, sempre homem, de perguntas, e ele acabava reconhecendo que o mundo é das mulheres, diz Hebe, orgulhosa do programa que comandava, dividindo as entrevistas com Branca Ribeiro, Wilma Bentivegna, "a que fazia as perguntas mais ardidinhas", Cacilda Lanuza e Yara Lins.

E tudo que se fazia na Victor Costa, Hebe estava incluída. Os trágicos teleteatros, onde a Hebe entrava., viravam cômicos. Hebe se lembra de um papel que viveu como odalisca, apaixonadíssima por um cheique. Ela tinha que jogar uma maçã na piscina da TV Paulista e chorar no ombro do cheique, mas a maçã era de plástico e bolava: "Eu não conseguia parar de rir, o Osni Silva fazendo o cheique me pedia pelo amor de Deus para parar de rir, mas eu não conseguia". E tudo isso no ar, direto.

Mesmo grávida Hebe voltou ao rádio só que ao invés de ficar no estúdio da Excelsior, passou a fazer seu programa em casa como aconteceria depois na Jovem Pan e hoje na Rádio Mulher. E em cima do sucesso do programa de rádio, participou do Corte Rayol Show apresentando seu filho Marcelo, bebezinho, ao público. Acabou voltando à televisão em 66, desta vez na Record, onde manteve cinco anos de sucesso e acabou saindo em 73 porque o cast da Record foi acabando em virtude dos incêndios e dificuldades da emissora e, como diz Hebe, "uma só andorinha não faz verão".

Na Record, além dos shows do Roquete Pinto, Hebe participava dos espetáculos mensais, os shows do dia 7. Aí, ela foi Julieta. com Ronald Golias como Romeu e Nair Belo como camareira, mas já era intencionalmente comédia. "A Dama das Camélias" foi antológico. Já imaginaram Hebe como Cleópatra? Dessa época, muita gente se lembra da cena do balcão de Romeu e Julieta: as tranças dela caiam lá embaixo e ela ria sem parar enquanto Romeu-Golias fazia declarações de amor. O auditório gargalhava com ela, parece que nunca se viu risada tão unânime.

Em festivais Hebe não teve a mesma sorte. Num deles foi vaiada do começo ao fim, mas conseguiu cantar sem sair do tom. Só que furou o manto da Nossa Senhora da Aparecida que segurava na mão direita e fez suco da rosa que segurava na mão esquerda: "Foi um teste para mim mesma, consegui ir até o fim debaixo da maior vaia. Foi uma derrota como intérprete mas uma vitória pessoal, por ter conseguido cantar e pela manifestação dos amigos depois."

Até então Hebe sempre tinha sido muito bem recebida, e aí já existiam as redes, foi um acontecimento de repercussão nacional. Ela nunca mais participou de festival e agora alega sempre uma rouquidão quando lhe pedem para cantar... Hoje, em seu programa dominical na TV Bandeirantes, ela ensaia uns acordes, mas como a apresentadora cantando sem compromissos. De qualquer maneira, Hebe foi buscar o primeiro equipamento da TV brasileira e está comemorando os 30 anos em plena atividade. Teve muitos problemas nesse programa, mas garante que "apesar de todos os contratempos, mal-entendidos, desencontros, não me arrependo de ter voltado à televisão".

Hebe adora lembrar as histórias da tevê antes do vídeo-tape, como o Hit Parade: ela ficava sobre o braço da agulha de uma vitrola. Um disco gigante girava enquanto os bailarinos dançavam ao som da orquestra. Hebe ria tanto com o medo dos bailarinos serem atingidos pelo braço do toca-disco se não pulassem que o diretor de tevê tirava o som do ar e, tirando a risada, tirava também o som da orquestra...

Antológica também é a história da atriz Maria Fernanda vivendo Joana D'Arc. Ela ficaria bem atrás da fogueira, mas a câmara de frente daria a idéia de que estava dentro do fogo. Muito bem, foi tudo montado, a fogueira crepitaria para Joana D'Arc. Mas com o vento a fogueira não pegava, cortaram para o comercial. Mas o pessoal do comercial estava batendo papo esperando a vez. Saíram correndo e saíram os maiores disparates também no intervalo. A fogueira começou a pegar, cortaram rápido o comercial, mas o fogo murchou. Comercial de novo, correria de novo. O que se conta é que na quarta vez o apresentador explicou aos telespectadores que "em virtude do mau tempo...". Outra versão diz que o "carrasco" não teve dúvida: no ar, mandou enforcar Joana D'Arc.

Além disso, técnicos antigos dizem que "os eventos paralelos também eram engracadíssimos". O aparecimento do comercial, por exemplo, trouxe histórias hilariantes "porque pegavam moças muito bonitas mas de miolos ocos. Havia grandes, como Branca Ribeiro, Idalina de Oliveira, Clarice Amaral. Mas a maioria fazia gestos que não tinham nada a ver com a fala e os assopros que se ouvia no estúdio... alumínio anodizado saia alumiado e dai por diante... "

Hebe Camargo é uma das poucas personagens, entre os pioneiros, que ainda estão no vídeo com sucesso. Foi muitas vezes massacrada pela critica, pela intelectualidade. Uma dessas vezes foi há uns cinco anos atrás, logo depois do seu fracasso na Tupi. Uma agência de publicidade publicou um anúncio com as fotos distorcidas de Hebe com Flávio Cavalcanti, Sílvio Santos e Chacrinha sob uma legenda que dizia que "a televisão não foi feita para isso". Os outros três estavam atuando com sucesso, mas Hebe não. Márcia de Windsor não teve dúvidas: usou um espaço livre como jurada do programa do Flávio e fez uma analogia com a fábula do La Fontaineo general, "A Cigarra e a Formiga", defendendo a colega, hoje grande amiga, lembrando que os invernos existem mas depois deles vem o verão e, com ele, as cigarras novamente alegrando a vida. No final de seu discurso, Márcia lembrou o general Montgomery desembarcando na praia da Normandia e seu diálogo com o soldado que enaltecia o feito da chegada mas observava que o general já não podia fazer mais nada. Ele respondeu: "Os heróis são os que fazem o que podem; os outros não fazem nada."


1979 - A Volta de Hebe

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 2/11/1979
Autor/Repórter:
DONA HEBE ESTÁ DE VOLTA AO VÍDEO
SÃO Paulo - Depois de quatro anos ausente da televisão, Hebe Camargo volta com seu programa, domingo que vem, às 8 da noite, pela Bandeirantes. Segundo ela, não foi possível resistir à "pressão dos amigos, fãs e da própria emissora". Embora os críticos especializados se mostrem surpresos com a recente ressurreição de programas que já julgavam mortos e enterrados (Flávio Cavalcanti, O Homem do Sapato Branco e agora o de Hebe), ela diz que já era tempo de se dar calor humano à TV brasileira.

- Está tido muito robotizado, frio, gelado mesmo.

Em sua casa no bairro paulista do Morumbi - onde tem um estúdio do qual transmite seu programa diário na Rádio Mulher - Hebe fala de seu programa, mais uma tentativa da Bandeirantes no sentido de brigar com o Fantástico pela liderança de audiência nas noites de domingo.

- Meu programa será basicamente o mesmo que fiz, anos atrás, na Record e depois na Tupi. Acho que ainda há lugar para entrevistas na televisão.

Começando com Paulo Maluf, Governador de São Paulo, e Reinaldo de Barros e Israel Klabin, Prefeitos paulista e carioca, o programa tem em Hebe a sua estrela principal e nos entrevistados 08 artistas convidados. Foi essa a fórmula que deu certo, tempos atrás.

Hebe sente-se, realmente, uma vedete que volta ao cartaz. Jornais e revistas voltaram a bater à sua porta, pedindo-lhe entrevistas. Seus horários, outrora vagos, preenchidos apenas pela "dona-de-casa atenta aos seus afazeres domésticos", como ela própria definiu, ou pelo programa na Rádio Mulher, hoje estão tomados e ela vê-se agora cercada, novamente, por inúmeras perguntas. Na verdade nada mudou.

- Não estou vendo ninguém mais fazer perguntas na televisão. A TV parece ter ficado auto-suficiente, dando uma massa enorme de informações sem retrucar, sem inquirir. Por exemplo, o por que dessa situação de crise em que se encontra o mundo. Faltam reivindicações. Falta o calor humano.

Segundo Hebe Camargo, ela estava tranqüila, dentro de sua casa, com sua família, mas recebia constantemente cartas de pessoas pedindo-lhe para retornar ao vídeo. Chegou a fazer uma enquête na Rádio Mulher para saber se esse retorno seria viável e se seus admiradores queriam realmente sua volta.

- Sabe, na rádio, faço um programa cheio de fé humana e acaba sendo um consultório de problemas comuns a todos. Perguntam-me coisas que estão acima de minha capacidade, mas procuro sempre dar uma palavra de esperança.

Essa psicanálise ou psicodrama em grupo acontece diariamente na Rádio Mulher.

Independente de minha vontade, pois queria apenas oferecer palavras de paz, amor, esperança. Mas acabo dando conselhos sobre as próprias vidas dos ouvintes, que se transformam em consulentes. Quero fazer o mesmo na televisão, onde jamais deixei de atuar, apesar dessa ausência de quatro anos.

A sambista Beth Carvalho também deverá estar presente em seu primeiro programa. Hebe inveja-lhe a comunicabilidade, a naturalidade e a identidade que tem com o público. Para contrabalançar, o físico José Goldenberg vai tratar ao acordo Brasil - Alemanha e sobre a utilização da energia nuclear.

- Trarei de volta a Maria Teresa, que eu considero um Chico Anísio de saias. Ela irá fazer um dos seus tipos mais comoventes - Zé Galinha. E através dele iremos colocar o problema do menor abandonado, suas angústias e, quem sabe, soluções possíveis.

Maria Teresa é uma humorista que trabalhou durante muitos anos na Praça da Alegria, sempre no papel de mendiga, fumando charuto, passando rasteiras na policia e tentando dar golpes nos incautos.

Hebe afirma que ainda não entrevistará ninguém do grupo dos exilados recém-chegados ao pais, pelo menos não no primeiro programa. Aos poucos, conforme perceber seu público, poderá ir trazendo um a um, sempre com um sorriso nos lábios, sempre com o mesmo jeito - "que bonitinho, não é mesmo" - sua marca durante esses últimos 20 anos de atuação.


1970 - Hebe, a embaixatriz da TV

Jornal do Brasil
20/8/1970
Autor: Valério Andrade
IMAGENS PAULISTAS
Na televisão paulista, Sílvio Santos é o ídolo dominical e Hebe Camargo uma espécie de embaixatriz da classe média.

O telespectador paulista não só resiste à maratona santista como ainda consegue deixar-se seduzir pelo espertalhão Risadinha. Há anos vem carregando (na cuca) e mantendo (com $) aquele lendário Baú da Felicidade que transformou Sílvio em milionário.

Sílvio Santos é um fenômeno tipicamente paulista. Pois, entre outras coisas, virou ídolo sem ser jogador de futebol, cantor da jovem guarda ou artista de telenovela. Produto (ao que parece) de Vila Isabel, tirou curso completo de camelô pelas ruas do Rio, o que, naturalmente, serviu para exercitar-lhe resistência vocal que lhe permite falar (sem parar) mais de oito horas consecutivas.

Por alguma razão especial, o programa de Sílvio Santos não tem conseguido repetir no Rio os pontos que semanalmente o IBOPE lhe garante em São Paulo. Na seleção semanal dos campeões de audiência, e inclusive nas que a Globo lidera os 10 primeiros lugares, o programa de Sílvio permanece de fora, lá embaixo na gangorra da opinião pública.

Em relação ao fenômeno Sílvio Santos, como se vê, o carioca mostra-se esquivo e sem o comodismo do paulista. Quanto a Hebe Camargo, não se pode afirmar com precisão a aceitação do seu show doméstico pelo público carioca em termos de audiência. Pois, ao contrário de Sílvio, ela esbarra na limitação do canal 13, que, como se sabe. retransmite (com atraso) o seu programa.

Hebe Camargo faz o que há de mais quadrado em matéria de TV a começar, é claro, pelo cenário: E sala de visitas. Hebe é a dona da casa. Com charme pré-fabricado, recebe os convidados, rindo com tudo e para todos, compondo a imagem da senhora educada e artificialmente simpática. Esquecendo-se de que televisão deixou de ser local, e numa irritante preocupação em fazer média com a platéia, Hebe explora ao máximo o bairrismo e o provincianismo do auditório e dos espectadores.

A tônica do Hebe Camargo Show é essencialmente voltada para o conceito tradicional da classe média paulistona. Usa e abusa dos chavões de comunicação, que a mantêm no cargo de porta-voz das pessoas que vão ao auditório na esperança de receber flores da Hebe.

Há algum tempo, as flores de Hebe andaram murchando graças à impetuosidade e desinibição profissional de Cidinha Campos. A rivalidade entre as duas ficou célebre nos corredores da TV Recorde. E, na guerra do IBOPE, a então jovial repórter do Dia D conseguiu arrancar alguns pontos da maternal anfitrioa. Hoje a cantora Maísa resolveu entrar no jornalismo e Cidinha Campos quis fazer o programa mais pretensioso da TV paulista: Cidinha 70.

O novo Dia D, à la Maisa, merece um registro à parte, enquanto Cidinha 70 (após sua pomposa e frustrada estréia) deve ser revisto, com especial atenção.

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