Wednesday, July 25, 2012

1988 - Telejornalismo

Revista Visão
Data de Publicação: 13/4/1988
Autor/Repórter: Dilson Osugi
NA ESPERANÇA DE UM ÍNDICE MELHOR
As emissoras decidem investir ia busca do melhor jornalismo.

O jornalismo está em alta na televisão brasileira. Trava-se nos bastidores das pequenas e grandes redes um verdadeiro tour de force por suas estrelas mais brilhantes e busca-se resgatar, com força e vigor, a reportagem investigativa. Prova desse apetite é o investimento que as redes de televisão estão fazendo em suas programações, dedicando cerca de oito horas diárias ao jornalismo. O duelo vem sendo travado, na verdade, desde o final do ano passado, quando as redes ensaiavam os primeiros passos de sua programação de 1988.

De cara, a Rede Bandeirantes transformou seu departamento jornalístico em superintendência com ampla autonomia, como garante o superintendente Fernando Barbosa Lima. "Com essa iniciativa, a Bandeirantes ousa criar dentro da emissora uma outra empresa com toda a infra-estrutura necessária para dar à notícia tratamento profundo e criativo. Pretendemos colocar no ar cerca de oito horas de jornalismo diariamente, envolvendo informação, entrevistas, debates, prestação de serviços e reportagens investigativas, tanto em âmbito nacional quanto internacional."

Concorrência acirrada - Se a Bandeirantes cria uma nova empresa dentro da emissora, o Sistema Brasileiro de Televisão, do empresário - e agora político - Sílvio Santos, também promove suas mudanças e contrata, numa única tacada, dois profissionais do jornal O Estado de S. Paulo para comandar o setor de jornalismo: Luiz Fernando Emediato e Marcos Wilson. Eles garantem que a emissora vai fazer grandes investimentos e apresentará uma programação renovada a partir de julho: "No momento, estamos procurando comprar equipamentos, formar estrutura básica, planejar os novos programas e contratar uma equipe competente de novos ou já experientes", explica Emediato.

Descobrindo a importância do público paulistano, a Rede Manchete direciona sua nova programação artística para São Paulo, criando programas e tentando contratar profissionais pesos pesados que desfilam seu talento por outras emissoras, como Augusto Nunes, de O Estado de S. Paulo e TV Cultura, e Nei Gonçalves Dias, da Bandeirantes. Em sua nova programação, a Manchete colocará no ar dois programas específicos que serão produzidos em São Paulo e transmitidos por toda a rede, abordando principalmente a investigação jornalística e o debate, que ocuparão parte da manhã e deverão desenvolver um trabalho mais amplo por meio de sua sucursal de Brasília, especialmente após a perda de Alexandre Garcia para a Rede Globo. Esta, por sua vez, com a queda de audiência do seu Globo Repórter, às quintas-feiras, mudou-o para sexta, explorando temas de maior profundidade e interesse. E este mês estreou o polêmico e criativo Garcia no Jornal Nacional e no Fantástico, com a missão de revelar grandes segredos brasilienses. Além disso, transferiu diversos profissionais do seu Departamento de Jornalismo de São Paulo para outros pontos da rede e procura "roubar" das emissoras concorrentes trunfos que podem comprometer sua liderança.

Pequenas, mas criativas - Enquanto as grandes redes investem fortunas para conquistar alguns pontos de audiência, as emissoras locais, Gazeta e Cultura, apostam na criatividade para agradar a seus telespectadores mais fiéis e atrair novos. A TV Gazeta apostou também na juventude e lançou alguns programas dirigidos a essa faixa no final do ano passado, que gradativamente vêm conquistando preciosos pontos e revelando profissionais talentosos. Mas ela quer mais, como assegura o diretor de Programação, Marcelo Machado. "A emissora apresentava uma programação ultrapassada e pretendia uma renovação e reciclagem. Foi reunido um conselho para discutir o assunto e ele chegou à conclusão de que tudo precisava ser feito com urgência, voltando sua programação a um segmento mais crítico e inteligente da população. Lançamos inicialmente o TV Mix, o Paulista 900 e recuperamos antigas séries. O resultado é que o retorno nos surpreendeu, pois percebemos que há um público exigente, inteligente e ávido por informações apresentadas, sempre, com muito talento."

A TV Cultura ousou um pouco mais. Aproveitou a Lei Sarney e buscou na iniciativa privada a fonte de inspiração para a realização de seus projetos jornalísticos mais ambiciosos. Contratou Carlos Nascimento, repórter da Globo, para ser o anchorman de seu mais importante telejornal, e os competentes Renato Faleiros e Mona Dorf, da Globo e Manchete, respectivamente. "Tínhamos um jornal noticioso que competia com as grandes redes nacionais e chegamos à conclusão de que precisávamos fazer algumas modificações. Nossa primeira decisão", diz Roberto Muylaert, superintendente da Fundação Padre Anchieta, responsável pela emissora estatal, "foi passar nosso mais importante telejornal, o Jornal da Cultura, para as 22h30, tornando-o muito mais opinativo e interpretativo, dirigindo-se a um público mais específico. Ele será dividido em três partes: noticioso, opinativo e investigativo. Outra novidade é o programa Metrópolis, lançado nesta semana e que se preocupa principalmente com a análise e a observação da produção cultural. Além disso, mantemos a estrutura básica de nossos programas de maior sucesso: Roda Viva e O Advogado do Diabo."

Duelo de titãs - Enquanto as emissoras menores vão definindo as novas programações e anunciando boas contratações, as grandes redes mostram certa incapacidade para encontrar talentos. A Manchete, por exemplo, ameaça levar para seu time Carlos Nascimento, recém-contratado pela Cultura, e está de olho em Augusto Nunes, recém-contratado pelo "Estadão" e pretendido pela Rede Bandeirantes, além de acenar com uma proposta tentadora ao apresentador Nei Gonçalves Dias, que acaba de renovar seu contrato com a emissora do Morumbi. Nessa corrida, tropeços são inevitáveis. O problema mais recente aconteceu entre a Bandeirantes e a atriz Lala Deheinzellin, que, pela vontade da emissora, seria transformada em apresentadora do Jornal de Vanguarda. No entanto, a TV Globo ofereceu-lhe um papel de destaque na sua próxima novela das 20h00, Vale Tudo, cuja trama vem sendo desenvolvida por Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères. E a Bandeirantes ficou a ver navios.

Mas, ao que parece, a grande novidade do jornalismo televisivo será o lançamento do Jornal do Meio pela TV Bandeirantes. Trata-se, na verdade, de uma reunião de pauta ao vivo, com editores discutindo os principais temas do dia, mostrando aos telespectadores como se faz um jornal. Seu comando ficará por conta de Fernando Mitre, ex-Jornal da Tarde e revista Afinal. Além dos editores de Economia, Política, Esportes, Cidades e Cultura, serão convidados a participar dessas reuniões editores de outros jornais e revistas com a intenção clara, como observa Barbosa Lima, "de prender a atenção dos telespectadores". "Assim, eles ficarão atentos durante toda a programação para ver o noticiário completo do dia. De acordo com a importância dos fatos, avisaremos os espectadores em que programa verão a reportagem completa. Afinal, nada informa melhor do que uma reunião de pauta, em que os assuntos são tratados com desembaraço e informalidade." Outro programa em que a emissora aposta alto cacife é o Jornal de Vanguarda, que busca um público mais sofisticado e inteligente. "Vamos conquistar o telespectador que sabe compreender o mundo de hoje e ver o de amanhã."
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