Wednesday, July 25, 2012

1977 - Estado do Jornalismo Televisivo

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 28/9/1977
Autor/Repórter: Maria Helena Dutra
NOVIDADE: TELEJORNALISMO JÁ TEM NOTÍCIA
Todas as estações de televisão do Brasil são obrigadas por lei a ter, no mínimo, 5% de seu tempo destinados ao noticiário. Telejornalismo portanto, não é uma opção de entretenimento ou improvisado arrasta-pé para tapar espaços, mas sim um dever imposto ao veiculo para ter razão de existir. Em se tratando, porém, de informação diária, que hoje abrange tudo o país pelo contínuo aumento do número de estações regionais que transmitem notícias geradas pelas três redes nacionais - a Globo principalmente, mais a Tupi e agora a Bandeirantes iniciando sua expansão - esta prestação de serviços embora esteja agora mais bem cumprida ainda apresenta graves deficiências.

A maior deles é a irrefutável verdade de estar unicamente na Rede Globo um telejornalismo com bases profissionais. As outras estações, nacionais ou municipais, operam com equipamentos obsoletos, crônica falta de recursos e pessoal sacrificado. Nesses padrões, não há a menor oportunidade de trabalho sequer porque em nossa atual televisão é impossível partir para soluções nanicas - isto é, oferecer alternativas pobres mas plenas de inventiva, estilos pessoais ou coragem política em telejornalismo. Ao contrário do que aconteceu com a imprensa, o sufoco da férrea censura prévia e posterior não permite no momento qualquer ousadia ou inéditas noticias que compensem ou façam esquecer o amadorismo reinante. Esta situação é plenamente visível, por exemplo, na nada estimulante cidade do Rio de Janeiro,

Seu Canal Dois, a Educativa, mostra primário telejornal Repórter, às 9h da noite. O esforço é pungente e a equipe deve ter as melhores intenções do mundo, mas o resultado é nulo. Amontoados em torno de pequena mesa, meia dúzia de jornalistas têm poucas imagens - e na maioria antiquíssimas, de arquivo - para se apoiar. Então, falam muito, mas não escondem a penúria de informações, reportagens e a pequena liberdade que têm para dizer as coisas numa emissora oficial. Apesar de todos os esforços, é mesmo um Diário Oficial mimeografado. A Tupi tem compactos (Agora) totalmente radiofônicos porque a imagem constante é o visual do locutor, e um Grande Jornal, às 20h40m. Este só cobre cerimônias previamente anunciadas no país e no mundo, noticias não pautadas são demais para a sua agilidade de paquiderme. A TVS, que chegou a ser multada pelo Dentel por não cumprir a lei dos 5%, Improvisou um fugaz Plantão Onze, 10 edições diárias com medos de cinco minutos cada uma, também de base radiofônica. A TV Guanabara ainda não pôde ser avaliada por ser muito recente, mas até agora não demonstrou ter muitos recursos técnicos para apoiar o bom trabalho dos repórteres e insiste em apresentadores antipaticamente super formais.

Resta então a Globo que tem uma hora e meia diária de telejornalismo. Este já foi o saco de pancadas preferido daqueles que abominam seu "padrão de qualidade'' por caracterizá-lo muito bem. A imagem bem comportada, editada e limpa sempre predominou sobre qualquer conteúdo e seus locutores, inclusive os quase perfeitos Cid Moreira e Sérgio Chapelin, levavam as sobras por personificarem, dentro de ternos coloridos e sob penteados absolutamente impecáveis, toda esta filosofia e culto. A única defesa era a correta utilização da parafernália técnica, os filmes recentes, o belo serviço internacional e o maior, apesar de mau pago, mercado de trabalho para jornalistas na televisão. Muito pouco, porém, para compensar a procurada irrelevância das notícias e representar o trabalho de respeitáveis nomes de suas equipes.

Atualmente, este panorama não sofreu radicais alterações. Mas há evidentes vestígios de tentativas de melhores desempenhos, mesmo em doses homeopáticas, nestes últimos dois meses. Politica voltou a existir e a empáfia está gradativamente sendo substituída por noticias e, pelo menos, a edição otária de Painel é um programa obrigatório para quem quer se informar. Uma observação que nunca, pôde ser feita antes para os telejornais diários da estação.

Eles agora são seis e pertencem a um núcleo, fixação da Globo, que tem no topo Armando Nogueira, diretor da Central Globo de Telejornalismo, Alice Maria, diretora da Divisão de Telejornais, Nilson Viana, secretário de redação, Luis Edgar de Andrade, produtor especial e José Carlos de Andrade, editor de reportagem. O Globinho, editado por Fernanda Marinho, tem duas edições diárias de cinco minutos dedicadas a crianças. Notícias, reportagens e serviços são bem dosados, escritos e apresentados e por isso formam um bom programa. Nada brilhante, mas bem correto. A 1h da tarde, editado por Célia Maria Ladeira chega o Hoje. Não há explicação plausível para ter reduzida a equipe e menos primor técnico porque, embora fora da faixa nobre, tem audiência média de 20 pontos no IBOPE e muitos dias chega a pique de 30. Para esse enorme número de pessoas no horário, o jornal oferece notícias ralas, mas uma cobertura apreciável das artes, shows e esportes da cidade. Sua prestação de serviços também é de boa qualidade. Já foi mais imaginativo e testemunhou melhor as formas diferentes de comportamento, mas permanece necessário como complementação obrigatória da leitura dos jornais da manha.

As 19h40m é que nada muda. O Jornal Nacional, editado agora pela própria Alice Maria, prossegue temeroso nas notas e precioso demais nas imagens. Continua a se perder nos supérfluos e a esconder o essencial. A cantora lírica Maria Callas não têm menção no texto, apenas faleceu o caso de Onassis. Erros municipais ainda podem, federais nunca. Toda autoridade de Brasília é infalível e única, como o Ministro João Paulo dos Reis Veloso, que deve ser o recordista, a fornecer entrevistas e respostas. Só que para perguntas e críticas nunca noticiadas. E' óbvio que a censura externa é feroz, mas os cuidados internos são maiores. Representantes do MDB, D Pedro Casaldáliga e outros sacerdotes, cientistas, estudantes e projetos de anistia não existem no Brasil global nesta hora de maciça audiência. Tudo aqui são flores, nós e desenvolvimento.

Dois minutos apenas tem o Jornalismo Eletrônico, editado por Renato Kloss, às 21h50m. Não tem muita razão de ser, porque jamais dá um furo ou nos oferece algo instantâneo que justifique o pomposo título. Às 22h35m vem maiorzinho, mas não muito, pois tem apenas 12 minutos, o Amanhã, editado por Carlos Castilho. O problema aqui é falta de maior caracterização do telejornal. Espremido entre os Nacional e o Painel, Amanhã nem é noticioso, nem tem tempo para aprofundar qualquer matéria. Assim indefinido, se limita a localizar gente, sobras locais e muita coisa internacional. As frases da semana, na sexta-feira, acabam por isso se tornando sua melhor atração. As 23h55m e com 18 minutos de duração, a Globo finaliza o dever diário com seu melhor programa da atualidade: Painel. Editado por Ronam Soares, vem apresentando reportagens maiores, excelentes entrevistas feitas por Oto Lara Rezende e notícias realmente atuais. A situação política ganha honras de belas matérias, como aquela realizada sobre o famoso diálogo com os principais lideres dos dois Partidos, e os assuntos do momento merecem cuidadoso tratamento de imagem e texto como aquele realizado sobre a morte de Cláudia Lessin e o problema dos tóxicos. As entrevistas de estúdio têm disparatado nível, mas qualquer falha é insignificante perante o retorno desta saudável prática na estação. Os tapes esportivos em cima dos fatos e a agilidade de repórteres e cinegrafistas caçando o Coronel Erasmo Dias em meio à passeata de estudantes paulistas, entre outros bons trabalhos apresentados, demonstram que, pelo menos neste horário, a noticia e seus significados são mais importantes que os padrões e as formas coloridas mutiladas e friamente editadas.

Mesmo sendo apenas para notívagos, Painel é um digno e competente trabalho profissional. Um exemplo, que esperamos seja imitado pelas estações concorrentes, do dever agora realmente bem melhor e mais honestamente cumprido.

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