Sunday, August 26, 2012

1974 - Campanha Eleitoral na TV

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 20/10/1974
[carta]
UM LEITOR VÊ A CAMPANHA NA TV
Como mero observador da campanha eleitoral pela televisão, não posso deixar de transmitir aos eleitores desse conceituado Jornal algumas considerações sobre o espetáculo circense levado ao ar no dia 11 p.p., sexta-feira, no horário noturno gratuito do T.R.E.

São espetáculos como o então realizado que levam a população a desacreditar o processo eleitoral e quem sabe se não foi exatamente esse o propósito de quem produziu aquele programa? Afinal, já está mais do que provado que o desinteresse dos eleitores, traduzido por abstenções e anulações de votos, beneficia amplamente a facção política dita majoritária.

Mas vamos aos fatos: um homem de televisão, que tornou-se conhecido por divulgar as obras dos últimos Governos federais - principalmente as ligadas à área sob responsabilidade de um Ministro que aspirava à Presidência da República - discursou durante quase sessenta minutos, em tom e gestos ridiculamente teatrais, tentando com tal oratória tapar os buracos deixados pela artilharia inimiga na plataforma eleitoral de seu Partido.

Com hilariante "seriedade'', onde não faltaram os indispensáveis socos na mesa e as carrancas bem estudadas, o "homem-de-TV", travestido no político que um dia foi, atacava membros do Partido adversário por todos os meios imagináveis, numa lamentável aula de baixa-política, a popular ''politicagem''. Confesso que cheguei a sentir pena do desesperado canastrão ... Mas muito mais pena senti da nossa frágil Democracia, já tão carente de boas figuras para defendê-la.

O ''homem-de-TV'' não conseguia esconder o seu despeito e a sua inveja por um colega de Câmara do outro Partido, que havia sido o mais votado nas eleições cariocas de 1970, tirando assim o ''status'' que lhe parecia garantido. O título de ''mais votado'', que em 70 escapou-lhe das mãos, era importantíssimo para alimentar a sua vaidade desmedida. Até mesmo as críticas, algumas justas, que o ''homem-de-TV" fazia ao Governo da Guanabara perdiam-se no meio da enxurrada de tantas baboseiras e trejeitos

Em certo trecho da grotesca explanação, o "homem-de-TV" mandou que focalizassem uma enorme mesa repleta de objetos cuja fabricação, segundo ele, dependia de petróleo. E deu-se o clímax: numa curiosa mistura de leiloeiro, camelô e Chacrinha Barbosa o candidato mostrava cada objeto, um a um, como que num leilão, só faltando gritar os pregões ou perguntar para o público: ''Vocês querem isso? Vocês querem aquilo?". (Desculpo-me aqui com o amigo Chacrinha pela comparação, pois ele apresenta em seus programas uma imbecilidade sincera e consciente, dois adjetivos que não podemos usar no caso do show do ''candidato-homem-de-TV).

E tem mais: desprezando a inteligência dos que o assistiam, o candidato a Chacrinha, digo, o deputado, vangloriava-se de levar o povo às praças públicas para ouvir a mensagem política de seu Partido. No entanto, o que se via no vídeo eram praças que normalmente já têm grande afluência de público à noite, com grandes telas onde projetavam-se filmes. Ora, é sabido que "O povo quer pão e circo'', i. e., alimentação e diversão: já que a primeira está difícil, voltamo-nos para a segunda. E quem não conseguiria reunir uma multidão numa praça se acenasse com cinema de graça? Alguém em sã consciência acredita que o povo afluiria às praças para ouvir o ''candidato-homem-de-TV'' se esse não usasse como pano-de-fundo os seus filmes e documentários?

E assim foi até o fim:, abusando da inteligência e da paciência do público, o "candidato-homem-de-TV" aos poucos atolava-se nas próprias gaiatadas e arrastava o nome de seu Partido que, espero, não tenha tido nada a ver com o lamentável show - para o descrédito e o ridículo. Nem a revista Veja, que há pouco tempo desmascarou um de seus embustes, escapou dos ataques desesperados do candidato...

Há dias eu condenava, entre alguns amigos, o recurso do voto nulo ou em branco como voto de protesto. Diziam-me eles que a política nacional estava desmoralizada, dominada por aproveitadores de toda espécie. Após algumas horas de conversa, consegui convencer-lhes de que nem tudo estava perdido, e assim evitar que anulassem seus votos. Agora, estou torcendo que aqueles meus amigos não tenham ligado os seus televisores no dia 11, às 22h 30m, pois se o fizeram, acho que será preciso mais algumas horas de verborragia para desfazer-lhes, novamente, a idéia do voto nulo. E dessa vez não sei se conseguirei. - [aa.] - Rio de Janeiro.

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