Sunday, August 26, 2012

1988 - Léo Jaime e Clodovil

O Globo
Data de Publicação: 9/7/1988
Autor: Leo Jaime
O SHOW JÁ TERMINOU
Demitido da TV Manchete, Clodovil fala sobre os motivos que o desligaram da emissora e sai do ar

Entrevistar um amigo é uma coisa complicada por vários motivos. Primeiro porque sabemos quase tudo sobre ele, daí fica difícil escolher os temas e fica difícil, também, selecionar o que é da intimidade e o que pode ser revelado. E quase que um processo de censura. Eu reparei isso na medida em que fui me tornando amigo de um entrevistador, que hoje é meu entrevistado.

Das suas qualidades não é preciso falar. Todo mundo está careca de saber. Talvez só não saibam que ele, em breve, estará em cartaz com cantor. E para susto de muitos, não estará mais em cartaz em seu programa na TV Manchete, a partir de sexta-feira da semana que vem.

E aqui, com vocês: Clodovil Hernandez, "Clô" para os íntimos, e me'rmão para mim. Meus amigos, o babado hoje é dos grossos.

LEO - Da última vez que nos vimos, você estava empenhado em achar um apartamento e se mudar definitivamente para o Rio. Além disso estava por estrear um programa noturno, além de continuar com o vespertino "Clô, para os íntimos". Parece que o panorama mudou um pouco.

Clodovil - Isso é igual ao país em que vivemos. É igual ao tempo: ontem o dia estava lindo, hoje o céu está desabando. Claro que não foi por acaso, porque nada é por acaso. Se eu estou falando disso pra você, aqui e agora, é porque as coisas deveriam acontecer assim. Eu não queria acabar o meu programa. Também não tenho nenhuma queixa a fazer à empresa Manchete. Minhas queixas sempre foram feitas no ar, e isso nunca incomodou à direção da casa. Mas as coisas vinham caminhando para isso já há algum tempo.

LEO - O programa noturno, por que é que foi cancelado?

Clodovil - Tudo começou quando o Jaime Monjardim entrou para a direção artística da Manchete, com todo o seu talento, pra inovar, mudar a cara da Manchete. Tanto que, pra renovar, ele ressuscitou o programa do Miéle, que, aliás nunca deveria ter saído do ar, e também o "Sem limites", com o Luiz Armando Queiroz no lugar do J. Silvestre. No entanto, ele resolveu achar que eu sou demodé, e disse que queria fazer uma série de alterações no meu programa.

LEO - Que tipo de alterações?

Clodovil - E eu que sei? O problema é exatamente esse, há algum tempo que eu venho fazendo o papel de marido traído. Sou sempre o último a saber. Fui saber que teria um programa às noites de quarta-feira através de um amigo. Ninguém me consultou antes mesmo de divulgar o projeto. Depois, também à minha revelia, resolveram mudar o programa de dia e de proposta, mudando para domingo à noite, para concorrer com o "Fantástico". Eu seria o apresentador, e costuraria as notícias. Não topei fazer o programa. Preferia o projeto anterior, que, no entanto, foi descartado, por acharem que não tinham condições de fazer um programa tão luxuoso - isso é o que eles queriam para mim, frise bem, idéia deles e adiariam até o final do ano o projeto. Por mim o programa da tarde já estava ótimo, eu melhoraria algumas coisas, mas detalhes, e não pedi programa nenhum, embora assumindo o projeto, fosse lutar para fazer o melhor. Daí que depois de eu ter divulgado por toda parte que iria fazer o programa, resolveram adiar o projeto, ou cancelar que é o que está mais evidente agora, e eu só fui saber disso depois que a imprensa já tinha noticiado. A minha palavra fica em jogo, pois foi eu que, sem contrato, divulguei o programa. Mas lealdade é uma coisa meio fora de moda ultimamente, e eu chiei muito com isso.

LEO - Essas coisas todas aconteceram com a modificação na direção da TV. Esses projetos não eram da nova direção?

Clodovil - E, mas tem coisa no passado. Nos tempos do meu programa na Bandeirantes, sugeriram o Jaime Monjardim para dirigir o programa. Só que na época ele estava empenhado em vender um tape que ele mesmo tinha produzido sobre sua mãe, a Maysa. Eu achei aquilo de extremo mau gosto e rejeitei a idéia. Ainda bem que eu estou saindo da manchete agora, porque do jeito que eu ando somatizando com os problemas que venho tendo lá, ia acabar arrumando uma doença mortal, ia morrer lá e ele ainda ia fazer um tape meu pra vender por aí, que nem ele fez com a própria mãe. Cruz credo.

LEO - Seu programa tem como marca o improviso, o fato de você sair falando o que te dá na telha, inclusive tornando o programa num dos raros espaços da televisão para a espiritualidade, deve te dar um sentimento de perda muito grande. Como é que você está?

Clodovil - Depois de ter perdido minha mãe, qualquer outra perda é menor. Essa é uma das melhore coisas que a Manchete me proporcionou: poder desabafar esse meu processo extremamente doloroso no vídeo, dividindo com os espectadores minhas dores e dúvidas. Fiz do povo meu confessionário. E uma pessoa, em especial, me ajudou muito nesse processo - a Sônia Israel, que foi produtora do programa, e lutou para que eu tivesse espaço para discutir essas coisas no vídeo, com os espectadores.

LEO - A impressão que fica para quem te assiste, é que você trata o público como se fosse uni amigo muito íntimo.

Clodovil - Porque eu converso com eles. Quando faço uma pergunta, dou um tempo para que eles pensem na resposta. E a inclusão da espiritualidade com mais uma das coisas que me aproximava das pessoas, foi, como tudo que eu faço, uma coisa puramente intuitiva. Foi acontecendo naturalmente, na minha vida e no programa. O fato de perder esse contato com o público é uma coisa que me entristece muito, mas eu sei que para onde eu for poderei contar com eles, afinal já passei por outras emissoras, sempre com sucesso. Mas a gota d'água que provocou a minha saída da Manchete, foi o fato de estarem cortando a conclusão do programa. A tal da censura interna. Isso me feriu muito, pois eu sei que apesar de ser bem sucedido em outras áreas, eu vim aqui para essa terra com a função de falar pras pessoas, minha realização é essa. De todas as coisas que eu faço, a mais importante para mim era exatamente o papo no final do programa, onde eu poderia falar sobre qualquer coisa, desde contar piadas até falar sobre vida e morte. Talvez em outro lugar eu não possa fazer isso.

LEO - E quais são os próximos projetos?

Clodovil - Em televisão não penso em nada por agora, preciso dar um tempo pra assimilar tudo o que está acontecendo.

LEO - Mas vão chover convites, afinal, você é um dos maiores ibopes da manchete, e absoluto no seu horário. É que nem mulher bonita quando separa do marido. Fica assim de gavião.

Clodovil - E, mas eu só sei como é que eu vou ficar mesmo, depois que gravar o último programa, daqui a pouco. Há tempos que eu venho pensando em fazer um programa vespertino, ao vivo, aos domingos. Entre quatro e seis da tarde. Mas não acho que seja a hora de pensar nisso. Agora eu estou começando a preparar um show intimista, e quero viajar com ele. Você não quer dar apoio a uma criança desamparada e me ajudar a montar esse show?

LEO - Claro, me'rmão, o que é que você me pede chorando, que eu não faço sorrindo? Dá aí algumas dicas do repertório e do clima do show.

Clodovil - Eu quero fazer um show escancarado. Músicas muito românticas, tipo: Michel Legrand, Gershwin, Luís Melodia, Roberto Carlos, e até uma do Herbert e da Paula Toller, "Nada por mim". E vou mesclar isso com piadas, com um tipo de humor mais escancarado também, que é mais possível num show intimista.

LEO - Mas eu sei que você, além de ter uma voz bastante agradável, e ser muito afinado, tem um desejo antigo de cantar. Porque resolveu desencantar só agora?

Clodovil - O tesão já é antigo, mas só agora é que eu perdi o medo.

LEO - E a moda, a quantas anda?

Clodovil - Continua indo muito bem. As mesmas clientes e o mesmo sucesso.

LEO - E o lance de mudar para o Rio?

Clodovil - Não sei, será? Em Ubatuba eu sei que não vou continuar. Depende muito do lugar em que eu vá trabalhar. Agora eu sou free lancer, é só pagar o michê. Agora eu vou fazer porta de motel.

LEO - Esse já é o tipo de coisa que não caberia na boca de uma mulher que acabou de se separar do marido.

Clodovil - Eu nunca me casei. Eu não me caso com nada. Eu fui é demitido sem aviso prévio, o que é bem diferente.

LEO - E por que é que você nunca se casou?

Clodovil - Um casamento para ser legal, seria um casamento onde as pessoas tivessem um nível de cumplicidade e lealdade, onde não precisassem nem de uma escova de dentes para cada um. A lealdade, que é a chave de tudo, é muito mais possível entre amigos. São raros os casais que tem um relacionamento nesse nível.

LEO- Vai ver que é por isso que, geralmente, o casal tende a ficar restringindo as amizades. Amigos, muitas vezes são uma ameaça. Mas isso não seria também um tipo de preconceito? Agora, olhe para aquela câmera, e diga com toda a sinceridade: você é uma pessoa difícil de se trabalhar?

Clodovil - Sou. Gente sem talento sofre na minha mão. Gente com valor, por mais humilde que seja, trabalha junto. Pra esses eu não sou nenhum pouco complicado. Eu sou é perfeccionista. Até pra cozinhar em casa eu faço o melhor que posso. Terminando o programa agora, eu sei que muita coisa se perdeu entre a preparação e o acabamento. Mas a maioria das entrevistas foram ótimas, o programa foi um grande sucesso. O que acontecia de bom e de ruim era do conhecimento do público, isso desnuda a mim e a quem trabalha, ou trabalhou comigo. Um dos produtores, por exemplo, jogava os cartões numa gaveta e não mandava as flores. Eu sou uma pessoa difícil de se trabalhar. Sou sincero, honesto e não puxo saco de ninguém.

LEO - O que mais você gostaria de dizer para finalizar? Clodovil - Bom, agora entram nossas estrelas comerciais, mas eu não volto, viu?

Dito isto, saímos do Rio Palace em direção à TV Manchete, onde ele iria gravar os dois últimos programas. Eu estou entre as pessoas que sentirão a falta de um programa querido. Mas torço para que tudo fique bem. A poeira ainda não baixou, e muita água ainda vai passar por debaixo da ponte. Já perdemos o Chacrinha há alguns dias, acho que não podemos nos dar a esse luxo. Ou será que nós temos tantos homens brilhantes, a ponto de não precisarmos mais desses expoentes? Seja como for, até a próxima. E obrigado, lê, por ter me dado esse prazer.

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